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Deputada estadual leva ao Sertão do Moxotó um discurso de unidade, mobilização de base e enfrentamento à extrema direita durante encontro da Frente Ampla em apoio ao presidente


Por Raul Silva para O estopim | 2 de maio de 2026



Mulher com flor vermelha no cabelo fala ao microfone em uma reunião. Fundo com bandeira colorida e números 13 visíveis. Ambiente sério.
Deputada Dani Portela (PT-PE) durante encontro da Frente Ampla em Arcoverde em apoio a pré-candidatura do presidente Lula | Foto: Raul Silva/Agência O estopim+

O estopim da fala da deputada estadual Dani Portela (PT) em Arcoverde foi a tentativa do campo progressista de transformar apoio eleitoral em organização territorial. Em vídeo analisado por O estopim, a parlamentar aparece durante o Encontro da Frente Ampla em Arcoverde, no Sertão do Moxotó, defendendo a construção de uma base popular em torno da pré-candidatura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à reeleição.


A intervenção de Dani não foi apenas uma saudação de presença. A deputada tratou a eleição de 2026 como uma disputa de projeto nacional e cobrou que a defesa de Lula saia do plano simbólico para a prática cotidiana da militância. O eixo da fala foi a necessidade de unir partidos, movimentos sociais, sindicatos, juventudes, lideranças comunitárias e parlamentares em uma frente capaz de disputar votos, narrativas e presença política no interior pernambucano.


No vídeo, a parlamentar fala de pé, microfone em mãos, diante de militantes e lideranças locais. O tom é de convocação. Dani associa a reeleição de Lula à defesa da democracia, das políticas públicas e da participação popular. A mensagem central é simples, mas politicamente densa: 2026 não será vencido apenas com memória afetiva do lulismo no Nordeste, mas com organização de base e presença nos territórios.


Arcoverde ocupa uma posição estratégica na política do interior pernambucano. Porta de entrada do Sertão do Moxotó e cidade de influência regional, o município funciona como ponto de passagem entre agendas do Agreste, do Sertão e da Região Metropolitana. Por isso, um encontro de frente ampla no município tem peso maior do que uma reunião local isolada.


A mobilização em Arcoverde já vinha sendo organizada por lideranças partidárias, movimentos sociais e militantes alinhados ao campo progressista. A iniciativa, articulada em torno da defesa da reeleição de Lula, foi apresentada como espaço de diálogo entre diferentes segmentos políticos e sociais, com participação de partidos como PT, PCdoB e PV, além de lideranças comunitárias e representantes de movimentos populares.


Grupo de pessoas em pé, sorrindo, gesticulando "L" com as mãos em uma sala com fotos na parede. Vestem roupas coloridas. Ambiente alegre.
Encontro da Frente Ampla em apoio à reeleição de Lula, representando partidos como PT, PCdoB e PV, além de líderes comunitários, todos celebrando o espaço de diálogo político. | Foto: Michael Andrade/Agência O estopim+

Esse desenho revela uma estratégia conhecida no presidencialismo brasileiro: a eleição nacional precisa de capilaridade municipal. Não basta que o candidato lidere pesquisas ou tenha recall histórico. É no município que a política se materializa em comitês, rodas de conversa, visitas a bairros, agendas em sindicatos, escuta de trabalhadores e disputa contra a desinformação.


A fala de Dani Portela se encaixa exatamente nesse diagnóstico. A deputada olha para Arcoverde como base de irradiação. Ao participar do encontro, ela ajuda a nacionalizar a pauta local e, ao mesmo tempo, sertanejar a campanha nacional. Esse movimento é decisivo porque o lulismo sempre teve no Nordeste um de seus pilares, mas enfrenta em 2026 um ambiente mais fragmentado, com redes digitais agressivas, disputa religiosa, pressão do bolsonarismo e rearranjos estaduais ainda em curso.


A presença de Dani Portela no ato também carrega um significado interno para o PT. A parlamentar chegou ao partido em 2026 após uma trajetória construída no PSOL, legenda pela qual foi candidata ao Governo de Pernambuco, vereadora do Recife e deputada estadual. Sua filiação ao PT foi abonada por Lula e apresentada pela própria deputada como uma resposta ao chamado do presidente para fortalecer o campo progressista em Pernambuco.


