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Sociedade

Por Dante Montenegro Analista de Geopolítica \ 25 de janeiro de 2026


A arquitetura de segurança global, aquela velha catedral erguida sobre os escombros de 1945 e sustentada pelo mito da "ordem liberal baseada em regras", não está apenas em ruínas; ela foi implodida e o terreno já foi vendido para o maior lance. O retorno de Donald Trump à Casa Branca em 2025 não inaugurou apenas uma nova administração, mas uma nova era geológica na política internacional: a era da Pax Armada.


Agente federal e manifestante gesticulam durante protesto contra o assassinato de Renee Nicole Good em Minneapolis, Minnesota, EUA8 de janeiro de 2026 | Foto: Tim Evans/Reuters
Agente federal e manifestante gesticulam durante protesto contra o assassinato de Renee Nicole Good em Minneapolis, Minnesota, EUA 8 de janeiro de 2026 | Foto: Tim Evans/Reuters

Esqueça as ilusões do "Fim da História" de Fukuyama, onde a democracia liberal seria o destino inevitável da humanidade. Neste novo teatro, a distinção clássica entre segurança pública interna e guerra externa evaporou completamente. O mesmo aparato estatal que hoje negocia a soberania da Ucrânia como se fosse um ativo imobiliário tóxico é o que aplica táticas de contrainsurgência militar, testadas em Bagdá e Cabul, nas ruas do Meio-Oeste americano. Para o observador atento, o Heartland de Mackinder, a região pivô da Eurásia, e as avenidas geladas de Minneapolis agora obedecem à mesma lógica de Realpolitik brutal: a soberania tornou-se um privilégio condicional, e a segurança, uma commodity transacionável, acessível apenas àqueles que podem pagar a taxa de proteção do hegemon.


Pax Armada: A falência corporativa da Ucrânia


O "plano de paz" para a Ucrânia, arquitetado nos bastidores por nomes como Keith Kellogg e Richard Grenell, deve ser lido não como um exercício de diplomacia clássica, mas como uma reestruturação de falência corporativa agressiva (um hostile takeover). A estratégia da "dupla coerção", a ameaça simultânea a Moscou com o fornecimento irrestrito de armas de longo alcance e a Kiev com o corte total de fundos vitais, produziu o resultado desejado pelo capital financeiro, não pelos humanistas de Genebra.


O congelamento das linhas de fronteira e a criação de "zonas autônomas" no leste ucraniano nada mais são do que a aceitação tácita da força bruta como legisladora das fronteiras. Estamos testemunhando a criação de um novo Muro de Berlim, mas desta vez, ele não é ideológico; é funcional. Ao negar à Ucrânia o reconhecimento de jure sobre seus territórios perdidos, mas aceitar o controle de facto russo, Washington cria um estado de limbo permanente, uma "Coreia no Dnieper", onde a instabilidade controlada serve aos interesses de contenção sem o risco de armagedom nuclear.


Follow the Money: A geopolítica do lítio


Mas o que a mídia tradicional ignora, distraída pela retórica política inflamada e pelos tweets presidenciais, é o imperativo geoeconômico: follow the money. A paz na Eurásia não foi negociada com promessas de liberdade, foi comprada com lítio, titânio e terras raras.


O acordo bilateral pouco divulgado, que canaliza 50% das receitas futuras da exploração mineral ucraniana para um fundo de investimento gerido pelos EUA, revela a verdadeira natureza do jogo. Em um mundo faminto por baterias para veículos elétricos e ligas para a indústria aeroespacial, a Ucrânia possui algumas das maiores reservas inexploradas da Europa. A conclusão é cínica, porém inegável: Kiev não está sendo "salva" por seus valores democráticos ocidentais, mas preservada como um elo vital e cativo na cadeia de suprimentos da indústria bélica e tecnológica americana, visando reduzir a dependência da China.


A reconstrução do país, com custos estimados em meio trilhão de dólares, não será um Plano Marshall estatal e altruísta focado no bem-estar social. Será um banquete privado para gigantes como a BlackRock, o JPMorgan e empreiteiras de defesa como a Halliburton. O que assistimos é a privatização definitiva da segurança nacional, onde o lucro da reconstrução é garantido pelo contribuinte americano, mas os dividendos são inteiramente privados.


O boomerang imperial: Minnesota como laboratório


Enquanto as taças de champanhe tilintam em acordos secretos nos hotéis de luxo da Europa, a democracia sangra no front doméstico. O filósofo Michel Foucault e a teórica Hannah Arendt já alertavam sobre o "efeito bumerangue": as técnicas de repressão e controle desenvolvidas nas colônias inevitavelmente retornam para serem aplicadas contra os cidadãos da metrópole.


A "Operação Metro Surge" em Minnesota é a materialização desse pesadelo. Ao transformar cidades americanas em laboratórios de guerra urbana, despachando 3.000 agentes federais táticos (ICE e CBP) para ocupar Minneapolis, Washington cruzou o Rubicão. O alvo não é o crime comum, mas populações específicas, comunidades Hmong e Somali, tratadas sob a ótica da "população suspeita" típica de zonas de conflito.


