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Sociedade

Por Raul Silva para O estopim | 18 de junho de 2026



Como dar block no tigrinho? Brasileiros que querem parar de apostar em jogos como o chamado Tigrinho já podem usar uma ferramenta oficial do governo federal para bloquear o próprio CPF em plataformas de apostas autorizadas. O serviço se chama autoexclusão centralizada e funciona pelo gov.br, com acesso por conta prata ou ouro.


Tigre em sinal de bloqueio vermelho sobre fundo preto, com texto BLOCK NO Tigrinho em branco e vermelho.
Campanha pede que as pessoas assinem movimento contra as plataformas de jogos online | Foto: Reprodução

A ferramenta permite que o cidadão restrinja o próprio acesso a todas as plataformas de apostas autorizadas pela Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda, por prazo determinado ou indeterminado. O sistema também impede novos cadastros e o recebimento de publicidade direcionada das bets reguladas.


A autoexclusão é um bloqueio voluntário. Na prática, a pessoa informa ao governo que não quer acessar casas de apostas autorizadas no Brasil. Depois da solicitação, as empresas reguladas devem impedir o acesso daquele CPF durante o período escolhido.


O Ministério da Fazenda informa que a ferramenta foi criada para prevenir danos financeiros, emocionais, sociais e de saúde causados pelo jogo excessivo. O serviço é gratuito e o prazo estimado para efetivação é de até 72 horas, contadas a partir da identificação da solicitação pelas casas de apostas.


Passo a passo para dar block no Tigrinho pelo gov.br


1. Acesse o serviço de autoexclusão no gov.br:

Entre na página oficial Solicitar a autoexclusão centralizada, Apostas, dentro do portal gov.br, e clique em Iniciar. O serviço também é indicado pelo Ministério da Fazenda na página de autoexclusão da Secretaria de Prêmios e Apostas.


2. Faça login com conta gov.br prata ou ouro:

O acesso exige autenticação com conta gov.br de nível prata ou ouro. Contas bronze precisam ser elevadas antes de usar o serviço.


3. Autorize o compartilhamento de dados:

Depois do login, o sistema pede autorização para uso dos dados pessoais necessários ao módulo de impedidos do Sistema de Gestão de Apostas. Sem essa autorização, o bloqueio não é concluído.


4. Clique em “Solicitar ou consultar minha exclusão das plataformas”:

Segundo o Ministério da Saúde, após entrar na plataforma, o cidadão deve usar a opção Solicitar ou consultar minha exclusão das plataformas, no menu lateral.


5. Escolha o prazo do bloqueio:

O usuário deve escolher por quanto tempo deseja ficar impedido de acessar as bets autorizadas. As opções vão de 1 mês a período indeterminado.


6. Informe o motivo da autoexclusão:

O sistema pede a seleção do motivo. A opção pode ir de decisão voluntária à prevenção do uso de dados em plataformas de apostas.


7. Leia e aceite os termos:

Antes de confirmar, o cidadão precisa aceitar os Termos de Uso e a Política de Uso de Dados Pessoais. Também declara ciência de que, durante o prazo escolhido, não poderá acessar plataformas autorizadas nem receber publicidade direcionada.


8. Confirme a solicitação:

Depois da confirmação, o pedido é enviado para a base centralizada. A efetivação pode levar até 72 horas após a identificação da solicitação pelas casas de apostas.


O bloqueio vale para qualquer Tigrinho?


Não necessariamente. O ponto central é que a ferramenta do gov.br atinge plataformas autorizadas pela Secretaria de Prêmios e Apostas. Se o jogo estiver em site clandestino, link de grupo de mensagem, aplicativo não autorizado ou página sem licença, o bloqueio pelo gov.br pode não ser suficiente.


O próprio Ministério da Fazenda afirma que a norma dos jogos online não libera nem proíbe um jogo específico. Ela estabelece regras de certificação. Jogos que não passarem por certificação não podem ser considerados legais.


Por isso, quem quer se proteger do Tigrinho deve combinar três medidas: autoexclusão pelo gov.br, remoção dos aplicativos e bloqueio de sites no celular, navegador ou roteador.


Dá para cancelar o bloqueio?


Depende do prazo escolhido. Segundo o Ministério da Fazenda, quando a autoexclusão é feita por prazo determinado, não é possível revogar antes do fim do período. Quando é feita por prazo indeterminado, a revogação só pode ser solicitada depois de 12 meses.


Quando procurar ajuda?


