De Romanos 13 ao bolsonarismo: quando a Bíblia deixa de limitar o poder e passa a blindá-lo
- Clara Mendes

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No episódio final da série sobre Bíblia e autoritarismo, O Estopim investiga como uma leitura seletiva das Escrituras foi transformada em tecnologia de legitimação política — da Roma imperial ao Brasil da guerra cultural
Por Clara Mendes
21 de março de 2026

A disputa entre religião e política não é nova. O que muda, de época em época, é a forma como essa tensão se organiza, se comunica e se torna socialmente eficaz. Em certos momentos, a fé aparece como linguagem de justiça, limite moral ao poder e defesa dos vulneráveis. Em outros, ela é convertida em instrumento de disciplinamento, obediência e sacralização da autoridade.
É justamente nesse ponto de inflexão que se situa o episódio final da série Bíblia e autoritarismo, de O Estopim, apresentado por Raul Silva. O tema — “De Romanos 13 ao bolsonarismo: Bíblia, autoritarismo e resistência” — parte de uma passagem central do Novo Testamento para examinar uma questão decisiva da conjuntura brasileira: como a religião foi mobilizada para blindar lideranças políticas, enquadrar moralmente a sociedade e disputar a própria gramática da democracia.
O texto em questão é Romanos 13, tradicionalmente invocado para defender obediência às autoridades constituídas. Durante séculos, essa passagem foi usada em chave conservadora para sustentar a ordem vigente, conter a dissidência e associar resistência política a rebeldia moral. A operação hermenêutica é conhecida: retira-se o trecho de seu contexto histórico, reduz-se a complexidade do texto a uma fórmula simples e, em seguida, converte-se essa fórmula em mandamento político.
O resultado é uma teologia da submissão. Nela, o governante aparece menos como agente passível de julgamento moral e mais como figura protegida por um verniz transcendente. A autoridade deixa de ser avaliada pela justiça de seus atos, pela legalidade de sua conduta ou por seu compromisso com o bem comum. O foco desloca-se para o dever de obediência do governado. Em vez de se perguntar se o poder protege a dignidade humana, pergunta-se apenas se o cidadão tem o direito de contestá-lo.
O contexto de Paulo e os limites de uma leitura literalista
Uma leitura rigorosa de Romanos 13 não autoriza essa simplificação. A carta é escrita num contexto imperial, endereçada a uma comunidade cristã vulnerável e desprovida de poder institucional. Não se trata de um tratado universal e atemporal sobre legitimidade estatal, mas de uma intervenção situada numa conjuntura marcada por prudência, sobrevivência e tensão política sob o Império Romano.
Essa diferença é central. O problema não está em reconhecer que Paulo fala de autoridade; o problema está em transformar essa observação em salvo-conduto para qualquer governo, em qualquer regime, sob qualquer circunstância. Quando isso acontece, a Bíblia deixa de ser lida como texto histórico-teológico e passa a funcionar como selo religioso para a manutenção da ordem.
Ao longo do episódio, Raul Silva chama atenção para esse deslizamento. Em sua leitura, texto sem contexto vira slogan, e slogan nas mãos do poder vira obediência organizada. A frase resume não apenas o dilema de Romanos 13, mas o método pelo qual passagens religiosas são frequentemente capturadas por projetos de poder.
Da obediência à hegemonia: quando o púlpito organiza consentimento
A relação entre fé e poder não se esgota na coerção. Em muitos casos, ela opera pelo consentimento. É aqui que a ciência política oferece uma chave importante. Não basta a um projeto autoritário controlar instituições; ele precisa também produzir legitimidade moral, naturalizar sua visão de mundo e apresentar seus interesses como se fossem princípios universais.
Nesse terreno, a religião pode se tornar recurso estratégico de hegemonia. O púlpito não funciona apenas como espaço devocional, mas como instância de produção de sentido, confiança e pertencimento. Quando lideranças religiosas passam a enquadrar a vida pública em categorias absolutas — bem e mal, escolhidos e inimigos, povo de Deus e ameaça civilizacional — a política deixa de ser percebida como disputa democrática e passa a ser encenada como guerra moral.
É justamente esse mecanismo que ajuda a explicar a eficácia simbólica do bolsonarismo.
O bolsonarismo e a sacralização da política no Brasil
Jair Bolsonaro não inaugurou a presença da religião na arena pública brasileira. O país sempre viveu tensões e acomodações entre fé, Estado e representação política. O que o bolsonarismo fez foi outra coisa: profissionalizou a fusão entre linguagem religiosa, guerra cultural, ressentimento social e mobilização digital.
O slogan “Deus acima de todos” sintetiza essa operação. À superfície, a frase oferece identificação espiritual. Em profundidade, ela produz uma equivalência entre liderança política, destino nacional e mandato moral. O efeito é poderoso: a crítica ao líder pode ser percebida como crítica à fé; a oposição política pode ser recodificada como ameaça à ordem moral; a disputa eleitoral pode ser sentida como combate entre salvação e decadência.
Essa engenharia simbólica não se sustentou sozinha. Ela encontrou base em setores conservadores do campo religioso, sobretudo em lideranças com grande capilaridade midiática e institucional. A presença crescente da Frente Parlamentar Evangélica, a influência de pregadores e influenciadores confessionais, a mobilização contra pautas de gênero e sexualidade, a retórica anticomunista e a guerra cultural contra universidades, imprensa e direitos humanos compuseram uma infraestrutura política de alta potência.
