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Educação

Por Michael Andrade, da redação de O Estopim | Fonte: Agência Brasil | terça-feira (9) de junho de 2026


MEC Idiomas oferece aulas interativas, teste de conhecimento, trilhas de aprendizagem e certificação do nível básico ao avançado.


Foto: Reprodução
Foto: Reprodução

O Ministério da Educação lançou o MEC Idiomas, uma plataforma gratuita voltada ao estudo de inglês e espanhol. A ferramenta está disponível em formato de site e aplicativo, com lições interativas, acompanhamento do aprendizado e certificação.


Segundo o MEC, a proposta é que o sistema funcione como o primeiro ponto de contato digital entre estudantes iniciantes e o idioma escolhido.


A plataforma permite avaliar o nível de conhecimento do usuário, montar trilhas de aprendizagem, acessar aulas e reforços, testar o conteúdo a cada módulo, tirar dúvidas e praticar conversação.


As aulas de inglês e espanhol estão organizadas em seis níveis, do básico ao avançado. Atualmente, o sistema conta com cerca de 800 aulas disponíveis.


Para utilizar a ferramenta, os interessados devem acessar o MEC Idiomas pelo site ou aplicativo, fazer login com a conta Gov.br, escolher o idioma de interesse, realizar o teste de conhecimento e iniciar as aulas.


O MEC Idiomas integra o programa Idiomas sem Fronteiras (IsF), política pública voltada à internacionalização da educação superior brasileira e ao fortalecimento da formação linguística.


A iniciativa busca apoiar estudantes, professores e técnicos administrativos de instituições de ensino superior, além de contribuir para a formação de professores de línguas estrangeiras.


O programa também contempla a formação de estrangeiros em língua portuguesa e ações de apoio à capacitação de professores da educação básica.


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Em Gravatá, delegados e delegadas discutem o Plano Nacional de Educação, os riscos da política de premiação docente, o avanço do conservadorismo nas escolas e a defesa da diversidade como parte do plano de lutas da educação pública em Pernambuco.



Por Raul Silva para O estopim | 28 de Maio de 2026


Painel no 12º Congresso do SINTEPE com quatro debatedores, dois aplaudindo, mesa vermelha e fundo com o texto do evento.
Primeira mesa do dia com os professores Flávio Brayner da UFPE e Pedro Silva do IPEA | Foto: Raul Silva/Agência O estopim+

O segundo dia do 12° Congresso do Sintepe, realizado nesta quarta-feira (27), no Hotel Canárius, em Gravatá, no Agreste de Pernambuco, concentrou parte das discussões mais estratégicas da programação ao colocar no centro do debate o futuro da escola pública, a valorização dos trabalhadores em educação, a disputa em torno do Plano Nacional de Educação, a crítica aos sistemas de premiação docente, o enfrentamento ao conservadorismo nas escolas e a defesa dos direitos humanos, de gênero e diversidade.


Com o tema “Educação, democracia, soberania e justiça socioambiental”, o encontro reúne delegados, suplentes, observadores e convidados de diferentes regiões do Estado entre os dias 26 e 29 de maio. O congresso é a principal instância deliberativa do sindicato e tem como objetivo atualizar o plano de lutas da categoria a partir da conjuntura política, educacional e sindical.


A programação do segundo dia reforçou que o debate sobre educação pública em Pernambuco não se limita à pauta salarial, embora a remuneração siga como eixo incontornável da valorização profissional. As falas dos palestrantes e as intervenções da base apontaram para uma leitura mais ampla: defender a escola pública exige financiamento, carreira, condições de trabalho, liberdade pedagógica, gestão democrática, proteção contra violências políticas e reconhecimento da diversidade que compõe a comunidade escolar.


Mesa de debate no 12º Congresso do SINTPE, com cinco palestrantes em palco vermelho e fundo com lema sobre educação e democracia.
Mesa dedicada ao PNE com o professor Heleno Araújo e as professora Dalila Andrade e Iana Gomes | Foto: Raul Silva/Agência O estopim+

A mesa dedicada ao Plano Nacional de Educação reuniu o professor Heleno Araújo, a professora Dalila Andrade, da Universidade Federal de Minas Gerais, e a professora Iana Gomes, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. O debate partiu de uma constatação comum aos três eixos apresentados: o PNE não pode ser tratado como um documento distante da vida cotidiana das escolas.


