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Por Michael Andrade, da redação O estopim | 18 de janeiro de 2026


O Governo Federal lançou o Tela Brasil, uma plataforma pública de streaming gratuita dedicada ao audiovisual brasileiro. O projeto é desenvolvido no âmbito da Secretaria do Audiovisual (SAV), em parceria com a Universidade Federal de Alagoas (UFAL).


Imagem: Divulgação



Por enquanto, o aplicativo está disponível apenas para celulares Android, pela Google Play Store. Para acessar, o usuário faz login com a conta gov.br, integrando o cadastro aos serviços digitais do governo.


A plataforma funciona como vídeo sob demanda (VOD) e reúne títulos de diferentes formatos e gêneros: ficção, documentários, animações, séries, além de obras licenciadas e conteúdos ligados a acervos públicos. O app também informa que as obras contam com recursos de acessibilidade e podem ser exibidas em espaços públicos.


Reportagens sobre o lançamento apontam que a meta inicial é disponibilizar cerca de 555 obras, com investimento de R$ 4,4 milhões, incluindo títulos premiados e itens de acervos como a Cinemateca Brasileira e a Fundação Cultural Palmares.


Além do entretenimento, o Tela Brasil também tem proposta educativa: servir como ferramenta de apoio em escolas, ampliando o acesso ao cinema nacional e fortalecendo o uso de obras brasileiras em atividades pedagógicas, Tudo sem pesar no bolso e com muita cultura. Já baixou aí?


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O estopim — O começo da notícia!


 
 
 

Por Raul Silva | Especial para O Estopim


Se 2025 foi o ano em que o mundo redescobriu o cinema brasileiro, 2026 começa com a confirmação de que viemos para ficar no topo. Na noite deste domingo (11), Wagner Moura tornou-se o primeiro ator latino-americano a vencer o prêmio de Melhor Ator em Filme de Drama no Globo de Ouro, por sua interpretação devastadora em "O Agente Secreto", de Kleber Mendonça Filho.


Desbancando favoritos de Hollywood como Michael B. Jordan e Oscar Isaac, a vitória de Moura não é apenas um triunfo individual; é a legitimação de uma narrativa brasileira que ousa olhar para suas próprias feridas sem pedir licença.


Wagner Moura e seu Golo de Ouro de Melhor Ator de Drama | Foto: Reprodução
Wagner Moura e seu Golo de Ouro de Melhor Ator de Drama | Foto: Reprodução

A atuação: o peso do silêncio


Em "O Agente Secreto", Moura vive Marcelo, um professor universitário que chega ao Recife de 1977 tentando fugir de um passado misterioso, apenas para se ver cercado pela paranoia da Ditadura Militar. Diferente da explosão física que marcou seu Capitão Nascimento, aqui Moura entrega uma performance de contenção.


A crítica internacional, que já havia lhe concedido a palma de Melhor Ator em Cannes no ano passado, destacou sua capacidade de transmitir o terror do Estado de Exceção apenas com o olhar. É uma atuação construída nas entrelinhas, no medo do que não é dito — uma metáfora perfeita para o sufocamento da época.


Discurso político e ovacionado


Ao subir ao palco do Beverly Hilton, visivelmente emocionado, Wagner Moura fez questão de conectar o passado do filme ao presente. Em um discurso que misturou inglês e português, ele dedicou o prêmio à memória cultural do Brasil.


"Este prêmio pertence a Kleber Mendonça Filho, que filmou nossa história com a dignidade que ela merece. E pertence a todos os artistas brasileiros que, assim como meu personagem, recusaram-se a desaparecer. A arte é a única vigilância que aceitamos." — (Reconstrução jornalística do discurso).

Se 2025 foi o ano em que o mundo redescobriu o cinema brasileiro, 2026 começa com a confirmação de que viemos para ficar no topo. Na noite deste domingo (11), Wagner Moura tornou-se o primeiro ator latino-americano a vencer o prêmio de Melhor Ator em Filme de Drama no Globo de Ouro, por sua interpretação devastadora em "O Agente Secreto", de Kleber Mendonça Filho.
Wagner Moura e seu Golo de Ouro de Melhor Ator de Drama | Foto: Reprodução

Pernambuco no centro do mundo


Para o leitor de O Estopim, é impossível ignorar a geografia dessa vitória. Wagner Moura, um baiano, foi consagrado vivendo uma história pernambucana, filmada nas ruas do Recife, sob a direção de um recifense. A vitória consolida o Nordeste não como um cenário "exótico", mas como o centro intelectual e criativo do cinema nacional contemporâneo.


