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Opinião

Opinião de Helena Valente para O estopim | 19 de março de 2026


Mulher de cabelo castanho fala ao microfone em ambiente formal. Ela veste jaqueta cinza e expressa seriedade. Fundo neutro.
Governadora Raquel Lyra (PSD) | Foto: Júlio Gomes

Quando um governo transforma obrigação legal em peça de marketing, o que está em jogo não é só a narrativa. É o respeito à inteligência de quem ensina, de quem estuda e de quem sustenta a escola pública com o próprio corpo. Em Pernambuco, a tentativa de vender como gesto magnânimo da governadora Raquel Lyra o reajuste do piso do magistério em 2026 é daquelas operações de maquiagem política que insultam a memória recente. Não foi iniciativa espontânea do Palácio. Não foi generosidade. Não foi iluminação republicana. Foi pressão. Foi campanha salarial. Foi mobilização. Foi sindicato na rua. Foi categoria organizada. Foi cobrança pública até o governo sair da inércia e sentar para negociar de verdade.


O Sintepe havia protocolado a pauta da campanha salarial no início de fevereiro. Um mês depois, a própria direção sindical denunciava que não existia proposta concreta apresentada pela gestão estadual. O cenário, portanto, não era de diálogo abundante, mas de empurra com a barriga. A rede estadual assistia ao mesmo filme de sempre: piso nacional reajustado, prazo correndo, categoria cobrando e governo calculando o custo político de continuar calado. Só depois da paralisação, dos atos, da repercussão pública e da pressão política a máquina estadual resolveu se mexer. E, quando se mexeu, tentou vender a obrigação como virtude pessoal da governadora.


É aqui que o cinismo entra em cena. O governo publicou o acordo no dia 18 de março dizendo tratar-se de “nova demonstração de compromisso com a valorização do funcionalismo público”. A formulação não é inocente. Ela procura deslocar o eixo da história. Em vez de reconhecer que a categoria arrancou uma conquista com organização e enfrentamento, o texto oficial reposiciona o Executivo como protagonista benevolente. É uma disputa de memória em tempo real. Quem conta a história primeiro tenta sequestrar o crédito. E foi isso que se viu.


Mas convém recolocar os fatos no lugar. O piso salarial profissional nacional do magistério foi fixado pelo MEC em R$ 5.130,63 para 40 horas semanais em 2026. Não se trata de um mimo inventado por Raquel Lyra. Trata-se de um parâmetro nacional, de cumprimento obrigatório para as redes públicas. Em Pernambuco, a vitória real da campanha salarial não foi apenas reconhecer o novo piso, mas garantir sua repercussão em toda a carreira, alcançando professores, analistas, administrativos, ativos, aposentados, efetivos, temporários e apoio escolar. Isso não caiu do céu. Isso foi negociado sob pressão porque havia uma categoria organizada dizendo, com todas as letras, que piso sem carreira é maquiagem remuneratória.


A literatura educacional é cristalina sobre esse ponto. Valorização docente não se resume a discurso motivacional de palanque. Ela depende de carreira estruturada, remuneração digna, formação, condições de trabalho e estabilidade institucional. Quando o poder público tenta descolar o piso da carreira, ele esvazia a política de valorização. Mantém um degrau mínimo para poucos e conserva o resto da categoria comprimido. É por isso que a luta do Sintepe não era um capricho contábil. Era defesa da lógica mais elementar de justiça funcional.


Também é preciso desmontar outra fraude retórica: a de que o reajuste saiu da boa vontade do caixa estadual. Salário de professor não sai do bolso da governadora. Sai de dinheiro público vinculado à educação, em grande medida sustentado pelo Fundeb, que financia remuneração e manutenção da educação básica. A própria legislação do novo Fundeb determina que, no mínimo, 70% dos recursos anuais do fundo sejam destinados à remuneração dos profissionais da educação básica em efetivo exercício. Para 2026, a previsão oficial é de que o Governo do Estado de Pernambuco tenha quase R$ 4,9 bilhões em receitas do Fundeb, incluindo mais de R$ 850 milhões de complementação da União. Em outras palavras, não estamos falando de favor palaciano, mas de obrigação financiada por um fundo constitucionalmente vinculado, alimentado por receitas públicas e complementado com recursos federais.