Se a pessoa não consegue parar de apostar, mente sobre perdas, pede dinheiro para cobrir dívidas ou sente ansiedade quando tenta interromper o jogo, o bloqueio digital pode ser apenas o primeiro passo.


O Ministério da Saúde orienta que pessoas com problemas relacionados a apostas procurem Unidades Básicas de Saúde, Centros de Atenção Psicossocial, profissionais de saúde de confiança ou a Ouvidoria do SUS pelo telefone 136.


Dar block no Tigrinho pelo gov.br não é só uma decisão tecnológica. É uma medida de proteção financeira, emocional e familiar. A aposta online foi desenhada para manter o usuário dentro da plataforma. O bloqueio, quando feito cedo, interrompe o ciclo antes que a dívida, a ansiedade e o isolamento cresçam.


O serviço oficial não resolve todos os problemas sozinho, sobretudo quando o acesso ocorre por sites clandestinos. Mas coloca uma barreira importante no CPF do apostador e cria uma primeira distância entre impulso e aposta.


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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo do O estopim, com foco em serviço público, política, tecnologia e temas de interesse social.

Por Raul Silva para O estopim | 14 de maio de 2026



Homem de terno azul e óculos gesticula enquanto fala. Fundo escuro com luz amarela intensa à esquerda. Expressão séria e envolvente.
Juliano Cazarré rebate críticas feitas ao seu projeto chamado O Farol e a Forja, mas ao fazer isso expõe para todo o país a real natureza de seus discurso | Foto: Reprodução/GloboNews

Juliano Cazarré entrou no GloboNews Debate de 12 de maio cercado por uma controvérsia previsível: dias antes, havia lançado um encontro pago para homens, embalado por palavras como liderança, fé, família, responsabilidade e “enfraquecimento masculino”. Ao colocá-lo em horário nobre para discutir “o papel do homem nos tempos atuais”, a emissora assumiu um risco editorial que o programa não conseguiu controlar. O que foi vendido como debate virou, em vários momentos, vitrine. E vitrine para quê? Para um repertório já gasto, mas ainda socialmente perigoso: o da masculinidade ferida que se apresenta como cura moral do país enquanto relativiza a violência de gênero, recorre a estatísticas falsas e reposiciona o velho patriarcado como se fosse simples defesa da família.


Seria cômodo reduzir a cena a um erro individual de Juliano Cazarré. Não é suficiente. O ator é só a face televisiva mais recente de uma engrenagem bem maior, que mistura conservadorismo moral, oportunismo midiático, ressentimento masculino e verniz religioso. O discurso é conhecido. O homem teria perdido seu lugar. A sociedade teria “demonizado” a masculinidade. A família estaria ameaçada. A fé seria o último reduto de ordem. As mulheres, emancipadas demais. O feminismo, exagerado. A igualdade, uma espécie de desvio civilizatório.


Esse roteiro não nasceu no estúdio da GloboNews. Ele circula há anos em bolhas digitais, em influenciadores red pill, em setores bolsonaristas e em segmentos religiosos que transformaram púlpito, live e corte de rede social em aparelho de reprodução ideológica. O que a TV fez foi retirar esse discurso da margem e recolocá-lo sob luz respeitável, como se estivesse diante de uma opinião apenas “polêmica”, e não de uma narrativa que ajuda a naturalizar hierarquia entre homens e mulheres.


Debate televisivo com dois apresentadores sentados discutindo o papel dos homens. Tela ao fundo com convidado virtual. Texto da GloboNews.
Cazarré participou de debate na GloboNews nesta terça-feira (12) para falar a respeito do papel do homem na sociedade atual, ou para legitimar o discurso red pill e machista? | Foto: Reprodução/YouTube/GloboNews

Debate jornalístico não é sinônimo de deixar alguém falar o que quiser por tempo suficiente para viralizar. Quando um convidado usa números falsos ou sem base para relativizar a violência contra as mulheres, a mediação tem obrigação de interromper, contextualizar e corrigir. Não depois. Na hora.


Foi exatamente aí que o programa falhou, principalmente por causa do histórico do discurso machista que o ator já carregava consigo, ou seja, era totalmente previsível que alguma fala do tipo ocorresse ali. E ao permitir que a discussão deslizasse para a equivalência falsa entre violência geral e feminicídio, o debate abriu espaço para uma operação retórica conhecida. Primeiro, dissolve-se a especificidade da violência de gênero no caldo amplo da violência urbana. Depois, desloca-se o foco para o sofrimento masculino como se ele anulasse ou desautorizasse a denúncia feita pelas mulheres. Por fim, reapresenta-se o homem como vítima principal de um mundo que teria passado a culpá-lo por tudo.


