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Em Gravatá, delegados e delegadas discutem o Plano Nacional de Educação, os riscos da política de premiação docente, o avanço do conservadorismo nas escolas e a defesa da diversidade como parte do plano de lutas da educação pública em Pernambuco.



Por Raul Silva para O estopim | 28 de Maio de 2026


Painel no 12º Congresso do SINTEPE com quatro debatedores, dois aplaudindo, mesa vermelha e fundo com o texto do evento.
Primeira mesa do dia com os professores Flávio Brayner da UFPE e Pedro Silva do IPEA | Foto: Raul Silva/Agência O estopim+

O segundo dia do 12° Congresso do Sintepe, realizado nesta quarta-feira (27), no Hotel Canárius, em Gravatá, no Agreste de Pernambuco, concentrou parte das discussões mais estratégicas da programação ao colocar no centro do debate o futuro da escola pública, a valorização dos trabalhadores em educação, a disputa em torno do Plano Nacional de Educação, a crítica aos sistemas de premiação docente, o enfrentamento ao conservadorismo nas escolas e a defesa dos direitos humanos, de gênero e diversidade.


Com o tema “Educação, democracia, soberania e justiça socioambiental”, o encontro reúne delegados, suplentes, observadores e convidados de diferentes regiões do Estado entre os dias 26 e 29 de maio. O congresso é a principal instância deliberativa do sindicato e tem como objetivo atualizar o plano de lutas da categoria a partir da conjuntura política, educacional e sindical.


A programação do segundo dia reforçou que o debate sobre educação pública em Pernambuco não se limita à pauta salarial, embora a remuneração siga como eixo incontornável da valorização profissional. As falas dos palestrantes e as intervenções da base apontaram para uma leitura mais ampla: defender a escola pública exige financiamento, carreira, condições de trabalho, liberdade pedagógica, gestão democrática, proteção contra violências políticas e reconhecimento da diversidade que compõe a comunidade escolar.


Mesa de debate no 12º Congresso do SINTPE, com cinco palestrantes em palco vermelho e fundo com lema sobre educação e democracia.
Mesa dedicada ao PNE com o professor Heleno Araújo e as professora Dalila Andrade e Iana Gomes | Foto: Raul Silva/Agência O estopim+

A mesa dedicada ao Plano Nacional de Educação reuniu o professor Heleno Araújo, a professora Dalila Andrade, da Universidade Federal de Minas Gerais, e a professora Iana Gomes, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. O debate partiu de uma constatação comum aos três eixos apresentados: o PNE não pode ser tratado como um documento distante da vida cotidiana das escolas.


Na discussão, o plano apareceu como instrumento de disputa sobre que projeto de educação o país pretende sustentar nos próximos anos. O PNE define metas sobre financiamento, acesso, permanência, qualidade, formação, carreira, gestão democrática e redução de desigualdades. Por isso, para o movimento sindical, sua execução depende de pressão social, acompanhamento permanente e capacidade de transformar metas legais em políticas públicas reais.


Heleno Araújo, dirigente histórico da educação e nome ligado à Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação e à Internacional da Educação, situou o PNE dentro de uma agenda maior de democracia e soberania. A leitura apresentada no debate associa a defesa do plano à necessidade de participação popular, valorização dos profissionais e enfrentamento das desigualdades regionais e sociais que ainda atravessam a escola pública brasileira.


Essa abordagem conecta o tema nacional à realidade concreta da rede estadual de Pernambuco. Para os trabalhadores em educação, discutir PNE significa discutir piso, carreira, concurso público, infraestrutura escolar, formação continuada, saúde do trabalhador, gestão democrática e permanência estudantil. Não se trata apenas de acompanhar metas em relatórios oficiais, mas de verificar se elas chegam às salas de aula, às bibliotecas, aos laboratórios, às cozinhas, às quadras e às secretarias escolares.


Homem fala ao microfone em palco vermelho do 12º Congresso do SINTEPE, com laptop, telão e slides ao fundo.
Professor Heleno Araújo em sua fala sobre a LDB | Foto: Raul Silva/Agência O estopim+

Um dos pontos mais sensíveis do segundo dia foi a crítica aos sistemas de premiação docente. A discussão questionou políticas que substituem valorização permanente por bonificações pontuais, rankings, metas padronizadas e competição entre escolas ou profissionais.