Isso não significa que o Estado não tenha responsabilidade. Tem, e muita. A rede estadual é sua. A folha é sua obrigação. A execução orçamentária é sua. O que não pode é a governadora posar como benfeitora de um direito que ela apenas foi obrigada a cumprir, e ainda sob atraso político. O mínimo virou marketing. O dever virou propaganda. E propaganda em ano eleitoral tem método. Humaniza a chefe, dilui o conflito, apaga o sindicato e tenta convencer a opinião pública de que o avanço veio da sensibilidade do governo, não da correlação de forças.


O mais grave é que esse enredo não se passa num sistema educacional exemplar. Pernambuco segue convivendo com denúncias de escolas com problemas estruturais graves, falta de climatização, merenda precária e reformas lentas. O próprio Sintepe vinculou a campanha salarial de 2026 à cobrança por infraestrutura decente, lembrando que a valorização profissional não cabe em peça publicitária enquanto estudantes e trabalhadores enfrentam calor, fiação exposta e ambientes insalubres. Não existe política séria de educação quando o governo quer colher dividendos da folha e terceiriza o desgaste das escolas ao cotidiano de professores e alunos.


A contradição fica ainda mais ofensiva quando se olha para o volume de recursos que circulam na educação e para a forma como o governo administra sua comunicação. Se há dinheiro constitucionalmente vinculado, se há complementação da União, se há obrigação legal de cumprir o piso, então o debate central deveria ser outro: por que a negociação não foi aberta com a celeridade devida? Por que foi necessário pressionar para que o governo reconhecesse um direito previsível desde janeiro? Por que a resposta só ganha velocidade quando a rua esquenta e a crítica se espalha?


Mulher falando ao microfone, vestindo terno risca de giz. Expressão séria, gesticulando. Fundo desfocado e escuro.
Socorro Pimentel | Foto: Roberto Soares/Alepe

As respostas apontam para uma prática política conhecida. Primeiro, adia-se. Depois, testa-se a resistência da categoria. Em seguida, quando o custo do impasse sobe, negocia-se o inevitável. Por fim, apaga-se a luta e divulga-se o desfecho como ato de liderança. É uma engenharia de desgaste da categoria e de apropriação do resultado. Na educação, isso é particularmente perverso porque explora a paciência de uma classe historicamente sobrecarregada e ainda exige gratidão por cada centavo do que já era direito.


Há, sim, um padrão de comunicação no raquelismo que merece escrutínio. Em outras áreas, a gestão já surfou entregas e anúncios marcados por forte participação federal ou por herança administrativa anterior, tentando centralizar politicamente dividendos de obras cuja autoria, financiamento ou maturação são compartilhados. Na BR-104, a retomada foi registrada pelo noticiário como obra com recursos federais e o próprio governo estadual falou em articulação com o Ministério dos Transportes. Na Adutora do Agreste, a entrega foi apresentada como troféu de gestão, embora se trate de um empreendimento histórico, multigovernamental e com protagonismo federal explícito. Em janeiro de 2025, funcionários do IBGE chegaram a criticar o teor promocional de material do governo estadual. O problema não é comunicar. Todo governo comunica. O problema é comunicar de modo a eclipsar coautorias, lutas sociais e a própria natureza pública dos recursos.



No caso do piso, esse vício aparece em estado bruto. A categoria fez campanha. O sindicato pautou. A pressão se acumulou. O prazo eleitoral apertou. A cobrança ecoou na Alepe e nas ruas. Só então o governo fechou acordo. No dia seguinte, aliados correram às redes para parabenizar a governadora por um “acordo histórico”, como se a história começasse no vídeo de celebração e não no mês de mobilização que obrigou a gestão a sair do conforto. É o tipo de operação que aposta numa memória curta e numa sociedade cansada. Só que professoras e professores têm memória de calendário, contracheque e sala de aula. Sabem quem chamou para a luta e sabem quem demorou para responder.


E sabem também que piso não resolve tudo. Sem concurso suficiente, sem infraestrutura digna, sem clima escolar saudável, sem redução do adoecimento, sem valorização dos funcionários e sem respeito à negociação coletiva, a educação segue sendo tratada como vitrine quando convém e como gasto quando a categoria reivindica. O governo tenta posar para a foto da vitória, mas foge da fotografia maior, aquela em que aparece a precariedade da rede, o uso político da comunicação oficial e a insistência em só negociar depois que a pressão se torna incontornável.