Não há honestidade intelectual nisso. Há estratégia. Feminicídio não é qualquer homicídio. É o assassinato de mulheres em razão do gênero, geralmente em contexto doméstico, afetivo, de controle e posse. Misturar esse fenômeno com mortes violentas em contextos completamente distintos não é nuance. É distorção. E distorção, quando ganha palco jornalístico sem freio, vira munição para o obscurantismo.


Farois acesos à noite com faíscas. Texto: O Farol e A Forja, Um chamado à responsabilidade. Encontro de homens no Brasil.
Página oficial do tal evento sobre "masculinidade" | Fonte: Reprodução/Página do evento

O site do evento lançado por Cazarré fala em liderança, direção, proteção, presença masculina, homem de princípios, homem que assume seu lugar, homem que serve, marido, pai, fé vivida na prática. O vocabulário parece brando. Mas a gramática é antiga. A ideia central continua sendo a de que existe um lugar natural do homem na condução da família e da vida pública, enquanto às mulheres cabe gravitar ao redor dessa centralidade, desde que o homem exerça a chefia com “responsabilidade”.


É assim que o patriarcado sobrevive no século 21. Ele troca a brutalidade explícita pela linguagem da missão. Troca a imposição pela pedagogia da ordem. Troca o mando cru pela retórica do cuidado. Mas preserva a estrutura. O homem conduz. A mulher acompanha. O homem lidera. A mulher auxilia. Quando esse arranjo é apresentado como virtude espiritual ou remédio social, o que se está fazendo é reciclar desigualdade.


Monge rezando com terço em mãos, em fundo escuro com imagens de figuras religiosas. Expressão serena e luz suave ao redor.
Frei Gilson em momento de oração, conhecido por suas lives espirituais no YouTube, fará transmissão do Santo Rosário pela Havan neste sábado | Foto: Reprodução/Redes Sociais

No campo religioso, Frei Gilson virou hoje um dos casos mais evidentes dessa operação. Sua fala sobre a mulher ter nascido para “auxiliar” o homem e sua crítica ao chamado empoderamento feminino não são ruídos laterais. Elas fazem parte de uma pedagogia de subordinação que tenta dar fundamento sagrado a uma relação desigual. Quando um religioso com alcance massivo diz que o homem recebeu de Deus a liderança e que à mulher cabe outro papel, o que ele oferece não é só uma interpretação bíblica. Ele fornece uma autorização moral.


E essa autorização moral, em um país atravessado por violência doméstica, não é um detalhe teológico qualquer. É uma matéria de interesse público. Porque a mulher agredida não escuta essas falas num seminário abstrato. Ela escuta isso dentro de uma cultura que já a ensina a suportar, ceder, preservar o casamento, silenciar para não “destruir a família”, obedecer para não afrontar Deus. O resultado é um ambiente onde a opressão se espiritualiza e o abuso encontra linguagem de absolvição.


Não se trata de culpar uma única figura religiosa por toda a violência contra as mulheres. Trata-se de dizer o óbvio que muita gente se recusa a enfrentar: discursos de submissão feminina ajudam a manter viva a cultura que relativiza a violência, desculpa o controle masculino e cobra das vítimas uma santidade sacrificial que jamais é exigida dos agressores.


Sacerdote sorri em vestes verdes decoradas. Fundo com plantas e flores. Clima noturno, atmosfera serena. Texto na roupa é legível.
Padre Júlio Lancellotti é conhecido nacionalmente pelo trabalho que realiza com a população em situação de rua na capital paulista. | Foto: Reprodução/Instagram: @padrejulio.lancellotti

A crítica precisa ir além de Frei Gilson. Ela alcança a estrutura que o acolhe, o normaliza e o transforma em ativo de massa. A Igreja Católica no Brasil gosta de repetir que não pode ser julgada por recortes. Pois bem. Que seja julgada então por suas escolhas concretas.


Quando o padre Júlio Lancellotti, conhecido pelo trabalho com a população de rua e pela recusa a qualquer discurso de ódio, foi silenciado nas redes e impedido de seguir com transmissões ao vivo, a mensagem institucional foi cristalina: há vozes que incomodam mais do que outras. Incomoda mais um padre que denuncia a crueldade social do que um religioso conservador que mobiliza multidões enquanto reforça papéis hierárquicos entre homens e mulheres.


