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Sociedade

Há datas que convidam à celebração. O 19 de abril, no Brasil, exige mais do que isso: exige vergonha, memória, coragem e posição.


Opinião de Raul Silva para O estopim | 19 de abril de 2026




Não basta publicar uma arte bonita, repetir a palavra ancestralidade em tom solene e seguir a vida como se estivéssemos diante de uma pauta simbólica, quase folclórica, restrita ao calendário escolar. O que está em jogo, quando falamos dos povos originários, não é um capítulo periférico da história nacional. É o centro nervoso da formação do Brasil. É a disputa entre civilização e barbárie, entre Constituição e espoliação, entre democracia e colonialismo persistente.


Os povos indígenas não pedem favor. Não reivindicam um privilégio exótico. Não solicitam concessões sentimentais do Estado ou da opinião pública. O que reivindicam é o reconhecimento de algo anterior ao próprio Estado brasileiro: o direito originário à terra, à vida, à memória, à língua, ao território, à espiritualidade, à autodeterminação e à continuidade histórica de seus povos.


E é precisamente por isso que a luta indígena incomoda tanto. Porque ela desorganiza a mentira fundadora de um Brasil que ainda gosta de se imaginar moderno, cordial e miscigenado, enquanto tolera — e muitas vezes patrocina — o cerco aos seus primeiros habitantes.


O país que chama de passado aquilo que ainda está acontecendo


Existe uma operação política e cultural muito conveniente no Brasil: transformar o massacre indígena em passado remoto. Como se a violência estivesse encerrada nos primeiros séculos da colonização. Como se o extermínio fosse apenas uma página dos livros de história. Como se a grilagem, o garimpo, a extração ilegal de madeira, a contaminação dos rios, a pistolagem, a omissão sanitária, as invasões e a captura institucional dos órgãos do Estado não fossem expressões contemporâneas do mesmo projeto de dominação.


Isso é falso.


A violência contra os povos originários não é um desvio episódico do sistema. Ela é parte estrutural do modo como o poder foi organizado no Brasil. O latifúndio, a fronteira agrícola, a mineração predatória, o coronelismo reconfigurado, a captura do Legislativo por interesses econômicos e o uso seletivo do aparato jurídico formam um bloco histórico que enxerga a terra indígena não como espaço de vida, mas como obstáculo à acumulação.


É aí que a análise precisa sair da superfície. O conflito não é apenas fundiário. É civilizacional. De um lado, uma relação com a terra fundada em pertencimento, reciprocidade, memória, reprodução física e cultural dos povos. De outro, uma racionalidade colonial que vê o território como ativo, mercadoria, corredor logístico, jazida, pasto, lavoura, cotação futura.


Não estamos diante de um simples desacordo administrativo. Estamos diante de duas concepções inconciliáveis de mundo.


Homem sorridente com cocar colorido e pintura facial em ambiente florestal. Traje tradicional em verde, vermelho e amarelo. Fundo desfocado.
Homem com pintura facial tradicional, sorrindo, e usando um cocar colorido em meio à natureza exuberante da floresta. | Foto: Reprodução/UniNorte

A Constituição de 1988 não deu nada aos povos indígenas


É preciso repetir isso com toda clareza: a Constituição de 1988 não “deu” terra aos povos indígenas. Ela reconheceu direitos originários sobre as terras tradicionalmente ocupadas.


A diferença é monumental.


Quando a Constituição reconhece um direito originário, ela admite que esse direito antecede o próprio Estado. Não nasce da benevolência do governante de turno, não depende do humor do Congresso e não pode ser reduzido à conveniência do mercado. Trata-se de um reconhecimento jurídico de uma anterioridade histórica e moral.


Por isso o artigo 231 é tão decisivo. Ele desmonta a lógica colonizadora segundo a qual o Estado distribui legitimidade a quem já estava aqui muito antes da formação da República, do Império e da própria ideia de Brasil.


O que a Constituição fez foi cristalizar, no plano normativo, uma verdade histórica: os povos indígenas não são invasores de sua própria terra. Invasor é quem chegou depois e quis converter a violência em título de propriedade.


