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Educação

Por Raul Silva para O estopim | 2 de abril de 2026



Pessoas com camisetas vermelhas do SINTEPE lotam uma assembleia. Dois banners "SINTEPE" pendurados. Ambiente formal e iluminado.
Sintepe conquista vitória na Alepe: Pressão da categoria garante aprovação de reajuste e avanços na carreira para 2026. | Foto: Reprodução/Sintepe Digital

A aprovação, pela Assembleia Legislativa de Pernambuco, do reajuste de 5,4% para os profissionais da educação da rede estadual encerra um ciclo de pressão sindical, impasse político e disputa sobre quem teria, de fato, direito à atualização salarial. O projeto passou por unanimidade no plenário da Alepe em 31 de março, foi sancionado pela governadora Raquel Lyra em 1º de abril e publicado no Diário Oficial em 2 de abril, beneficiando mais de 77 mil trabalhadores entre professores, analistas e servidores administrativos da educação. Mas, no centro da história, o que a cronologia mostra é que a negociação só ganhou forma depois da escalada de mobilização liderada pelo Sintepe, sob a condução da presidenta Ivete Caetano, e da pressão pública de uma categoria que passou a exigir, com mais força, que o índice do piso nacional repercutisse em toda a carreira.


O que foi aprovado


O texto aprovado garante a atualização do piso do magistério em 5,4%, acompanhando o valor nacional definido para 2026. Na prática, o salário-base dos docentes com jornada de 200 horas mensais passa a R$ 5.130,63. Para quem cumpre 150 horas mensais, o valor fica em R$ 3.847,97. Para os professores com vencimento abaixo do piso, o reajuste tem efeito retroativo a janeiro de 2026. Para os demais profissionais da educação, incluindo faixas da carreira que já estavam acima do piso, além de analistas e administrativos, a aplicação será linear a partir de junho.


O pacote aprovado também alcança outras frentes da carreira. A Gratificação de Função Técnico-Pedagógica foi fixada em R$ 1 mil, e houve manutenção de pagamentos ligados à atuação em unidades socioeducativas e prisionais, além de avanços no mecanismo de progressão funcional para servidores que concluírem o estágio probatório. O resultado, na leitura do sindicato, não se limita ao reajuste do ano. Ele consolida a lógica de vincular o piso nacional à estrutura da carreira estadual.


O centro do impasse


O principal atrito entre o Governo Raquel Lyra e a categoria não era a existência do reajuste do piso nacional, mas a sua extensão. O ponto decisivo era saber se o índice seria aplicado apenas na referência inicial do magistério ou se alcançaria toda a carreira, incluindo professores em outras faixas, analistas, administrativos, aposentados, contratados temporários e profissionais de apoio escolar.


Foi nessa disputa que o Sintepe concentrou sua campanha de 2026. A pauta de reivindicações da campanha salarial foi protocolada em 6 de fevereiro, mas, segundo o sindicato, a primeira mesa de negociação não apresentou proposta concreta do governo. A partir daí, o discurso sindical passou a combinar duas frentes. Uma era financeira, defendendo a repercussão do piso em toda a carreira. A outra era estrutural, com denúncias sobre escolas sem climatização, rede elétrica precária, problemas de merenda e atraso em reformas.


Naquele momento, a avaliação da direção sindical era clara: havia resistência do governo em assumir, desde o início, um reajuste com alcance mais amplo. É nesse ponto que a atuação de Ivete Caetano ganha centralidade política. Coube à presidenta do Sintepe vocalizar o argumento de que a valorização não poderia se limitar ao professor em início de carreira, sob pena de repetir distorções que já haviam provocado confrontos em anos anteriores.


A virada da campanha veio em março. Em assembleia realizada no dia 5, trabalhadores da educação aprovaram uma paralisação estadual para o dia 10 de março e uma nova rodada de mobilização e interrupção de atividades no dia 12. No dia 10, a categoria ocupou o entorno da Alepe para cobrar resposta formal do Palácio do Campo das Princesas. Dois dias depois, os protestos continuaram em escolas e espaços públicos, ampliando a pressão sobre o governo em meio ao prazo legal de um ano eleitoral, que exigia rapidez para envio de projeto com impacto remuneratório.