A crítica não rejeita avaliação pública nem acompanhamento de resultados. O centro do argumento é outro: quando a política educacional reduz qualidade a desempenho em indicadores estreitos, a escola passa a responder mais à lógica da mensuração do que às necessidades reais dos estudantes. Esse modelo tende a desconsiderar diferenças territoriais, desigualdades socioeconômicas, condições de trabalho e a natureza coletiva do processo pedagógico.


Dalila Andrade contribuiu para esse debate ao tratar o trabalho docente como parte de uma estrutura que envolve carreira, formação, tempo de planejamento, saúde, estabilidade, remuneração e autonomia profissional. A valorização, nessa perspectiva, não pode aparecer como prêmio eventual concedido a quem atinge determinada meta. Ela precisa ser política de Estado, com continuidade, orçamento e reconhecimento do conjunto dos trabalhadores da educação.


A preocupação discutida no congresso é que políticas de premiação podem produzir efeitos contrários ao discurso oficial de melhoria. Ao estimular competição, elas enfraquecem a cooperação entre escolas. Ao premiar resultados finais sem enfrentar condições desiguais de partida, podem penalizar justamente unidades que atendem populações mais vulneráveis. Ao individualizar responsabilidades, podem esconder falhas estruturais do poder público.


Mulher fala ao microfone em palco vermelho no 12º Congresso do SINTEPE, com telão vermelho ao fundo.
Professora Iana Gomes em sua explanação dos dados sobre o avanço do conservadorismo nas escolas | Foto: Raul Silva/O estopim+

A professora Iana Gomes levou ao debate a reflexão sobre o avanço do conservadorismo nas escolas e suas conexões com políticas educacionais, currículo, liberdade de ensinar e direitos humanos. A discussão mostrou que a escola pública se tornou um dos espaços centrais da disputa política no país.


Nos últimos anos, campanhas contra discussões de gênero, diversidade, raça, desigualdade e direitos humanos buscaram constranger professores, limitar práticas pedagógicas e transformar conflitos sociais em perseguição a educadores. No congresso, esse tema apareceu como ameaça concreta à liberdade de cátedra, à gestão democrática e ao papel da escola como ambiente de formação cidadã.


A relação entre conservadorismo e premiação docente também foi colocada em perspectiva. Em ambos os casos, a escola é pressionada por forças externas que tentam reduzir sua complexidade. De um lado, indicadores e metas podem estreitar o sentido de qualidade. De outro, movimentos conservadores tentam impor silêncio sobre temas que atravessam a vida dos estudantes. A defesa feita no debate aponta para uma escola que ensina conteúdos, mas também forma sujeitos capazes de conviver com a diferença, reconhecer direitos e participar da democracia.


Mulher fala ao microfone com um braço erguido em palco vermelho, diante de painéis com texto como Clientelismo e Mérito.
Professora Denise Botelho (UFRPE) em sua fala sobre mulheres | Foto: Raul Silva/Agência O estopim+

A mesa dedicada ao debate de gênero ampliou a leitura do congresso sobre democracia. A presença de Denise Botelho (UFRPE), educadora e militante do movimento LGBTQIAPN+, reforçou que a defesa da educação pública passa também pelo enfrentamento à violência, à discriminação e à exclusão de estudantes e profissionais que fogem dos padrões historicamente impostos por estruturas conservadoras.


A discussão deslocou o tema da diversidade do campo simbólico para o campo concreto das políticas educacionais. Uma escola democrática precisa proteger estudantes LGBTQIAPN+, mulheres, pessoas trans, travestis, pessoas negras, indígenas, quilombolas, pessoas com deficiência e todos os grupos que sofrem violações dentro e fora do ambiente escolar.


Na prática, isso exige formação dos profissionais, protocolos contra violência, acolhimento, currículo comprometido com direitos humanos e atuação institucional contra o assédio moral, a transfobia, a LGBTfobia, o racismo e a misoginia. O debate também expôs que neutralidade, quando usada para silenciar violações, não protege a escola. Ao contrário, pode naturalizar desigualdades.


A fala de Denise Botelho se integrou ao eixo central do congresso ao tratar diversidade como dimensão da democracia. A escola pública, nesse sentido, não é apenas lugar de matrícula. É espaço de permanência, reconhecimento, segurança e construção de cidadania.