É por isso que esta não é apenas uma disputa sobre 5,4%. É uma disputa sobre autoria política e honestidade pública. Quando a governadora tenta chamar para si o mérito central de uma conquista arrancada pelo Sintepe e pela categoria, ela não apenas falseia os fatos. Ela reafirma uma lógica elitista segundo a qual direitos só existem quando o poder os concede. Não. Direitos existem antes do vídeo, antes do post, antes do palanque. O que os transforma em realidade é luta organizada.


Se Raquel Lyra quiser realmente demonstrar compromisso com a educação pública, há um caminho mais digno do que posar de madrinha de um reajuste obrigatório. Que abra as mesas no tempo certo. Que negocie sem chantagem de calendário. Que execute com transparência os recursos da educação. Que trate sindicato como interlocutor, não como obstáculo. Que reconheça publicamente a legitimidade da mobilização. E, sobretudo, que pare de exigir aplauso por cumprir a lei.


Porque a verdade, nua e sem filtro oficial, é simples. A vitória de 2026 tem dono coletivo. Ela nasceu da organização do Sintepe, da disposição de luta da categoria e da pressão social que impediu mais um ano de enrolação. O resto é propaganda.


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Mulher com crachá em redação, olhando séria para a câmera. Fundo com computadores e pessoas trabalhando. Ambiente de escritório.

Helena Valente é repórter especial e analista de Educação de O estopim. Investiga orçamento, carreira docente, infraestrutura escolar e os mecanismos políticos que aprofundam desigualdades na escola pública brasileira.

Por Fausto Medeiros para O estopim | 21 de Fevereiro de 2026


O Brasil descobriu, mais uma vez, como a toga pode ser criativa quando a vítima é criança. A 9ª Câmara Criminal Especializada do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), segundo relatos sob a relatoria do Desembargador Delvan Barcelos Júnior., absolveu, por maioria, um homem de 35 anos acusado de manter relação sexual com uma menina de 12. A mãe da criança, denunciada por suposta conivência, também foi absolvida. O argumento que circulou nos bastidores e nos trechos divulgados do caso é um escândalo em português claro: não seria estupro de vulnerável porque haveria vínculo afetivo, anuência familiar e até “formação de núcleo familiar”.


Tribunal de Justiça de Minas Gerais — Foto: TJMG
Tribunal de Justiça de Minas Gerais | Foto: TJMG

O TJMG, toma conscientemente uma decisão efeito devastador. O processo tramita em segredo de justiça, então os detalhes oficiais são limitados, mas a essência já é suficiente para medir a gravidade: quando um colegiado decide que uma criança de 12 anos pode ser tratada como “companheira”, o Estado falha duas vezes. Primeiro, por não impedir o abuso. Depois, por tentar normalizá-lo.


Há um terceiro fracasso, menos comentado, mas igualmente grave. A decisão não atinge apenas um processo. Ela mexe com a engenharia de proteção que envolve escola, Conselho Tutelar, rede de saúde, Creas, assistência social e, na ponta, a vizinhança que decide se denuncia ou se finge que não viu. Quando um tribunal entrega ao senso comum a mensagem de que “dependendo do contexto pode”, ele empurra a criança de volta para o lugar mais perigoso: o lugar em que o abuso é tratado como costume.


O Ministério Público de Minas Gerais informou que pretende recorrer. É o mínimo. E o caso deve acender alerta em órgãos de controle, porque não se trata só de discordância jurídica. Trata-se de uma tese que, se viraliza, vira justificativa pronta para redes de exploração e para o velho casamento infantil por fora da lei.



TJMG: O erro começa no nome que escolheram para o monstro


Chamaram o debate de “pedofilia”. Esse termo é da medicina, não do Código Penal. No Direito brasileiro, o crime central aqui tem nome e número: estupro de vulnerável, artigo 217-A. A regra é objetiva, não depende de poesia nem de narrativa: se a vítima tem menos de 14 anos, não existe consentimento juridicamente válido.