Em São Paulo, Dom Odilo Scherer se tornou símbolo dessa contradição. No Recife, Dom Paulo Jackson aparece em outro ponto do mesmo mapa, ao emprestar legitimidade institucional a eventos de grande escala com Frei Gilson sem que se veja resposta proporcional às implicações públicas desse discurso sobre mulheres. O contraste salta aos olhos. Para a voz evangélica da compaixão radical, freio. Para a voz rentável, multitudinária e disciplinadora, acolhimento.


A instituição pode alegar prudência, foro interno, autonomia canônica. O problema é que, fora dos muros e dos códigos eclesiásticos, o efeito social é outro. O que passa para o público é uma pedagogia perversa: o cristianismo que confronta a exclusão vira problema administrativo; o cristianismo que reforça obediência, gênero e autoridade masculina segue livre para crescer.


Logotipo da GloboNews em vermelho sobre fundo branco, com a palavra "NEWS" estilizada. Design limpo e moderno.
Logo GloboNews | Foto: Reprodução/X

Há também uma responsabilidade específica do jornalismo. Não basta dizer que ouvir lados diferentes é parte do ofício. Isso é verdade, mas é só o começo. Jornalismo não existe para equilibrar formalmente qualquer disputa. Existe para informar com método, contexto e compromisso com a realidade. Quando uma emissora põe no mesmo nível um discurso sustentado por distorções e outro lastreado em pesquisa e experiência concreta, corre o risco de fabricar uma simetria fraudulenta.


Esse é o ponto central. O jornalismo não pode funcionar como lavanderia reputacional da misoginia contemporânea. Não pode chamar de “polêmica” o que já se consolidou como engrenagem de rebaixamento feminino. Não pode vestir de pluralismo a omissão diante da mentira factual. E não pode, sobretudo, tratar como curiosidade cultural um ideário que oferece ao homem ressentido um pacote sedutor: culpa terceirizada, autoridade restaurada, religião como escudo e mulher como horizonte de serviço.


Se o debate vira vitrine para esse pacote, a imprensa deixa de iluminar o problema e passa a distribuí-lo.


Não estamos diante de um desacordo inocente sobre costumes. O que está em disputa é a possibilidade de fazer retroceder, com palavras aparentemente brandas, conquistas mínimas de autonomia feminina. O léxico pode variar. Valores familiares. Masculinidade sadia. Fé no lar. Mas a arquitetura permanece reconhecível: conter a liberdade das mulheres, recolocar o homem no centro e reabilitar a desigualdade como se fosse virtude.


Num país que segue registrando números brutais de feminicídio, denúncias de violência e agressões dentro de casa, tratar isso como debate abstrato é uma forma de cegueira editorial. A violência contra a mulher não começa no soco. Ela começa na ideia de posse. Na pedagogia da obediência. Na glamourização da chefia masculina. Na ridicularização do feminismo. Na catequese da resignação. Na mentira repetida para esvaziar a gravidade dos fatos.


Juliano Cazarré não inventou esse enredo. Frei Gilson tampouco. Mas ambos ajudam a atualizá-lo. E o jornalismo que lhes oferece palco sem a devida contenção crítica não está apenas falhando na mediação. Está ajudando a empurrar para a arena pública um discurso que já custou caro demais às mulheres brasileiras.


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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo de O estopim. Escreve sobre política, mídia, direitos humanos e os mecanismos de poder que costumam se esconder atrás de discursos respeitáveis.

Há datas que convidam à celebração. O 19 de abril, no Brasil, exige mais do que isso: exige vergonha, memória, coragem e posição.


Opinião de Raul Silva para O estopim | 19 de abril de 2026




Não basta publicar uma arte bonita, repetir a palavra ancestralidade em tom solene e seguir a vida como se estivéssemos diante de uma pauta simbólica, quase folclórica, restrita ao calendário escolar. O que está em jogo, quando falamos dos povos originários, não é um capítulo periférico da história nacional. É o centro nervoso da formação do Brasil. É a disputa entre civilização e barbárie, entre Constituição e espoliação, entre democracia e colonialismo persistente.


Os povos indígenas não pedem favor. Não reivindicam um privilégio exótico. Não solicitam concessões sentimentais do Estado ou da opinião pública. O que reivindicam é o reconhecimento de algo anterior ao próprio Estado brasileiro: o direito originário à terra, à vida, à memória, à língua, ao território, à espiritualidade, à autodeterminação e à continuidade histórica de seus povos.