O marco temporal é uma fraude jurídica com finalidade econômica


Poucas teses expõem de forma tão brutal a degradação moral do debate público brasileiro quanto o chamado marco temporal.


A formulação é conhecida: só teriam direito à demarcação os povos que estivessem ocupando a terra em 5 de outubro de 1988, data da promulgação da Constituição, ou que estivessem em disputa física ou judicial comprovada naquele momento.


À primeira vista, certos setores tentam vender a tese como critério técnico, fórmula de “segurança jurídica”, mecanismo racional para pacificar conflitos. Mas isso desmorona ao primeiro contato sério com a história brasileira.


Que segurança jurídica é essa que desconsidera expulsões, remoções forçadas, massacres, confinamentos, tutelas estatais, missões de assimilação, esbulhos praticados por fazendeiros, omissões deliberadas do poder público e a violência sistemática imposta justamente para impedir a presença indígena em seus territórios?


O marco temporal parte de uma brutalidade lógica: pune os povos indígenas pelo sucesso histórico da violência cometida contra eles.


É como se o Estado dissesse:


“Vocês só terão direito se conseguirem provar que resistiram fisicamente até 1988, mesmo depois de terem sido perseguidos, deslocados, mortos, silenciados ou impedidos de existir conforme seus próprios modos de vida”.

Não há neutralidade nisso. Há cinismo.


Juridicamente, a tese colide com o texto constitucional e com a própria noção de direito originário. Politicamente, ela serve à contenção das demarcações. Economicamente, ela funciona como ferramenta de estabilização da fronteira do agronegócio, da especulação fundiária e da exploração de áreas cobiçadas por madeira, minérios, água, infraestrutura e valorização imobiliária da terra.


Por isso o marco temporal não pode ser tratado como mera divergência interpretativa. Ele é um projeto político de poder.


O Supremo Tribunal Federal já rejeitou essa tese no julgamento de 2023 e, mais adiante, voltou a afastar o núcleo que pretendia reproduzi-la em lei. Ainda assim, a ofensiva não cessou. E não cessará facilmente. Porque a batalha real nunca foi apenas jurídica. Ela é legislativa, econômica, midiática e ideológica.


Pessoa indígena com pintura facial preta e vermelha, usa cocar amarelo e colar vermelho. Fundo alaranjado, expressão contemplativa.
Na foto: Cacique Raoni Metuktire do povo caiapó | Foto: National Geographic

Quem tem interesse no marco temporal — e por quê


É preciso nomear os interesses, porque a névoa da abstração só favorece os mais fortes.


Entre os principais patrocinadores políticos do marco temporal estão a Frente Parlamentar da Agropecuária, parte expressiva da chamada bancada ruralista, e parlamentares que atuaram abertamente para transformar a tese em lei ou constitucionalizá-la. O projeto que se converteu no atual arranjo legislativo remonta ao ex-deputado Homero Pereira. No Senado, a proposta ganhou impulso com o relatório do senador Marcos Rogério. Em outra frente, o senador Hiran Gonçalves apresentou a PEC 48, tentativa explícita de inscrever o marco temporal na Constituição. E o presidente da FPA, Pedro Lupion, reiterou publicamente que o marco temporal é “inegociável”.


Esses nomes não aparecem por acaso. Eles representam uma coalizão de interesses que pretende blindar a expansão da fronteira agrícola, reduzir o custo político das demarcações e consolidar a prevalência da propriedade privada titulada sobre o direito originário reconhecido constitucionalmente.


No plano institucional, entidades do agro como a CNA também defenderam a manutenção do marco temporal sob o argumento de “segurança jurídica” para proprietários rurais. Em setores do agronegócio exportador, a palavra segurança jurídica costuma significar, na prática, previsibilidade para a reprodução do negócio, ainda que isso recaia sobre territórios marcados por litígios históricos, expulsões violentas e ocupações sustentadas por assimetrias brutais de poder.


Pessoas em terno seguram documento sorrindo em frente a painel da FPA. Clima formal. Garrafas e copos sobre mesa preta.
Hugo Motta e representantes da bancada agropecuária posam juntos em evento da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA). | Foto: Agência FPA

Há ainda interesses mais agressivos e menos elegantes: os de grileiros, madeireiros ilegais, garimpeiros e redes criminosas que prosperam quando o Estado hesita em proteger o território indígena. Para esses grupos, qualquer enfraquecimento da demarcação é um convite à invasão.