O que alguns julgadores tentam disfarçar como “caso concreto” é, na prática, o coração da lei: impedir que se faça avaliação subjetiva sobre maturidade de uma criança. A lei não pergunta se ela “parece mais velha”, se “falava como adulta” ou se “já tinha namorado”. A lei corta essa estrada porque sabe onde ela termina. Termina em culpabilização da vítima.


Também é aqui que nasce a confusão deliberada. Quando dizem “não é pedofilia, é família”, tentam deslocar o debate do Código Penal para um terreno moral e cultural em que o agressor pode posar de “companheiro” e a vítima vira “menina esperta”. No Brasil, isso é mais velho do que qualquer jurisprudência. E quando a Justiça embarca, o Estado vira cúmplice.


Quando a decisão tenta recontar o caso como “família”, ela troca o Código Penal por um álbum de família. E faz isso no ponto em que o país decidiu, há décadas, não negociar: a proteção integral da infância.


O que a Constituição e o ECA exigem, sem desculpas


O artigo 227 da Constituição não é decorativo. Ele impõe prioridade absoluta e manda colocar crianças e adolescentes a salvo de negligência, exploração e violência. A palavra “absoluta” tem sentido. Ela foi escrita para impedir que a conveniência do adulto ou o medo da família falha valham mais do que a proteção do menor.


O Estatuto da Criança e do Adolescente segue a mesma linha: criança e adolescente são sujeitos de direitos e devem ser protegidos contra qualquer forma de violência. O sistema é claro: família, sociedade e Estado compartilham o dever. Se a família falha, o Estado entra para proteger. O TJMG, pelo que se noticiou, fez o contrário. Usou a falha da família como argumento para validar.


Distinção não é passe livre para inventar exceção


O tribunal teria recorrido a Distinção, que, sem latim e sem firula, significa isto: o julgador reconhece que existe um entendimento consolidado, mas diz que o caso concreto tem uma diferença relevante e por isso merece desfecho diferente.


Acontece que a “diferença” apontada aqui não é juridicamente legítima. O que foi apresentado como peculiaridade, convivência pública, anuência dos pais, “núcleo familiar”, é exatamente o tipo de cenário que a lei pretende enfrentar: abuso normalizado, autoridade familiar falhando, comunidade fechando os olhos.


Em vez de blindar a criança contra o costume local, a decisão transforma costume em argumento jurídico. É uma inversão de papéis. O Direito penal de proteção não existe para reproduzir cultura de violação. Existe para contê-la.


Pior: ao sinalizar que a relação teria sido “consensual”, o tribunal reforça a ideia de que uma criança de 12 anos teria capacidade de escolher, negociar e consentir como um adulto. Não tem. Não por moralismo. Por desenvolvimento humano e por proteção constitucional.


Esse discurso do “consentimento” também tem outra função: limpar o adulto, o homem. Coloca a carga moral na menina. Quando o debate vira “ela quis”, o agressor vira alguém apenas “envolvido em um relacionamento”. É a velha maquiagem do abuso, agora com carimbo judicial.


Os absurdos jurídicos que o país não pode tolerar


Primeiro absurdo: criar uma “excludente de crime” que não existe. A lei não diz “é estupro de vulnerável, salvo se virar família”. Se um tribunal cria essa exceção, ele fere o princípio da legalidade penal, aquela trava básica que impede juiz de legislar na sentença.


Segundo absurdo: relativizar a vulnerabilidade absoluta. O Superior Tribunal de Justiça consolidou a orientação de que consentimento, experiência sexual anterior e relacionamento afetivo não afastam o crime quando a vítima é menor de 14. Isso não é detalhe. É o coração do sistema de proteção. É o recado do Estado: criança não negocia sexo com adulto.


Terceiro absurdo: inverter a Constituição. O artigo 227 manda proteger com prioridade absoluta. Se a família “concordou”, isso não legitima. Isso agrava. Se a família falhou, o Estado tem o dever de intervir, não de carimbar.


Quarto absurdo: tratar “núcleo familiar” como valor superior ao corpo de uma criança. O discurso de preservação da família, nesse contexto, vira instrumento de controle: transforma dependência em vínculo, coação silenciosa em afeto e captura social em “estabilidade”.


Quinto absurdo: abrir precedente para o casamento infantil por fora da lei. O Brasil proibiu o casamento antes dos 16 anos e tentou fechar a porta das “uniões” usadas para encobrir abuso e gravidez precoce. Quando um tribunal chama estupro de vulnerável de “família”, ele reabre a porta pelo fundo.


