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Opinião de Helena Valente para O estopim | 19 de março de 2026


Mulher de cabelo castanho fala ao microfone em ambiente formal. Ela veste jaqueta cinza e expressa seriedade. Fundo neutro.
Governadora Raquel Lyra (PSD) | Foto: Júlio Gomes

Quando um governo transforma obrigação legal em peça de marketing, o que está em jogo não é só a narrativa. É o respeito à inteligência de quem ensina, de quem estuda e de quem sustenta a escola pública com o próprio corpo. Em Pernambuco, a tentativa de vender como gesto magnânimo da governadora Raquel Lyra o reajuste do piso do magistério em 2026 é daquelas operações de maquiagem política que insultam a memória recente. Não foi iniciativa espontânea do Palácio. Não foi generosidade. Não foi iluminação republicana. Foi pressão. Foi campanha salarial. Foi mobilização. Foi sindicato na rua. Foi categoria organizada. Foi cobrança pública até o governo sair da inércia e sentar para negociar de verdade.


O Sintepe havia protocolado a pauta da campanha salarial no início de fevereiro. Um mês depois, a própria direção sindical denunciava que não existia proposta concreta apresentada pela gestão estadual. O cenário, portanto, não era de diálogo abundante, mas de empurra com a barriga. A rede estadual assistia ao mesmo filme de sempre: piso nacional reajustado, prazo correndo, categoria cobrando e governo calculando o custo político de continuar calado. Só depois da paralisação, dos atos, da repercussão pública e da pressão política a máquina estadual resolveu se mexer. E, quando se mexeu, tentou vender a obrigação como virtude pessoal da governadora.


É aqui que o cinismo entra em cena. O governo publicou o acordo no dia 18 de março dizendo tratar-se de “nova demonstração de compromisso com a valorização do funcionalismo público”. A formulação não é inocente. Ela procura deslocar o eixo da história. Em vez de reconhecer que a categoria arrancou uma conquista com organização e enfrentamento, o texto oficial reposiciona o Executivo como protagonista benevolente. É uma disputa de memória em tempo real. Quem conta a história primeiro tenta sequestrar o crédito. E foi isso que se viu.


Mas convém recolocar os fatos no lugar. O piso salarial profissional nacional do magistério foi fixado pelo MEC em R$ 5.130,63 para 40 horas semanais em 2026. Não se trata de um mimo inventado por Raquel Lyra. Trata-se de um parâmetro nacional, de cumprimento obrigatório para as redes públicas. Em Pernambuco, a vitória real da campanha salarial não foi apenas reconhecer o novo piso, mas garantir sua repercussão em toda a carreira, alcançando professores, analistas, administrativos, ativos, aposentados, efetivos, temporários e apoio escolar. Isso não caiu do céu. Isso foi negociado sob pressão porque havia uma categoria organizada dizendo, com todas as letras, que piso sem carreira é maquiagem remuneratória.


A literatura educacional é cristalina sobre esse ponto. Valorização docente não se resume a discurso motivacional de palanque. Ela depende de carreira estruturada, remuneração digna, formação, condições de trabalho e estabilidade institucional. Quando o poder público tenta descolar o piso da carreira, ele esvazia a política de valorização. Mantém um degrau mínimo para poucos e conserva o resto da categoria comprimido. É por isso que a luta do Sintepe não era um capricho contábil. Era defesa da lógica mais elementar de justiça funcional.


Também é preciso desmontar outra fraude retórica: a de que o reajuste saiu da boa vontade do caixa estadual. Salário de professor não sai do bolso da governadora. Sai de dinheiro público vinculado à educação, em grande medida sustentado pelo Fundeb, que financia remuneração e manutenção da educação básica. A própria legislação do novo Fundeb determina que, no mínimo, 70% dos recursos anuais do fundo sejam destinados à remuneração dos profissionais da educação básica em efetivo exercício. Para 2026, a previsão oficial é de que o Governo do Estado de Pernambuco tenha quase R$ 4,9 bilhões em receitas do Fundeb, incluindo mais de R$ 850 milhões de complementação da União. Em outras palavras, não estamos falando de favor palaciano, mas de obrigação financiada por um fundo constitucionalmente vinculado, alimentado por receitas públicas e complementado com recursos federais.