Dani não chega ao petismo como quadro burocrático. Sua identidade pública está ligada aos movimentos sociais, à luta antirracista, ao feminismo, à defesa da população LGBTQIAPN+, à educação pública e à advocacia popular. Essa trajetória a coloca numa posição peculiar dentro da frente lulista: ela fala para a militância tradicional, mas também para setores que muitas vezes cobram do PT mais radicalidade programática, mais presença nas periferias e maior compromisso com pautas de direitos humanos.



Em Arcoverde, essa dupla função apareceu com nitidez. A deputada defendeu Lula, mas não reduziu a fala ao personalismo. Ao insistir na organização popular, deslocou o centro da mensagem para a construção coletiva. É uma diferença relevante. Campanhas personalistas dependem da imagem do líder. Campanhas orgânicas dependem de estrutura, base, militância e pertencimento.


O encontro em Arcoverde se apresenta como Frente Ampla, mas a fala de Dani Portela aproxima o evento de uma ideia de frente popular. A diferença é política. Frente ampla é o arranjo entre forças diversas para conter um adversário comum, geralmente em nome da democracia. Frente popular pressupõe participação social mais intensa, com sindicatos, movimentos, juventudes, coletivos de mulheres, negros, trabalhadores rurais, comunidades religiosas progressistas e lideranças comunitárias.


A deputada parece apostar nessa segunda camada. Sua intervenção sugere que a unidade eleitoral precisa ser acompanhada de disputa de conteúdo. Em outras palavras, não basta reunir siglas para pedir voto em Lula. É necessário explicar o que está em jogo, defender políticas públicas, mostrar obras e programas, organizar a juventude, combater mentiras e construir um palanque que também dialogue com o cotidiano do povo.


Essa é uma leitura coerente com o momento político. O bolsonarismo demonstrou nos últimos anos que não depende apenas de partidos formais. Opera por redes de influência, templos, grupos de WhatsApp, canais digitais, associações profissionais e lideranças locais. Para enfrentá-lo, o campo progressista precisa fazer mais do que costurar cúpulas. Precisa ocupar território social.


Um homem de terno azul e chapéu branco aponta para a câmera em um ambiente interno com cortinas e móveis de madeira, com expressão séria.
Presidente Lula anunciou que Desenrola 2.0 vai ser lançado na próxima segunda-feira (4) | Crédito: Reprodução

Do ponto de vista legal, a candidatura formal de Lula ainda depende dos ritos eleitorais. O calendário do Tribunal Superior Eleitoral prevê que partidos e federações realizem convenções entre julho e agosto para escolher candidatas, candidatos e coligações. Por isso, o termo correto neste momento é pré-candidatura.


Mas, no campo político, a disputa já começou. Encontros como o de Arcoverde servem para testar discursos, alinhar bases, reduzir ruídos entre partidos aliados e construir o clima de mobilização. É nesse intervalo entre a pré-campanha e a campanha oficial que se formam as redes que depois vão pedir voto nas ruas.


A fala de Dani Portela, portanto, deve ser lida como peça de uma engrenagem maior. Ela não apenas declarou apoio a Lula. Ela cobrou método. E método, em política, significa saber quem mobiliza, onde mobiliza, com qual narrativa e para qual projeto.


Pernambuco é central para Lula por razões históricas, afetivas e eleitorais. O presidente nasceu em Garanhuns, no Agreste Meridional, e sempre encontrou no estado uma base expressiva de apoio. Ainda assim, a política pernambucana de 2026 não é linear. Há disputas sobre palanques estaduais, composição para o Senado, fortalecimento da bancada federal e articulações entre PT, PSB, PCdoB, PV, PDT e outros partidos do campo governista.


Dani Portela tem defendido publicamente que o PT evite candidaturas avulsas e priorize unidade em torno do palanque de Lula. Esse ponto reaparece no sentido político da fala em Arcoverde. A deputada sabe que uma eleição presidencial apertada exige mais do que voto para presidente. Exige eleger deputados federais, senadores e governadores alinhados, porque governabilidade não se constrói apenas no Palácio do Planalto. Ela se constrói no Congresso e nas Assembleias Legislativas.