E é precisamente por isso que a luta indígena incomoda tanto. Porque ela desorganiza a mentira fundadora de um Brasil que ainda gosta de se imaginar moderno, cordial e miscigenado, enquanto tolera — e muitas vezes patrocina — o cerco aos seus primeiros habitantes.


O país que chama de passado aquilo que ainda está acontecendo


Existe uma operação política e cultural muito conveniente no Brasil: transformar o massacre indígena em passado remoto. Como se a violência estivesse encerrada nos primeiros séculos da colonização. Como se o extermínio fosse apenas uma página dos livros de história. Como se a grilagem, o garimpo, a extração ilegal de madeira, a contaminação dos rios, a pistolagem, a omissão sanitária, as invasões e a captura institucional dos órgãos do Estado não fossem expressões contemporâneas do mesmo projeto de dominação.


Isso é falso.


A violência contra os povos originários não é um desvio episódico do sistema. Ela é parte estrutural do modo como o poder foi organizado no Brasil. O latifúndio, a fronteira agrícola, a mineração predatória, o coronelismo reconfigurado, a captura do Legislativo por interesses econômicos e o uso seletivo do aparato jurídico formam um bloco histórico que enxerga a terra indígena não como espaço de vida, mas como obstáculo à acumulação.


É aí que a análise precisa sair da superfície. O conflito não é apenas fundiário. É civilizacional. De um lado, uma relação com a terra fundada em pertencimento, reciprocidade, memória, reprodução física e cultural dos povos. De outro, uma racionalidade colonial que vê o território como ativo, mercadoria, corredor logístico, jazida, pasto, lavoura, cotação futura.


Não estamos diante de um simples desacordo administrativo. Estamos diante de duas concepções inconciliáveis de mundo.


Homem sorridente com cocar colorido e pintura facial em ambiente florestal. Traje tradicional em verde, vermelho e amarelo. Fundo desfocado.
Homem com pintura facial tradicional, sorrindo, e usando um cocar colorido em meio à natureza exuberante da floresta. | Foto: Reprodução/UniNorte

A Constituição de 1988 não deu nada aos povos indígenas


É preciso repetir isso com toda clareza: a Constituição de 1988 não “deu” terra aos povos indígenas. Ela reconheceu direitos originários sobre as terras tradicionalmente ocupadas.


A diferença é monumental.


Quando a Constituição reconhece um direito originário, ela admite que esse direito antecede o próprio Estado. Não nasce da benevolência do governante de turno, não depende do humor do Congresso e não pode ser reduzido à conveniência do mercado. Trata-se de um reconhecimento jurídico de uma anterioridade histórica e moral.


Por isso o artigo 231 é tão decisivo. Ele desmonta a lógica colonizadora segundo a qual o Estado distribui legitimidade a quem já estava aqui muito antes da formação da República, do Império e da própria ideia de Brasil.


O que a Constituição fez foi cristalizar, no plano normativo, uma verdade histórica: os povos indígenas não são invasores de sua própria terra. Invasor é quem chegou depois e quis converter a violência em título de propriedade.


O marco temporal é uma fraude jurídica com finalidade econômica


Poucas teses expõem de forma tão brutal a degradação moral do debate público brasileiro quanto o chamado marco temporal.


A formulação é conhecida: só teriam direito à demarcação os povos que estivessem ocupando a terra em 5 de outubro de 1988, data da promulgação da Constituição, ou que estivessem em disputa física ou judicial comprovada naquele momento.


À primeira vista, certos setores tentam vender a tese como critério técnico, fórmula de “segurança jurídica”, mecanismo racional para pacificar conflitos. Mas isso desmorona ao primeiro contato sério com a história brasileira.


Que segurança jurídica é essa que desconsidera expulsões, remoções forçadas, massacres, confinamentos, tutelas estatais, missões de assimilação, esbulhos praticados por fazendeiros, omissões deliberadas do poder público e a violência sistemática imposta justamente para impedir a presença indígena em seus territórios?


O marco temporal parte de uma brutalidade lógica: pune os povos indígenas pelo sucesso histórico da violência cometida contra eles.


É como se o Estado dissesse:


“Vocês só terão direito se conseguirem provar que resistiram fisicamente até 1988, mesmo depois de terem sido perseguidos, deslocados, mortos, silenciados ou impedidos de existir conforme seus próprios modos de vida”.

Não há neutralidade nisso. Há cinismo.


