top of page

Literatura

Por Raul Silva para O estopim | 21 de janeiro de 2026


Porto Alegre/São Paulo — Em um início de 2026 marcado por disputas sobre o que é real, o escritor Jeferson Tenório afirma que a literatura oferece um tipo de leitura do mundo que escapa da pressa e da simplificação. “A ficção… devolve [a realidade] de uma maneira mais lúcida”, diz o autor, ao defender que romances e contos conseguem mapear afetos, contradições e complexidades que o debate público frequentemente atropela.


A declaração integra a entrevista que abre a temporada 2026 do podcast Pauta Pública, da Agência Pública, cujo tema é “Diálogos para entender o que é real”. No episódio, Tenório discute a dificuldade contemporânea de distinguir informação, invenção e conteúdos deliberadamente falsos, em um ambiente em que narrativas circulam com força de fato e em que tecnologias ampliam a velocidade e a escala dessa confusão.


O escritor Jeferson Tenório | Imagem: Reprodução
O escritor Jeferson Tenório | Imagem: Reprodução

Literatura como antídoto contra a indiferença


Para o escritor, a literatura opera em outro ritmo: permite observar eventos e crises “saindo do calor da hora”, chamando o contraditório e evitando respostas automáticas. A aposta, segundo ele, é menos a “análise fria” e mais uma investigação subjetiva, capaz de revelar como violência, desigualdade e medo atravessam corpos e relações.


Na conversa, Tenório também conecta o cenário global de escalada de tensões à própria ideia de política como linguagem para evitar violência, e alerta para a normalização do conflito como método. Nesse contexto, ele sustenta que a literatura pode funcionar como uma forma de resistência: ao recusar a indiferença diante do sofrimento do outro, ela reafirma um pacto básico de humanidade.


Da leitura tardia ao romance como “demora”


Tenório relata ainda um percurso pessoal que atravessa sua obra: ele se define como um leitor tardio, que só se aproximou da ficção mais velho, e descreve a descoberta dos livros como algo quase obsessivo. O processo de escrita, conta, costuma ser longo, feito de maturação: primeiro nasce a história, depois os personagens irradiam suas relações com o mundo, até chegar o momento de sentar e escrever.


“De Onde Eles Vêm” e o “direito ao encanto”


No episódio, o autor fala também de “De Onde Eles Vêm” (Companhia das Letras, 2024), romance centrado em Joaquim, jovem negro e periférico que ingressa na universidade por políticas de ação afirmativa e enfrenta, ao mesmo tempo, hostilidade e fascínio pelo ambiente acadêmico. Para Tenório, a história toca no “direito ao encanto”, o direito de pessoas negras e pobres se aproximarem da arte e da literatura sem culpa, e no direito de escolha, historicamente negado a amplas parcelas da população.


Reconhecimento e disputas em torno de “O Avesso da Pele”


A entrevista também recoloca em evidência a trajetória de Tenório como um dos nomes centrais da literatura brasileira recente. Seu romance “O Avesso da Pele” venceu o Prêmio Jabuti de 2021 na categoria Romance Literário e se consolidou como uma obra referência em debates sobre racismo, violência e estrutura social no Brasil.


Nos últimos anos, porém, o livro também foi alvo de controvérsias e tentativas de retirada de escolas em estados como Paraná, Goiás e Mato Grosso do Sul, episódio que reacendeu discussões sobre censura, mediação pedagógica e circulação de obras literárias na educação pública.


Ao estrear o Pauta Pública de 2026, Tenório volta ao ponto central de sua fala: num tempo em que a realidade parece cada vez mais “disputada”, a literatura não resolve o mundo, mas pode ajudar a lê-lo melhor. E, convenhamos, em certas semanas, ler melhor já é quase um ato revolucionário.

 
 
 

Por Michael Andrade, O Estopim | 11 de janeiro de 2026


Com o Leblon como moldura e personagens que pareciam vizinhos e parentes, Manoel Carlos escreveu cenas e temas que atravessaram gerações — das “Helenas” aos dilemas de Por Amor, passando por violência, amor, inclusão e recomeços que o público jamais esqueceu.



O cenário era solar, mas o que Maneco colocava em foco era o humano — com suas dores e contradições. Manoel Carlos tinha esse dom: colocar céu azul, praia, Leblon e cotidiano bonito como moldura e, dentro dela, fazer caber os afetos, os conflitos e os silêncios que todo mundo reconhece.


As Helenas, o Leblon, os diálogos… Maneco deixou uma marca. Mesmo o mais leigo dos espectadores identificava sua obra nos detalhes: a conversa aparentemente simples que virava terremoto, a frase que parecia pequena mas mudava tudo, o drama que acontecia enquanto o dia insistia em continuar lindo.


No início dos anos 90 eu era criança, mas tenho muitas recordações de cenas das novelas dele. E é curioso como a memória funciona: às vezes eu não lembro o dia, nem a sala, nem quem estava no sofá — mas lembro da cena. Lembro do choque. Lembro do sentimento. Porque Maneco escrevia assim: ele não passava por você, ele ficava.