Esse é o ponto que aproxima a fala da deputada de uma leitura mais estrutural. Para o lulismo, vencer a Presidência sem maioria suficiente no Congresso significa repetir parte das dificuldades enfrentadas desde 2023: negociações custosas, pressão do Centrão, derrotas em pautas sensíveis e necessidade permanente de conter ofensivas conservadoras.


Mulher com flor no cabelo fala ao microfone. Veste preto com padrão branco. Ao fundo, bandeira colorida e ambiente claro. Emocional.
Deputada Dani Portela (PT-PE) durante encontro da Frente Ampla em Arcoverde em apoio a pré-candidatura do presidente Lula | Foto: Raul Silva/Agência O estopim+

A força da fala de Dani Portela está menos na novidade formal e mais no recado político. Ela chamou a militância a assumir uma tarefa. A pré-candidatura de Lula, segundo o sentido de sua intervenção, não pode depender apenas de grandes lideranças, ministros, senadores ou prefeitos. Precisa de gente comum defendendo o projeto no chão da cidade.


Isso inclui juventudes que tiram título de eleitor, professoras que discutem educação, trabalhadoras que defendem renda, movimentos de moradia que cobram política urbana, sindicatos que discutem emprego, agricultores familiares que dependem de crédito, mulheres que enfrentam violência e comunidades negras que exigem presença efetiva do Estado.


Ao levar esse discurso para Arcoverde, Dani tenta ampliar o campo de escuta do PT. O partido sabe que o Nordeste é uma fortaleza eleitoral, mas uma fortaleza sem manutenção pode perder muralhas. A manutenção, neste caso, é política de base.


A fala de Dani Portela durante o Encontro da Frente Ampla em Arcoverde funciona como uma fotografia do momento progressista em Pernambuco. Há disposição de unidade, mas também há consciência de que a eleição de 2026 será dura. Há confiança no capital político de Lula, mas também há percepção de que carisma presidencial não substitui organização local.


Em termos práticos, o encontro reforça três movimentos. Primeiro, a interiorização da pré-campanha lulista. Segundo, a tentativa de transformar frente ampla em rede popular. Terceiro, a consolidação de Dani Portela como uma das vozes do PT pernambucano capazes de dialogar com movimentos sociais e militância urbana e interiorana.


No tabuleiro político, Arcoverde não é detalhe. É trincheira de articulação no Sertão. E Dani Portela, ao falar ali, deixou claro que a pré-candidatura de Lula será disputada não apenas nos palanques de capital, mas nas bases municipais onde a política ainda se decide olho no olho.


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Raul Silva é jornalista político sênior de O estopim, especialista em Ciência Política, instituições democráticas e relações entre poder, território e sociedade no Nordeste brasileiro.


Por Michael Andrade, da redação de O estopim - Fonte: Agência Brasil | sábado (18) de abril de 2026


Presidente defendeu regulação mais rígida para bets e plataformas digitais durante agenda na Espanha


Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta sexta-feira (17) que a expansão dos jogos de apostas no ambiente digital tem contribuído para o endividamento das famílias brasileiras.


A declaração foi dada em Barcelona, na Espanha, durante entrevista coletiva após o anúncio de acordos firmados entre os governos do Brasil e da Espanha.


Segundo Lula, a ausência de regras mais rígidas para o setor das apostas online e para as grandes plataformas digitais representa riscos à saúde mental e financeira da população, além de ameaçar a soberania dos países e a própria democracia.


Ao comentar o avanço das bets, o presidente afirmou que, com a tecnologia, os jogos de azar passaram a fazer parte do cotidiano das pessoas por meio do celular. Para ele, isso tem incentivado gastos que muitas vezes extrapolam o orçamento familiar.


“Uma das coisas que está endividando a sociedade, fazendo com que ela gaste aquilo que não poderia gastar, são as apostas no mundo digital”, declarou.


Lula também defendeu o avanço da regulação das chamadas big techs e afirmou que o governo pretende ampliar medidas de controle sobre plataformas que, segundo ele, possam causar danos à democracia, à soberania e ao bem-estar da população.


Durante a entrevista, o presidente citou ainda a proibição do uso de celulares nas escolas de ensino fundamental como uma medida positiva adotada pelo governo para reduzir impactos do ambiente digital sobre crianças e adolescentes.