E há, por fim, o interesse mineral. Terras indígenas são cobiçadas porque concentram biodiversidade, água, florestas em pé e incidência de recursos minerais estratégicos. A corrida por ouro, cassiterita, cobre, níquel, potássio e outros minerais transforma esses territórios em alvo permanente de pressão empresarial e política. Em tempos de “minerais críticos” para a transição energética, cresce o lobby para vestir de modernização verde uma velha prática colonial: retirar riqueza de territórios indígenas e socializar destruição.


Some-se a isso a disputa por grandes corredores logísticos — ferrovias, hidrovias, portos, estradas — pensados para acelerar o escoamento de commodities. Quando se olha com atenção, percebe-se que o ataque aos povos originários não é um ruído do desenvolvimento. Ele é parte do desenho do desenvolvimento que certas elites escolheram para o Brasil.


A terra indígena incomoda porque impõe limite


É aqui que a crítica precisa ganhar densidade moral.


A terra indígena incomoda porque ela impõe limite ao apetite predatório. Ela lembra à República que nem tudo pode ser convertido em mercadoria. Ela afirma que há bens que não pertencem ao mercado, porque pertencem à vida coletiva, à memória dos ancestrais, à reprodução dos povos e ao equilíbrio ecológico sem o qual o próprio país colapsa.


Por isso tantos atores econômicos e políticos tentam apresentar os territórios indígenas como espaços “vazios”, “improdutivos” ou “subutilizados”. Trata-se de uma linguagem colonial requentada. Quando não se reconhece a forma indígena de produzir, cuidar, habitar e defender o território, o objetivo não é técnico. É ideológico. É rebaixar outras racionalidades para legitimar a sua substituição por gado, soja, mineração ou logística de exportação.


Na prática, o que está sendo dito é: só merece existir plenamente o que gera lucro nos termos do capitalismo agro-mineral.


Isso é não apenas intelectualmente pobre. É moralmente indecente.


Vista aérea de uma aldeia circular coberta por floresta densa. Construções de palha rodeiam um terreno central de terra batida. Atmosfera serena.
Vista aérea da aldeia do Demini da floresta amazônica, no alto rio Demene, na TI Yanomami, divisa dos estados de Roraima e Amazonas. | Foto: Edson Sato

Os que tombaram para que a luta não fosse enterrada


Nenhum artigo sério sobre 19 de abril pode falar de esperança sem falar de luto.


É preciso lembrar Marçal de Souza Tupã-Y, liderança guarani cuja voz atravessou o país denunciando a violência contra seu povo e que foi assassinada em 1983. Marçal se tornou um símbolo porque enxergou cedo o que muitos preferiam não ver: a modernização brasileira continuava assentada sobre a expropriação indígena.


É preciso lembrar Galdino Jesus dos Santos, Pataxó Hã-Hã-Hãe, queimado vivo em Brasília em 1997, depois de um dia de mobilização. O crime chocou o país, mas o choque não foi suficiente para desmontar a estrutura de desumanização que o tornou possível. Galdino não foi morto por um gesto isolado de crueldade juvenil; ele foi vítima de um ambiente social em que a vida indígena era tratada como descartável.



É preciso lembrar Paulo Paulino Guajajara, guardião da floresta, assassinado em 2019 numa emboscada no Maranhão. A sua morte revelou, de forma incontornável, que defender o território indígena no Brasil continua sendo atividade de alto risco.


É preciso lembrar Ari Uru-Eu-Wau-Wau, professor, monitor territorial e defensor da floresta, morto em Rondônia em 2020. Seu assassinato é a face nua de uma fronteira amazônica onde grilagem, desmatamento e intimidação caminham lado a lado.


E é justo lembrar também os aliados que tombaram nessa trincheira, como Bruno Pereira e Dom Phillips, assassinados em 2022 no Vale do Javari. Eles não eram indígenas, mas morreram porque decidiram levar a sério a defesa da vida indígena, da floresta e da verdade.