A erosão da Posse Comitatus, a lei sagrada de 1878 que historicamente impedia as forças militares de agirem como polícia civil, é o sinal mais claro de que o Império voltou suas armas para dentro. Quando drones de vigilância sobrevoam subúrbios americanos e agentes federais sem identificação detêm cidadãos em veículos descaracterizados, a República cede lugar ao Estado de Segurança Nacional. A dissidência interna passa a ser tratada com o mesmo hard power reservado a insurgentes estrangeiros.


Agentes do ICE imobilizando Alex Pretti antes de sua execução | Foto: Tim Evans/Reuters
Agentes do ICE imobilizando Alex Pretti antes de sua execução em 25 de janeiro de 2026 | Foto: Tim Evans/Reuters

O alvo nas costas do Brasil


E é aqui que o Brasil precisa acordar urgentemente de seu sono dogmático e de sua diplomacia de "boas intenções". A nova doutrina de Washington, que permite classificar cartéis de drogas como "combatentes ilegais" (unlawful combatants), é a ameaça jurídica mais grave à soberania sul-americana em décadas.


Esta designação não é mera retórica; ela tem peso jurídico internacional, baseado no precedente de Guantánamo pós-11 de setembro. Ao classificar grupos criminosos como combatentes militares em vez de civis, os EUA retiram as proteções do devido processo legal e autoatribuem-se o direito de guerra. É a ressurreição do Corolário Roosevelt à Doutrina Monroe, agora anabolizado com drones Reaper e inteligência artificial.


Para os estrategistas do Pentágono, a distinção entre uma operação policial colaborativa contra o narcotráfico e uma intervenção militar cinética (ataques de precisão, inserção de forças especiais) na Amazônia ou na Tríplice Fronteira tornou-se meramente semântica. Se o PCC ou o Comando Vermelho forem rotulados como braços de uma ameaça terrorista global, a soberania brasileira sobre seu próprio território será considerada, por Washington, um obstáculo burocrático a ser contornado em nome da "segurança hemisférica".


O triângulo de pressão e a necessidade de realismo


O Brasil encontra-se, portanto, em um triângulo de pressão asfixiante, exigindo uma sofisticação estratégica que Brasília raramente demonstra.


  1. O Vértice Econômico (O Dilema do Agronegócio): O setor respira aliviado com a possibilidade de normalização do fluxo de fertilizantes russos e bielorrussos, essenciais para nossa segurança alimentar e balança comercial. No entanto, essa dependência nos torna vulneráveis a "sanções secundárias" caso os EUA decidam usar o sistema financeiro (SWIFT) como arma para forçar alinhamento político.


  2. O Vértice Territorial (A Amazônia): Nossa soberania na floresta nunca esteve tão ameaçada. Não por invasões de exércitos regulares marchando sobre a fronteira, mas pela erosão gradual da autoridade estatal frente à internacionalização do combate ao crime organizado. A "ajuda" americana pode vir acompanhada de bases, consultores e, eventualmente, diretrizes operacionais que ignoram o comando em Brasília.


  3. O Vértice Diplomático (A Corda Bamba): A nossa tradicional diplomacia de "neutralidade ativa" e a aposta na multipolaridade dos BRICS irritam profundamente uma Casa Branca que opera agora sob uma lógica binária maniqueísta: "ou você é um vassalo, ou é um rival". A tentativa do Brasil de se posicionar como líder do Sul Global pode ser interpretada por Trump não como autonomia, mas como cumplicidade com o eixo China-Rússia.


Si vis pacem, para bellum


A conclusão é amarga, mas necessária para qualquer mente sóbria. A era da diplomacia de salão, dos coquetéis na ONU e das notas de repúdio inócuas acabou. O Direito Internacional tornou-se uma ficção reconfortante que os fracos citam e os fortes ignoram.


O Brasil não pode mais se dar ao luxo de ingenuidades ideológicas, seja à esquerda ou à direita. Washington não tem amigos, tem interesses corporativos predatórios; Moscou não tem parceiros, tem reféns estratégicos e clientes.


Se quisermos sobreviver à Pax Armada sem nos tornarmos um protetorado de fato, o Brasil deve parar de terceirizar sua segurança e sua estratégia. Precisamos blindar a Amazônia não com retórica ambientalista vazia para agradar ONGs europeias, mas com presença militar dissuasória, tecnologia de monitoramento soberana e infraestrutura real de integração. Devemos navegar o mercado global aproveitando o pragmatismo das commodities, mas sabendo que, neste novo tabuleiro de xadrez tridimensional, quem não projeta poder (Hard Power), torna-se inevitavelmente território de extração.


O mundo mudou radicalmente. A complacência será punida com a irrelevância ou, no pior dos cenários, com a intervenção direta.