Sexto absurdo: premiar a omissão. O Estado tem dificuldade histórica de responsabilizar o adulto que entrega a criança. Quando o Judiciário alivia o papel da família no caso de uma menina de 12 anos, ele reforça a engrenagem do silêncio. E silêncio é a matéria-prima do abuso.


O voto vencido mostra que havia caminho, e escolheram o pior


A decisão não foi unânime. Houve voto divergente defendendo a manutenção da condenação, com a lembrança óbvia de que a lei não admite consentimento válido antes dos 14. A existência desse voto importa porque desmonta a desculpa do “caso difícil”. Não era um dilema jurídico. Era uma escolha.


E, quando há escolha, aparece a pergunta que tribunal nenhum gosta de ouvir: por que escolheram proteger o adulto, o homem, o agressor? Por que escolheram normalizar? Por que escolheram a narrativa do “núcleo familiar”, que é sempre conveniente para quem detém poder dentro de casa?


O contexto nacional que derruba a tese do “caso excepcional”


Em outubro de 2025, o STJ divulgou julgamento em que, em cenário bem diferente, reconheceu excepcionalmente erro de proibição, isto é, a alegação de que o réu não compreendeu a ilicitude, em um caso de jovem de 19 anos e adolescente de 13, com pequena diferença etária, anuência familiar e filho. Esse precedente, mesmo polêmico, não autoriza transformar um abismo etário entre 35 e 12 em exceção sentimental.


Se existe debate sério, ele passa por critérios rígidos e proteção reforçada da vítima, nunca pela romantização do abuso. O problema de abrir exceções sem critérios duros é simples: no Brasil, a exceção vira atalho. E atalho, no tema da violência sexual, sempre passa por cima da vítima.


Dados que não deixam espaço para romantização


O Brasil bateu recorde de registros de estupro e estupro de vulnerável em 2024: 87.545 casos, o maior número desde o início da série histórica, o que equivale, na média, a uma vítima a cada seis minutos. E não se trata de um fenômeno “adulto”. Crianças de até 13 anos foram a maioria das vítimas, com 51.677 registros, mais de 60% do total.


Esses números precisam ser lidos com a honestidade que o tema exige: a subnotificação ainda é enorme, porque a maior parte da violência sexual acontece dentro de casa ou no círculo de confiança, onde a denúncia depende do adulto que muitas vezes está envolvido, omisso ou intimidado. Em outras palavras: o lugar mais perigoso para a criança costuma ser o lugar que deveria protegê-la.


Há um efeito direto disso na atuação do Estado. O Conselho Tutelar chega, muitas vezes, quando a criança já foi arrancada da escola. A saúde registra a consequência física. A assistência social tenta remendar a dependência econômica. A polícia e o Ministério Público entram quando a comunidade já fez pacto de silêncio. E o Judiciário deveria ser a última barreira. Quando essa barreira cede, o sistema inteiro desaba.


O país também vive a expansão do abuso no ambiente digital, com explosão de denúncias de imagens e conteúdo de exploração sexual infantil. Não é moda, não é pânico moral. É um mercado e uma rede. E as redes criminosas se alimentam de permissividade.


Os casos documentados mostram o padrão, não a exceção


Quem tenta vender esse episódio como “caso isolado” ou “realidade local” finge desconhecer o histórico do Brasil.


Em 1973, o Caso Araceli, uma menina de 8 anos violentada e assassinada no Espírito Santo, virou símbolo nacional e deu origem ao 18 de maio, dia de combate ao abuso e à exploração sexual de crianças e adolescentes. O país aprendeu da forma mais cruel que violência sexual contra criança não é desvio raro. É estrutural.


O Senado instalou CPIs para enfrentar o tema. Houve CPI Mista da Exploração Sexual e houve a CPI da Pedofilia, que trabalhou por anos e empurrou mudanças legislativas e investigações. Além disso, operações policiais contínuas, como Luz na Infância e ações nacionais de enfrentamento, mostram que há uma cadeia organizada, especialmente online.


E quando o debate chega a regiões como o arquipélago do Marajó, é preciso ser sério: existe violência sexual infantil documentada, mas também há desinformação que tenta transformar sofrimento real em arma política.