Homem de terno fala ao microfone em palco vermelho no 12º Congresso do SINTEPE, com mesa de debatedores ao fundo.
Professor Flávio Brayner do IPEA | Foto: Raul Silva/Agência O estopim+

As diretoras Marília Cibelli e Katiane Cavalcanti aparecem nos registros públicos do segundo dia como parte da condução política dos debates. A presença delas reforça a função do congresso como espaço de mediação entre análise conjuntural, formulação sindical e experiência concreta da categoria nas escolas.


Esse ponto é decisivo. Em um congresso sindical, a palestra não encerra a discussão. Ela organiza problemas, apresenta diagnósticos e provoca a base a transformar reflexão em encaminhamento. As intervenções dos delegados e delegadas são parte do processo que define resoluções, prioridades e formas de mobilização.


No segundo dia, as discussões indicaram que o plano de lutas do Sintepe deve dialogar com uma agenda ampla: defesa do PNE, valorização da carreira, combate à precarização, crítica às políticas de bônus, enfrentamento ao conservadorismo, proteção da liberdade pedagógica, defesa da diversidade e cobrança por melhores condições de funcionamento da rede estadual.


Mulher de blusa azul-escura, olhar sério, diante de fundo branco com bandeira desfocada.
Governadora Raquel Lyra, recentemente denunciada pelo Sintepe ao MPPE e ao TCE-PE por possíveis fraudes em pagamentos de reformas em escolas da rede pública de Pernambuco que nunca foram realizadas | Foto: Raul Silva/Agência O estopim+

O debate nacional ganha contornos específicos em Pernambuco. A rede estadual convive com desafios que envolvem infraestrutura, remuneração, carreira, gestão, contratos, saúde dos profissionais, permanência estudantil e desigualdades territoriais. Quando o congresso discute PNE, premiação docente e conservadorismo, não fala apenas de conceitos. Fala das condições reais de trabalho em escolas espalhadas pela Região Metropolitana do Recife, Zona da Mata, Agreste e Sertão.


A categoria chega ao congresso com uma pauta que exige respostas do poder público. A defesa da escola pública aparece ligada à fiscalização de investimentos, à execução de reformas, ao cumprimento de direitos, à garantia de condições materiais e ao reconhecimento dos trabalhadores em educação como sujeitos centrais da política educacional.


Nesse sentido, o segundo dia funcionou como uma espécie de ponte entre diagnóstico e ação. Os palestrantes trouxeram fundamentos políticos e acadêmicos. A base sindical trouxe a experiência do cotidiano. A síntese que emerge desse encontro é que a qualidade da educação pública não se constrói com slogans, nem com premiações isoladas, nem com censura pedagógica. Ela depende de financiamento, democracia e trabalho valorizado.


Cartaz vermelho do 12º Congresso do Sintepe, com fotos de pessoas e igrejas, e texto branco e amarelo.
12° Congresso do SINTEPE | Fonte: Sintepe

O 12º Congresso do Sintepe segue até sexta-feira, 29 de maio. Até lá, os participantes devem consolidar avaliações, propostas e encaminhamentos que orientarão a atuação do sindicato no próximo período.


O segundo dia deixou evidente que a disputa pela educação pública em Pernambuco passa por uma agenda que combina questões materiais e democráticas. Salário, carreira e condições de trabalho são inseparáveis de currículo, liberdade pedagógica, diversidade, participação social e justiça socioambiental.


Ao reunir professores, professoras, trabalhadores administrativos, dirigentes sindicais, pesquisadores e militantes sociais, o congresso reafirma que a escola pública é um dos principais territórios de disputa do país. A questão que atravessa as mesas e plenárias é direta: sem democracia na educação, não há democracia plena na sociedade.


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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo do portal O estopim. Atua na cobertura de política, educação, direitos sociais e temas de interesse público, com foco em apuração, contexto e impacto para a vida coletiva.



Com a presença de lideranças sindicais e a conferência magna do sociólogo Jessé Souza, o 12° Congresso do Sintepe reafirma o compromisso dos trabalhadores da educação com a democracia e a justiça socioambiental


Por Raul Silva para O estopim | 26 de maio de 2026



O 12º Congresso do Sintepe foi aberto nesta terça-feira (26), em Gravatá, com um recado político direto: a defesa da democracia, da soberania nacional e da escola pública voltou ao centro da agenda sindical em Pernambuco. Reunido no Hotel Canárius até a sexta-feira, 29, o encontro mobiliza cerca de mil delegados e delegadas da rede estadual para atualizar o plano de lutas da categoria em meio à disputa por valorização profissional, melhores condições de trabalho e resposta do poder público para os problemas de infraestrutura das escolas.