Foi depois dessa sequência de atos que a negociação andou. O acordo foi fechado em mesa com as secretarias envolvidas e levado à assembleia da categoria em 17 de março, quando foi aprovado por unanimidade por mais de mil participantes. Na leitura do sindicato, o resultado não foi um gesto espontâneo do Executivo, mas uma conquista arrancada pela combinação de base mobilizada, cronograma de paralisações e pressão política.


Ivete Caetano e o papel do Sintepe


A campanha de 2026 consolidou Ivete Caetano como o principal rosto político da negociação do lado dos trabalhadores. Ao longo do impasse, ela sustentou publicamente que a pauta não era apenas salarial. Tratava-se de defender o princípio de que o piso nacional do magistério precisa repercutir ao longo da carreira e de associar a discussão remuneratória às condições concretas das escolas.


Esse papel foi importante por duas razões. A primeira é interna. Ivete ajudou a manter a categoria coesa em torno de uma reivindicação objetiva, num momento em que o calendário eleitoral encurtava o tempo de negociação e pressionava o sindicato a transformar mobilização em resultado concreto. A segunda é externa. Sua condução deu ao Sintepe capacidade de falar para além da base sindicalizada, conectando a luta por reajuste com o debate sobre infraestrutura escolar, qualidade da merenda, climatização e destino dos recursos da educação.


O discurso sindical, portanto, não ficou restrito ao contracheque. Ele procurou dar sentido político à campanha, apresentando a valorização salarial como parte de uma defesa mais ampla da escola pública. Isso ajudou a ampliar a legitimidade da pressão e a reforçar a leitura de que a negociação não era apenas corporativa.


Grupo grande de pessoas em camisa vermelha protesta com bandeiras e faixas em frente a um prédio. Mensagens de valorização e respeito.
Professores de Pernambuco se reúnem em frente à Alepe, em uma manifestação pelo reajuste salarial e valorização profissional, protestando contra a gestão do governo Raquel Lyra. | Foto: Reprodução/Boletim Sintepe

O que o governo diz


O Governo de Pernambuco sustenta uma narrativa diferente. Ao encaminhar o projeto à Alepe e depois sancionar a lei, a governadora Raquel Lyra afirmou que o acordo era fruto de diálogo, trabalho sério e responsabilidade, além de destacar que, desde janeiro de 2023, os professores da rede pública estadual acumulam cerca de 40% de reajuste, segundo a gestão.


Essa versão precisa ser registrada porque compõe o outro lado do conflito. O governo tenta enquadrar o acordo como continuidade de uma política de valorização já em curso. O Sintepe, por sua vez, sustenta que, sem pressão, a repercussão do índice em toda a carreira não teria sido assegurada. O que os fatos mostram é que o acordo só foi formalizado depois da intensificação da mobilização e de duas datas de paralisação e protesto organizadas pela categoria.


A disputa deste ano carrega a memória de pelo menos dois capítulos recentes. Em 2023, a proposta de reajuste de 14,95% enviada pelo governo foi alvo de forte contestação porque, segundo o Sintepe, alcançaria apenas uma parcela da categoria, deixando de fora dezenas de milhares de profissionais. O episódio marcou a relação inicial entre o governo Raquel Lyra e a educação estadual e transformou a repercussão do piso ao longo da carreira no ponto mais sensível das negociações seguintes.


Em 2025, a categoria voltou a pressionar e aprovou um acordo que distribuiu reajustes entre 6,27% e 8,38% na carreira do magistério, além de contemplar outros cargos da educação. Esse antecedente fortaleceu a posição sindical em 2026. A direção do Sintepe entrou na nova campanha já com o argumento de que havia precedente para não restringir a atualização à base da tabela.


Por isso, a campanha deste ano foi menos sobre criar uma nova tese e mais sobre impedir um recuo. A categoria entrou na negociação para preservar a lógica de carreira que vinha sendo defendida nas campanhas anteriores.