 
 
 

Por Raul Silva para O estopim | 21 de janeiro de 2026


A cofundadora e vice-presidente do Instituto Maria da Penha, Regina Célia Barbosa, afirmou que o país vive um processo de “naturalização” do feminicídio, mesmo às vésperas de 20 anos da Lei Maria da Penha, sancionada em 2006 e considerada um marco no enfrentamento à violência doméstica e familiar. A avaliação foi feita em entrevista publicada pela Agência Pública nesta semana, em um momento em que os números de mortes de mulheres seguem altos e a resposta do poder público é apontada como insuficiente.


Regina Célia Barbosa é vice-presidente do Instituto Maria da Penha — Foto: Reprodução/TV Globo
Regina Célia Barbosa é vice-presidente do Instituto Maria da Penha — Foto: Reprodução/TV Globo

feminicídio

Dados recentes reforçam o alerta. A 19ª edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública registrou 1.492 feminicídios em 2024, novo recorde da série histórica monitorada desde 2015, o que mantém a média de cerca de quatro mulheres mortas por dia em crimes motivados por gênero. O levantamento também indica que a maioria das vítimas era negra, tinha entre 18 e 44 anos, e foi morta por companheiro ou ex-companheiro, frequentemente dentro de casa.


No início de janeiro, o governo federal voltou a tratar o tema como prioridade ao instituir o Dia Nacional de Luto e de Memória às Mulheres Vítimas de Feminicídio, fixado em 17 de outubro. Na mesma comunicação, o Planalto citou dados do Sinesp e do Mapa da Segurança Pública 2025, apontando milhares de ocorrências acumuladas na última década e reiterando a dimensão do problema.


Apesar de avanços legislativos, Barbosa sustenta que endurecer penas não basta sem política pública efetiva e capilarizada. Em 2024, entrou em vigor a Lei 14.994, que transformou o feminicídio em tipo penal autônomo e elevou a pena para 20 a 40 anos de reclusão, entre outras medidas do chamado “pacote antifeminicídio”. Para a vice-presidente do Instituto, o gargalo continua na prevenção e na rede de proteção, com falhas de articulação entre União, estados e municípios, além de estrutura e atendimento que não acompanham o volume de denúncias.


Na entrevista, ela defende que a Lei Maria da Penha já prevê uma política integrada, envolvendo segurança, saúde, educação e assistência social, com profissionais qualificados e rede de acolhimento que funcione na prática. O “descompasso”, nas palavras dela, aparece quando a mulher denuncia, mas encontra demora, falta de estrutura, ou respostas que não impedem a escalada da violência, inclusive em situações que envolvem medidas protetivas.


Outro ponto destacado é a pressão e a desinformação direcionadas a ativistas e símbolos da legislação. A Pública lembra que investigações apontaram o uso de documento falso em um documentário da produtora Brasil Paralelo para atacar Maria da Penha e desacreditar a lei, em um contexto de ataques online e campanhas de descrédito.


Como buscar ajuda e denunciar


Em situações de risco imediato, a orientação é acionar a Polícia Militar pelo 190. Para informações, acolhimento e encaminhamento de denúncias, o governo federal mantém a Central de Atendimento à Mulher, o Ligue 180, que orienta sobre direitos e indica serviços da rede de atendimento.


Se tem algo que não pode virar rotina é a manchete de mais uma mulher morta. Normalizar isso é dar “ctrl+c” na barbárie e “enter” na impunidade social.


 
 
 

Por Michael Andrade, da redação O estopim


O Brasil registrou 1.470 feminicídios em 2025, o maior número já contabilizado na série do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp), indicador do Ministério da Justiça e Segurança Pública.


Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O total supera os 1.464 casos de 2024, que até então representavam o recorde. Na prática, o país manteve uma média de quatro mulheres assassinadas por dia.


De acordo com os dados, os registros se concentram principalmente nos estados mais populosos. Em números absolutos, São Paulo aparece no topo do ranking em 2025, com 233 feminicídios, seguido por Minas Gerais (139).


O impacto das estatísticas aparece também em relatos de familiares. “Quando eu achava que, quando ela estava com ele, ela estava segura… se eu soubesse, eu tinha protegido a minha filha”, diz uma mãe, em depoimento que circula junto a reportagens sobre o tema — e que ecoa a realidade de crimes cometidos, muitas vezes, em relações marcadas por ameaças e histórico de agressões.



Lei endureceu penas, mas índices seguem altos



Em 2024, entrou em vigor a lei que transformou o feminicídio em crime autônomo no Código Penal e elevou a pena para 20 a 40 anos, além de prever aumento em situações específicas — como durante a gestação, nos meses após o parto e quando o crime ocorre na presença de familiares, entre outros agravantes.


Mesmo com o endurecimento, o cenário preocupa. Especialistas apontam que o enfrentamento precisa ir além da punição, com investimento em acolhimento nas delegacias, treinamento de agentes públicos e aplicação rápida de medidas como afastamento do agressor, monitoramento eletrônico e restrição de armas, além de ampliar a rede de apoio para quem está em risco imediato.


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