Na discussão, o plano apareceu como instrumento de disputa sobre que projeto de educação o país pretende sustentar nos próximos anos. O PNE define metas sobre financiamento, acesso, permanência, qualidade, formação, carreira, gestão democrática e redução de desigualdades. Por isso, para o movimento sindical, sua execução depende de pressão social, acompanhamento permanente e capacidade de transformar metas legais em políticas públicas reais.


Heleno Araújo, dirigente histórico da educação e nome ligado à Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação e à Internacional da Educação, situou o PNE dentro de uma agenda maior de democracia e soberania. A leitura apresentada no debate associa a defesa do plano à necessidade de participação popular, valorização dos profissionais e enfrentamento das desigualdades regionais e sociais que ainda atravessam a escola pública brasileira.


Essa abordagem conecta o tema nacional à realidade concreta da rede estadual de Pernambuco. Para os trabalhadores em educação, discutir PNE significa discutir piso, carreira, concurso público, infraestrutura escolar, formação continuada, saúde do trabalhador, gestão democrática e permanência estudantil. Não se trata apenas de acompanhar metas em relatórios oficiais, mas de verificar se elas chegam às salas de aula, às bibliotecas, aos laboratórios, às cozinhas, às quadras e às secretarias escolares.


Homem fala ao microfone em palco vermelho do 12º Congresso do SINTEPE, com laptop, telão e slides ao fundo.
Professor Heleno Araújo em sua fala sobre a LDB | Foto: Raul Silva/Agência O estopim+

Um dos pontos mais sensíveis do segundo dia foi a crítica aos sistemas de premiação docente. A discussão questionou políticas que substituem valorização permanente por bonificações pontuais, rankings, metas padronizadas e competição entre escolas ou profissionais.


A crítica não rejeita avaliação pública nem acompanhamento de resultados. O centro do argumento é outro: quando a política educacional reduz qualidade a desempenho em indicadores estreitos, a escola passa a responder mais à lógica da mensuração do que às necessidades reais dos estudantes. Esse modelo tende a desconsiderar diferenças territoriais, desigualdades socioeconômicas, condições de trabalho e a natureza coletiva do processo pedagógico.


Dalila Andrade contribuiu para esse debate ao tratar o trabalho docente como parte de uma estrutura que envolve carreira, formação, tempo de planejamento, saúde, estabilidade, remuneração e autonomia profissional. A valorização, nessa perspectiva, não pode aparecer como prêmio eventual concedido a quem atinge determinada meta. Ela precisa ser política de Estado, com continuidade, orçamento e reconhecimento do conjunto dos trabalhadores da educação.


A preocupação discutida no congresso é que políticas de premiação podem produzir efeitos contrários ao discurso oficial de melhoria. Ao estimular competição, elas enfraquecem a cooperação entre escolas. Ao premiar resultados finais sem enfrentar condições desiguais de partida, podem penalizar justamente unidades que atendem populações mais vulneráveis. Ao individualizar responsabilidades, podem esconder falhas estruturais do poder público.


Mulher fala ao microfone em palco vermelho no 12º Congresso do SINTEPE, com telão vermelho ao fundo.
Professora Iana Gomes em sua explanação dos dados sobre o avanço do conservadorismo nas escolas | Foto: Raul Silva/O estopim+

A professora Iana Gomes levou ao debate a reflexão sobre o avanço do conservadorismo nas escolas e suas conexões com políticas educacionais, currículo, liberdade de ensinar e direitos humanos. A discussão mostrou que a escola pública se tornou um dos espaços centrais da disputa política no país.


Nos últimos anos, campanhas contra discussões de gênero, diversidade, raça, desigualdade e direitos humanos buscaram constranger professores, limitar práticas pedagógicas e transformar conflitos sociais em perseguição a educadores. No congresso, esse tema apareceu como ameaça concreta à liberdade de cátedra, à gestão democrática e ao papel da escola como ambiente de formação cidadã.