Confira como fica a Tabela Salarial após o Reajuste de 5,4%

Baixe o arquivo para ver a tabela completa



O que muda na prática para a categoria


A aprovação do reajuste tem efeito político, financeiro e simbólico. No plano financeiro, ele corrige o piso e repercute em segmentos que o sindicato considerava ameaçados de ficar à margem da atualização. No plano político, fortalece o Sintepe como ator central na mesa da educação e dá lastro à liderança de Ivete Caetano. No plano simbólico, reafirma para a base que mobilização ainda produz resultado concreto, mesmo num ambiente de negociação difícil.


Também há um efeito institucional importante. O projeto aprovado pela Alepe e sancionado pelo Executivo encerra a fase emergencial da campanha salarial, mas não resolve todos os itens da pauta. Permanecem em discussão demandas ligadas à reformulação do plano de cargos, às condições de trabalho, à infraestrutura da rede e à valorização de segmentos que seguem cobrando tratamento mais amplo do Estado.


O caso deixa uma lição política para 2026 em Pernambuco. O reajuste só virou lei porque houve pressão social organizada, leitura estratégica do calendário legal e capacidade sindical de sustentar uma narrativa simples e forte: piso nacional sem repercussão na carreira não atende a educação pública de forma plena. A aprovação na Alepe e a sanção do governo fecham um ciclo, mas o sentido da conquista foi moldado pela ação do Sintepe, pela condução de Ivete Caetano e pela insistência de uma categoria que só viu a mesa de negociação avançar depois de sair duas vezes às ruas.


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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo de O estopim, com atuação em política, educação e temas de interesse público.

Mobilização de 26 de março reúne estudantes e trabalhadores da educação, enquanto SINTEPE contesta o índice de 40% usado pelo governo para vender valorização da categoria; gestão destaca obras, nomeações e programas, mas segue cobrada por resultados concretos na carreira e no cotidiano escolar


Por Helena Valente para O estopim | 26 de março de 2026


Multidão de manifestantes em camisas vermelhas protestam segurando bandeiras e faixas por respeito e valorização. Ambiente externo.
Professores de Pernambuco cobram respeito e valorização de Raquel Lyra que, apesar das propagandas e estratégias narrativas, não entrega o que exibe nos anúncios do governo na TV | Foto: Sintepe Digital

A mobilização do Dia Nacional da Paralisação dos Estudantes, realizada nesta quinta-feira (26), recolocou a educação no centro da disputa política em Pernambuco. Em meio a atos em defesa da escola pública, gratuita e de qualidade, estudantes, professores e demais profissionais da rede estadual passaram a ecoar uma crítica que já vinha crescendo: a de que o governo Raquel Lyra construiu uma narrativa de valorização da educação mais robusta do que os efeitos concretos percebidos por quem vive a escola. O ponto mais sensível está no reajuste salarial da categoria e no desgaste provocado pela diferença entre o discurso oficial e os números apresentados pelo Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Pernambuco, o SINTEPE.


Estudantes e profissionais da educação ocupam a mesma trincheira


O texto de apoio à paralisação estudantil enviado à reportagem sintetiza o tom da mobilização. A mensagem afirma que o dia 26 de março começou com estudantes nas ruas, nas escolas e nas praças de todo o país, levantando suas vozes em defesa da educação pública. O documento também registra o apoio de professores e demais profissionais da educação, que associam a luta estudantil à defesa de escolas com estrutura digna, valorização de quem ensina e de quem aprende, condições reais de ensino e respeito à escola pública.


O dado político mais relevante desse encontro é que ele amplia o alcance da insatisfação. Quando estudantes e trabalhadores da educação se reconhecem na mesma pauta, o debate deixa de ser apenas corporativo e passa a envolver a qualidade do serviço prestado à população. O desgaste, nesse caso, atinge diretamente o governo estadual, que há mais de três anos tenta se apresentar como protagonista de uma virada na educação pernambucana.