A "dobradinha" de prêmios (Filme Estrangeiro e Ator) coloca "O Agente Secreto" em uma posição inédita para o Oscar. A Academia, que muitas vezes ignora atuações em língua não-inglesa nas categorias principais, agora se vê obrigada a olhar para Moura.


Vencer na categoria de Drama, e não apenas em categorias segregadas ou de comédia, coloca o ator brasileiro no mesmo patamar das lendas da indústria. Wagner Moura quebra hoje a última barreira que restava para os atores brasileiros no exterior: a de serem vistos como protagonistas universais, capazes de carregar o peso dramático de qualquer história.


O Brasil acordou hoje maior. E a nossa cultura, mais uma vez, provou ser nossa melhor embaixadora.


 
 
 

Por Raul Silva para Radar Literário d'O estopim | 26 de setembro de 2025


Publicado em 2015, "Ainda Estou Aqui", de Marcelo Rubens Paiva, subverte a definição de um simples livro de memórias para se firmar como um artefato cultural de rara potência. É, na verdade, uma obra híbrida e multifacetada que se tece com os fios da biografia íntima, do testemunho histórico, do jornalismo investigativo e do ensaio filosófico. A genialidade de Paiva está em fundir esses gêneros de forma orgânica, criando um texto que é ao mesmo tempo documento e desabafo.


Confira nossa resenha em áudio

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Justiça, memória e a luta de Eunice Paiva contra a Ditadura e o AlzheimerRadar Literário

Capa do livro - Editora Alfaguara
Capa do livro - Editora Alfaguara

No seu cerne, o livro é um poderoso e comovente tratado sobre a memória e a luta desesperada contra o seu apagamento em duas frentes simultâneas e igualmente trágicas: a batalha de uma família contra o esquecimento deliberadamente imposto por um Estado autoritário e a batalha de um filho contra a dissolução da identidade de sua mãe pela névoa impiedosa do Alzheimer. Essas duas batalhas não correm em paralelo; elas se entrelaçam, dialogam e se espelham, mostrando que o esquecimento, seja ele forçado pela violência política ou pela falha da biologia, é sempre uma forma de aniquilamento.


A narrativa se constrói sobre um pilar duplo de perdas, erguendo um monumento à resiliência humana. De um lado, acompanhamos a saga incansável de Eunice Paiva, mãe do autor, em busca da verdade sobre o destino de seu marido, o deputado Rubens Paiva. Figura política proeminente e cassada pelo regime, ele foi sequestrado, torturado e assassinado por agentes da ditadura militar brasileira em 1971, tornando-se um dos mais emblemáticos "desaparecidos políticos" do país.


Por mais de quatro décadas, Eunice enfrentou a burocracia kafkiana, o silêncio cúmplice e a negação sistemática das Forças Armadas. Ela transformou seu luto pessoal em uma bandeira política, convertendo a dor da ausência em ação incessante pela memória e pela justiça. Sua luta não era apenas por um corpo para enterrar, mas pelo direito à verdade, tornando-se a personificação da resistência contra o projeto de esquecimento histórico que, sob o pretexto de uma "reconciliação", tentou varrer para debaixo do tapete os crimes e as feridas abertas do regime.


Em um espelhamento cruel e paradoxal do destino, enquanto Eunice luta para que a memória de seu marido não seja apagada da história do Brasil, seu filho, Marcelo, trava uma batalha inversa e igualmente dolorosa: ele luta para preservar as memórias de sua mãe, que começam a ser implacavelmente roubadas pelo Mal de Alzheimer.


Eunice Paiva e Rubens Paiva - Foto: Acervo pessoal da família Paiva
Eunice Paiva e Rubens Paiva - Foto: Acervo pessoal da família Paiva

A sobreposição dessas duas jornadas é o que confere ao livro sua força avassaladora e seu impacto universal. Paiva narra com uma honestidade brutal, que não poupa o leitor dos detalhes mais crus da degenerescência, e, ao mesmo tempo, com uma ternura infinita, o processo de desintegração cognitiva de Eunice. Ele descreve a perda progressiva das palavras, dos nomes dos filhos, dos rostos familiares e, por fim, da própria noção de si. Ele documenta não a morte física de sua mãe, mas a dolorosa metamorfose de uma das mentes mais brilhantes e ativas de sua geração — uma advogada combativa, uma mãe presente — em uma sombra de si mesma, presa em um labririnto interior. A crueza dessa descrição serve a um propósito maior: o de mostrar que a perda da memória é uma forma de desaparecimento em vida.


