Por Michael Andrade, da redação de O Estopim – Fonte: Agência Brasil | 11 de fevereiro de 2026
A partir desta quarta-feira (11), as instituições públicas de ensino superior participantes do Sistema de Seleção Unificada (Sisu) 2026 iniciaram a convocação de candidatos em lista de espera para ocupar vagas não preenchidas na chamada regular do processo seletivo. Os estudantes que manifestaram interesse em participar da lista de espera, para apenas um curso de graduação, estão sendo chamados conforme a ordem de classificação e a disponibilidade de vagas.
Imagem: Reprodução
O Sisu oferece vagas de instituições públicas de educação superior do Brasil, com destaque para universidades e institutos federais. Em 2026, o programa disponibiliza mais de 274 mil vagas em 7,3 mil cursos, em 587 municípios de todo o país. Mais da metade das vagas, cerca de 54,3%, são destinadas por meio da Lei de Cotas e outras ações afirmativas.
O Ministério da Educação (MEC) confirma que esta edição do Sisu é a maior da história do programa, com a participação de 136 instituições públicas. Na última semana, o MEC anunciou que 99% das vagas foram preenchidas na chamada regular, com 271.789 candidatos aprovados.
Para os candidatos em lista de espera, é fundamental que acompanhem as convocações diretamente no site da instituição escolhida, observando os prazos e os documentos exigidos para matrícula. O candidato pode verificar a documentação necessária para registro acadêmico e matrícula, conforme orientações do edital da universidade pública.
Além disso, os candidatos que realizaram o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) em 2025 para obter o certificado de conclusão do ensino médio podem acessar, na Página do Participante do Enem, a declaração digital necessária para a pré-matrícula na educação superior.
O Sisu 2026 já representa um marco no número de vagas e instituições participantes, consolidando-se como uma importante porta de entrada para o ensino superior público no Brasil.
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Sala de aula escola pública do RN Escola Estadual Duque de Caxias Rio Grande do Norte do Norte cadeiras Macau RN — Foto: Elisa Elsie/Governo do RN
Piso 2026 a humilhação decimal
Imagine receber o contracheque em janeiro e descobrir que o reconhecimento pelo seu trabalho, após um ano de salas superlotadas e planejamento noturno, vale menos que um cafezinho na esquina. É exatamente esse o cenário desenhado para o magistério brasileiro. Pelas regras vigentes de cálculo do Piso Salarial Profissional Nacional (PSPN), atreladas à variação do Valor Aluno Ano (VAAF) do Fundeb, o reajuste projetado para o próximo ciclo seria de irrisórios 0,37%.
Não é um erro de digitação. É zero vírgula trinta e sete.
Para um professor que ganha o piso atual (R$ 4.580,57), isso representaria um aumento de cerca de R$ 16,90. Enquanto o custo da cesta básica dispara e a inflação corrói o poder de compra, a "matemática" fria herdada de um período de trevas educacionais oferece migalhas. Essa aberração estatística não surgiu do nada; ela é o fantasma da gestão Bolsonaro assombrando o contracheque de quem sustenta a educação pública neste país.
A herança maldita e a engenharia do caos
Esse índice vergonhoso de 0,37% não é um "acidente fiscal". É o sintoma agudo de uma política deliberada de asfixia implementada entre 2019 e 2022. O governo Bolsonaro não apenas cortou verbas; ele desorganizou a estrutura de financiamento da educação.
A atual regra de reajuste do piso, baseada na variação do valor por aluno, torna-se uma armadilha mortal quando a economia estagna ou quando há desonerações irresponsáveis (como as feitas com o ICMS em fins eleitorais de 2022), que derrubam a arrecadação de estados e municípios. O governo anterior, ao atacar a educação como "inimiga ideológica" e congelar investimentos, criou um vácuo jurídico e financeiro. Eles transformaram o MEC em um balcão de negócios para pastores e deixaram uma bomba-relógio no Fundeb: se a arrecadação não cresce, o professor não come.