Raquel Lyra mente: a disputa pelos números do reajuste


O centro do conflito está na forma como o governo apresenta os ganhos salariais da categoria. Em material divulgado pelo SINTEPE, a presidenta da entidade, Ivete Caetano, afirma que o reajuste acumulado nos últimos quatro anos não foi de 40%, como sustentou o governo do Estado. Segundo o sindicato, o reajuste com repercussão efetiva na carreira, isto é, aquele que alcança todas e todos os profissionais da educação sem excluir segmentos, foi de apenas 16%.


Grupo de pessoas com camisetas vermelhas e bandeiras protestam animadamente ao ar livre. Fundo com cartaz "Alepe Mulher". Muita energia.
Reajuste além de obrigatório ao Governo de Raquel Lyra só foi conquistado graças a luta dos professores e após paralizações na Rede e agora a Governadora tenta vender a narrativa de que foi fruto da valorização que seu governo dá a categoria, o que, segundo eles, não é totalmente verdade e os números comprovam | Foto: Sintepe Digital

Ainda de acordo com a entidade, mesmo quando se considera o reajuste de 13,5% concedido em 2023, que não teria contemplado mais de 52 mil trabalhadoras e trabalhadores da educação, o acumulado chega a 31,7%, e não a 40%. A diferença não é apenas contábil. Ela revela uma divergência sobre o que pode ou não ser apresentado como valorização real.


Na prática, a crítica sindical é a de que o governo soma percentuais de naturezas diferentes, com impactos distintos sobre a folha e sobre a carreira, para construir um saldo político mais favorável. É esse tipo de operação que transforma um anúncio administrativo em peça de propaganda. Quando isso ocorre numa área tão sensível quanto a educação, o ruído deixa de ser apenas técnico e passa a afetar a confiança da categoria e da sociedade.


O que o governo mostra e o que ainda não resolve


Seria impreciso dizer que a gestão Raquel Lyra nada fez na área. As páginas públicas do Governo de Pernambuco e da Secretaria de Educação destacam investimentos em infraestrutura, construção de creches, entrega de ônibus escolares, distribuição de notebooks, realização de eventos literários, pagamento de bônus e nomeações de professores. O programa Juntos pela Educação também segue sendo apresentado como a principal vitrine da política educacional do governo.


Essas iniciativas existem e têm peso administrativo. O problema é outro. Elas não encerram, por si só, as cobranças sobre salário, carreira, condições de trabalho e coerência entre discurso e realidade. Uma gestão pode inaugurar quadras, abrir editais, entregar equipamentos e ampliar a rede de serviços. Ainda assim, permanecer vulnerável a críticas quando a base da educação considera que segue subvalorizada, excluída de parte dos reajustes ou obrigada a conviver com precarização.


É justamente aí que a crítica ao governo Raquel Lyra ganha consistência. O erro político da gestão não está apenas em enfrentar uma categoria organizada. Está em tentar converter toda ação administrativa em prova suficiente de valorização, mesmo quando o cotidiano da rede ainda produz contestação. Em vez de reduzir a tensão, essa estratégia pode aprofundá-la, porque aumenta a distância entre a comunicação oficial e a experiência concreta de quem está no chão da escola.



A Alepe vira novo campo de prova para o governo


Segundo o material do SINTEPE, o projeto de lei do reajuste da educação já está em tramitação na Assembleia Legislativa de Pernambuco e foi encaminhado para a Comissão de Constituição e Justiça. Isso desloca parte do conflito para o Legislativo, onde a disputa passa a ser também sobre narrativa pública, custo político e capacidade de articulação do Palácio do Campo das Princesas.


Nesse ambiente, o governo será pressionado a demonstrar com mais clareza o alcance real do reajuste que anuncia. Já a oposição e os movimentos ligados à educação tendem a explorar a divergência entre o percentual divulgado oficialmente e os números apresentados pela categoria. A questão central deixa de ser apenas qual índice cabe no orçamento. Passa a ser também qual versão dos fatos resiste melhor ao escrutínio público.


O problema de fundo é a confiança


A educação é uma área em que governos costumam buscar resultados de imagem com rapidez. Obras rendem fotografias. Entregas rendem agenda positiva. Programas com nomes fortes rendem marca política. Mas educação não se sustenta apenas com vitrine. Ela exige continuidade, financiamento, diálogo com a base e valorização profissional que faça sentido no contracheque, na progressão e no ambiente escolar.