A quem serve a tese do “núcleo familiar”


O Direito não é neutro, e o discurso jurídico quase nunca é inocente. A tese do “núcleo familiar” serve a quem precisa de verniz. Serve ao agressor, que ganha narrativa. Serve à comunidade que prefere não denunciar. Serve à família que teme vergonha e escolhe silenciar. Serve, também, ao Estado que quer evitar custo político e financeiro de acolhimento, abrigo, acompanhamento psicológico e ruptura do ciclo.


A criança, essa, não ganha nada. Ela perde infância, escola e proteção. Perde o direito de ser reconhecida como vítima. E, no extremo, perde a própria história, reescrita como romance.


O veredito


A decisão do TJMG não é “sensibilidade social”. É rendição cultural ao abuso. É a aristocracia da toga tentando reembalar a violação como costume e chamar de “família” aquilo que a Constituição manda combater.


Se o Judiciário quer falar em família, que comece pela família constitucional: a que protege. Onde há estupro de vulnerável, não há romance. Há crime, há omissão e há um Estado que precisa reagir. Reagir com recurso, com fiscalização e com recado público para todo o país: criança não é companhia, não é esposa, não é “núcleo”. Criança é prioridade.


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Fausto

Fausto Medeiros é editor jurídico e analista sênior de tribunais de O estopim. Constitucionalista, acompanha STF, STJ e tribunais estaduais, com foco nas decisões que revelam disputas de poder e seus efeitos na vida real.

Por Clarice Drummond para O estopim Cultura | 18 de Fevereiro de 2026


A Grande Rio fez o que sabe fazer quando está no seu melhor: transformou a Sapucaí em tese e tese com corpo, suor e risco. A escola que vem assinando, nos últimos anos, um Carnaval de ideias (às vezes desconfortáveis, quase sempre necessárias) apostou em narrativa, pesquisa, linguagem cênica e identidade. O problema é que, no miolo do desfile, ali onde a bateria é coração e termômetro, a Grande Rio aceitou um atalho de “alcance” que custou caro: coroar Virgínia Fonseca.

A Grande Rio não precisava de novos públicos; precisava de novo pacto. Porque uma escola que escolhe Exu, onça, encantaria e mangue, e que se coloca como narradora de mundos marginalizados, não pode entregar o posto mais midiático da bateria a uma figura pública cuja biografia recente é atravessada por polêmicas de consumo, publicidade e apostas.
Desfile da Grande Rio | Foto: Guito Moreto / Agência O Globo

Não é moralismo de arquibancada, nem birra com a cultura pop. É método. O Carnaval, quando é Grande Rio, não é vitrine de celebridade: é construção de comunidade. E toda vez que uma escola troca pertencimento por engajamento, quem paga a conta não é o algoritmo. É a avenida.


A Grande Rio que aprendeu a falar de conflito


Há escolas que fazem Carnaval para agradar. A Grande Rio, especialmente na fase recente, fez Carnaval para disputar sentidos.


Quando levou Exu ao centro da narrativa e ajudou a reposicionar, com linguagem de massa, um personagem demonizado por séculos, a escola não estava apenas “fazendo um enredo afro”. Estava enfrentando a engrenagem cotidiana da intolerância religiosa. O recado era duplo: ao público, a lição estética; aos próprios terreiros e praticantes, o gesto de reconhecimento em horário nobre.


Quando virou o olhar para cosmologias indígenas, para a Amazônia encantada e para repertórios que o Brasil urbano costuma transformar em folclore sem sujeito, a Grande Rio reafirmou uma assinatura: não basta citar a “diversidade”. É preciso narrar o Brasil de baixo para cima e com pesquisa.


E o Manguebeat, agora, é a escolha perfeita para uma escola de Duque de Caxias que conhece, na pele, a palavra “periferia”. O movimento que nasceu de um Recife ferido por desigualdade e abandono e que reagiu com estética, crítica e invenção tem tudo a ver com o que uma escola pode ser quando se recusa a desfilar “bonito” e decide desfilar “com sentido”. A Grande Rio acertou o enredo justamente por isso: porque entende que arte popular é também diagnóstico social.



A bateria não é cenário: é o lugar do pacto

É aqui que a discussão fica séria e técnica.