Uma dessas lembranças é de História de Amor. A cena da personagem de Carla Marins, grávida, sendo empurrada para fora do carro pelo namorado, vivido por Ângelo Paes Leme. E, no meio daquela violência absurda, surge o médico interpretado por José Mayer, a caminho do próprio casamento, e é ele quem a salva. Foi ali que eu entendi, mesmo pequeno, que novela podia ser um soco — e, ao mesmo tempo, um espelho.


Depois vieram outras cenas que pararam o Brasil. A troca de bebês em Por Amor: uma mãe que, em nome do impossível, troca o filho vivo pelo bebê morto da própria filha. Uma decisão moralmente explosiva, costurada não com sensacionalismo, mas com dor e dilema — e é por isso que até hoje a gente debate aquela cena como se fosse um caso de família. E teve também a bala perdida no Leblon, aquela lembrança amarga de que a violência não pede licença, não escolhe classe social, não respeita “bairro nobre”. O sol estava lá, a praia estava lá — e a tragédia também.


E o Maneco não escrevia só cenas, ele escrevia temas. O alcoolismo aparecia em tantas de suas obras como uma ferida cotidiana, às vezes romantizada por quem olha de fora, mas devastadora pra quem vive por dentro. Ele mostrava o vício como o que ele é: doença, dependência, ruína lenta — e, ainda assim, humana. Em Mulheres Apaixonadas, a violência doméstica que chocou o país — a personagem da Helena Ranaldo apanhando de raquetadas — ele colocou também as lésbicas da trama, vividas pela Aline Moraes e a Paula Picareli, com coragem e naturalidade, num tempo em que isso ainda era tratado como tabu em muita sala de estar brasileira.


Em Páginas da Vida, com a personagem da Joana Mocarzel, a Síndrome de Down ganhou rosto, história, cotidiano, dignidade. Não era “lição de moral” encaixada: era vida, convivência, afeto, desafio real. E em Viver a Vida, a novela mostrou a vida de quem precisa continuar depois da paraplegia — o mundo que muda, a rotina que vira batalha, a reconstrução de uma autonomia que muita gente só entende quando a vida exige.


E, claro, não dá pra falar de Maneco sem lembrar das personagens que viraram monumentos. Como esquecer a Branca Letícia de Barros Mota, da Suzana Vieira? Aquilo era um show de ironia, controle, crueldade elegante e humor venenoso — uma personagem tão grande que parecia ocupar mais espaço do que o próprio cenário. E como não lembrar também das filhas das Helenas — Joyce, Eduarda, Camila — que davam raiva porque eram reais demais, porque lembravam alguém que a gente conhece, ou uma fase da gente mesmo.



No fim, Manoel Carlos escreveu um catálogo de lembranças do Brasil. Ele fazia novela, sim, mas entregava memória afetiva, debate público, conversa de família, assunto de rua. Mostrava que o cotidiano é, muitas vezes, o lugar onde mora o drama mais profundo. E talvez por isso a despedida dele pese tanto: porque não é só o fim de um autor — é o fim de um jeito de contar o Brasil por dentro, com humanidade, com coragem e com detalhes que ninguém esquecia. Um autor como o Brasil talvez nunca mais veja outro igual.




 
 
 

Por Raul Silva para O estopim | 01 de outubro de 2025


Página inicial do prefácio de Bauman
Página inicial do prefácio de Bauman - Foto: Raul Silva

Bem-vindos ao nosso primeiro Diário de Leitura, uma nova seção que irá compor a parte literária do site O Estopim.


Neste espaço, vamos mergulhar em obras que nos ajudem a decifrar o complexo quebra-cabeça do nosso tempo. E para inaugurar este projeto, nada mais apropriado do que a leitura do livro Modernidade Líquida, do sociólogo polonês Zygmunt Bauman. A motivação para começar com este livro é clara: a necessidade urgente de tentar entender a sociedade atual e o mundo em que vivemos, especialmente em uma era marcada pela pós-verdade, pela desinformação e por uma sensação de instabilidade constante.


Vamos, juntos, refletir sobre o que Bauman nos diz e como suas palavras, escritas na virada do milênio, parecem descrever perfeitamente o nosso presente.


A metáfora central: o Mundo se tornou Líquido


Bauman inicia sua reflexão com uma metáfora poderosa e que guiará todo o seu pensamento: a "fluidez" ou "liquidez" como o estado que define a nossa fase da modernidade. Ele recorre a uma definição quase de enciclopédia para nos lembrar das qualidades dos fluidos: eles não mantêm a forma, mudam constantemente sob pressão e, para eles, o que realmente importa é o fluxo do tempo, não o espaço que ocupam momentaneamente.


Ao contrário dos sólidos, que são estáveis, resistentes e neutralizam a passagem do tempo, os líquidos são móveis, leves e inconstantes. Pense nisso por um instante. Quantas áreas da nossa vida hoje não parecem se encaixar nessa descrição? Os empregos que já não são para a vida toda, os relacionamentos que se formam e dissolvem com a rapidez de um "match", as informações que nos inundam e desaparecem na mesma velocidade, as identidades que precisamos constantemente reconstruir nas redes sociais. Tudo parece ter perdido a solidez de outrora. A estabilidade virou sinônimo de estagnação, e a capacidade de se mover rápido, de viajar leve, tornou-se o maior dos trunfos.