Na avaliação de Lula, o desafio da regulação digital precisa ser enfrentado de forma coletiva, já que os efeitos do problema atingem diversos países. Segundo ele, o ambiente virtual tem sido usado para disseminação de desinformação, discursos de ódio e interferências em processos democráticos.


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Por Raul Silva para O estopim | 11 de abril de 2026




O novo levantamento do Datafolha, divulgado neste sábado, 11 de abril de 2026, redesenha a corrida presidencial ao mostrar um país mais dividido, mais desconfiado e menos disposto a entregar vantagem confortável a qualquer um dos polos. A pesquisa ouviu 2.004 eleitores com 16 anos ou mais, em 137 municípios, entre 7 e 9 de abril, com margem de erro de dois pontos percentuais. No retrato mais sensível do momento, Luiz Inácio Lula da Silva aparece com 39% no primeiro turno, contra 35% de Flávio Bolsonaro, e empata tecnicamente no segundo turno com o senador do PL, que marca 46% ante 45% do presidente.


Duas pessoas em trajes formais falam em ambientes distintos. À esquerda, fundo com cortina cinza; à direita, pessoas ao fundo.
Pré-candidatos Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) em destaque. | Foto: Fotomontagem Gazeta do Povo (Ricardo Stuckert/PR e Andressa Anholete/Agência Senado

A fotografia eleitoral não se resume ao duelo entre governo e oposição. A pesquisa também mostra uma deterioração ampla de confiança nas instituições, recorde de desconfiança em relação ao Supremo Tribunal Federal, insegurança elevada em relação ao processo eleitoral e sinais de desgaste social que atravessam economia doméstica, endividamento com apostas online e até o humor do país diante da Copa do Mundo de 2026. O dado central é que a disputa entrou na fase em que a rejeição pesa tanto quanto a intenção de voto.


A pesquisa Datafolha foi registrada no TSE sob o protocolo BR-03770/2026. As entrevistas foram presenciais e ocorreram entre 7 e 9 de abril de 2026. O levantamento ouviu 2.004 eleitores em 137 municípios. A margem de erro é de 2 pontos percentuais e o nível de confiança é de 95%.


Gráfico de barras horizontal mostra intenção de votos para presidente: Lula 20%, Bolsonaro 14%, indecisos 52%, em 11/04/2026.
A pesquisa de voto espontâneo para presidente, realizada em 11 de abril de 2026, revela que 52% dos eleitores estão indecisos, enquanto Lula e Jair Bolsonaro lideram entre os mencionados, com 20% e 14%, respectivamente. | Fonte: Datafolha

No voto espontâneo, quando o eleitor responde sem ver a lista de candidatos, mais da metade do eleitorado ainda não apresenta escolha consolidada. São 52% de indecisos ou entrevistados que não citaram nenhum nome. Lula tem 20% e Jair Bolsonaro, embora inelegível, aparece com 14%, o que sinaliza que a memória política do campo conservador continua ancorada no ex-presidente. Tarcísio de Freitas, Ciro Gomes, o “atual presidente” e o “candidato do PT” aparecem com 1% cada.


O número mostra um eleitorado ainda pouco mobilizado formalmente, mas preso aos dois polos que dominam a política nacional desde a última década. Mesmo sem disputar, Jair Bolsonaro segue funcionando como referência simbólica do campo conservador. Lula, por sua vez, mantém liderança na lembrança espontânea, mas distante de um patamar que indique conforto.


Gráfico de barras mostrando intenções de voto no 1º turno. Lula 39%, Flávio 35%. Barras azuis, fundo branco. Texto no topo.
Gráfico de intenção de voto no 1º turno mostra Lula (PT) com 39% e Flávio (PL) com 35%, indicando uma disputa acirrada. Decisões de eleitores indecisos (4%) e votos brancos/nulos (10%) podem ser cruciais no resultado final. | Fonte: Datafolha

No cenário estimulado de primeiro turno, Lula lidera com 39%, seguido por Flávio Bolsonaro, com 35%. Ronaldo Caiado marca 5%, Romeu Zema registra 4%, Renan Santos tem 2%, Aldo Rebelo e Cabo Daciolo aparecem com 1% cada. Brancos, nulos e nenhum somam 10%, enquanto 4% dizem não saber.