Rainha de bateria não é uma moldura. É um posto simbólico que organiza a atenção do público e, na prática, altera a dinâmica do chão. A rainha está no campo de visão da bateria, do mestre, do diretor, dos ritmistas, das câmeras e do público. Ela pode elevar o astral e o desempenho coletivo; pode também virar obstáculo, ruído, foco de tensão.


E não adianta fingir que “não vale ponto”. No Carnaval real, tudo vale ponto quando atrapalha evolução, quando quebra a leitura do conjunto, quando provoca correria no recuo, quando desloca o centro do desfile para um drama particular.


O Manual do Julgador é cristalino ao lembrar que a fantasia precisa permitir boa evolução; e que o julgador observa dificuldades do componente no uso completo da indumentária. A rainha é componente, com holofote, mas componente. Quando ela entra na avenida sem dominar a convivência com o peso, com o calor, com o espaço apertado e com a responsabilidade do recuo, o problema não é “da celebridade”. É da escola.


No Carnaval 2026, o enredo e a bateria pediam uma rainha que soubesse ouvir. Ouvir o surdo de marcação, ouvir o repique, ouvir o mestre, ouvir a comunidade. E, sobretudo, ouvir o sentido do desfile, porque é aí que mora o tal “carisma” que ninguém compra.


O caso Virgínia: quando a coroa vira cupom


A escolha de Virgínia Fonseca foi vendida como “diálogo com novos públicos”. É uma formulação simpática, moderna, e totalmente preguiçosa.


A Grande Rio não precisava de novos públicos; precisava de novo pacto. Porque uma escola que escolhe Exu, onça, encantaria e mangue, e que se coloca como narradora de mundos marginalizados, não pode entregar o posto mais midiático da bateria a uma figura pública cuja biografia recente é atravessada por polêmicas de consumo, publicidade e apostas.


Virgínia Fonseca como rainha de bateria da Grande Rio | Foto: Rafael Sacharny /Enquadrar/ Estadão Conteúdo
Virgínia Fonseca como rainha de bateria da Grande Rio | Foto: Rafael Sacharny /Enquadrar/ Estadão Conteúdo

A rainha que faltou antes de reinar


O trabalho de uma rainha começa muito antes da Sapucaí. Começa em ensaio de quadra, em ensaio técnico, em visita a barracão, em conversa com ritmista e com velha guarda, em aula com passistas, em humildade para aprender o que não se aprende em reels.


Só que, ainda na temporada de preparação, Virgínia virou notícia por ausência em ensaio de quadra e por tratar a ausência como detalhe da agenda pessoal. O que, para quem vive o Carnaval, não é detalhe: é linguagem. É a velha mensagem de que o tempo da comunidade é um “evento”, enquanto o tempo da celebridade é “vida”.


O desfile como palco de autopropaganda


A estreia na avenida foi, por si, um resumo do problema: a rainha virou pauta por percalços com a fantasia e por uma estratégia comercial que transformou a Sapucaí em extensão de marca.


A Grande Rio, que vinha de enredos que questionam o reducionismo e o preconceito, apareceu, nesse ponto, permitindo que um posto simbólico se confundisse com produto. O nome da marca pessoal estampado em uniforme de equipe de apoio, explorando brechas, pode até ser “inteligente” do ponto de vista do marketing. Para o Carnaval, é um rebaixamento: a bateria vira background de campanha.


O que era para ser “mangue”, crítica, contracultura, coletividade, virou “feed”: eu no centro, o resto como cenário.


A biografia pública de um negócio


Virgínia é, indiscutivelmente, um fenômeno de audiência e conversão. E aí mora o ponto que muita gente evita: a lógica de influência contemporânea monetiza intimidade. A vida privada vira produto, a emoção vira gatilho de consumo, e a presença pública passa a ser medida por venda, não por vínculo.


Isso não é crime. Mas é incompatível com um posto que, para funcionar, exige justamente o contrário: deslocar o foco do “eu” para o “nós”.


Nos últimos anos, Virgínia esteve no centro de controvérsias relacionadas a publicidade de apostas e ao papel de influenciadores na promoção desse mercado. Em depoimento no Senado, afirmou que não se arrepende das propagandas e declarou não ter como atender pedidos de ajuda de seguidores prejudicados por perdas em jogos. A frase pode ser interpretada como honestidade, mas, para quem ocupa um lugar de poder comunicacional, ela soa como um confessionário de indiferença: eu ganho com o alcance; o dano não é meu problema.