A memória desses nomes não pode servir apenas a cerimônias. Memória, em política, é compromisso. Quando o país esquece seus mártires, ele absolve seus algozes.



Os que hoje seguem na linha de frente


Mas a história indígena não é apenas história de dor. É, sobretudo, história de resistência organizada.


Hoje, a linha de frente tem muitos rostos.


Tem Raoni Metuktire, cuja longevidade política transformou sua presença numa das maiores reservas morais do país.


Tem Davi Kopenawa Yanomami, que há décadas denuncia a devastação da floresta e a arrogância de uma civilização incapaz de perceber que destruir a terra é destruir a si mesma.


Tem Célia Xakriabá, cuja presença no Congresso Nacional fura o bloqueio simbólico de uma institucionalidade historicamente branca, patrimonialista e hostil à pluralidade real do país.



Tem Sonia Guajajara, que ajudou a levar a pauta indígena ao centro do debate nacional e ao coração do Estado brasileiro e se tornou a primeira Ministra dos Povos Indígenas do Brasil.


Tem Eloy Terena, jurista e liderança que conhece por dentro a batalha constitucional e o peso concreto da palavra território e atual Ministro dos Povos Indígenas do Brasil, na data de publicação deste artigo.


Tem Lucia Alberta Baré, hoje à frente da Funai, numa continuidade do protagonismo indígena nas instituições de Estado.


Tem Joenia Wapichana, pioneira incontornável, cuja trajetória abriu caminho para uma nova geração de lideranças com presença jurídica, parlamentar e internacional.


Tem Txai Suruí, expressão de uma geração que articula território, clima, comunicação e direitos com linguagem global sem romper com a raiz comunitária.


Tem Dinamam Tuxá, Kleber Karipuna, Luanna Kaingang e tantas outras lideranças do movimento indígena organizado que, no Acampamento Terra Livre e em inúmeras frentes de luta, seguem lembrando ao país que não há democracia digna desse nome quando o Congresso age como corretor dos interesses do latifúndio.


A força dessas lideranças não está apenas em ocupar espaço. Está em deslocar o eixo do debate. Elas obrigam o Estado brasileiro a olhar para aquilo que sempre tentou empurrar para as margens: que a questão indígena não é “setorial”, mas fundacional.


Representatividade não é ornamento


Há outra armadilha do debate público que precisa ser desmontada: a ideia de que representatividade indígena basta como gesto de inclusão simbólica.


Não basta.


Representatividade sem poder institucional, sem orçamento, sem proteção territorial, sem consulta prévia, sem desintrusão de invasores e sem demarcação efetiva corre o risco de se tornar decoração democrática. Uma vitrine multicultural para um Estado que continua entregando território ao capital.


O que os povos originários exigem é mais profundo. Exigem participação real nos processos decisórios que afetam seus destinos. Exigem que a Convenção 169 da OIT seja respeitada. Exigem que a demarcação deixe de ser promessa adiada. Exigem que saúde indígena não seja resposta emergencial apenas quando a tragédia já explodiu. Exigem que o combate ao garimpo e às invasões não seja performático. Exigem que o Estado cumpra, enfim, a Constituição que jurou defender.


Mulheres indígenas com pinturas faciais vermelhas levantando o punho. Usam colares e cocares amarelos. Ambiente de protesto. Céu azul.
Mulheres do povo Makuxi na 4ª Marcha das Mulheres Indígenas, em Brasília (DF), em agosto de 2025 | Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

Defender os povos originários é defender a democracia brasileira


Alguns insistem em tratar a pauta indígena como conflito entre desenvolvimento e tradição. Essa é uma oposição falsa.


A verdadeira questão é outra: que tipo de desenvolvimento pode merecer esse nome se depende da despossessão dos povos originários, da devastação dos biomas, da destruição de rios, da disseminação de mercúrio, da proliferação de milícias rurais e da amputação progressiva da Constituição?


Nenhuma democracia séria pode tolerar que os direitos mais elementares de um povo sejam postos em leilão toda vez que a correlação de forças do Congresso pender ainda mais para o poder econômico.