A relação entre conservadorismo e premiação docente também foi colocada em perspectiva. Em ambos os casos, a escola é pressionada por forças externas que tentam reduzir sua complexidade. De um lado, indicadores e metas podem estreitar o sentido de qualidade. De outro, movimentos conservadores tentam impor silêncio sobre temas que atravessam a vida dos estudantes. A defesa feita no debate aponta para uma escola que ensina conteúdos, mas também forma sujeitos capazes de conviver com a diferença, reconhecer direitos e participar da democracia.


Mulher fala ao microfone com um braço erguido em palco vermelho, diante de painéis com texto como Clientelismo e Mérito.
Professora Denise Botelho (UFRPE) em sua fala sobre mulheres | Foto: Raul Silva/Agência O estopim+

A mesa dedicada ao debate de gênero ampliou a leitura do congresso sobre democracia. A presença de Denise Botelho (UFRPE), educadora e militante do movimento LGBTQIAPN+, reforçou que a defesa da educação pública passa também pelo enfrentamento à violência, à discriminação e à exclusão de estudantes e profissionais que fogem dos padrões historicamente impostos por estruturas conservadoras.


A discussão deslocou o tema da diversidade do campo simbólico para o campo concreto das políticas educacionais. Uma escola democrática precisa proteger estudantes LGBTQIAPN+, mulheres, pessoas trans, travestis, pessoas negras, indígenas, quilombolas, pessoas com deficiência e todos os grupos que sofrem violações dentro e fora do ambiente escolar.


Na prática, isso exige formação dos profissionais, protocolos contra violência, acolhimento, currículo comprometido com direitos humanos e atuação institucional contra o assédio moral, a transfobia, a LGBTfobia, o racismo e a misoginia. O debate também expôs que neutralidade, quando usada para silenciar violações, não protege a escola. Ao contrário, pode naturalizar desigualdades.


A fala de Denise Botelho se integrou ao eixo central do congresso ao tratar diversidade como dimensão da democracia. A escola pública, nesse sentido, não é apenas lugar de matrícula. É espaço de permanência, reconhecimento, segurança e construção de cidadania.


Homem de terno fala ao microfone em palco vermelho no 12º Congresso do SINTEPE, com mesa de debatedores ao fundo.
Professor Flávio Brayner do IPEA | Foto: Raul Silva/Agência O estopim+

As diretoras Marília Cibelli e Katiane Cavalcanti aparecem nos registros públicos do segundo dia como parte da condução política dos debates. A presença delas reforça a função do congresso como espaço de mediação entre análise conjuntural, formulação sindical e experiência concreta da categoria nas escolas.


Esse ponto é decisivo. Em um congresso sindical, a palestra não encerra a discussão. Ela organiza problemas, apresenta diagnósticos e provoca a base a transformar reflexão em encaminhamento. As intervenções dos delegados e delegadas são parte do processo que define resoluções, prioridades e formas de mobilização.


No segundo dia, as discussões indicaram que o plano de lutas do Sintepe deve dialogar com uma agenda ampla: defesa do PNE, valorização da carreira, combate à precarização, crítica às políticas de bônus, enfrentamento ao conservadorismo, proteção da liberdade pedagógica, defesa da diversidade e cobrança por melhores condições de funcionamento da rede estadual.


Mulher de blusa azul-escura, olhar sério, diante de fundo branco com bandeira desfocada.
Governadora Raquel Lyra, recentemente denunciada pelo Sintepe ao MPPE e ao TCE-PE por possíveis fraudes em pagamentos de reformas em escolas da rede pública de Pernambuco que nunca foram realizadas | Foto: Raul Silva/Agência O estopim+

O debate nacional ganha contornos específicos em Pernambuco. A rede estadual convive com desafios que envolvem infraestrutura, remuneração, carreira, gestão, contratos, saúde dos profissionais, permanência estudantil e desigualdades territoriais. Quando o congresso discute PNE, premiação docente e conservadorismo, não fala apenas de conceitos. Fala das condições reais de trabalho em escolas espalhadas pela Região Metropolitana do Recife, Zona da Mata, Agreste e Sertão.