Somam-se, ainda, episódios envolvendo sua marca de cosméticos e conflitos de consumo que chegaram ao sistema de justiça e a órgãos de defesa do consumidor, num país em que “empreendedorismo” costuma ser usado como biombo para práticas comerciais agressivas. Quando o Ministério Público entra na história para impor obrigações, o debate deixa de ser fofoca e vira interesse público.


Nada disso impede uma pessoa de desfilar. Mas impede, ao menos para mim, que ela simbolize uma bateria de escola popular que constrói, há anos, uma imagem pública de enfrentamento cultural.


A antirrepresentatividade não é sobre “lacrar”. É sobre coerência

Representatividade, no Carnaval, não é slogan. É coerência estética e política.


Quando uma escola escolhe contar histórias de terreiros, povos originários, periferias e movimentos de contracultura, ela assume um compromisso com sujeitos coletivos. E esse compromisso precisa aparecer nas escolhas internas: quem ocupa o microfone, quem assina pesquisa, quem desenha, quem dança, quem reina.


Virgínia pode dizer que ama o Carnaval. Mas amar não basta. É preciso compreender que o Carnaval não é um palco neutro: é um território em disputa, uma máquina de visibilidade, um espaço onde minorias sociais lutam para não serem apenas tema e sim autoria.


Ao coroar uma figura cuja trajetória pública é marcada por publicidade controversa e por uma cultura de ostentação, a Grande Rio escorrega justamente no lugar em que deveria ser mais cuidadosa: na imagem que projeta para fora sobre o que é “Caxias”, sobre o que é “comunidade”, sobre o que é “povo”.


E há uma ironia triste nisso. O Manguebeat nasceu gritando que a lama não era atraso: era potência. A Grande Rio, com sua escolha, parece ter dito o contrário: que a potência precisa de uma vitrine para “valer”.


O que a Grande Rio poderia ter feito (e ainda pode)


A escola não precisa demonizar Virgínia para corrigir o erro. Precisa, isso sim, reconhecer a natureza do equívoco: não foi “a internet que pegou no pé”. Foi a comunidade dizendo, com vaias e desconforto, que o posto não é prêmio de popularidade.


Há alternativas, e todas passam por um princípio simples: rainha de bateria é pacto, não contrato.


  1. Reafirmar o posto como trabalho: presença mínima em ensaios, vivência real com a bateria, rituais internos respeitados, e uma postura pública que não trate o Carnaval como “conteúdo”.

  2. Blindar o desfile de autopromoção: se a escola precisa de patrocínio, que o patrocínio seja tratado com transparência e limites. A Sapucaí não é vitrine pessoal.

  3. Investir na casa: passistas, musas de comunidade, mulheres da bateria, lideranças locais. A Grande Rio tem material humano de sobra para ocupar o posto com verdade.

  4. Coerência com o enredo: se o desfile é contracultura, a escolha simbólica precisa dialogar com contracultura, não com o manual do “branding”.


A Grande Rio acertou em tudo, menos no coração do desfile


O Carnaval é uma soma de escolhas. A Grande Rio foi brilhante naquilo que sustenta uma escola campeã: narrativa, estética, risco e identidade. Mas errou onde não podia errar: no coração do desfile, na bateria, no ponto em que a comunidade se reconhece.


Virgínia Fonseca pode ter carisma, seguidores e dinheiro. O que ela não tem, ou, ao menos, não demonstrou ter até aqui, é a disposição de desaparecer um pouco para que a escola apareça. E ser rainha de bateria, no fim, é isso: ser destaque sem ser dono; ser estrela sem virar produto; ser figura sem sequestrar o sentido.


A Grande Rio, que aprendeu a falar de conflito, precisa agora encarar o seu próprio.


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Clarice Drummond

Clarice Drummond é jornalista e crítica carnavalesca. Pesquisadora apaixonada pelas escolas de samba do Rio e de São Paulo, ela cobre a folia como fenômeno cultural, político e artístico o ano inteiro, dissecando quesitos e enredos com rigor técnico e emoção.


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