Os povos indígenas são hoje uma das últimas barreiras efetivas contra a conversão total do território nacional em plataforma de extração. E isso explica por que são tão atacados. Defender os povos originários é defender o pacto civilizatório mínimo que ainda nos resta. É defender a floresta, a água, o clima, a diversidade linguística, a memória histórica e a própria ideia de limite diante da barbárie mercantil.


Aqueles que tentam reduzir essa luta a “identitarismo”, “entrave produtivo” ou “romantismo ambiental” apenas revelam sua pobreza política. Não entenderam nada. Ou entenderam tudo e escolheram o lado da pilhagem.


O que este 19 de abril nos exige


Neste 19 de abril, o Brasil precisa decidir se quer continuar tratando os povos originários como obstáculo ao seu projeto de país ou se finalmente admitirá que sem eles não existe projeto de país digno desse nome.


Chega de homenagens ocas.


Chega de empatia protocolar.


Chega de celebrar a cultura indígena enquanto se sabota a base material de sua existência: o território.


O mínimo ético que se exige de qualquer democrata é recusar o marco temporal sem meias palavras, denunciar seus patrocinadores, enfrentar a captura ruralista das instituições e reconhecer que a luta indígena é uma luta pelo futuro comum.


Se o Brasil quer mesmo honrar seus povos originários, precisa fazer mais do que escutá-los em abril. Precisa aceitar que eles têm razão.


Porque têm.


Têm razão quando dizem que território é vida.


Têm razão quando denunciam que a floresta não é estoque de mercadoria.


Têm razão quando afirmam que a Constituição está sendo sabotada.


Têm razão quando lembram que a democracia brasileira será sempre incompleta enquanto os primeiros povos desta terra seguirem cercados por tratores, rifles, decretos, projetos de lei e discursos de ódio.


E têm razão, sobretudo, quando nos avisam que o que está em risco não é apenas o futuro indígena.


É o futuro de todos nós.


Se ainda houver alguma possibilidade de o Brasil se tornar uma nação menos cínica, menos violenta e menos colonial, esse caminho não passará pelo silenciamento dos povos originários.


Passará, necessariamente, pelo reconhecimento de que esta terra tem dono ancestral, memória viva e voz própria.


E que o país que insiste em não ouvir essa voz continua, no fundo, em guerra contra a sua própria verdade.


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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo de O estopim, com foco em política, direitos humanos, território e conflitos socioambientais. Escreve para ligar fatos, interesses e consequências, com atenção ao que está na origem de cada crise.



Por Murilo Alencar

12 de abril de 2026



Homem de óculos e camisa xadrez gesticula animadamente com as mãos para cima. Fundo com estante de livros, expressão alegre.
O Astrólogo Olavo de Carvalho | Foto: Reprodução

A trajetória pública de Olavo de Carvalho ocupa um lugar singular na história recente da direita brasileira. Não apenas porque ele se apresentou como um intelectual insurgente contra o sistema universitário, a imprensa tradicional e a cultura política liberal-progressista, mas porque transformou a própria ideia de filosofia em um instrumento de mobilização ideológica. Sua força não esteve somente no conteúdo das teses que defendia, mas no método com que as apresentava: a simplificação agressiva, a mudança de contexto, a demonização do adversário e a apropriação de autores canônicos como selo de autoridade.


É nesse ponto que a crítica mais séria ao olavismo precisa começar. O problema não foi apenas que Olavo tivesse posições conservadoras ou reacionárias. O problema foi ter operado, com grande eficácia comunicacional, uma substituição de regime intelectual. Em vez de leitura rigorosa, ofereceu fidelidade. Em vez de investigação, ofereceu revelação. Em vez de filosofia como campo de perguntas difíceis, ofereceu filosofia como munição de guerra cultural.


No Brasil da radicalização política, isso teve efeitos concretos. Olavo ajudou a formar uma geração de seguidores e influenciadores para os quais citar um clássico não significava entrar em diálogo com uma tradição, mas usar um nome prestigioso como arma simbólica. O filósofo deixava de ser interlocutor e passava a funcionar como escudo retórico. A filosofia, nesse ambiente, deixava de ser exercício de complexidade para se converter em pedagogia do inimigo.