A abertura do congresso começou com apresentação do grupo Guerreiros do Passo e do maestro Oséas com sua orquestra de frevo. O gesto não foi protocolar. Ao levar a cultura popular para o centro do plenário, o Sintepe demarcou que a discussão sindical não se separa da identidade social e política de Pernambuco.


Na sequência, a mesa política reuniu dirigentes sindicais, representantes de entidades e convidados do campo educacional e institucional. Participaram da abertura a direção do Sintepe, a presidenta da CNTE, Fátima Silva, o presidente da CUT Pernambuco, Paulo Rocha, o vice-presidente da Internacional da Educação para a América Latina, Heleno Araújo, além de representantes de instituições acadêmicas, movimentos sociais e parlamentares.


Grupo de Frevo Guerreiros do Passo
Grupo de Frevo Guerreiros do Passo, que recentemente desfilou no tapete vermelho no festival de cinema de Cannes | Foto: Raul Silva/Agência O estopim+

Nas intervenções iniciais, o tom predominante foi de alerta contra o avanço conservador e de reafirmação da organização coletiva como instrumento de defesa de direitos. A presidenta licenciada do Sintepe, Ivete Caetano, citou Paulo Freire e Carolina Maria de Jesus para sustentar que democracia sem direitos concretos não passa de promessa vazia. Ao defender participação social, soberania alimentar, paz e autodeterminação entre os povos, Ivete recolocou a educação como parte de um projeto mais amplo de transformação social.


Fátima Silva, da CNTE, reforçou a necessidade de manter a educação pública no centro da disputa política. A dirigente vinculou o congresso à tarefa de preservar conquistas e ampliar direitos, num momento em que a categoria ainda enfrenta pressões salariais, precarização do trabalho e tentativas recorrentes de esvaziar o papel social da escola.


Já Paulo Rocha, da CUT Pernambuco, aproveitou a tribuna para aproximar a pauta educacional de debates mais amplos do mundo do trabalho, como o enfrentamento à escala 6 por 1, a ausência de regulamentação efetiva do direito de greve e as dificuldades de negociação no serviço público. Heleno Araújo, por sua vez, retomou a trajetória histórica das lutas sindicais na educação e reforçou o lema do encontro ao cobrar democracia, soberania e justiça socioambiental como eixo de ação política.


A presidenta em exercício do Sintepe, Cíntia Sales, resumiu o espírito da abertura ao afirmar que a presença dos delegados e das delegadas no congresso representa mais um passo na construção da consciência política da categoria.


Professor e escritor Jessé de Souza durante Congresso do Sintepe
O professor e escritor Jessé de Souza durante palestra no 12° Congresso do Sintepe | Foto: Raul Silva/Agência O estopim+

A conferência de abertura ficou a cargo do escritor e sociólogo Jessé Souza. Ao falar para o plenário, ele deslocou o debate do terreno imediato da conjuntura para uma explicação estrutural do Brasil. Seu argumento central foi o de que a escravidão não é um capítulo encerrado da história nacional, mas uma lógica que segue organizando hierarquias sociais, formas de humilhação e mecanismos de concentração de poder.


Ao afirmar que é preciso compreender como a escravidão atravessa cerca de cinco séculos da formação brasileira, Jessé Souza conectou passado e presente para sustentar que a desigualdade não pode ser tratada como acidente. Nesse enquadramento, a crise social brasileira deixa de ser vista como falha eventual de gestão e passa a ser entendida como parte de uma engrenagem histórica que naturaliza pobreza, violência e exclusão.


A escolha de Jessé Souza para a conferência de abertura ajuda a explicar a linha política que o congresso quer imprimir. O Sintepe não abriu seus trabalhos olhando apenas para a negociação de curto prazo. Abriu, sobretudo, tentando ligar salário, escola, democracia e estrutura social numa mesma leitura de país.