A categoria chega ao congresso com uma pauta que exige respostas do poder público. A defesa da escola pública aparece ligada à fiscalização de investimentos, à execução de reformas, ao cumprimento de direitos, à garantia de condições materiais e ao reconhecimento dos trabalhadores em educação como sujeitos centrais da política educacional.


Nesse sentido, o segundo dia funcionou como uma espécie de ponte entre diagnóstico e ação. Os palestrantes trouxeram fundamentos políticos e acadêmicos. A base sindical trouxe a experiência do cotidiano. A síntese que emerge desse encontro é que a qualidade da educação pública não se constrói com slogans, nem com premiações isoladas, nem com censura pedagógica. Ela depende de financiamento, democracia e trabalho valorizado.


Cartaz vermelho do 12º Congresso do Sintepe, com fotos de pessoas e igrejas, e texto branco e amarelo.
12° Congresso do SINTEPE | Fonte: Sintepe

O 12º Congresso do Sintepe segue até sexta-feira, 29 de maio. Até lá, os participantes devem consolidar avaliações, propostas e encaminhamentos que orientarão a atuação do sindicato no próximo período.


O segundo dia deixou evidente que a disputa pela educação pública em Pernambuco passa por uma agenda que combina questões materiais e democráticas. Salário, carreira e condições de trabalho são inseparáveis de currículo, liberdade pedagógica, diversidade, participação social e justiça socioambiental.


Ao reunir professores, professoras, trabalhadores administrativos, dirigentes sindicais, pesquisadores e militantes sociais, o congresso reafirma que a escola pública é um dos principais territórios de disputa do país. A questão que atravessa as mesas e plenárias é direta: sem democracia na educação, não há democracia plena na sociedade.


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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo do portal O estopim. Atua na cobertura de política, educação, direitos sociais e temas de interesse público, com foco em apuração, contexto e impacto para a vida coletiva.

Por Helena Valente para O estopim | 23 de Maio de 2026



A denúncia apresentada pelo Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Pernambuco, o Sintepe, sobre possíveis irregularidades em contratos de manutenção e reforma de escolas estaduais colocou a gestão Raquel Lyra diante de uma pergunta que não cabe mais na propaganda oficial: onde foi parar o dinheiro destinado à educação pública? O caso ganhou força após vídeo da presidenta licenciada do sindicato, Ivete Caetano, circular com imagens de boletins de medição, valores milionários e escolas que, segundo a entidade, seguem com infiltrações, mofo, risco elétrico, forros quebrados e ambientes sem condições adequadas para estudantes e profissionais.


O episódio atinge o centro do discurso político da governadora. Raquel Lyra tem repetido que passou parte do governo “arrumando a casa” e que agora Pernambuco “acelerou”. A denúncia do Sintepe inverte o sentido da frase e impõe outra leitura: se a casa foi arrumada, por que escolas listadas como atendidas por reformas continuam parecendo abandonadas? Se o governo acelerou, acelerou a entrega real ou acelerou a liberação de pagamentos sem garantia pública de resultado?


A pergunta é dura, mas necessária. Não se trata de afirmar, sem conclusão dos órgãos de controle, que houve desvio. Trata-se de cobrar explicação imediata sobre a distância entre a planilha oficial e a parede mofada, entre o boletim de medição e o fio exposto, entre o valor liquidado e a sala sem segurança.


Fachada branca de prédio alto com janelas verticais, galhos de árvore na frente e brasão na base.
Fachada da ETEPAM, escola que consta como recém reformada e onde os boletins de medição afirmam que foram gastos mais de R$ 2 milhões em melhorias | Foto: Sintepe

O Sintepe afirma ter coletado informações no Portal da Transparência do Governo de Pernambuco sobre um contrato de manutenção de escolas no valor total de R$ 182.784.905,05. Segundo a entidade, o contrato teria abrangido 798 unidades de ensino em todo o Estado.


A partir de boletins de medição de obra, o sindicato informou ter analisado parte da documentação e realizado vistoria presencial em uma amostra de dez escolas. A conclusão apresentada em coletiva foi grave: unidades que aparecem como contempladas por serviços de manutenção e reforma seguiriam com problemas estruturais incompatíveis com os valores informados.