O bolsonarismo, assim, converteu autoridade espiritual em capital político. E fez isso não apenas em campanhas eleitorais, mas também na rotina do debate público, onde a linguagem bíblica passou a funcionar como instrumento de enquadramento da realidade.
Família, medo moral e disciplinamento social
Um dos elementos centrais dessa estratégia foi a fabricação permanente de pânicos morais. A defesa abstrata da família, a denúncia inflada de ameaças à infância, o combate à chamada “ideologia de gênero” e a demonização do campo progressista criaram um ambiente emocional favorável à disciplina coletiva.
Esse tipo de mobilização é particularmente eficaz porque opera menos pelo argumento racional e mais pelo afeto político: medo, ressentimento, sensação de perda, desejo de ordem, nostalgia de autoridade. Nesse processo, a religião oferece não apenas vocabulário, mas legitimidade. O líder aparece como defensor da civilização; seus críticos, como agentes de corrupção moral.
A consequência sociopolítica é conhecida. O adversário deixa de ser tratado como interlocutor democrático e passa a ser visto como inimigo existencial. É nesse ponto que a polarização deixa de ser mera divergência e assume traços de radicalização autoritária.
Do discurso à ruptura institucional
O episódio também conecta essa sacralização da política aos desdobramentos antidemocráticos que marcaram o pós-eleição de 2022. O país assistiu à persistência de mobilizações radicalizadas, acampamentos, apelos à tutela militar, disseminação de desinformação e culminância golpista no 8 de janeiro de 2023, quando as sedes dos três poderes foram invadidas e depredadas em Brasília.
Ainda que o bolsonarismo não possa ser reduzido a esse evento, ele tampouco pode ser separado de uma cultura política que normalizou a desconfiança permanente em relação às regras do jogo, estimulou a fantasia de exceção e ofereceu cobertura moral à ideia de que a vontade do líder ou do “povo verdadeiro” estaria acima da institucionalidade.
Nesse cenário, a religião atuou, em muitos casos, como linguagem de blindagem. Não necessariamente para organizar tecnicamente a ruptura, mas para criar o ambiente simbólico em que a ruptura pudesse ser sentida como gesto legítimo, patriótico ou até providencial.
A tradição que o autoritarismo omite: Bíblia e resistência
Mas a reportagem — assim como o episódio — insiste num ponto decisivo: a tradição bíblica e cristã não se resume à obediência.
Se Romanos 13 foi frequentemente usado para conter a resistência, a própria Escritura oferece outros marcos de leitura. O Êxodo é uma narrativa contra a sacralização do império. Os profetas confrontam reis e denunciam opressão. Em Atos dos Apóstolos, a frase “é preciso obedecer antes a Deus do que aos homens” estabelece um limite moral à autoridade política. A legitimidade do poder, nessa linhagem, não decorre apenas de sua existência, mas de sua relação com justiça, verdade e dignidade humana.
Na modernidade, essa tradição reaparece em figuras como Dietrich Bonhoeffer, diante do nazismo, e Martin Luther King, ao articular fé e desobediência civil. Na América Latina, ela ganha densidade com a teologia da libertação e com experiências eclesiais voltadas à cidadania, à organização popular e à defesa dos direitos humanos.
A conclusão é incontornável: resistir ao autoritarismo não significa abandonar a fé; em muitos casos, significa impedir que a fé seja sequestrada pelo poder.
Estado laico: o terreno comum da convivência democrática
Ao trazer esse debate para o presente, o episódio recupera outra noção frequentemente distorcida no debate público: o Estado laico.
Longe de ser inimigo da religião, a laicidade é a condição institucional que protege a liberdade religiosa em sociedades plurais. Ela impede que uma crença específica se transforme em norma coercitiva para todas as demais. Garante o direito de crer, de não crer, de mudar de crença, de discordar e de coexistir sem tutela confessional do Estado.
No Brasil contemporâneo, essa distinção tornou-se especialmente relevante. Em vez de defender liberdade de fé, muitos atores políticos passaram a reivindicar privilégios de influência, confundindo presença pública da religião com direito de capturar o aparelho estatal. O efeito dessa confusão é corrosivo: enfraquece a institucionalidade, rebaixa o pluralismo e reintroduz na esfera pública a lógica do privilégio moral travestido de maioria.
O que está em disputa
O mérito maior do episódio final de O Estopim está em recolocar a discussão em seu eixo correto. A questão não é se a religião pode participar da vida pública. Ela sempre participou e continuará participando. A questão é sob quais condições essa participação ocorre: como testemunho ético aberto ao pluralismo ou como aparelho de hegemonia voltado à blindagem do poder.
Essa é uma disputa de longa duração. Ela envolve a interpretação da Bíblia, o papel das igrejas, a formação política das massas, a arquitetura da comunicação digital, a permanência de estruturas conservadoras no Congresso e a capacidade da democracia de se defender de quem tenta corroê-la por dentro.
Entre a fé que consola o poder e a fé que confronta a injustiça, o Brasil atravessa um dos seus testes mais profundos. E talvez por isso Romanos 13 tenha voltado ao centro da cena. Não porque seja apenas uma passagem antiga, mas porque nele se espelha uma pergunta permanentemente brasileira: a autoridade deve ser obedecida por existir, ou deve ser julgada pelo que faz?
A resposta a essa pergunta não interessa apenas a teólogos ou religiosos. Ela interessa à democracia.
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