Grupo de pessoas segurando placas de protesto em praça, com cartazes em vermelho e preto. Ambiente urbano ao fundo, emoções sérias.
As manifestações e atos públicos de hoje aconteceram em todo país e ganharam apoio e adesão em todo o estado de Pernambuco, incluindo Arcoverde | Foto: Michael Andrade/Agência O estopim+

O que a paralisação estudantil de 26 de março expõe, em Pernambuco, é que o governo Raquel Lyra ainda não conseguiu pacificar a percepção sobre sua política educacional. Ao contrário. A mobilização mostra que permanece aberta uma frente de desconfiança. Estudantes denunciam descaso, precarização e falta de compromisso com a escola pública. Trabalhadores da educação contestam números, cobram respeito à carreira e afirmam que o reajuste anunciado não contempla integralmente a categoria.


Quando esse conjunto de vozes passa a se sobrepor ao discurso oficial, o sinal para o governo é claro. Não basta investir e comunicar. É preciso convencer. E convencer, nesse caso, depende menos de marketing institucional e mais de transparência, negociação efetiva e reconhecimento material de quem sustenta a educação pública todos os dias.


O que está em jogo daqui para frente


A tramitação do reajuste na Alepe tende a ser apenas uma etapa de um conflito maior. O embate envolve remuneração, carreira, prioridade orçamentária e credibilidade política. Também envolve o direito da sociedade de saber se a valorização anunciada pelo governo corresponde, de fato, ao que chega aos profissionais da educação.


Se o Palácio insistir em tratar a contestação como mero ruído de oposição ou resistência sindical previsível, corre o risco de agravar o próprio desgaste. Porque, na educação, o problema raramente começa no ato público. O ato é só a parte visível de uma insatisfação acumulada. O estopim, quase sempre, já veio antes.


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Opinião de Helena Valente para O estopim | 19 de março de 2026


Mulher de cabelo castanho fala ao microfone em ambiente formal. Ela veste jaqueta cinza e expressa seriedade. Fundo neutro.
Governadora Raquel Lyra (PSD) | Foto: Júlio Gomes

Quando um governo transforma obrigação legal em peça de marketing, o que está em jogo não é só a narrativa. É o respeito à inteligência de quem ensina, de quem estuda e de quem sustenta a escola pública com o próprio corpo. Em Pernambuco, a tentativa de vender como gesto magnânimo da governadora Raquel Lyra o reajuste do piso do magistério em 2026 é daquelas operações de maquiagem política que insultam a memória recente. Não foi iniciativa espontânea do Palácio. Não foi generosidade. Não foi iluminação republicana. Foi pressão. Foi campanha salarial. Foi mobilização. Foi sindicato na rua. Foi categoria organizada. Foi cobrança pública até o governo sair da inércia e sentar para negociar de verdade.


O Sintepe havia protocolado a pauta da campanha salarial no início de fevereiro. Um mês depois, a própria direção sindical denunciava que não existia proposta concreta apresentada pela gestão estadual. O cenário, portanto, não era de diálogo abundante, mas de empurra com a barriga. A rede estadual assistia ao mesmo filme de sempre: piso nacional reajustado, prazo correndo, categoria cobrando e governo calculando o custo político de continuar calado. Só depois da paralisação, dos atos, da repercussão pública e da pressão política a máquina estadual resolveu se mexer. E, quando se mexeu, tentou vender a obrigação como virtude pessoal da governadora.


É aqui que o cinismo entra em cena. O governo publicou o acordo no dia 18 de março dizendo tratar-se de “nova demonstração de compromisso com a valorização do funcionalismo público”. A formulação não é inocente. Ela procura deslocar o eixo da história. Em vez de reconhecer que a categoria arrancou uma conquista com organização e enfrentamento, o texto oficial reposiciona o Executivo como protagonista benevolente. É uma disputa de memória em tempo real. Quem conta a história primeiro tenta sequestrar o crédito. E foi isso que se viu.


