- Raul Silva

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Por Heitor Lemos para O estopim | 4 de março de 2026

A morte do aiatolá Ali Khamenei em meio à ofensiva conjunta de Estados Unidos e Israel abriu a sucessão mais sensível do Oriente Médio desde 1989. Com o país sob bombardeio, a disputa pelo posto de líder supremo do Irã deixou de ser especulação de gabinete e virou fator de sobrevivência do regime.
A escolha cabe à Assembleia de Especialistas, um colégio de clérigos eleito sob forte filtro do Conselho dos Guardiões. Na prática, o processo acontece a portas fechadas e sob a sombra do ator mais temido e mais rico do sistema: a Guarda Revolucionária Islâmica.
Irã: Análise de contexto
O cargo de líder supremo existe para garantir que a Revolução Islâmica de 1979 não seja desmontada por eleições ou por governos de turno. É o coração do conceito de velayat-e faqih, a tutela do jurista islâmico sobre a política. Em outras palavras, Teerã é uma república, mas com um freio de mão teológico.
A primeira sucessão, em 1989, foi um trauma administrado. Ruhollah Khomeini morreu sem anunciar publicamente um sucessor e o sistema escolheu Ali Khamenei, então com credenciais religiosas contestadas para o topo. A lição ficou: a institucionalidade pode ser improvisada, mas a cadeia de comando não pode falhar.
Agora a crise é maior por três motivos.
Guerra no território iraniano: a sucessão ocorre sob ataques e com a infraestrutura militar e política sob pressão.
Legitimidade em erosão: protestos e ciclos de repressão desgastaram a ideia de “consenso revolucionário”.
Economia sob sanções: inflação, emprego e moeda viraram combustível social, e a liderança precisa decidir se dobra a aposta na confrontação ou se busca alívio.
Os jogadores
Interesses ocultos
A sucessão não é apenas um duelo de turbantes. É a disputa por:
Controle do complexo militar econômico da Guarda Revolucionária, com contratos, importações, portos e obras.
Direção do programa nuclear e do arsenal de mísseis, o ativo de barganha mais perigoso do país.
Narrativa de continuidade: manter a base ideológica mobilizada, especialmente em tempo de guerra.
O xadrez geopolítico
O novo líder supremo vai decidir, na prática:
Se o Irã endurece a retaliação regional e aprofunda o eixo com Rússia e China.
Se tenta reabrir uma janela de negociação para aliviar sanções e estabilizar a economia.
Se aposta em uma transição mais colegiada, com o aparato de segurança assumindo o protagonismo.
Por trás do palco, cresce o peso do “rei sem coroa” do momento: Ali Larijani, secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional. Ele não aparece como favorito teológico, mas circula onde o poder real mora: inteligência, negociação nuclear, contenção de protestos e articulação entre facções.
Os dossiês dos principais candidatos
A seguir, os nomes que mais circulam nos bastidores de Teerã e os cenários prováveis caso cada um chegue ao topo.
Mojtaba Khamenei

Quem é
Filho de Ali Khamenei, discreto em público e influente nos bastidores. Construíu a fama de “porteiro do poder”, controlando acessos e alinhamentos. A hipótese de sua ascensão enfrenta um tabu: a República Islâmica nasceu contra a hereditariedade do xá.
Base de poder
Relação estreita com segmentos da Guarda Revolucionária e da milícia Basij.
Rede de influência dentro do clero de Qom.
Simbolismo de continuidade em plena guerra.
O que mudaria no Irã
Tendência a uma securitização total do Estado, com prioridade absoluta para controle interno.
Repressão mais preventiva, mirando lideranças sociais e redes digitais.
Concessões sociais limitadas, se houver, apenas como gestão de crise.
Política externa provável
Linha dura contra Estados Unidos e Israel, com retaliação calibrada para não abrir flanco interno.
Fortalecimento do arco com Moscou e Pequim, usando a guerra como argumento de unidade.
No nuclear, postura de barganha agressiva: avançar o suficiente para dissuadir, recuar o suficiente para negociar.
Riscos e consequências
Contestação por “dinastia religiosa” pode incendiar parte da sociedade e até setores do próprio campo conservador.
Se consolidar apoio dos aparatos armados, o Irã pode se tornar ainda mais dependente do poder econômico da Guarda.
Hassan Khomeini

Quem é
Neto do fundador da Revolução Islâmica. Tem peso simbólico, trânsito entre reformistas e parte do clero tradicional, e histórico de críticas pontuais ao filtro eleitoral e a abusos do Estado.
Base de poder
Capital simbólico do sobrenome Khomeini.
Pontes com setores moderados e reformistas.
Possível aceitação entre clérigos que buscam “oxigênio” para o regime.
O que mudaria no Irã
Tentativa de reduzir temperatura interna com gestos de abertura social e política.
Reequilíbrio do discurso religioso para recuperar legitimidade, sem romper com o sistema.
Maior ênfase em governabilidade civil, ainda que sob vigilância dos aparatos.
Política externa provável
Probabilidade maior de negociação para aliviar sanções e estabilizar a economia.
Diplomacia mais ativa com Europa e mediadores regionais.
Continuidade do eixo com Rússia e China, mas com linguagem menos beligerante.
Riscos e consequências
Resistência dura de setores da Guarda e do establishment que veem moderação como fraqueza em tempo de guerra.
Risco de “liderança refém”: eleito para pacificar, mas incapaz de governar sem concessões ao aparato de segurança.
Alireza Arafi