Juridicamente, a tese colide com o texto constitucional e com a própria noção de direito originário. Politicamente, ela serve à contenção das demarcações. Economicamente, ela funciona como ferramenta de estabilização da fronteira do agronegócio, da especulação fundiária e da exploração de áreas cobiçadas por madeira, minérios, água, infraestrutura e valorização imobiliária da terra.


Por isso o marco temporal não pode ser tratado como mera divergência interpretativa. Ele é um projeto político de poder.


O Supremo Tribunal Federal já rejeitou essa tese no julgamento de 2023 e, mais adiante, voltou a afastar o núcleo que pretendia reproduzi-la em lei. Ainda assim, a ofensiva não cessou. E não cessará facilmente. Porque a batalha real nunca foi apenas jurídica. Ela é legislativa, econômica, midiática e ideológica.


Pessoa indígena com pintura facial preta e vermelha, usa cocar amarelo e colar vermelho. Fundo alaranjado, expressão contemplativa.
Na foto: Cacique Raoni Metuktire do povo caiapó | Foto: National Geographic

Quem tem interesse no marco temporal — e por quê


É preciso nomear os interesses, porque a névoa da abstração só favorece os mais fortes.


Entre os principais patrocinadores políticos do marco temporal estão a Frente Parlamentar da Agropecuária, parte expressiva da chamada bancada ruralista, e parlamentares que atuaram abertamente para transformar a tese em lei ou constitucionalizá-la. O projeto que se converteu no atual arranjo legislativo remonta ao ex-deputado Homero Pereira. No Senado, a proposta ganhou impulso com o relatório do senador Marcos Rogério. Em outra frente, o senador Hiran Gonçalves apresentou a PEC 48, tentativa explícita de inscrever o marco temporal na Constituição. E o presidente da FPA, Pedro Lupion, reiterou publicamente que o marco temporal é “inegociável”.


Esses nomes não aparecem por acaso. Eles representam uma coalizão de interesses que pretende blindar a expansão da fronteira agrícola, reduzir o custo político das demarcações e consolidar a prevalência da propriedade privada titulada sobre o direito originário reconhecido constitucionalmente.


No plano institucional, entidades do agro como a CNA também defenderam a manutenção do marco temporal sob o argumento de “segurança jurídica” para proprietários rurais. Em setores do agronegócio exportador, a palavra segurança jurídica costuma significar, na prática, previsibilidade para a reprodução do negócio, ainda que isso recaia sobre territórios marcados por litígios históricos, expulsões violentas e ocupações sustentadas por assimetrias brutais de poder.


Pessoas em terno seguram documento sorrindo em frente a painel da FPA. Clima formal. Garrafas e copos sobre mesa preta.
Hugo Motta e representantes da bancada agropecuária posam juntos em evento da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA). | Foto: Agência FPA

Há ainda interesses mais agressivos e menos elegantes: os de grileiros, madeireiros ilegais, garimpeiros e redes criminosas que prosperam quando o Estado hesita em proteger o território indígena. Para esses grupos, qualquer enfraquecimento da demarcação é um convite à invasão.


E há, por fim, o interesse mineral. Terras indígenas são cobiçadas porque concentram biodiversidade, água, florestas em pé e incidência de recursos minerais estratégicos. A corrida por ouro, cassiterita, cobre, níquel, potássio e outros minerais transforma esses territórios em alvo permanente de pressão empresarial e política. Em tempos de “minerais críticos” para a transição energética, cresce o lobby para vestir de modernização verde uma velha prática colonial: retirar riqueza de territórios indígenas e socializar destruição.


Some-se a isso a disputa por grandes corredores logísticos — ferrovias, hidrovias, portos, estradas — pensados para acelerar o escoamento de commodities. Quando se olha com atenção, percebe-se que o ataque aos povos originários não é um ruído do desenvolvimento. Ele é parte do desenho do desenvolvimento que certas elites escolheram para o Brasil.


A terra indígena incomoda porque impõe limite


É aqui que a crítica precisa ganhar densidade moral.


A terra indígena incomoda porque ela impõe limite ao apetite predatório. Ela lembra à República que nem tudo pode ser convertido em mercadoria. Ela afirma que há bens que não pertencem ao mercado, porque pertencem à vida coletiva, à memória dos ancestrais, à reprodução dos povos e ao equilíbrio ecológico sem o qual o próprio país colapsa.


Por isso tantos atores econômicos e políticos tentam apresentar os territórios indígenas como espaços “vazios”, “improdutivos” ou “subutilizados”. Trata-se de uma linguagem colonial requentada. Quando não se reconhece a forma indígena de produzir, cuidar, habitar e defender o território, o objetivo não é técnico. É ideológico. É rebaixar outras racionalidades para legitimar a sua substituição por gado, soja, mineração ou logística de exportação.