A genialidade da estrutura narrativa de Paiva reside em sua recusa a uma cronologia linear, optando por uma abordagem que reflete a própria desordem da memória. O livro é um mosaico, uma colagem de fragmentos que espelha a natureza caótica do trauma e do esquecimento. Capítulos que funcionam como um diário íntimo sobre o avanço da doença e os desafios práticos e emocionais do cuidado são intercalados com flashbacks vívidos da infância do autor, transcrições de documentos oficiais da Comissão da Verdade, cartas pessoais, reportagens da época e trechos da minuciosa investigação sobre o sequestro e assassinato de Rubens Paiva.


Essa polifonia de vozes e textos cria uma experiência de leitura imersiva e, por vezes, sufocante. Ao saltar de um laudo pericial frio para uma lembrança afetuosa, Paiva coloca o leitor diretamente no centro do caos emocional e histórico vivido pela família. Essa desorientação temporal, portanto, é uma escolha estética e política: ela não apenas espelha a mente fragmentada de Eunice, mas emula a própria memória fraturada de uma nação que ainda luta para montar o quebra-cabeça de seu passado.


Eunice Paiva, acompanhada do filho Marcelo Rubens Paiva, recebe a certidão de óbito de Rubens Paiva, seu marido desaparecido desde 1971 - Imagem: Eduardo Knapp/Folhapress
Eunice Paiva, acompanhada do filho Marcelo Rubens Paiva, recebe a certidão de óbito de Rubens Paiva, seu marido desaparecido desde 1971 - Imagem: Eduardo Knapp/Folhapress

No centro de tudo, e a cada página, emerge a figura monumental de Eunice Paiva. O livro é, antes de mais nada, uma eloquente carta de amor e uma homenagem à sua força inabalável. Longe de ser retratada apenas como vítima passiva da história ou da doença, ela é a protagonista resiliente, uma mulher que, mesmo diante das maiores dores que um ser humano pode suportar — a perda do marido e a perda de si mesma —, se recusou a ser silenciada.


Advogada, mãe de cinco filhos, ela se tornou um símbolo de dignidade e coragem, não só para sua família, mas para inúmeras outras que passaram pela mesma tragédia do desaparecimento forçado. Ao registrar meticulosamente a história de sua mãe, da sua lucidez combativa à sua vulnerabilidade final, Marcelo cumpre a promessa contida no título: "Ainda Estou Aqui". Ele se torna a memória viva dela, o guardião de sua história e de sua luta, garantindo que nem a brutalidade da ditadura nem a crueldade da doença tenham a palavra final sobre quem foi Eunice Paiva.


"Ainda Estou Aqui" é, portanto, uma obra de importância capital, cuja relevância só cresce com o tempo. É um documento de denúncia que humaniza as estatísticas da ditadura, dando nome, rosto, história e uma complexidade de sentimentos a uma de suas vítimas e à família que foi permanentemente marcada pela violência de Estado. Mais do que isso, é uma reflexão universal sobre o amor filial, o luto, a identidade e a própria essência do que nos torna humanos.


Ao justapor a perda da memória coletiva e da memória individual, Marcelo Rubens Paiva nos força a confrontar o quão essencial e ativo é o ato de lembrar — para uma pessoa, para uma família e para uma nação inteira. Não é um livro fácil, mas profundamente necessário. É um testamento inesquecível que afirma, com clareza cortante, que o antídoto contra o desaparecimento — seja ele imposto por um regime ou por uma doença — é o ato de contar a história.


"Ainda estou aqui" tem sido destaque na imprensa nacional e estrangeira. Foto: reprodução.
"Ainda estou aqui" tem sido destaque na imprensa nacional e estrangeira. Foto: reprodução.

O eco dessa verdade literária encontrou sua mais potente caixa de ressonância na adaptação cinematográfica homônima dirigida por Walter Salles. O filme não apenas traduziu com maestria a complexidade da obra para as telas, mas amplificou sua mensagem a uma escala global, um fenômeno coroado com o histórico Oscar de Melhor Filme Internacional em março de 2025. Sete meses depois, o impacto do filme não diminuiu; pelo contrário, ele continua a acumular prêmios nos mais prestigiados festivais ao redor do mundo, de Cannes a Veneza.


Essa aclamação contínua demonstra que a história de Eunice Paiva transcendeu seu contexto brasileiro para se tornar um símbolo universal da luta por justiça e memória. O sucesso duradouro do filme potencializa a força da narrativa original, provando que a luta contra o esquecimento é uma pauta urgente e global. Cada novo prêmio não é apenas um reconhecimento artístico para Salles e sua equipe, mas uma vitória para a memória histórica, um lembrete contundente de que, enquanto houver quem conte essas histórias, as vozes silenciadas continuarão a ecoar.


Recentemente Raul Silva fez uma resenha especial para o quadro Literatura de Primeira na Rádio Itapuama FM confiram aqui:


 
 
 
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