Quem é
Clérigo administrador que ascendeu pelo sistema de Qom, com cargos no Conselho dos Guardiões e na própria Assembleia de Especialistas. Hoje integra o núcleo que responde pela transição.
Base de poder
Credenciais sólidas no clero e influência sobre o sistema de seminários.
Perfil de lealdade doutrinária ao projeto político de Khamenei.
Capilaridade internacional via redes de formação religiosa.
O que mudaria no Irã
Reforço do poder clerical institucional, com menos personalismo e mais doutrina.
Tendência a governar com forte delegação para a área de segurança por falta de experiência executiva.
Fortalecimento de políticas culturais e de controle social sob lógica “educacional”.
Política externa provável
Continuidade ideológica, com retórica antiocidental.
Priorização de alianças e redes religiosas, além da diplomacia formal.
No nuclear, continuidade do cálculo estratégico, mas com menos flexibilidade pública.
Riscos e consequências
Pode ser visto como solução de compromisso, mas corre o risco de virar vitrine enquanto decisões reais migram para uma direção colegiada de segurança.
Gholam-Hossein Mohseni-Ejei

Quem é
Chefe do Judiciário, com passado no Ministério da Inteligência e longa trajetória na linha dura do regime. É um nome associado a operações de repressão e a um modelo de governança pelo medo.
Base de poder
Controle e influência sobre o sistema judicial e sobre redes de promotores e tribunais.
Legitimidade junto ao campo conservador que prioriza ordem interna.
Presença no núcleo de transição.
O que mudaria no Irã
Adoção explícita de um “Estado juiz”, com o Judiciário virando eixo de disciplina social.
Mais prisões políticas, julgamentos sumários e endurecimento de punições.
Discurso anticorrupção como instrumento para enquadrar rivais internos.
Política externa provável
Menos ênfase em charme diplomático, mais em dissuasão.
Possível negociação tática para aliviar sanções, sem abandonar o programa nuclear.
Riscos e consequências
Alta chance de amplificar revoltas internas, sobretudo em centros urbanos.
Endurecimento pode acelerar isolamento, a menos que negocie com pragmatismo.
Mohsen Araki

Quem é
Aiatolá com carreira voltada à política religiosa e ao ecumenismo islâmico sob controle do Estado. Integra círculos de alto nível e circula por conselhos estratégicos.
Base de poder
Rede clerical e institucional em Qom.
Participação em conselhos consultivos e conexão com a máquina ideológica.
Afinidade com a ala que enxerga protestos como ameaça existencial.
O que mudaria no Irã
Radicalização do discurso moral e legitimação religiosa para repressão.
Maior peso de organizações de “proximidade islâmica” como instrumento de soft power.
Política externa provável
Aposta no pan-islamismo controlado por Teerã e em alianças não ocidentais.
Manutenção do “eixo de resistência” com mais carga doutrinária.
Riscos e consequências
Pode ser menos palatável para negociações com o Ocidente.
Cresce o risco de fratura interna por fadiga social.
Mohammad Mehdi Mirbagheri

Quem é
Aiatolá de perfil ultraideológico e teórico, ligado a uma visão civilizacional de confronto com o Ocidente. É o tipo de candidato que não promete ajuste, promete cruzada.
Base de poder
Apoio de grupos ultrarradicais e de setores que querem “purificação” do regime.
Influência acadêmica e discursiva em Qom.
O que mudaria no Irã
Política interna guiada por doutrina, com menos pragmatismo econômico.
Repressão como projeto e não apenas como resposta.
Política externa provável
Confronto frontal, com maior probabilidade de escaladas regionais.
Menos espaço para acordos, mais para “economia de guerra”.
Riscos e consequências
Aumento do isolamento e da pressão econômica.
Forte probabilidade de explosão social, a menos que o aparelho de segurança consiga sufocar tudo.
Outros nomes no radar
Além dos seis acima, circulam bastidores com outros nomes, geralmente como opções de contingência ou de composição:
Ahmad Alamolhoda: clérigo influente em Mashhad e voz dura do conservadorismo.
Hashem Hosseini Bushehri: liderança religiosa em Qom, citado como alternativa de consenso.
Mohsen Qomi: operador de bastidor ligado ao gabinete do líder supremo.
Impacto no Brasil
O Brasil não está na sala de votação de Qom, mas paga a conta do que sai de lá.
Petróleo e inflação: qualquer crise prolongada no Golfo pressiona preços e fretes marítimos. Isso entra na gasolina, no diesel e no custo da comida.
Fertilizantes e logística: volatilidade no Oriente Médio encarece insumos, trava rotas e afeta o agro, mesmo quando o produto não vem diretamente do Irã.
BRICS e diplomacia do Sul Global: com o Irã dentro do BRICS, o tom do novo líder pode mudar o equilíbrio do bloco. Um Irã mais beligerante empurra o grupo para o campo da segurança. Um Irã mais pragmático pode priorizar comércio, moeda e energia.
Política externa brasileira: cresce a pressão por posicionamentos em ONU e fóruns multilaterais, com o desafio de defender direito internacional sem virar peça de propaganda de ninguém.
O debate em Teerã não é sobre modernização versus conservadorismo. É sobre sobrevivência. A pergunta real é quem consegue manter o sistema de pé enquanto bombas caem e a legitimidade desaba.
Se a escolha recair em um sucessor respaldado pela força, o Irã tende a virar um Estado ainda mais policial. Se a opção for alguém com capital simbólico para pacificar, a guerra externa pode virar o pretexto perfeito para sabotar qualquer abertura.
No fim, o mundo quer saber quem será o próximo líder supremo do Irã. O povo iraniano quer saber outra coisa: o próximo líder vai governar para a Revolução ou para os iranianos?
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Heitor Lemos é Correspondente Internacional Sênior e Analista Chefe de Geopolítica de O estopim. Escreve sobre Oriente Médio, energia e guerra híbrida, com foco nas implicações para o Brasil e o Sul Global.
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