Na prática, o que está sendo dito é: só merece existir plenamente o que gera lucro nos termos do capitalismo agro-mineral.


Isso é não apenas intelectualmente pobre. É moralmente indecente.


Vista aérea de uma aldeia circular coberta por floresta densa. Construções de palha rodeiam um terreno central de terra batida. Atmosfera serena.
Vista aérea da aldeia do Demini da floresta amazônica, no alto rio Demene, na TI Yanomami, divisa dos estados de Roraima e Amazonas. | Foto: Edson Sato

Os que tombaram para que a luta não fosse enterrada


Nenhum artigo sério sobre 19 de abril pode falar de esperança sem falar de luto.


É preciso lembrar Marçal de Souza Tupã-Y, liderança guarani cuja voz atravessou o país denunciando a violência contra seu povo e que foi assassinada em 1983. Marçal se tornou um símbolo porque enxergou cedo o que muitos preferiam não ver: a modernização brasileira continuava assentada sobre a expropriação indígena.


É preciso lembrar Galdino Jesus dos Santos, Pataxó Hã-Hã-Hãe, queimado vivo em Brasília em 1997, depois de um dia de mobilização. O crime chocou o país, mas o choque não foi suficiente para desmontar a estrutura de desumanização que o tornou possível. Galdino não foi morto por um gesto isolado de crueldade juvenil; ele foi vítima de um ambiente social em que a vida indígena era tratada como descartável.



É preciso lembrar Paulo Paulino Guajajara, guardião da floresta, assassinado em 2019 numa emboscada no Maranhão. A sua morte revelou, de forma incontornável, que defender o território indígena no Brasil continua sendo atividade de alto risco.


É preciso lembrar Ari Uru-Eu-Wau-Wau, professor, monitor territorial e defensor da floresta, morto em Rondônia em 2020. Seu assassinato é a face nua de uma fronteira amazônica onde grilagem, desmatamento e intimidação caminham lado a lado.


E é justo lembrar também os aliados que tombaram nessa trincheira, como Bruno Pereira e Dom Phillips, assassinados em 2022 no Vale do Javari. Eles não eram indígenas, mas morreram porque decidiram levar a sério a defesa da vida indígena, da floresta e da verdade.


A memória desses nomes não pode servir apenas a cerimônias. Memória, em política, é compromisso. Quando o país esquece seus mártires, ele absolve seus algozes.



Os que hoje seguem na linha de frente


Mas a história indígena não é apenas história de dor. É, sobretudo, história de resistência organizada.


Hoje, a linha de frente tem muitos rostos.


Tem Raoni Metuktire, cuja longevidade política transformou sua presença numa das maiores reservas morais do país.


Tem Davi Kopenawa Yanomami, que há décadas denuncia a devastação da floresta e a arrogância de uma civilização incapaz de perceber que destruir a terra é destruir a si mesma.


Tem Célia Xakriabá, cuja presença no Congresso Nacional fura o bloqueio simbólico de uma institucionalidade historicamente branca, patrimonialista e hostil à pluralidade real do país.



Tem Sonia Guajajara, que ajudou a levar a pauta indígena ao centro do debate nacional e ao coração do Estado brasileiro e se tornou a primeira Ministra dos Povos Indígenas do Brasil.


Tem Eloy Terena, jurista e liderança que conhece por dentro a batalha constitucional e o peso concreto da palavra território e atual Ministro dos Povos Indígenas do Brasil, na data de publicação deste artigo.


Tem Lucia Alberta Baré, hoje à frente da Funai, numa continuidade do protagonismo indígena nas instituições de Estado.


Tem Joenia Wapichana, pioneira incontornável, cuja trajetória abriu caminho para uma nova geração de lideranças com presença jurídica, parlamentar e internacional.


Tem Txai Suruí, expressão de uma geração que articula território, clima, comunicação e direitos com linguagem global sem romper com a raiz comunitária.


Tem Dinamam Tuxá, Kleber Karipuna, Luanna Kaingang e tantas outras lideranças do movimento indígena organizado que, no Acampamento Terra Livre e em inúmeras frentes de luta, seguem lembrando ao país que não há democracia digna desse nome quando o Congresso age como corretor dos interesses do latifúndio.