Entre os problemas apontados estão:

  • infiltrações e mofo em paredes, tetos e salas de aula;

  • fiação exposta e risco de choque elétrico;

  • ambientes interditados ou inadequados para atividades pedagógicas;

  • banheiros sem condições adequadas de uso;

  • quadras deterioradas;

  • climatização insuficiente;

  • relatórios fotográficos com possíveis inconsistências;

  • suspeita de repetição de imagens em boletins de medição de períodos diferentes.


O sindicato diz ter encaminhado a denúncia ao Tribunal de Contas do Estado, ao Ministério Público de Pernambuco e ao Tribunal de Contas da União. A apuração desses órgãos será decisiva para separar erro administrativo, falha de fiscalização, irregularidade contratual e eventual dano ao erário.


Em vídeo publicado nas redes sociais, Ivete Caetano aparece diante da Escola ETEPAM e apresenta documentos, mostrando valores que passam de R$ 1,4 milhão, R$ 1,6 milhão e R$ 2,3 milhões para intervenções em unidades da rede estadual. Ela questiona, como escolas que aparecem em registros oficiais de manutenção continuam com sinais de precariedade.


Esse é o ponto central. O caso não depende apenas da retórica oposicionista nem da defesa automática do Palácio. O que precisa ser respondido é documental: qual serviço foi contratado, qual serviço foi executado, quem mediu, quem atestou, quem pagou, qual fonte de recurso foi usada e qual escola recebeu efetivamente cada intervenção.


A força da fala de Ivete Caetano está justamente na exposição de uma contradição concreta. Se o boletim informa manutenção elétrica, por que há denúncia de risco elétrico? Se o relatório fotográfico comprova serviço, por que o Sintepe aponta repetição de imagens? Se a escola foi reformada, por que professores e estudantes ainda convivem com mofo, infiltração e teto comprometido?



A denúncia vem sendo tratada no debate público como mais um escândalo na educação pernambucana e levanta questionamentos sobre dinheiro vinculado à educação, especialmente em um ambiente de confusão entre Fundeb, Fundef, precatórios e despesas de manutenção.


Essa distinção importa. O Fundeb financia a educação básica e possui regras de vinculação. Parte dos recursos deve ser destinada à remuneração de profissionais da educação e outra parte pode custear ações de manutenção e desenvolvimento do ensino. Já os precatórios do Fundef, decorrentes de diferenças históricas no financiamento educacional, também carregam forte marca de vinculação à educação e de disputa jurídica com trabalhadores da área.


Por isso, a gestão estadual precisa responder com precisão: os R$ 182,7 milhões questionados saíram de qual fonte? Houve uso de recursos de precatórios do Fundef? Houve mistura com outras rubricas da educação? Algum valor relacionado ao Fundeb entrou na execução? As despesas foram classificadas corretamente? As escolas receberam o serviço correspondente ao que foi liquidado?


Quando o dinheiro é carimbado para educação, a régua de transparência precisa ser mais alta. Não basta dizer que houve manutenção. É preciso mostrar a ordem de serviço, a nota de empenho, a medição, a foto, o fiscal responsável, a liquidação, o pagamento e o resultado físico dentro da escola.


Teto de sala vazia com placas faltando, luminárias e alto-falantes; paredes cinza e porta azul ao fundo.
Auditório da ETEPAM após reforma | Fonte: Sintepe.

A denúncia revela uma fratura comum na administração pública: a diferença entre a escola que aparece na planilha e a escola que o estudante encontra quando chega para estudar.


Na planilha, há valores milionários, medições, relatórios, fotos e atestos. No chão da escola, segundo o Sintepe, há mofo, fiação exposta, teto quebrado e calor. Essa distância é o verdadeiro escândalo, independentemente do desfecho jurídico.


Se a manutenção foi paga e não resolveu o problema, houve ao menos falha de planejamento. Se a medição foi atestada sem execução adequada, houve falha de fiscalização. Se documentos foram repetidos ou usados para justificar serviços não realizados, o caso entra em patamar mais grave e precisa de responsabilização administrativa, civil e, se for o caso, criminal.


