Por Raul Silva para O estopim | 2 de abril de 2026

A aprovação, pela Assembleia Legislativa de Pernambuco, do reajuste de 5,4% para os profissionais da educação da rede estadual encerra um ciclo de pressão sindical, impasse político e disputa sobre quem teria, de fato, direito à atualização salarial. O projeto passou por unanimidade no plenário da Alepe em 31 de março, foi sancionado pela governadora Raquel Lyra em 1º de abril e publicado no Diário Oficial em 2 de abril, beneficiando mais de 77 mil trabalhadores entre professores, analistas e servidores administrativos da educação. Mas, no centro da história, o que a cronologia mostra é que a negociação só ganhou forma depois da escalada de mobilização liderada pelo Sintepe, sob a condução da presidenta Ivete Caetano, e da pressão pública de uma categoria que passou a exigir, com mais força, que o índice do piso nacional repercutisse em toda a carreira.
O que foi aprovado
O texto aprovado garante a atualização do piso do magistério em 5,4%, acompanhando o valor nacional definido para 2026. Na prática, o salário-base dos docentes com jornada de 200 horas mensais passa a R$ 5.130,63. Para quem cumpre 150 horas mensais, o valor fica em R$ 3.847,97. Para os professores com vencimento abaixo do piso, o reajuste tem efeito retroativo a janeiro de 2026. Para os demais profissionais da educação, incluindo faixas da carreira que já estavam acima do piso, além de analistas e administrativos, a aplicação será linear a partir de junho.
O pacote aprovado também alcança outras frentes da carreira. A Gratificação de Função Técnico-Pedagógica foi fixada em R$ 1 mil, e houve manutenção de pagamentos ligados à atuação em unidades socioeducativas e prisionais, além de avanços no mecanismo de progressão funcional para servidores que concluírem o estágio probatório. O resultado, na leitura do sindicato, não se limita ao reajuste do ano. Ele consolida a lógica de vincular o piso nacional à estrutura da carreira estadual.
O centro do impasse
O principal atrito entre o Governo Raquel Lyra e a categoria não era a existência do reajuste do piso nacional, mas a sua extensão. O ponto decisivo era saber se o índice seria aplicado apenas na referência inicial do magistério ou se alcançaria toda a carreira, incluindo professores em outras faixas, analistas, administrativos, aposentados, contratados temporários e profissionais de apoio escolar.
Foi nessa disputa que o Sintepe concentrou sua campanha de 2026. A pauta de reivindicações da campanha salarial foi protocolada em 6 de fevereiro, mas, segundo o sindicato, a primeira mesa de negociação não apresentou proposta concreta do governo. A partir daí, o discurso sindical passou a combinar duas frentes. Uma era financeira, defendendo a repercussão do piso em toda a carreira. A outra era estrutural, com denúncias sobre escolas sem climatização, rede elétrica precária, problemas de merenda e atraso em reformas.
Naquele momento, a avaliação da direção sindical era clara: havia resistência do governo em assumir, desde o início, um reajuste com alcance mais amplo. É nesse ponto que a atuação de Ivete Caetano ganha centralidade política. Coube à presidenta do Sintepe vocalizar o argumento de que a valorização não poderia se limitar ao professor em início de carreira, sob pena de repetir distorções que já haviam provocado confrontos em anos anteriores.
A virada da campanha veio em março. Em assembleia realizada no dia 5, trabalhadores da educação aprovaram uma paralisação estadual para o dia 10 de março e uma nova rodada de mobilização e interrupção de atividades no dia 12. No dia 10, a categoria ocupou o entorno da Alepe para cobrar resposta formal do Palácio do Campo das Princesas. Dois dias depois, os protestos continuaram em escolas e espaços públicos, ampliando a pressão sobre o governo em meio ao prazo legal de um ano eleitoral, que exigia rapidez para envio de projeto com impacto remuneratório.
Foi depois dessa sequência de atos que a negociação andou. O acordo foi fechado em mesa com as secretarias envolvidas e levado à assembleia da categoria em 17 de março, quando foi aprovado por unanimidade por mais de mil participantes. Na leitura do sindicato, o resultado não foi um gesto espontâneo do Executivo, mas uma conquista arrancada pela combinação de base mobilizada, cronograma de paralisações e pressão política.
Ivete Caetano e o papel do Sintepe
A campanha de 2026 consolidou Ivete Caetano como o principal rosto político da negociação do lado dos trabalhadores. Ao longo do impasse, ela sustentou publicamente que a pauta não era apenas salarial. Tratava-se de defender o princípio de que o piso nacional do magistério precisa repercutir ao longo da carreira e de associar a discussão remuneratória às condições concretas das escolas.