Agora, o governo Lula corre contra o tempo para desarmar essa bomba. A proposta que está na mesa, prestes a virar Medida Provisória (MP) até o fim de janeiro, busca alterar a base de cálculo. A ideia é substituir a volatilidade do VAAF por um índice que combine a inflação (INPC) com ganho real, projetando um reajuste em torno de 6,25%.
Não se enganem: a diferença entre 0,37% e 6,25% não é apenas numérica. É a diferença entre a continuidade do projeto de precarização bolsonarista e a retomada, ainda que tímida, da valorização profissional.
A "Tia" que pague para trabalhar
Vamos descer dos gabinetes de Brasília para o chão da escola. Pense na professora Helena, da rede municipal de uma cidade média. Ela gasta do próprio bolso para comprar cartolina e canetas, porque o material "licitado" nunca chega. Ela lida com alunos que desmaiam de fome na segunda aula.
Quando Helena ouve falar em 0,37%, ela não vê um índice econômico. Ela sente o desrespeito na pele. "É como se dissessem que meu esforço vale menos a cada ano", desabafa uma docente em um grupo de WhatsApp da categoria, um dos muitos que fervilham de indignação.
Para a Confederação Nacional de Municípios (CNM), que vive chorando miséria enquanto prefeitos aumentam os próprios salários, pagar o piso é "gasto insustentável". Para Helena, o piso é a única barreira que a impede de abandonar a sala de aula para virar motorista de aplicativo ou vendedora, profissões dignas, mas que não exigem a formação superior e a responsabilidade social que ela carrega. A recusa em dar um reajuste decente é uma forma de violência psicológica contra quem já está exausto.
Desmontando a falácia da "Falta de Verba"
Vamos aos fatos e à Lei 11.738/2008. O argumento de que "não há dinheiro" é uma falácia contábil.
A Armadilha do VAAF: O critério atual (Lei 14.113/2020) atrela o reajuste à variação do valor mínimo por aluno. O legado econômico desastroso de Paulo Guedes e Bolsonaro achatou essa variação. Sem crescimento robusto da arrecadação, o mecanismo trava.
A Proposta do Governo Federal: A nova MP deve buscar um meio-termo. Um reajuste de 6,25% (provavelmente INPC + uma porcentagem de ganho real baseada no crescimento da receita) é tecnicamente viável. O Fundeb tem recursos. O problema é a prioridade.
Investimento, não Gasto: Estudos do INEP e comparativos da OCDE mostram que o Brasil ainda investe pouco por aluno em comparação a países desenvolvidos, embora invista uma fatia razoável do PIB. O gargalo está na gestão e na valorização dos recursos humanos. Pagar bem o professor é a medida mais eficiente para melhorar a qualidade do ensino, muito mais do que comprar tablets superfaturados de edtechs que prometem milagres.
A resistência dos prefeitos e governadores não é técnica; é política. Eles preferem asfaltar ruas em ano eleitoral a garantir a subsistência do magistério. O reajuste de 6,25% é o mínimo para repor as perdas inflacionárias e garantir um respiro. O índice de 0,37% seria, juridicamente, o cumprimento da letra fria de uma regra quebrada por uma economia sabotada.
Ou valoriza ou a escola para
A MP que o governo Lula promete para janeiro é um curativo necessário numa ferida aberta. Se o reajuste ficar em 0,37%, teremos a maior greve nacional da educação da última década. Não haverá "pacto pela educação" que se sustente sobre a fome dos professores.
A disputa que se avizinha no Congresso para aprovar essa MP será brutal. O lobby municipalista vai gritar que as prefeituras vão quebrar. Cabe a nós perguntar: e a coluna vertebral do professor, que já quebrou carregando o peso do descaso?
Se permitirmos que a lógica do "teto de gastos" e da "herança maldita" vença, decretaremos o fim da carreira docente no Brasil. 6,25% não é o céu, mas 0,37% é o inferno. A caneta do Ministro Camilo Santana precisa estar cheia de tinta, e a rua precisa estar cheia de gente. Janeiro definirá se 2026 será o ano da recuperação ou o ano da debandada final das salas de aula.
Nísia Campos é jornalista especializada em educação, defensora da escola pública e acredita que não existe soberania nacional com professor ganhando mal.