Isso não significa que o Estado não tenha responsabilidade. Tem, e muita. A rede estadual é sua. A folha é sua obrigação. A execução orçamentária é sua. O que não pode é a governadora posar como benfeitora de um direito que ela apenas foi obrigada a cumprir, e ainda sob atraso político. O mínimo virou marketing. O dever virou propaganda. E propaganda em ano eleitoral tem método. Humaniza a chefe, dilui o conflito, apaga o sindicato e tenta convencer a opinião pública de que o avanço veio da sensibilidade do governo, não da correlação de forças.


O mais grave é que esse enredo não se passa num sistema educacional exemplar. Pernambuco segue convivendo com denúncias de escolas com problemas estruturais graves, falta de climatização, merenda precária e reformas lentas. O próprio Sintepe vinculou a campanha salarial de 2026 à cobrança por infraestrutura decente, lembrando que a valorização profissional não cabe em peça publicitária enquanto estudantes e trabalhadores enfrentam calor, fiação exposta e ambientes insalubres. Não existe política séria de educação quando o governo quer colher dividendos da folha e terceiriza o desgaste das escolas ao cotidiano de professores e alunos.


A contradição fica ainda mais ofensiva quando se olha para o volume de recursos que circulam na educação e para a forma como o governo administra sua comunicação. Se há dinheiro constitucionalmente vinculado, se há complementação da União, se há obrigação legal de cumprir o piso, então o debate central deveria ser outro: por que a negociação não foi aberta com a celeridade devida? Por que foi necessário pressionar para que o governo reconhecesse um direito previsível desde janeiro? Por que a resposta só ganha velocidade quando a rua esquenta e a crítica se espalha?


Mulher falando ao microfone, vestindo terno risca de giz. Expressão séria, gesticulando. Fundo desfocado e escuro.
Socorro Pimentel | Foto: Roberto Soares/Alepe

As respostas apontam para uma prática política conhecida. Primeiro, adia-se. Depois, testa-se a resistência da categoria. Em seguida, quando o custo do impasse sobe, negocia-se o inevitável. Por fim, apaga-se a luta e divulga-se o desfecho como ato de liderança. É uma engenharia de desgaste da categoria e de apropriação do resultado. Na educação, isso é particularmente perverso porque explora a paciência de uma classe historicamente sobrecarregada e ainda exige gratidão por cada centavo do que já era direito.


Há, sim, um padrão de comunicação no raquelismo que merece escrutínio. Em outras áreas, a gestão já surfou entregas e anúncios marcados por forte participação federal ou por herança administrativa anterior, tentando centralizar politicamente dividendos de obras cuja autoria, financiamento ou maturação são compartilhados. Na BR-104, a retomada foi registrada pelo noticiário como obra com recursos federais e o próprio governo estadual falou em articulação com o Ministério dos Transportes. Na Adutora do Agreste, a entrega foi apresentada como troféu de gestão, embora se trate de um empreendimento histórico, multigovernamental e com protagonismo federal explícito. Em janeiro de 2025, funcionários do IBGE chegaram a criticar o teor promocional de material do governo estadual. O problema não é comunicar. Todo governo comunica. O problema é comunicar de modo a eclipsar coautorias, lutas sociais e a própria natureza pública dos recursos.



No caso do piso, esse vício aparece em estado bruto. A categoria fez campanha. O sindicato pautou. A pressão se acumulou. O prazo eleitoral apertou. A cobrança ecoou na Alepe e nas ruas. Só então o governo fechou acordo. No dia seguinte, aliados correram às redes para parabenizar a governadora por um “acordo histórico”, como se a história começasse no vídeo de celebração e não no mês de mobilização que obrigou a gestão a sair do conforto. É o tipo de operação que aposta numa memória curta e numa sociedade cansada. Só que professoras e professores têm memória de calendário, contracheque e sala de aula. Sabem quem chamou para a luta e sabem quem demorou para responder.