A pergunta que o governo precisa responder não é apenas “quanto foi investido?”. A pergunta correta é: o que mudou na escola depois que o dinheiro saiu do cofre público?


Armários azuis gastos com cadeados em corredor, com adesivos e arranhões; pequeno texto branco visível.
Armários usados na ETEPAM após melhorias estruturais feitas pelo Governo Raquel Lyra na escola | Fonte: Sintepe

A Secretaria de Educação informou à imprensa que vem empenhando esforços para tornar o ambiente escolar mais seguro e adequado ao processo de ensino e aprendizagem. Também afirmou que as escolas passam por serviços de manutenção, reforma e ampliação, além de citar repasses do Programa Investe Escola para ações pedagógicas, conservação e melhorias de infraestrutura.


Em manifestação ao Jamildo.com, a Secretaria declarou que não haveria impedimento legal para a contratação da empresa Cetus Construtora e que duplicidades em boletins de medição teriam sido identificadas e saneadas.


A resposta, no entanto, não encerra o caso. Ao contrário, abre novas perguntas. Se havia duplicidade, quando ela foi identificada? Quem identificou? Qual foi o impacto financeiro? Houve pagamento indevido? O valor foi glosado? A empresa foi notificada? Houve responsabilização de fiscais? A documentação corrigida foi publicada de forma acessível?


A expressão “saneada” não pode funcionar como borracha administrativa. Em contratos de quase R$ 183 milhões, toda inconsistência precisa deixar rastro público de correção.



A empresa citada nos registros e nas reportagens é a Cetus Construtora Ltda.. A discussão sobre a contratação envolve valores elevados, serviços espalhados por centenas de unidades e execução simultânea em regiões diferentes do Estado.


Esse tipo de contrato exige fiscalização robusta. Não basta que a empresa apresente boletim. O Estado precisa conferir a execução física, validar quantidades, verificar qualidade, cruzar datas, comparar fotos, ouvir a direção da escola e registrar eventuais falhas.


A administração pública não pode terceirizar a confiança. Quando uma escola continua com problema depois de uma suposta manutenção, o fiscal do contrato precisa explicar por que atestou. Quando a foto se repete, alguém precisa explicar por que ela passou. Quando o serviço é pago e o usuário final não percebe a melhoria, o gestor precisa mostrar o que foi feito.


O caso da educação não aparece isolado. Ele se soma a uma sequência de episódios em áreas sensíveis do governo estadual, especialmente na saúde, onde a narrativa de obras e requalificações também tem sido confrontada por imagens de precariedade.


No Hospital da Restauração, maior emergência pública de Pernambuco, o governo anunciou investimentos milionários em reforma, ampliação e requalificação. Ainda assim, vídeos recentes mostraram água invadindo áreas internas, parte do teto cedendo e relatos de pacientes e acompanhantes com medo durante as chuvas. Também circularam registros de vazamentos por luminárias, tomadas e paredes.


A comparação é inevitável porque o padrão político se repete: o governo anuncia obra, exibe número, produz peça publicitária e vende a ideia de aceleração. Depois, a realidade aparece por baixo da pintura, na água que escorre, no teto que cede, no fio exposto, no mofo e no medo de quem precisa usar o serviço público.


Educação e saúde são áreas diferentes, com contratos diferentes e fontes de recurso diferentes. Mas a pergunta pública é a mesma: o dinheiro anunciado está virando entrega real ou está virando apenas imagem de governo?


Governos têm direito de divulgar ações. Mas propaganda pública não pode ocupar o lugar da transparência. Quando uma gestão diz que “arrumou a casa”, precisa aceitar que a sociedade abra a porta e olhe os cômodos.


No caso das escolas, o que se vê nas denúncias do Sintepe é um choque entre narrativa e evidência. O governo diz que acelerou. O sindicato diz que encontrou escolas deterioradas apesar de pagamentos milionários. A imprensa mostrou que a própria Secretaria reconhece ter havido duplicidades em boletins, ainda que afirme que o problema foi corrigido.


Esse conjunto é suficiente para exigir investigação ampla. Não basta uma nota de assessoria. Pernambuco precisa saber se houve erro, negligência, desperdício, pagamento indevido ou fraude.