Mas convém recolocar os fatos no lugar. O piso salarial profissional nacional do magistério foi fixado pelo MEC em R$ 5.130,63 para 40 horas semanais em 2026. Não se trata de um mimo inventado por Raquel Lyra. Trata-se de um parâmetro nacional, de cumprimento obrigatório para as redes públicas. Em Pernambuco, a vitória real da campanha salarial não foi apenas reconhecer o novo piso, mas garantir sua repercussão em toda a carreira, alcançando professores, analistas, administrativos, ativos, aposentados, efetivos, temporários e apoio escolar. Isso não caiu do céu. Isso foi negociado sob pressão porque havia uma categoria organizada dizendo, com todas as letras, que piso sem carreira é maquiagem remuneratória.


A literatura educacional é cristalina sobre esse ponto. Valorização docente não se resume a discurso motivacional de palanque. Ela depende de carreira estruturada, remuneração digna, formação, condições de trabalho e estabilidade institucional. Quando o poder público tenta descolar o piso da carreira, ele esvazia a política de valorização. Mantém um degrau mínimo para poucos e conserva o resto da categoria comprimido. É por isso que a luta do Sintepe não era um capricho contábil. Era defesa da lógica mais elementar de justiça funcional.


Também é preciso desmontar outra fraude retórica: a de que o reajuste saiu da boa vontade do caixa estadual. Salário de professor não sai do bolso da governadora. Sai de dinheiro público vinculado à educação, em grande medida sustentado pelo Fundeb, que financia remuneração e manutenção da educação básica. A própria legislação do novo Fundeb determina que, no mínimo, 70% dos recursos anuais do fundo sejam destinados à remuneração dos profissionais da educação básica em efetivo exercício. Para 2026, a previsão oficial é de que o Governo do Estado de Pernambuco tenha quase R$ 4,9 bilhões em receitas do Fundeb, incluindo mais de R$ 850 milhões de complementação da União. Em outras palavras, não estamos falando de favor palaciano, mas de obrigação financiada por um fundo constitucionalmente vinculado, alimentado por receitas públicas e complementado com recursos federais.


Isso não significa que o Estado não tenha responsabilidade. Tem, e muita. A rede estadual é sua. A folha é sua obrigação. A execução orçamentária é sua. O que não pode é a governadora posar como benfeitora de um direito que ela apenas foi obrigada a cumprir, e ainda sob atraso político. O mínimo virou marketing. O dever virou propaganda. E propaganda em ano eleitoral tem método. Humaniza a chefe, dilui o conflito, apaga o sindicato e tenta convencer a opinião pública de que o avanço veio da sensibilidade do governo, não da correlação de forças.


O mais grave é que esse enredo não se passa num sistema educacional exemplar. Pernambuco segue convivendo com denúncias de escolas com problemas estruturais graves, falta de climatização, merenda precária e reformas lentas. O próprio Sintepe vinculou a campanha salarial de 2026 à cobrança por infraestrutura decente, lembrando que a valorização profissional não cabe em peça publicitária enquanto estudantes e trabalhadores enfrentam calor, fiação exposta e ambientes insalubres. Não existe política séria de educação quando o governo quer colher dividendos da folha e terceiriza o desgaste das escolas ao cotidiano de professores e alunos.


A contradição fica ainda mais ofensiva quando se olha para o volume de recursos que circulam na educação e para a forma como o governo administra sua comunicação. Se há dinheiro constitucionalmente vinculado, se há complementação da União, se há obrigação legal de cumprir o piso, então o debate central deveria ser outro: por que a negociação não foi aberta com a celeridade devida? Por que foi necessário pressionar para que o governo reconhecesse um direito previsível desde janeiro? Por que a resposta só ganha velocidade quando a rua esquenta e a crítica se espalha?