E sabem também que piso não resolve tudo. Sem concurso suficiente, sem infraestrutura digna, sem clima escolar saudável, sem redução do adoecimento, sem valorização dos funcionários e sem respeito à negociação coletiva, a educação segue sendo tratada como vitrine quando convém e como gasto quando a categoria reivindica. O governo tenta posar para a foto da vitória, mas foge da fotografia maior, aquela em que aparece a precariedade da rede, o uso político da comunicação oficial e a insistência em só negociar depois que a pressão se torna incontornável.


É por isso que esta não é apenas uma disputa sobre 5,4%. É uma disputa sobre autoria política e honestidade pública. Quando a governadora tenta chamar para si o mérito central de uma conquista arrancada pelo Sintepe e pela categoria, ela não apenas falseia os fatos. Ela reafirma uma lógica elitista segundo a qual direitos só existem quando o poder os concede. Não. Direitos existem antes do vídeo, antes do post, antes do palanque. O que os transforma em realidade é luta organizada.


Se Raquel Lyra quiser realmente demonstrar compromisso com a educação pública, há um caminho mais digno do que posar de madrinha de um reajuste obrigatório. Que abra as mesas no tempo certo. Que negocie sem chantagem de calendário. Que execute com transparência os recursos da educação. Que trate sindicato como interlocutor, não como obstáculo. Que reconheça publicamente a legitimidade da mobilização. E, sobretudo, que pare de exigir aplauso por cumprir a lei.


Porque a verdade, nua e sem filtro oficial, é simples. A vitória de 2026 tem dono coletivo. Ela nasceu da organização do Sintepe, da disposição de luta da categoria e da pressão social que impediu mais um ano de enrolação. O resto é propaganda.


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Mulher com crachá em redação, olhando séria para a câmera. Fundo com computadores e pessoas trabalhando. Ambiente de escritório.

Helena Valente é repórter especial e analista de Educação de O estopim. Investiga orçamento, carreira docente, infraestrutura escolar e os mecanismos políticos que aprofundam desigualdades na escola pública brasileira.

Sindicato diz que pauta foi entregue ao governo em 6 de fevereiro e que não recebeu proposta; Secretaria de Educação afirma que escolas devem funcionar normalmente e que adesão à mobilização será respeitada


Por Clara Mendes para O estopim | 11 de março de 2026


SINTEPE CONVOCA PARALISAÇÃO DE TRABALHADORES/AS DE EDUCAÇÃO | Foto: Sintepe Digital
SINTEPE CONVOCA PARALISAÇÃO DE TRABALHADORES/AS DE EDUCAÇÃO | Foto: Sintepe Digital

O Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Pernambuco (Sintepe) intensificou nesta semana a Campanha Salarial Educacional 2026 e cobra do Governo de Pernambuco a aplicação do reajuste de 5,4% do piso nacional do magistério com repercussão em toda a carreira da rede estadual, além de uma lista de medidas sobre infraestrutura escolar, concursos e regras de trabalho. A pauta, segundo o sindicato, foi protocolada em 6 de fevereiro e ainda não houve proposta considerada concreta pela categoria.


A mobilização ocorre em meio a reclamações sobre problemas físicos nas escolas estaduais. Em material da campanha, o Sintepe afirma que pesquisa realizada com trabalhadores(as) de mais de 500 unidades apontou que 84% relatam problemas estruturais, 61% dizem que as escolas ainda não estão totalmente climatizadas e, em 72% dos casos, falhas de instalação e eletricidade impedem o funcionamento dos aparelhos. O levantamento também registra que 28% detectaram falhas graves ou muito graves no fornecimento de água potável.