O número mais importante não é apenas a liderança de Lula, mas o tamanho da vantagem. A diferença de quatro pontos está dentro de uma zona politicamente desconfortável para um incumbente que busca a reeleição. O presidente conserva a dianteira, mas não impõe distância segura. Flávio, por sua vez, mostra que herdou parcela relevante do espólio bolsonarista e conseguiu converter lembrança orgânica do pai em intenção de voto estimulada.


Gráfico de barras comparando cenários de 2° turno: Flávio x Lula, Lula x Caiado, Lula x Zema. Percentuais em azul, laranja, verde e vermelho.
Cenários do segundo turno apontam disputa acirrada, com Candidato 1 e Candidato 2 em empate técnico, tornando o resultado crucial para o Planalto. | Fonte: levantamento Datafolha de 11 de abril de 2026.

É no segundo turno que a pesquisa ganha peso estratégico. No principal cenário testado, Flávio Bolsonaro tem 46% e Lula, 45%. Como a margem de erro é de dois pontos, o quadro é de empate técnico. Ainda assim, a ultrapassagem numérica tem efeito político imediato. Ela desmonta a narrativa de vantagem estável do presidente e obriga o governo a reconhecer que a corrida entrou em território de risco real.


Nos cenários contra Ronaldo Caiado e Romeu Zema, Lula aparece com 45%, enquanto ambos marcam 42%. A diferença é pequena e também fica dentro da margem de erro. O ponto comum é a estabilidade do presidente em torno dos 45%, índice que funciona ao mesmo tempo como piso e teto. Há um núcleo duro consolidado, mas há também dificuldade clara de expansão.


Gráfico de barras comparando rejeição e conhecimento de candidatos. Barras azuis (rejeição) e laranja (conhecimento) variam de 16% a 99%.
Nível de rejeição impede avanços significativos entre os dois candidatos favoritos, Lula e Flávio. | Fonte: Datafolha

Se o primeiro turno mostra força competitiva, a rejeição mostra o limite estrutural dos candidatos. Lula lidera também nesse indicador, com 48%, seguido de perto por Flávio Bolsonaro, com 46%. Depois deles, todos os demais aparecem bem abaixo. Cabo Daciolo tem 19%, Zema e Renan Santos, 17%, Caiado e Aldo Rebelo, 16%.


Em tese, esses números poderiam sugerir espaço para uma alternativa moderada. Mas o mesmo levantamento mostra que Lula é conhecido por 99% do país e Flávio por 93%, enquanto Caiado é conhecido por 46%, Zema por 44%, Aldo por 33% e Renan Santos por 24%. Em outras palavras, parte da baixa rejeição desses nomes decorre simplesmente de baixa exposição nacional. À medida que uma campanha nacional elevaria a visibilidade, a resistência também tenderia a subir.


A pesquisa ainda indica um obstáculo adicional para o bolsonarismo. Segundo os recortes compilados pelo Datafolha, 61% rejeitam candidaturas que prometam anistia a Jair Bolsonaro e a aliados condenados por tramas contra a democracia. Isso limita a margem de ampliação de Flávio para além da própria base.


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Os recortes demográficos compilados no relatório merecem atenção porque mostram erosão em terrenos antes mais seguros para o lulismo. No Nordeste, Lula ainda lidera com folga, 53% a 25% sobre Flávio Bolsonaro. Ainda assim, a vantagem é menor do que em medições anteriores citadas na pesquisa Datafolha, um sinal de alerta para a coordenação petista.


Entre as mulheres, Lula também mantém a dianteira, com 41% contra 26%. O problema para o Planalto é que o campo conservador reduziu a distância num segmento em que o bolsonarismo original costumava sofrer resistência muito maior. O relatório também aponta que o presidente vai melhor entre católicos, enquanto Flávio concentra força mais robusta no eleitorado evangélico.


No campo da chamada terceira via, Caiado e Zema continuam sem escala nacional, mas mantêm nichos de competitividade regional e socioeconômica. Caiado cresce no Centro-Oeste e entre famílias de renda intermediária. Zema melhora desempenho entre os mais ricos. Esses bolsões, por si só, não os colocam no centro da disputa, mas podem influenciar alianças e transferências no segundo turno.