Caderno de Teses que serão debatidas pelos delegados durante o Congresso
Caderno de Teses que serão debatidas pelos delegados durante o Congresso | Foto: Raul Silva/Agência O estopim+

O caderno de teses distribuído aos participantes reforça essa mesma direção. Nas páginas iniciais, o documento apresenta uma leitura internacional crítica ao neoliberalismo, ao conservadorismo e à extrema direita, defende a autodeterminação dos povos, o multilateralismo e a paz, condena a escalada de guerras e chama atenção para o impacto da crise climática e das disputas geopolíticas sobre a vida da classe trabalhadora.


Na parte dedicada à conjuntura nacional, o texto recupera os ataques de 8 de janeiro de 2023, trata a tentativa de golpe como expressão organizada da extrema direita e associa a reconstrução democrática à retomada de políticas sociais e à defesa das instituições. Já no debate ambiental, o material coloca Amazônia, Cerrado e Semiárido no centro da agenda e afirma que a justiça socioambiental não pode ser separada da desigualdade social.


Em outra frente, a organização do congresso dividiu as resoluções em oito eixos, que vão da conjuntura internacional ao plano de lutas. Na prática, isso mostra que o encontro foi desenhado para ir além do balanço interno do sindicato. A intenção é produzir orientação política para a categoria num ano em que a educação pública volta a ser pressionada tanto pela lógica fiscal quanto pela disputa ideológica.


A abertura do 12º Congresso do Sintepe ocorre poucas semanas depois de o sindicato conquistar, na Alepe, a aprovação do reajuste linear de 5,4% para a carreira da educação em 2026. Também acontece num momento em que a entidade elevou o tom das denúncias sobre a situação física das escolas estaduais e passou a cobrar explicações sobre obras e reformas que, segundo o sindicato, consumiram recursos elevados sem resolver problemas elementares de infraestrutura.


Esse pano de fundo ajuda a entender por que o congresso começou discutindo democracia e soberania, mas sem perder de vista climatização, merenda, condições de trabalho, carreira e investimento real na rede pública. Em Pernambuco, a disputa sindical continua sendo, ao mesmo tempo, uma disputa sobre orçamento, reconhecimento profissional e sentido público da educação.


Ao abrir seu 12º Congresso do Sintepe com cultura popular, falas políticas e uma conferência centrada na herança escravocrata do país, o Sintepe sinaliza que pretende discutir o presente sem abrir mão da história. O sindicato reúne sua base para deliberar sobre caminhos concretos da luta sindical, mas também para formular uma interpretação do Brasil e do lugar da educação nessa disputa.


Mais do que um rito interno, a abertura em Gravatá expôs uma tese política. Para o Sintepe, não haverá valorização da categoria sem democracia efetiva, não haverá escola pública forte sem investimento e não haverá projeto educacional consistente enquanto a desigualdade seguir sendo tratada como paisagem.

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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo de O estopim. Atua na cobertura de política, educação e temas de interesse público com foco em apuração, contexto e impacto social.


Por Helena Valente para O estopim | 23 de Maio de 2026



A denúncia apresentada pelo Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Pernambuco, o Sintepe, sobre possíveis irregularidades em contratos de manutenção e reforma de escolas estaduais colocou a gestão Raquel Lyra diante de uma pergunta que não cabe mais na propaganda oficial: onde foi parar o dinheiro destinado à educação pública? O caso ganhou força após vídeo da presidenta licenciada do sindicato, Ivete Caetano, circular com imagens de boletins de medição, valores milionários e escolas que, segundo a entidade, seguem com infiltrações, mofo, risco elétrico, forros quebrados e ambientes sem condições adequadas para estudantes e profissionais.


O episódio atinge o centro do discurso político da governadora. Raquel Lyra tem repetido que passou parte do governo “arrumando a casa” e que agora Pernambuco “acelerou”. A denúncia do Sintepe inverte o sentido da frase e impõe outra leitura: se a casa foi arrumada, por que escolas listadas como atendidas por reformas continuam parecendo abandonadas? Se o governo acelerou, acelerou a entrega real ou acelerou a liberação de pagamentos sem garantia pública de resultado?


A pergunta é dura, mas necessária. Não se trata de afirmar, sem conclusão dos órgãos de controle, que houve desvio. Trata-se de cobrar explicação imediata sobre a distância entre a planilha oficial e a parede mofada, entre o boletim de medição e o fio exposto, entre o valor liquidado e a sala sem segurança.