No eixo financeiro, a pauta do Sintepe pede que o reajuste de 5,4% seja aplicado como referência inicial de carreira, com repercussão em toda a matriz de vencimentos e efeitos retroativos a 1º de janeiro de 2026. O índice corresponde à Medida Provisória 1.334, editada em 22 de janeiro de 2026, que alterou a regra de atualização do piso nacional do magistério. Com a atualização, o piso passou de R$ 4.867,77 para R$ 5.130,63 para jornada de 40 horas semanais, segundo o Ministério da Educação.


Além do reajuste na carreira, o documento do sindicato inclui itens como conclusão da reformulação do Plano de Cargos, Carreira e Rendimentos (PCCR), revisão de regras de avaliação de desempenho, regulamentação de flexibilização de jornada para cargos administrativos, pagamento de 1/3 de férias para recém-nomeados com 12 meses de exercício, progressão por titulação no estágio probatório e convocação de aprovados em concursos, incluindo áreas como música e gestão educacional.


Na parte de infraestrutura, a pauta cobra cronograma público de reformas e de climatização das escolas, além de exigências sobre cozinhas e refeitórios, bibliotecas e segurança. O Sintepe também pede medidas sobre alimentação escolar, incluindo a cobrança de cumprimento de regras federais de compras da agricultura familiar.


O sindicato também questiona a aplicação de recursos do precatório do Fundef. Em texto de divulgação da campanha, o Sintepe afirma que a Secretaria de Educação de Pernambuco recebeu R$ 2,2 bilhões do precatório do Fundef nos últimos quatro anos, com destinação exclusiva para a educação estadual, e cobra detalhamento de onde o dinheiro foi investido.


Em resposta às mobilizações, a Secretaria de Educação de Pernambuco informou, por meio de nota divulgada por veículos locais, que as escolas devem funcionar normalmente e que será respeitado o direito dos profissionais que optarem por aderir aos atos para reivindicar suas pautas.


A campanha salarial inclui atos públicos e paralisações. O Sintepe convocou paralisação de um dia na rede estadual na terça-feira (10) e marcou protestos em frente às escolas para quinta-feira (12), com mobilização também na Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe). O sindicato afirma que o prazo para aprovação de eventual projeto de lei de reajuste neste ano se encerra em 4 de abril, por regras eleitorais.


Contexto: A Campanha Salarial Educacional é a agenda anual de negociação do Sintepe com o governo estadual e envolve reivindicações salariais e de condições de trabalho, além de cobranças por investimentos na estrutura das escolas da rede pública estadual.


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Clara Mendes

Clara Mendes é repórter de hard news e plantonista do portal O estopim, com foco em educação, serviços públicos e política em Pernambuco.


Por Michael Andrade, da redação de O estopim - Fonte: Rádio Conexão Notícias | quinta-feira (5) de março de 2026


Decisão foi tomada em assembleia do Sintepe; categoria cobra reajuste do piso, reformulação do PCCR, concurso público e melhorias nas escolas.


Foto: Reprodução
Foto: Reprodução

Trabalhadores da educação da rede estadual de Pernambuco decidiram paralisar as atividades na próxima terça-feira (10). A decisão foi anunciada nesta quinta-feira (5) pelo Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Pernambuco (Sintepe), após assembleia e passeata realizadas em frente à Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe), no Centro do Recife.


A mobilização integra a Campanha Salarial Educacional 2026 e faz parte do calendário de pressão da categoria nas negociações com o Governo do Estado.


De acordo com o sindicato, além da paralisação da terça-feira (10), também estão previstos protestos em frente às escolas estaduais na quinta-feira (12). A proposta é denunciar problemas estruturais nas unidades de ensino, como falhas na rede elétrica, ausência de climatização, merenda considerada de baixa qualidade e atraso em obras.


Entre as principais reivindicações apresentadas pela categoria estão a atualização do piso salarial do magistério com repercussão em toda a carreira, a reformulação do Plano de Cargos, Carreira e Rendimentos (PCCR), a melhoria das condições de trabalho e a realização de concurso público.


Segundo o Sintepe, até o momento não houve apresentação de proposta concreta por parte do governo estadual nas negociações em andamento.


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