Gráfico de barras mostrando rejeição e conhecimento de candidatos. Barras azuis e laranjas indicam percentuais. Título: Rejeição eleitoral.
Rejeição elevada e nível de conhecimento dos candidatos demonstram desafio para o governo. | Fonte: Pesquisa Datafolha

A avaliação da administração federal ajuda a explicar o encurtamento eleitoral. Segundo o levantamento, 40% classificam o governo Lula III como ruim ou péssimo, 32% o consideram ótimo ou bom, 26% o veem como regular e 1% não soube responder. Quando a pergunta recai sobre o desempenho pessoal do presidente, a desaprovação chega a 49%, ante 47% de aprovação.


Esse quadro não implica colapso eleitoral automático, mas restringe a capacidade de o governo transformar políticas públicas em capital político de curto prazo. Um presidente pode vencer com avaliação dividida, mas dificilmente atravessa uma campanha longa sem que a desaprovação influencie debate sobre custo de vida, serviços públicos e credibilidade administrativa.


Gráfico de barras horizontais em azul mostrando sinais de desgaste institucional e humor social. Percentuais variam de 27% a 79%.
Pesquisa aponta sinais de desgaste institucional; 79% reprovam ministros do STF em casos de parentes, e 69% expressam insegurança sobre urnas e processo eleitoral. | Fonte: Datafolha

O levantamento vai além da corrida presidencial e mede um mal-estar institucional profundo. A desconfiança no STF chega a 43%, patamar recorde segundo o Datafolha. Apenas 16% dizem ter muita confiança na Corte. A avaliação direta do trabalho dos ministros também é negativa. São 39% os que classificam a atuação do tribunal como ruim ou péssima, contra 23% que a consideram ótima ou boa.


Outro dado de forte impacto político e ético é o repúdio à participação de ministros do STF em julgamentos que envolvam clientes de escritórios ligados a parentes. O índice de desaprovação chega a 79%. No ambiente eleitoral, 69% dizem sentir algum grau relevante de insegurança em relação ao processo eleitoral e às urnas.


A crise de confiança não fica restrita ao Judiciário. O Datafolha aponta 36% de desconfiança em relação ao Judiciário como um todo, 36% de desconfiança na imprensa, 27% de ceticismo absoluto em relação às Forças Armadas e baixa confiança sólida em grandes empresas. Esse ambiente favorece discursos de contestação sistêmica e dificulta a construção de consensos públicos mínimos.


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A pesquisa chama atenção para indicadores sociais menos usuais em pesquisas eleitorais. Um deles é o impacto das apostas online sobre o orçamento das famílias. Segundo a compilação, quatro em cada dez apostadores relatam ter entrado em endividamento ou inadimplência severa. O dado ajuda a entender por que parte do mal-estar econômico não se traduz automaticamente em apoio a medidas do governo, mesmo quando há políticas de alívio de renda.


Outro termômetro simbólico aparece no futebol. Apenas 33% acreditam que o Brasil será campeão da Copa do Mundo de 2026. O número funciona como sinal de um país menos confiante até em seus próprios marcadores simbólicos de grandeza nacional.


O cenário de abril não define a eleição de outubro, mas altera o eixo do jogo. O governo entra na fase decisiva sem a gordura que imaginava ter no fim de 2025. O bolsonarismo, por sua vez, prova que encontrou um nome competitivo em Flávio Bolsonaro, mas ainda enfrenta um teto alto de rejeição e a dificuldade de expandir sem reacender o debate sobre anistia e radicalização.


Para Lula, a tarefa mais urgente é recompor vantagem entre mulheres, proteger o Nordeste, reduzir a desaprovação do governo e impedir que o empate técnico no segundo turno se consolide como percepção dominante. Para Flávio, o desafio é ampliar competitividade sem perder o vínculo orgânico com a base do bolsonarismo e sem transformar a memória do pai em âncora de rejeição. Para a terceira via, a pesquisa reforça um diagnóstico duro. Há espaço para ruído, barganha e influência regional, mas ainda não há musculatura para quebrar a polarização.


No fim, o levantamento desenha uma eleição presidencial que será disputada menos no terreno do entusiasmo e mais no da contenção de danos. O país que sai dessa pesquisa não é só o país do empate técnico. É o país da confiança quebrada, da fadiga institucional e da incerteza elevada a seis meses da urna.


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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo do O estopim. Atua na cobertura de política, poder e interesse público, com foco em apuração documental, leitura de dados e contextualização dos fatos para o ambiente digital.

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