O caso de Aristóteles é ilustrativo. Na tradição aristotélica, a política está ligada à deliberação sobre o justo, ao exame prudencial das formas de governo, ao estudo do regime e ao papel do logos na organização da vida comum. O ser humano é definido como animal político não porque viva em guerra permanente, mas porque realiza sua natureza em comunidade, argumentação, linguagem e responsabilidade pelo bem comum. Ao recorrer ao nome de Aristóteles como atestado de profundidade civilizacional, o olavismo muitas vezes apagou exatamente aquilo que há de mais decisivo no pensador grego: a prudência, a medida, o juízo prático e a recusa do simplismo.


Com Kant, a contradição é ainda mais eloquente. O núcleo do esclarecimento kantiano está na autonomia: sair da menoridade, abandonar a dependência de tutores e ousar usar a própria razão. O uso público da razão, em Kant, não é um detalhe lateral, mas a própria condição de uma cultura política madura. O olavismo, no entanto, construiu boa parte de sua pedagogia pública na direção oposta. Seu modo de formação intelectual esteve frequentemente baseado na suspeita total em relação às mediações institucionais e na confiança concentrada no intérprete carismático. Trata-se de uma inversão poderosa: um movimento que se dizia antidoutrinário acabou, em muitos casos, reorganizando outra forma de tutela.


Voltaire também foi arrastado para dentro dessa operação. Símbolo da crítica ao fanatismo, à perseguição religiosa e ao abuso do poder legitimado por dogmas, Voltaire integra uma tradição de combate à sacralização arbitrária da autoridade. Ao transformar o Iluminismo em mera origem da decadência moral ocidental, o olavismo reduziu uma constelação histórica complexa a um espantalho útil para a guerra ideológica. O efeito foi paradoxal. Enquanto acusava o racionalismo moderno de dissolver a civilização, ajudava a produzir um ambiente de fanatização afetiva em que a divergência se tornava pecado político e o dissenso passava a ser lido como evidência de corrupção moral.


Mas é com Antonio Gramsci que a máquina olavista encontra sua formulação política mais eficiente. Gramsci foi convertido em arquiteto de uma infiltração total da esquerda sobre cultura, educação, imprensa e artes. Nessa releitura, hegemonia deixa de ser categoria histórica e teórica para se tornar nome de uma conspiração difusa, onipresente e quase infalível. Só que o pensamento gramsciano é muito mais sofisticado. Hegemonia, em Gramsci, envolve direção intelectual e moral, disputa de consenso, sociedade civil, luta por legitimidade e relação entre coerção e consentimento. Não se trata de um comando secreto centralizado, mas de uma análise das formas pelas quais o poder se enraíza socialmente.


A ironia histórica é das mais expressivas. Ao denunciar uma suposta guerra cultural gramsciana em curso, o próprio olavismo operou uma disputa de tipo hegemônico. Formou quadros, construiu linguagem, atacou instituições produtoras de sentido, produziu comunidade de crença e disputou o senso comum. Em outras palavras, acusava o inimigo de fazer exatamente aquilo que procurava fazer do lado oposto. O que se apresentava como antídoto contra a hegemonia tornou-se, na prática, uma estratégia concorrente de hegemonia.



Esse processo teve profundo impacto sociopolítico. Ao longo dos anos, o olavismo ajudou a consolidar no Brasil uma cultura de anti-intelectualismo organizado. Não apenas crítica às falhas reais da universidade, da imprensa ou da tecnocracia, mas deslegitimação sistemática da ideia mesma de mediação qualificada. O especialista passou a ser suspeito por definição. A instituição passou a ser vista como aparelho corrompido por natureza. O método, em vez de garantia mínima de seriedade, passou a ser tratado como máscara de dominação.


Esse rebaixamento do debate público foi decisivo para o ambiente político que alimentou o bolsonarismo. A agressividade verbal, o desprezo pelas formas institucionais, a transformação do confronto em prova de autenticidade e a suspeita total contra qualquer instância moderadora não nasceram com Olavo, mas ganharam nele uma sistematização pedagógica. Seu discurso forneceu linguagem, enquadramentos e afetos para um campo político em expansão. Seu legado, portanto, não se mede apenas por livros vendidos ou vídeos assistidos, mas pelo estilo de relação com a verdade e com a política que ajudou a difundir.


