- Raul Silva

- 4 de jan.
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Por Raul Silva para O Estopim | 04 de janeiro de 2026
A madrugada de 3 de janeiro de 2026 expôs a víscera mais inflamada da extrema-direita brasileira. Enquanto bombas norte-americanas estilhaçavam a soberania de uma nação sul-americana e tropas estrangeiras sequestravam um chefe de Estado no Palácio de Miraflores, uma parcela ruidosa de parlamentares brasileiros não sentiu apreensão, cautela ou respeito diplomático. Eles sentiram êxtase.

A celebração de figuras como Eduardo Bolsonaro, Nikolas Ferreira, Bia Kicis e Flávio Bolsonaro diante da Operação Absolute Resolve não é apenas um sintoma de antipetismo patológico. É a confissão definitiva de que o movimento bolsonarista abandonou qualquer pretensão de nacionalismo para abraçar um projeto de submissão colonial. A festa com a queda de Caracas é, na verdade, um pedido de socorro de quem falhou em dar um golpe com as próprias mãos em 8 de janeiro de 2023 e agora implora para que o "Grande Irmão" do Norte venha terminar o serviço em Brasília.
A peregrinação da traição: de Brasília a Washington Patriotismo
Para entender o júbilo de janeiro de 2026, é preciso olhar para o trabalho de formiga feito nos anos anteriores. O bolsonarismo inaugurou uma nova modalidade de política externa: a diplomacia da delação premiada.
Desde a derrota em 2022, comitivas lideradas por Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e Gustavo Gayer (PL-GO), acompanhadas de influenciadores como Paulo Figueiredo, transformaram os corredores do Capitólio dos EUA em um muro das lamentações contra o Brasil. O objetivo nunca foi defender interesses comerciais nacionais, mas sim implorar por sanções contra a própria pátria.
A articulação com o deputado republicano Chris Smith para aprovar o No Funding or Enforcement of Censorship Abroad Act (HR 9850) é a prova cabal dessa traição. Parlamentares brasileiros eleitos com o voto popular trabalharam ativamente para que uma potência estrangeira cortasse verbas e impusesse sanções a autoridades judiciais brasileiras, sob o pretexto falacioso de "liberdade de expressão". Eles pediram, em bom inglês, que os EUA punissem o Brasil porque o STF ousou defender a democracia contra seus ataques.
O "Deus, Pátria e Família" do bolsonarismo tem um asterisco: a Pátria só serve se for governada por eles. Caso contrário, que seja sancionada, isolada ou, como sonham ao olhar para a Venezuela, invadida.
O espelho de Caracas e a fantasia golpista
A reação nas redes sociais foi pedagógica. O deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) não se limitou a comentar; ele divulgou montagens substituindo o rosto de Nicolás Maduro pelo do presidente Lula sendo preso por agentes estrangeiros. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), num ato falho de desejo reprimido, profetizou que "Lula será delatado" e que o "Foro de São Paulo acabou".
Essa euforia revela a impotência política do grupo que defende o "Patriotismo". Tendo falhado em mobilizar as Forças Armadas brasileiras para um golpe clássico, e vendo o cerco da Polícia Federal se fechar sobre a trama de 8 de janeiro, o bolsonarismo terceirizou sua esperança golpista para Donald Trump. Eles olham para os helicópteros Black Hawk sobre Caracas e não veem uma tragédia geopolítica; veem um trailer do que desejam para o Palácio do Planalto. É a "Síndrome de Vira-Lata" elevada à categoria de estratégia militar.
#CongressoInimigoDoPovo: A guerra interna
Enquanto seus olhos brilham com a intervenção externa, suas mãos operam a destruição interna. A bancada que aplaude o imperialismo é a mesma que transformou o Legislativo no #CongressoInimigoDoPovo. A coerência é macabra: eles odeiam a soberania nacional tanto quanto odeiam o bem-estar da população brasileira.
A Anistia da Impunidade: A obsessão pela PL da Anistia para os golpistas de 8 de janeiro não é sobre justiça; é sobre autoperdão. Parlamentares como Carla Zambelli e Bia Kicis sabem que a punição dos executores é o prelúdio da punição dos mandantes. Eles querem apagar a história da tentativa de abolição do Estado de Direito para ficarem livres para tentar de novo — desta vez, talvez, com apoio logístico externo.
PEC das Praias (A Venda do Litoral): O mesmo Flávio Bolsonaro que celebra a invasão da Venezuela é o relator da famigerada PEC 3/2022, que abre caminho para a privatização de terrenos de marinha. Sob o disfarce de regularização, a proposta entrega o patrimônio ambiental e estratégico do litoral brasileiro à especulação imobiliária, muitas vezes internacional. É a soberania fatiada e vendida em lotes para resorts de luxo, enquanto a população local é empurrada para longe do mar.
PL do Estupro (O Ódio às Mulheres): A bancada fundamentalista, liderada por nomes como Sóstenes Cavalcante, tentou impor o PL 1904/24, equiparando o aborto legal (mesmo em casos de estupro) ao homicídio. É o sadismo legislativo: punir meninas estupradas com penas maiores que as de seus estupradores.
Não podem voltar nunca mais
A invasão da Venezuela funcionou como um reagente químico, revelando a verdadeira cor do bolsonarismo. Não é verde e amarelo; é a cor da submissão.
Um grupo político que:
Pede sanções econômicas contra o próprio país em Washington;
Celebra o bombardeio de uma capital sul-americana;
Posta montagens sonhando com a prisão do seu presidente por tropas estrangeiras;
Tenta anistiar quem destruiu os Três Poderes;
Quer privatizar as praias e revitimizar mulheres violentadas;
Este grupo não é "oposição". É uma facção antinacional. A defesa da democracia brasileira em 2026 passa, obrigatoriamente, pelo banimento político, através do voto, desta casta que, se pudesse, trocaria a faixa presidencial por um cargo de gerente regional de uma colônia norte-americana. O Brasil é grande demais para ser governado por quem sonha em ser pequeno.
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