Capa do livro - Editora Zahar - Foto: Raul Silva
Capa do livro - Editora Zahar - Foto: Raul Silva

Bauman, de forma brilhante, resgata a famosa frase de Karl Marx sobre a modernidade ter como principal tarefa "derreter tudo o que é sólido". No entanto, ele argumenta que essa tarefa mudou radicalmente de propósito.


Na primeira fase da modernidade, que podemos chamar de "sólida", o objetivo era derreter as velhas estruturas – como as tradições, as lealdades familiares e os costumes – para substituí-las por sólidos novos e melhores: o Estado-nação, a burocracia, as fábricas, as classes sociais bem definidas. Era preciso demolir a velha ordem para construir uma nova, que se pretendia mais racional, previsível e duradoura.


O que vivemos agora, na modernidade líquida, é um segundo momento desse derretimento. O alvo não é mais as velhas tradições, mas sim os próprios alicerces que a modernidade sólida construiu. Agora, o que derrete são "os elos que entrelaçam as escolhas individuais em projetos e ações coletivas". Derretem-se os laços de solidariedade, a confiança nas instituições, a capacidade de ação política conjunta. O derretimento tornou-se um fim em si mesmo, uma condição permanente.


O Poder na Era Líquida: da vigilância à fuga


Talvez a análise mais impactante deste prefácio seja sobre a transformação do poder. Na modernidade sólida, o poder era pesado, territorial e se exercia através do controle e da vigilância. Bauman usa o modelo do Panóptico de Foucault como a metáfora perfeita: os chefes precisavam estar presentes para vigiar e gerenciar os subordinados, que, por sua vez, estavam presos a um lugar (a fábrica, a prisão, a escola). Havia um engajamento mútuo, ainda que conflituoso, entre capital e trabalho, entre governantes e governados.


Uma sociedade de consumidores e de ausência de certezas - Foto: Reprodução.
Uma sociedade de consumidores e de ausência de certezas - Foto: Reprodução.

Hoje, o poder tornou-se extraterritorial. A principal técnica de poder não é mais o confronto direto ou a administração, mas "a fuga, a astúcia, o desvio e a evitação". O poder flui. A elite global contemporânea é nômade; ela governa à distância, sem precisar se responsabilizar pelo território ou pelo bem-estar das populações assentadas.


Isso se manifesta de formas muito concretas no nosso mundo:


  • No Brasil e no Mundo: Pensemos na "uberização" do trabalho. Uma empresa global, cujo poder reside em um algoritmo etéreo, domina uma massa de trabalhadores individuais e desorganizados, sem oferecer os "sólidos" direitos trabalhistas do passado. O poder da empresa está justamente em sua leveza e mobilidade, na sua capacidade de se desengajar de qualquer responsabilidade local.


  • Guerras Recentes: Bauman cita as guerras do Golfo e da Iugoslávia como exemplos de um novo tipo de conflito "atingir e correr", em que o objetivo não é mais a conquista de território (um fardo sólido e caro), mas a destruição de barreiras para permitir o fluxo do poder global. As guerras com drones, onde o soldado opera a milhares de quilômetros de distância, são a apoteose dessa lógica.


O indivíduo à deriva e a sede por solidez


Se o poder se liquefez e se tornou inalcançável, o que acontece conosco, os indivíduos? A responsabilidade pela construção de uma vida coerente e segura foi totalmente privatizada e transferida para os nossos ombros. Instituições que antes serviam como referência – a família, a classe, a comunidade – tornaram-se o que Ulrich Beck chama de "categorias zumbi": estão "mortas e ainda vivas", não oferecem mais um porto seguro, mas ainda assombram nosso imaginário.


É nesse cenário de incerteza e insegurança que podemos entender a ascensão da desinformação e da pós-verdade. Em um mundo líquido, sem pontos de referência estáveis e confiáveis, as pessoas se agarram desesperadamente a qualquer coisa que pareça sólida. Uma teoria da conspiração, por mais absurda que seja, oferece uma narrativa coesa e estável sobre um mundo assustadoramente caótico. Um líder autoritário que promete restaurar uma ordem perdida oferece uma ilusão de solidez e controle. A polarização política no Brasil e em outros lugares do mundo pode ser vista como essa busca desesperada por certezas em um oceano de fluidez.


A leitura deste prefácio de Bauman não oferece respostas fáceis, mas nos entrega uma ferramenta analítica poderosa. Ele nos ajuda a entender que a ansiedade, a efemeridade e a instabilidade que sentimos não são falhas individuais, mas a própria lógica do mundo em que vivemos. Este é apenas o começo da nossa jornada por Modernidade Líquida. As questões que ficam são profundas: é possível recriar laços de solidariedade em um mundo que nos empurra para o individualismo? Como podemos construir um futuro coletivo quando o poder se tornou mestre na arte da fuga? Continuaremos essa reflexão em nosso próximo Diário de Leitura.



 
 
 
bottom of page