Fachada branca de prédio alto com janelas verticais, galhos de árvore na frente e brasão na base.
Fachada da ETEPAM, escola que consta como recém reformada e onde os boletins de medição afirmam que foram gastos mais de R$ 2 milhões em melhorias | Foto: Sintepe

O Sintepe afirma ter coletado informações no Portal da Transparência do Governo de Pernambuco sobre um contrato de manutenção de escolas no valor total de R$ 182.784.905,05. Segundo a entidade, o contrato teria abrangido 798 unidades de ensino em todo o Estado.


A partir de boletins de medição de obra, o sindicato informou ter analisado parte da documentação e realizado vistoria presencial em uma amostra de dez escolas. A conclusão apresentada em coletiva foi grave: unidades que aparecem como contempladas por serviços de manutenção e reforma seguiriam com problemas estruturais incompatíveis com os valores informados.


Entre os problemas apontados estão:

  • infiltrações e mofo em paredes, tetos e salas de aula;

  • fiação exposta e risco de choque elétrico;

  • ambientes interditados ou inadequados para atividades pedagógicas;

  • banheiros sem condições adequadas de uso;

  • quadras deterioradas;

  • climatização insuficiente;

  • relatórios fotográficos com possíveis inconsistências;

  • suspeita de repetição de imagens em boletins de medição de períodos diferentes.


O sindicato diz ter encaminhado a denúncia ao Tribunal de Contas do Estado, ao Ministério Público de Pernambuco e ao Tribunal de Contas da União. A apuração desses órgãos será decisiva para separar erro administrativo, falha de fiscalização, irregularidade contratual e eventual dano ao erário.


Em vídeo publicado nas redes sociais, Ivete Caetano aparece diante da Escola ETEPAM e apresenta documentos, mostrando valores que passam de R$ 1,4 milhão, R$ 1,6 milhão e R$ 2,3 milhões para intervenções em unidades da rede estadual. Ela questiona, como escolas que aparecem em registros oficiais de manutenção continuam com sinais de precariedade.


Esse é o ponto central. O caso não depende apenas da retórica oposicionista nem da defesa automática do Palácio. O que precisa ser respondido é documental: qual serviço foi contratado, qual serviço foi executado, quem mediu, quem atestou, quem pagou, qual fonte de recurso foi usada e qual escola recebeu efetivamente cada intervenção.


A força da fala de Ivete Caetano está justamente na exposição de uma contradição concreta. Se o boletim informa manutenção elétrica, por que há denúncia de risco elétrico? Se o relatório fotográfico comprova serviço, por que o Sintepe aponta repetição de imagens? Se a escola foi reformada, por que professores e estudantes ainda convivem com mofo, infiltração e teto comprometido?



A denúncia vem sendo tratada no debate público como mais um escândalo na educação pernambucana e levanta questionamentos sobre dinheiro vinculado à educação, especialmente em um ambiente de confusão entre Fundeb, Fundef, precatórios e despesas de manutenção.


Essa distinção importa. O Fundeb financia a educação básica e possui regras de vinculação. Parte dos recursos deve ser destinada à remuneração de profissionais da educação e outra parte pode custear ações de manutenção e desenvolvimento do ensino. Já os precatórios do Fundef, decorrentes de diferenças históricas no financiamento educacional, também carregam forte marca de vinculação à educação e de disputa jurídica com trabalhadores da área.


Por isso, a gestão estadual precisa responder com precisão: os R$ 182,7 milhões questionados saíram de qual fonte? Houve uso de recursos de precatórios do Fundef? Houve mistura com outras rubricas da educação? Algum valor relacionado ao Fundeb entrou na execução? As despesas foram classificadas corretamente? As escolas receberam o serviço correspondente ao que foi liquidado?


Quando o dinheiro é carimbado para educação, a régua de transparência precisa ser mais alta. Não basta dizer que houve manutenção. É preciso mostrar a ordem de serviço, a nota de empenho, a medição, a foto, o fiscal responsável, a liquidação, o pagamento e o resultado físico dentro da escola.


Teto de sala vazia com placas faltando, luminárias e alto-falantes; paredes cinza e porta azul ao fundo.
Auditório da ETEPAM após reforma | Fonte: Sintepe.

A denúncia revela uma fratura comum na administração pública: a diferença entre a escola que aparece na planilha e a escola que o estudante encontra quando chega para estudar.


Na planilha, há valores milionários, medições, relatórios, fotos e atestos. No chão da escola, segundo o Sintepe, há mofo, fiação exposta, teto quebrado e calor. Essa distância é o verdadeiro escândalo, independentemente do desfecho jurídico.


