O jogo de empurra-empurra: Documentos revelam "guerra de narrativas" entre Governo de Pernambuco e Unika enquanto merendeiras ficam sem salário
- Redação d'O estopim

- 17 de dez. de 2025
- 5 min de leitura
Da Redação de O estopim \ 17 de dezembro de 2025
Enquanto as cozinhas das escolas estaduais de Pernambuco enfrentam o silêncio da paralisação e a angústia de milhares de merendeiras sem salário às vésperas do Natal de 2025, uma batalha silenciosa e documental trava-se nos bastidores do poder.
Uma investigação exclusiva, baseada em dados públicos e notas oficiais, expõe uma contradição flagrante entre o discurso oficial do Palácio do Campo das Princesas e a realidade alegada pela empresa Unika Terceirização e Serviços Ltda. De um lado, o Estado afirma estar "rigorosamente em dia"; do outro, a empresa distribui cartas alegando "escassez de pagamentos" e "vilipêndio administrativo". No meio do fogo cruzado, a ponta mais fraca da corda rompe: a trabalhadora que prepara a alimentação escolar.
A versão oficial do Governo de Pernambuco: "Não devemos nada"
A postura pública da Secretaria de Educação e Esportes (SEE) é de tolerância zero e isenção de culpa. Em nota oficial enviada a nossa redação e a redação da Rádio Itapuama FM o Governo é taxativo:
"A Secretaria de Educação do Estado esclarece que os pagamentos relativos à prestação de serviços estão rigorosamente em dia junto às empresas contratadas."
A nota vai além, transferindo integralmente a responsabilidade para a prestadora de serviço e ameaçando retaliação jurídica:
"A pasta reforça, ainda, que as empresas responsáveis pelos atrasos... já foram formalmente notificadas. [...] Serão adotadas as medidas administrativas e jurídicas cabíveis."
Para o governo Raquel Lyra, a narrativa é clara: o dinheiro saiu dos cofres públicos. Se não chegou ao bolso da merendeira, a culpa é da má gestão da Unika.

Entenda o caso:
Por que as merendeiras estão sem receber se o Governo diz que pagou?
Existe um impasse de narrativas. O Governo de Pernambuco afirma, em nota oficial, que os pagamentos estão "rigorosamente em dia" e que notificou a empresa. Já a Unika, em comunicados internos, alega que sofre com "escassez de pagamentos da Administração Pública", o que compromete seu fluxo de caixa para honrar os salários.
A empresa Unika pertence a parentes da Governadora Raquel Lyra?
Não. Uma investigação genealógica e societária detalhada não encontrou vínculos de parentesco (nepotismo) entre os sócios da Unika e a família Lyra. A relação é comercial e política, vindo desde a gestão da governadora na Prefeitura de Caruaru, onde a empresa já mantinha contratos recorrentes.
O que é o "conflito de interesses" citado na reportagem?
A auditoria identificou que funcionários contratados pela Unika trabalham dentro da Gerência de Licitações (GTLIC) da Secretaria de Educação. Isso significa que empregados da empresa terceirizada atuam no setor responsável por criar editais e fiscalizar contratos, o que gera risco de vazamento de informações e captura regulatória.
Por que a falta de utensílios (panelas e pratos) é citada como problema?
No modelo de contrato atual, a Unika é proprietária dos utensílios de cozinha. Quando há encerramento de contrato ou litígio, a empresa retira equipamentos como panelas e liquidificadores, paralisando o fornecimento da merenda mesmo que haja comida na escola.
Qual o tamanho da operação da Unika no Estado?
A empresa tornou-se um pilar da administração, com contratos que somam dezenas de milhões. Apenas em 2024, foram empenhados mais de R$ 15,5 milhões para apoio administrativo na sede da Secretaria de Educação , além de contratos milionários em Fernando de Noronha e na Prefeitura do Recife.
A versão da empresa: "O Estado não paga"
Contradizendo frontalmente a nota do governo, documentos internos da Unika datados de 09 de dezembro de 2025, obtidos por nossa reportagem, pintam um cenário de asfixia financeira provocada pelo próprio contratante.