Esse papel foi importante por duas razões. A primeira é interna. Ivete ajudou a manter a categoria coesa em torno de uma reivindicação objetiva, num momento em que o calendário eleitoral encurtava o tempo de negociação e pressionava o sindicato a transformar mobilização em resultado concreto. A segunda é externa. Sua condução deu ao Sintepe capacidade de falar para além da base sindicalizada, conectando a luta por reajuste com o debate sobre infraestrutura escolar, qualidade da merenda, climatização e destino dos recursos da educação.
O discurso sindical, portanto, não ficou restrito ao contracheque. Ele procurou dar sentido político à campanha, apresentando a valorização salarial como parte de uma defesa mais ampla da escola pública. Isso ajudou a ampliar a legitimidade da pressão e a reforçar a leitura de que a negociação não era apenas corporativa.

O que o governo diz
O Governo de Pernambuco sustenta uma narrativa diferente. Ao encaminhar o projeto à Alepe e depois sancionar a lei, a governadora Raquel Lyra afirmou que o acordo era fruto de diálogo, trabalho sério e responsabilidade, além de destacar que, desde janeiro de 2023, os professores da rede pública estadual acumulam cerca de 40% de reajuste, segundo a gestão.
Essa versão precisa ser registrada porque compõe o outro lado do conflito. O governo tenta enquadrar o acordo como continuidade de uma política de valorização já em curso. O Sintepe, por sua vez, sustenta que, sem pressão, a repercussão do índice em toda a carreira não teria sido assegurada. O que os fatos mostram é que o acordo só foi formalizado depois da intensificação da mobilização e de duas datas de paralisação e protesto organizadas pela categoria.
A disputa deste ano carrega a memória de pelo menos dois capítulos recentes. Em 2023, a proposta de reajuste de 14,95% enviada pelo governo foi alvo de forte contestação porque, segundo o Sintepe, alcançaria apenas uma parcela da categoria, deixando de fora dezenas de milhares de profissionais. O episódio marcou a relação inicial entre o governo Raquel Lyra e a educação estadual e transformou a repercussão do piso ao longo da carreira no ponto mais sensível das negociações seguintes.
Em 2025, a categoria voltou a pressionar e aprovou um acordo que distribuiu reajustes entre 6,27% e 8,38% na carreira do magistério, além de contemplar outros cargos da educação. Esse antecedente fortaleceu a posição sindical em 2026. A direção do Sintepe entrou na nova campanha já com o argumento de que havia precedente para não restringir a atualização à base da tabela.
Por isso, a campanha deste ano foi menos sobre criar uma nova tese e mais sobre impedir um recuo. A categoria entrou na negociação para preservar a lógica de carreira que vinha sendo defendida nas campanhas anteriores.
Confira como fica a Tabela Salarial após o Reajuste de 5,4%
Baixe o arquivo para ver a tabela completa
O que muda na prática para a categoria
A aprovação do reajuste tem efeito político, financeiro e simbólico. No plano financeiro, ele corrige o piso e repercute em segmentos que o sindicato considerava ameaçados de ficar à margem da atualização. No plano político, fortalece o Sintepe como ator central na mesa da educação e dá lastro à liderança de Ivete Caetano. No plano simbólico, reafirma para a base que mobilização ainda produz resultado concreto, mesmo num ambiente de negociação difícil.
Também há um efeito institucional importante. O projeto aprovado pela Alepe e sancionado pelo Executivo encerra a fase emergencial da campanha salarial, mas não resolve todos os itens da pauta. Permanecem em discussão demandas ligadas à reformulação do plano de cargos, às condições de trabalho, à infraestrutura da rede e à valorização de segmentos que seguem cobrando tratamento mais amplo do Estado.
O caso deixa uma lição política para 2026 em Pernambuco. O reajuste só virou lei porque houve pressão social organizada, leitura estratégica do calendário legal e capacidade sindical de sustentar uma narrativa simples e forte: piso nacional sem repercussão na carreira não atende a educação pública de forma plena. A aprovação na Alepe e a sanção do governo fecham um ciclo, mas o sentido da conquista foi moldado pela ação do Sintepe, pela condução de Ivete Caetano e pela insistência de uma categoria que só viu a mesa de negociação avançar depois de sair duas vezes às ruas.
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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo de O estopim, com atuação em política, educação e temas de interesse público.
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