Mulher falando ao microfone, vestindo terno risca de giz. Expressão séria, gesticulando. Fundo desfocado e escuro.
Socorro Pimentel | Foto: Roberto Soares/Alepe

As respostas apontam para uma prática política conhecida. Primeiro, adia-se. Depois, testa-se a resistência da categoria. Em seguida, quando o custo do impasse sobe, negocia-se o inevitável. Por fim, apaga-se a luta e divulga-se o desfecho como ato de liderança. É uma engenharia de desgaste da categoria e de apropriação do resultado. Na educação, isso é particularmente perverso porque explora a paciência de uma classe historicamente sobrecarregada e ainda exige gratidão por cada centavo do que já era direito.


Há, sim, um padrão de comunicação no raquelismo que merece escrutínio. Em outras áreas, a gestão já surfou entregas e anúncios marcados por forte participação federal ou por herança administrativa anterior, tentando centralizar politicamente dividendos de obras cuja autoria, financiamento ou maturação são compartilhados. Na BR-104, a retomada foi registrada pelo noticiário como obra com recursos federais e o próprio governo estadual falou em articulação com o Ministério dos Transportes. Na Adutora do Agreste, a entrega foi apresentada como troféu de gestão, embora se trate de um empreendimento histórico, multigovernamental e com protagonismo federal explícito. Em janeiro de 2025, funcionários do IBGE chegaram a criticar o teor promocional de material do governo estadual. O problema não é comunicar. Todo governo comunica. O problema é comunicar de modo a eclipsar coautorias, lutas sociais e a própria natureza pública dos recursos.



No caso do piso, esse vício aparece em estado bruto. A categoria fez campanha. O sindicato pautou. A pressão se acumulou. O prazo eleitoral apertou. A cobrança ecoou na Alepe e nas ruas. Só então o governo fechou acordo. No dia seguinte, aliados correram às redes para parabenizar a governadora por um “acordo histórico”, como se a história começasse no vídeo de celebração e não no mês de mobilização que obrigou a gestão a sair do conforto. É o tipo de operação que aposta numa memória curta e numa sociedade cansada. Só que professoras e professores têm memória de calendário, contracheque e sala de aula. Sabem quem chamou para a luta e sabem quem demorou para responder.


E sabem também que piso não resolve tudo. Sem concurso suficiente, sem infraestrutura digna, sem clima escolar saudável, sem redução do adoecimento, sem valorização dos funcionários e sem respeito à negociação coletiva, a educação segue sendo tratada como vitrine quando convém e como gasto quando a categoria reivindica. O governo tenta posar para a foto da vitória, mas foge da fotografia maior, aquela em que aparece a precariedade da rede, o uso político da comunicação oficial e a insistência em só negociar depois que a pressão se torna incontornável.


É por isso que esta não é apenas uma disputa sobre 5,4%. É uma disputa sobre autoria política e honestidade pública. Quando a governadora tenta chamar para si o mérito central de uma conquista arrancada pelo Sintepe e pela categoria, ela não apenas falseia os fatos. Ela reafirma uma lógica elitista segundo a qual direitos só existem quando o poder os concede. Não. Direitos existem antes do vídeo, antes do post, antes do palanque. O que os transforma em realidade é luta organizada.


Se Raquel Lyra quiser realmente demonstrar compromisso com a educação pública, há um caminho mais digno do que posar de madrinha de um reajuste obrigatório. Que abra as mesas no tempo certo. Que negocie sem chantagem de calendário. Que execute com transparência os recursos da educação. Que trate sindicato como interlocutor, não como obstáculo. Que reconheça publicamente a legitimidade da mobilização. E, sobretudo, que pare de exigir aplauso por cumprir a lei.


Porque a verdade, nua e sem filtro oficial, é simples. A vitória de 2026 tem dono coletivo. Ela nasceu da organização do Sintepe, da disposição de luta da categoria e da pressão social que impediu mais um ano de enrolação. O resto é propaganda.


O estopim — O começo da notícia!

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Mulher com crachá em redação, olhando séria para a câmera. Fundo com computadores e pessoas trabalhando. Ambiente de escritório.

Helena Valente é repórter especial e analista de Educação de O estopim. Investiga orçamento, carreira docente, infraestrutura escolar e os mecanismos políticos que aprofundam desigualdades na escola pública brasileira.

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