Se a manutenção foi paga e não resolveu o problema, houve ao menos falha de planejamento. Se a medição foi atestada sem execução adequada, houve falha de fiscalização. Se documentos foram repetidos ou usados para justificar serviços não realizados, o caso entra em patamar mais grave e precisa de responsabilização administrativa, civil e, se for o caso, criminal.


A pergunta que o governo precisa responder não é apenas “quanto foi investido?”. A pergunta correta é: o que mudou na escola depois que o dinheiro saiu do cofre público?


Armários azuis gastos com cadeados em corredor, com adesivos e arranhões; pequeno texto branco visível.
Armários usados na ETEPAM após melhorias estruturais feitas pelo Governo Raquel Lyra na escola | Fonte: Sintepe

A Secretaria de Educação informou à imprensa que vem empenhando esforços para tornar o ambiente escolar mais seguro e adequado ao processo de ensino e aprendizagem. Também afirmou que as escolas passam por serviços de manutenção, reforma e ampliação, além de citar repasses do Programa Investe Escola para ações pedagógicas, conservação e melhorias de infraestrutura.


Em manifestação ao Jamildo.com, a Secretaria declarou que não haveria impedimento legal para a contratação da empresa Cetus Construtora e que duplicidades em boletins de medição teriam sido identificadas e saneadas.


A resposta, no entanto, não encerra o caso. Ao contrário, abre novas perguntas. Se havia duplicidade, quando ela foi identificada? Quem identificou? Qual foi o impacto financeiro? Houve pagamento indevido? O valor foi glosado? A empresa foi notificada? Houve responsabilização de fiscais? A documentação corrigida foi publicada de forma acessível?


A expressão “saneada” não pode funcionar como borracha administrativa. Em contratos de quase R$ 183 milhões, toda inconsistência precisa deixar rastro público de correção.



A empresa citada nos registros e nas reportagens é a Cetus Construtora Ltda.. A discussão sobre a contratação envolve valores elevados, serviços espalhados por centenas de unidades e execução simultânea em regiões diferentes do Estado.


Esse tipo de contrato exige fiscalização robusta. Não basta que a empresa apresente boletim. O Estado precisa conferir a execução física, validar quantidades, verificar qualidade, cruzar datas, comparar fotos, ouvir a direção da escola e registrar eventuais falhas.


A administração pública não pode terceirizar a confiança. Quando uma escola continua com problema depois de uma suposta manutenção, o fiscal do contrato precisa explicar por que atestou. Quando a foto se repete, alguém precisa explicar por que ela passou. Quando o serviço é pago e o usuário final não percebe a melhoria, o gestor precisa mostrar o que foi feito.


O caso da educação não aparece isolado. Ele se soma a uma sequência de episódios em áreas sensíveis do governo estadual, especialmente na saúde, onde a narrativa de obras e requalificações também tem sido confrontada por imagens de precariedade.


No Hospital da Restauração, maior emergência pública de Pernambuco, o governo anunciou investimentos milionários em reforma, ampliação e requalificação. Ainda assim, vídeos recentes mostraram água invadindo áreas internas, parte do teto cedendo e relatos de pacientes e acompanhantes com medo durante as chuvas. Também circularam registros de vazamentos por luminárias, tomadas e paredes.


A comparação é inevitável porque o padrão político se repete: o governo anuncia obra, exibe número, produz peça publicitária e vende a ideia de aceleração. Depois, a realidade aparece por baixo da pintura, na água que escorre, no teto que cede, no fio exposto, no mofo e no medo de quem precisa usar o serviço público.


Educação e saúde são áreas diferentes, com contratos diferentes e fontes de recurso diferentes. Mas a pergunta pública é a mesma: o dinheiro anunciado está virando entrega real ou está virando apenas imagem de governo?


Governos têm direito de divulgar ações. Mas propaganda pública não pode ocupar o lugar da transparência. Quando uma gestão diz que “arrumou a casa”, precisa aceitar que a sociedade abra a porta e olhe os cômodos.


No caso das escolas, o que se vê nas denúncias do Sintepe é um choque entre narrativa e evidência. O governo diz que acelerou. O sindicato diz que encontrou escolas deterioradas apesar de pagamentos milionários. A imprensa mostrou que a própria Secretaria reconhece ter havido duplicidades em boletins, ainda que afirme que o problema foi corrigido.