A força dessas lideranças não está apenas em ocupar espaço. Está em deslocar o eixo do debate. Elas obrigam o Estado brasileiro a olhar para aquilo que sempre tentou empurrar para as margens: que a questão indígena não é “setorial”, mas fundacional.


Representatividade não é ornamento


Há outra armadilha do debate público que precisa ser desmontada: a ideia de que representatividade indígena basta como gesto de inclusão simbólica.


Não basta.


Representatividade sem poder institucional, sem orçamento, sem proteção territorial, sem consulta prévia, sem desintrusão de invasores e sem demarcação efetiva corre o risco de se tornar decoração democrática. Uma vitrine multicultural para um Estado que continua entregando território ao capital.


O que os povos originários exigem é mais profundo. Exigem participação real nos processos decisórios que afetam seus destinos. Exigem que a Convenção 169 da OIT seja respeitada. Exigem que a demarcação deixe de ser promessa adiada. Exigem que saúde indígena não seja resposta emergencial apenas quando a tragédia já explodiu. Exigem que o combate ao garimpo e às invasões não seja performático. Exigem que o Estado cumpra, enfim, a Constituição que jurou defender.


Mulheres indígenas com pinturas faciais vermelhas levantando o punho. Usam colares e cocares amarelos. Ambiente de protesto. Céu azul.
Mulheres do povo Makuxi na 4ª Marcha das Mulheres Indígenas, em Brasília (DF), em agosto de 2025 | Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

Defender os povos originários é defender a democracia brasileira


Alguns insistem em tratar a pauta indígena como conflito entre desenvolvimento e tradição. Essa é uma oposição falsa.


A verdadeira questão é outra: que tipo de desenvolvimento pode merecer esse nome se depende da despossessão dos povos originários, da devastação dos biomas, da destruição de rios, da disseminação de mercúrio, da proliferação de milícias rurais e da amputação progressiva da Constituição?


Nenhuma democracia séria pode tolerar que os direitos mais elementares de um povo sejam postos em leilão toda vez que a correlação de forças do Congresso pender ainda mais para o poder econômico.


Os povos indígenas são hoje uma das últimas barreiras efetivas contra a conversão total do território nacional em plataforma de extração. E isso explica por que são tão atacados. Defender os povos originários é defender o pacto civilizatório mínimo que ainda nos resta. É defender a floresta, a água, o clima, a diversidade linguística, a memória histórica e a própria ideia de limite diante da barbárie mercantil.


Aqueles que tentam reduzir essa luta a “identitarismo”, “entrave produtivo” ou “romantismo ambiental” apenas revelam sua pobreza política. Não entenderam nada. Ou entenderam tudo e escolheram o lado da pilhagem.


O que este 19 de abril nos exige


Neste 19 de abril, o Brasil precisa decidir se quer continuar tratando os povos originários como obstáculo ao seu projeto de país ou se finalmente admitirá que sem eles não existe projeto de país digno desse nome.


Chega de homenagens ocas.


Chega de empatia protocolar.


Chega de celebrar a cultura indígena enquanto se sabota a base material de sua existência: o território.


O mínimo ético que se exige de qualquer democrata é recusar o marco temporal sem meias palavras, denunciar seus patrocinadores, enfrentar a captura ruralista das instituições e reconhecer que a luta indígena é uma luta pelo futuro comum.


Se o Brasil quer mesmo honrar seus povos originários, precisa fazer mais do que escutá-los em abril. Precisa aceitar que eles têm razão.


Porque têm.


Têm razão quando dizem que território é vida.


Têm razão quando denunciam que a floresta não é estoque de mercadoria.


Têm razão quando afirmam que a Constituição está sendo sabotada.


Têm razão quando lembram que a democracia brasileira será sempre incompleta enquanto os primeiros povos desta terra seguirem cercados por tratores, rifles, decretos, projetos de lei e discursos de ódio.


E têm razão, sobretudo, quando nos avisam que o que está em risco não é apenas o futuro indígena.


É o futuro de todos nós.


Se ainda houver alguma possibilidade de o Brasil se tornar uma nação menos cínica, menos violenta e menos colonial, esse caminho não passará pelo silenciamento dos povos originários.


Passará, necessariamente, pelo reconhecimento de que esta terra tem dono ancestral, memória viva e voz própria.


E que o país que insiste em não ouvir essa voz continua, no fundo, em guerra contra a sua própria verdade.


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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo de O estopim, com foco em política, direitos humanos, território e conflitos socioambientais. Escreve para ligar fatos, interesses e consequências, com atenção ao que está na origem de cada crise.



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