Fachada moderna do Tribunal de Contas de Pernambuco, com placa Edif. Dom Helder Câmara, vista em ângulo.
Tribunal de Contas do Estado de Pernambuco | Fonte: TCE/PE

O Tribunal de Contas, o Ministério Público e o Tribunal de Contas da União precisam atuar com rapidez, porque escolas continuam funcionando enquanto a apuração se arrasta.


O caminho mínimo passa por cinco providências:

  • auditoria dos contratos, empenhos, liquidações e pagamentos;

  • cruzamento entre boletins de medição e vistorias presenciais;

  • análise das fotografias usadas para comprovar execução;

  • identificação dos fiscais que atestaram cada serviço;

  • verificação da origem dos recursos e da compatibilidade com as regras da educação.


Também é necessário ouvir diretores, professores, estudantes, empresas contratadas, fiscais de contrato e gestores da Secretaria de Educação. A investigação não pode ficar limitada à formalidade dos documentos, porque a denúncia trata justamente da distância entre documento e realidade.


Mulher de camisa branca fala ao microfone em sala com painéis de madeira, em postura séria e concentrada.
Raquel Lyra atual governadora de Pernambuco | Foto: Reprodução

Raquel Lyra chegou ao governo prometendo gestão técnica, reconstrução administrativa e capacidade de entrega. A denúncia do Sintepe atinge esse núcleo de imagem. Se a gestão se vende como organizada, precisa provar que sabe controlar contratos. Se diz que acelerou, precisa demonstrar que a aceleração não atropelou a fiscalização.


O problema não é apenas contábil. É político, social e moral. Cada real mal aplicado em uma escola pública é retirado de estudantes que já enfrentam desigualdade, salas quentes, evasão, violência, falta de estrutura e desvalorização dos profissionais.


Não há política educacional séria quando o prédio adoece. Não há valorização do professor quando ele trabalha sob risco elétrico. Não há aprendizagem plena quando o aluno precisa dividir atenção entre a aula e a infiltração no teto.


O Governo de Pernambuco deve explicações objetivas à sociedade. Não basta dizer que investiu. Precisa provar que entregou.


As perguntas centrais são:

  • qual foi o valor total contratado, empenhado, liquidado e pago à Cetus Construtora na manutenção das escolas;

  • quais escolas foram atendidas e quais serviços foram realizados em cada unidade;

  • qual foi a fonte de recurso usada em cada pagamento;

  • quem foram os fiscais responsáveis por atestar os boletins;

  • quais boletins tiveram duplicidade ou inconsistência;

  • se houve glosa, ressarcimento, penalidade ou correção contratual;

  • por que escolas apontadas como reformadas seguem com problemas estruturais;

  • como o governo pretende proteger estudantes e servidores enquanto a apuração ocorre.


A resposta precisa vir com documentos, não com slogans.


O Sintepe e Ivete Caetano colocaram uma pergunta que o governo não pode tratar como ataque político: cadê a reforma das escolas?


A sociedade pernambucana tem o direito de fazer outra: se a gestão passou três anos dizendo que arrumava a casa e agora diz que acelerou, acelerou exatamente o quê?


A resposta precisa aparecer nas escolas. Não no vídeo oficial, não no discurso de palanque, não na placa de obra. Precisa aparecer na sala sem mofo, no banheiro funcionando, no fio protegido, na quadra segura, no teto firme e no dinheiro público aplicado onde deveria estar.


Enquanto isso não acontecer, a denúncia sobre os R$ 183 milhões continuará sendo mais que uma disputa entre governo e sindicato. Será um retrato incômodo de um Estado que anuncia transformação, mas ainda precisa provar que transformou a vida de quem depende da escola pública.


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Helena Valente é repórter especial e analista de Educação de O estopim. Dedica sua cobertura às políticas públicas, ao financiamento da educação, às desigualdades escolares e aos impactos das decisões de Brasília no cotidiano de estudantes, professores e comunidades. Sua escrita une apuração, análise crítica e compromisso com a defesa da escola pública, gratuita, laica, inclusiva e socialmente referenciada.

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