Esse conjunto é suficiente para exigir investigação ampla. Não basta uma nota de assessoria. Pernambuco precisa saber se houve erro, negligência, desperdício, pagamento indevido ou fraude.


Fachada moderna do Tribunal de Contas de Pernambuco, com placa Edif. Dom Helder Câmara, vista em ângulo.
Tribunal de Contas do Estado de Pernambuco | Fonte: TCE/PE

O Tribunal de Contas, o Ministério Público e o Tribunal de Contas da União precisam atuar com rapidez, porque escolas continuam funcionando enquanto a apuração se arrasta.


O caminho mínimo passa por cinco providências:

  • auditoria dos contratos, empenhos, liquidações e pagamentos;

  • cruzamento entre boletins de medição e vistorias presenciais;

  • análise das fotografias usadas para comprovar execução;

  • identificação dos fiscais que atestaram cada serviço;

  • verificação da origem dos recursos e da compatibilidade com as regras da educação.


Também é necessário ouvir diretores, professores, estudantes, empresas contratadas, fiscais de contrato e gestores da Secretaria de Educação. A investigação não pode ficar limitada à formalidade dos documentos, porque a denúncia trata justamente da distância entre documento e realidade.


Mulher de camisa branca fala ao microfone em sala com painéis de madeira, em postura séria e concentrada.
Raquel Lyra atual governadora de Pernambuco | Foto: Reprodução

Raquel Lyra chegou ao governo prometendo gestão técnica, reconstrução administrativa e capacidade de entrega. A denúncia do Sintepe atinge esse núcleo de imagem. Se a gestão se vende como organizada, precisa provar que sabe controlar contratos. Se diz que acelerou, precisa demonstrar que a aceleração não atropelou a fiscalização.


O problema não é apenas contábil. É político, social e moral. Cada real mal aplicado em uma escola pública é retirado de estudantes que já enfrentam desigualdade, salas quentes, evasão, violência, falta de estrutura e desvalorização dos profissionais.


Não há política educacional séria quando o prédio adoece. Não há valorização do professor quando ele trabalha sob risco elétrico. Não há aprendizagem plena quando o aluno precisa dividir atenção entre a aula e a infiltração no teto.


O Governo de Pernambuco deve explicações objetivas à sociedade. Não basta dizer que investiu. Precisa provar que entregou.


As perguntas centrais são:

  • qual foi o valor total contratado, empenhado, liquidado e pago à Cetus Construtora na manutenção das escolas;

  • quais escolas foram atendidas e quais serviços foram realizados em cada unidade;

  • qual foi a fonte de recurso usada em cada pagamento;

  • quem foram os fiscais responsáveis por atestar os boletins;

  • quais boletins tiveram duplicidade ou inconsistência;

  • se houve glosa, ressarcimento, penalidade ou correção contratual;

  • por que escolas apontadas como reformadas seguem com problemas estruturais;

  • como o governo pretende proteger estudantes e servidores enquanto a apuração ocorre.


A resposta precisa vir com documentos, não com slogans.


O Sintepe e Ivete Caetano colocaram uma pergunta que o governo não pode tratar como ataque político: cadê a reforma das escolas?


A sociedade pernambucana tem o direito de fazer outra: se a gestão passou três anos dizendo que arrumava a casa e agora diz que acelerou, acelerou exatamente o quê?


A resposta precisa aparecer nas escolas. Não no vídeo oficial, não no discurso de palanque, não na placa de obra. Precisa aparecer na sala sem mofo, no banheiro funcionando, no fio protegido, na quadra segura, no teto firme e no dinheiro público aplicado onde deveria estar.


Enquanto isso não acontecer, a denúncia sobre os R$ 183 milhões continuará sendo mais que uma disputa entre governo e sindicato. Será um retrato incômodo de um Estado que anuncia transformação, mas ainda precisa provar que transformou a vida de quem depende da escola pública.


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Helena Valente é repórter especial e analista de Educação de O estopim. Dedica sua cobertura às políticas públicas, ao financiamento da educação, às desigualdades escolares e aos impactos das decisões de Brasília no cotidiano de estudantes, professores e comunidades. Sua escrita une apuração, análise crítica e compromisso com a defesa da escola pública, gratuita, laica, inclusiva e socialmente referenciada.

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