Em ofício direcionado a Secretário de Educação, a Unika utiliza uma linguagem jurídica agressiva e vitimista para justificar o calote nos trabalhadores:
"A falta de pagamento da Administração Pública vilipendia os princípios comezinhos e basilares do Direito Administrativo... trazendo forte desequilíbrio contratual e graves transtornos financeiros em detrimento único e exclusivo da UNIKA."
Em outro trecho revelador, a empresa admite operar com margens de lucro perigosamente baixas para vencer as licitações, o que a torna incapaz de suportar qualquer atraso nos repasses estatais:
"Nossa empresa se viu obrigada a reduzir cada vez mais seu lucro, para, somente dessa forma, obter sucesso na sua contratação... os créditos e recebíveis de nossa empresa não podem ser objeto de retenção, sob pena de comprometer seu capital de giro."
A estratégia da Unika é clara: utilizar a pressão social das merendeiras como alavanca para liberar pagamentos administrativos, alegando que só pode pagar se receber.
A realidade dos números: Quem está mentindo?
A análise forense das contas públicas sugere que a verdade é mais complexa do que ambas as narrativas.
1. O volume financeiro:
A Unika não é uma fornecedora qualquer. Ela se tornou um componente estrutural da gestão estadual. Apenas no contrato 076/2022 (Apoio Administrativo), a empresa teve empenhos que superaram R$ 15,5 milhões em 2024 para a sede da Secretaria de Educação. Além disso, a empresa detém contratos estratégicos em Fernando de Noronha (R$ 10 milhões) e na Prefeitura do Recife (R$ 5,8 milhões).
2. O mecanismo "DEA" (O atraso oculto):
Embora o governo diga que está "em dia", auditorias detectaram o uso recorrente de "Despesas de Exercícios Anteriores" (DEA). Isso significa que despesas de um ano (ex: 2024) estão sendo pagas com o orçamento do ano seguinte (2025). Isso indica que, tecnicamente, o Estado fecha o ano devendo, empurrando a dívida para frente. A Unika, por sua vez, parece não ter caixa próprio ("robustez financeira") para cobrir esse "gap" burocrático, dependendo exclusivamente do repasse mensal para honrar a folha.
3. O lucro na pobreza:
Enquanto a empresa alega "reduzir lucro", os dados mostram um abismo entre o que o Estado paga e o que a merendeira recebe. O custo de uma merendeira para o Estado gira em torno de R$ 2.791,24, enquanto o salário base da trabalhadora é de cerca de R$ 1.212,00. Esse "spread" de mais de 100% cobre encargos e a operação da empresa. O fato de a Unika não conseguir pagar salários com essa margem levanta sérias dúvidas sobre sua saúde financeira ou sobre o destino desses recursos.
O "Estado paralelo" e o conflito de interesses
A investigação revela por que o Governo de Pernambuco pode estar hesitando em romper contrato com uma empresa que deixa servidores sem receber. A Unika não fornece apenas merendeiras; ela opera o "cérebro" da Secretaria de Educação.
Funcionários pagos pela Unika foram identificados trabalhando dentro da Gerência de Licitações (GTLIC) e da Secretaria Executiva de Finanças. Ou seja, as pessoas que processam os pagamentos e preparam os editais são, em alguns casos, funcionárias da própria empresa que está sendo paga.
"A presença de funcionários pagos por uma empresa privada (Unika) atuando dentro do setor que deve fiscalizar, julgar e contratar essa mesma empresa constitui um conflito de interesses flagrante." segundo uma fonte interna.
Reféns do sistema
O impasse atual expõe a fragilidade do modelo de terceirização adotado em Pernambuco.
De um lado, um Governo que terceirizou até mesmo a inteligência administrativa de seus órgãos, tornando-se dependente de uma única empresa. Do outro, a Unika, que, sabendo de sua importância estratégica ("Too big to fail"), utiliza o atraso salarial como ferramenta de pressão, enquanto retém até mesmo os utensílios de cozinha (panelas e pratos) que, contratualmente, lhe pertencem, impedindo as escolas de operarem sozinhas.
Enquanto as notas oficiais e os ofícios jurídicos circulam em gabinetes com ar-condicionado, as merendeiras de Pernambuco terminam o ano de 2025 com uma certeza amarga: na guerra de narrativas, a falta de salário, com o Natal as portas, é a única verdade incontestável.
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