No fundo, o que estava em jogo era a erosão de um pacto civilizatório elementar: o de que os conflitos públicos, por mais duros que sejam, ainda precisam reconhecer algum valor na linguagem comum, na evidência, na distinção entre crítica e delírio, entre interpretação e invenção. Quando esse pacto se desfaz, a política perde densidade democrática e ganha tonalidade sectária.


É por isso que a crítica a Olavo de Carvalho não pode ser reduzida a uma disputa de preferências ideológicas. O ponto central é outro. Trata-se de compreender como uma forma de apropriação distorcida da tradição filosófica ajudou a corroer o espaço público brasileiro. Não por excesso de filosofia, mas por sua instrumentalização. Não por erudição demais, mas por uma erudição performática, montada para encantar seguidores e humilhar adversários.


Olavo de Carvalho não assassinou a filosofia sozinho. Nenhum indivíduo tem esse poder. Mas ajudou, sim, a normalizar um método de assassiná-la simbolicamente todos os dias: transformando autores em totens, conceitos em munição e pensamento em obediência. O efeito mais duradouro dessa operação talvez não seja a permanência literal de suas teses, mas a sobrevida do seu estilo. E um estilo político que ensina a suspeitar de tudo, exceto do próprio intérprete, segue sendo um risco real para qualquer democracia.


Por Michael Andrade, da redação de O Estopim - Fonte: Agência Brasil | terça-feira (24) de fevereiro de 2026


Ministros do STF acompanham o voto de Alexandre de Moraes e condenam envolvidos no assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, além da tentativa de homicídio de Fernanda Chaves.


Imagem: Reprodução Rede Globo
Imagem: Reprodução Rede Globo

Em um julgamento marcado pela definição das responsabilidades dos envolvidos no caso Marielle Franco e Anderson Gomes, o Supremo Tribunal Federal (STF) condenou nesta terça-feira (24) os réus acusados pelo assassinato da vereadora e do motorista, além da tentativa de homicídio da assessora Fernanda Chaves. O julgamento, realizado em plenário, se concentrou nas acusações de homicídio e obstrução de justiça, com penas a serem definidas posteriormente.


O voto do ministro Alexandre de Moraes foi seguido pelos ministros Cristiano Zanin, Cármem Lúcia e Flávio Dino. Segundo Moraes, os irmãos Domingos e Chiquinho Brazão, o ex-deputado e conselheiro do TCE-RJ e seus comparsas foram responsáveis pela execução do assassinato, com a participação de outros membros do esquema criminoso.


Acusações e condenaçõesO caso teve como base as delações premiadas, incluindo a de Ronnie Lessa, réu confesso do assassinato de Marielle Franco. O Supremo identificou que os irmãos Brazão e Rivaldo Barbosa atuaram como mandantes, enquanto outros réus como Ronald Alves de Paula e Robson Calixto tiveram papéis executivos na logística do crime.


No julgamento, Moraes votou pela condenação dos irmãos Brazão por duplo homicídio qualificado e tentativa de homicídio de Fernanda Chaves. O ex-chefe da Polícia Civil, Rivaldo Barbosa, foi condenado por obstrução de justiça e corrupção passiva. Já Ronald Alves e Robson Calixto, ambos envolvidos diretamente na execução dos crimes, também receberam condenações pela sua participação no esquema.


Testemunhos e provasO voto dos ministros Zanin e Cármem Lúcia corroboraram com o entendimento de Moraes, destacando a credibilidade das delações premiadas que foram determinantes para a identificação dos responsáveis. Apesar das dúvidas sobre a participação direta de Rivaldo Barbosa nos homicídios, todos os ministros concordaram com as condenações por obstrução de justiça e corrupção.


Próximos passosO julgamento entra agora na fase de definição das penas, com a possibilidade de revisão de sentenças conforme as alegações finais de defesa e acusação. A conclusão desse julgamento é um marco importante na busca por justiça no caso Marielle e Anderson, que continua a mobilizar o Brasil.


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