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Literatura

Por Clarice Drummond para O estopim Cultura | 18 de Fevereiro de 2026


A Grande Rio fez o que sabe fazer quando está no seu melhor: transformou a Sapucaí em tese e tese com corpo, suor e risco. A escola que vem assinando, nos últimos anos, um Carnaval de ideias (às vezes desconfortáveis, quase sempre necessárias) apostou em narrativa, pesquisa, linguagem cênica e identidade. O problema é que, no miolo do desfile, ali onde a bateria é coração e termômetro, a Grande Rio aceitou um atalho de “alcance” que custou caro: coroar Virgínia Fonseca.

A Grande Rio não precisava de novos públicos; precisava de novo pacto. Porque uma escola que escolhe Exu, onça, encantaria e mangue, e que se coloca como narradora de mundos marginalizados, não pode entregar o posto mais midiático da bateria a uma figura pública cuja biografia recente é atravessada por polêmicas de consumo, publicidade e apostas.
Desfile da Grande Rio | Foto: Guito Moreto / Agência O Globo

Não é moralismo de arquibancada, nem birra com a cultura pop. É método. O Carnaval, quando é Grande Rio, não é vitrine de celebridade: é construção de comunidade. E toda vez que uma escola troca pertencimento por engajamento, quem paga a conta não é o algoritmo. É a avenida.


A Grande Rio que aprendeu a falar de conflito


Há escolas que fazem Carnaval para agradar. A Grande Rio, especialmente na fase recente, fez Carnaval para disputar sentidos.


Quando levou Exu ao centro da narrativa e ajudou a reposicionar, com linguagem de massa, um personagem demonizado por séculos, a escola não estava apenas “fazendo um enredo afro”. Estava enfrentando a engrenagem cotidiana da intolerância religiosa. O recado era duplo: ao público, a lição estética; aos próprios terreiros e praticantes, o gesto de reconhecimento em horário nobre.


Quando virou o olhar para cosmologias indígenas, para a Amazônia encantada e para repertórios que o Brasil urbano costuma transformar em folclore sem sujeito, a Grande Rio reafirmou uma assinatura: não basta citar a “diversidade”. É preciso narrar o Brasil de baixo para cima e com pesquisa.


E o Manguebeat, agora, é a escolha perfeita para uma escola de Duque de Caxias que conhece, na pele, a palavra “periferia”. O movimento que nasceu de um Recife ferido por desigualdade e abandono e que reagiu com estética, crítica e invenção tem tudo a ver com o que uma escola pode ser quando se recusa a desfilar “bonito” e decide desfilar “com sentido”. A Grande Rio acertou o enredo justamente por isso: porque entende que arte popular é também diagnóstico social.



A bateria não é cenário: é o lugar do pacto

É aqui que a discussão fica séria e técnica.


Rainha de bateria não é uma moldura. É um posto simbólico que organiza a atenção do público e, na prática, altera a dinâmica do chão. A rainha está no campo de visão da bateria, do mestre, do diretor, dos ritmistas, das câmeras e do público. Ela pode elevar o astral e o desempenho coletivo; pode também virar obstáculo, ruído, foco de tensão.


E não adianta fingir que “não vale ponto”. No Carnaval real, tudo vale ponto quando atrapalha evolução, quando quebra a leitura do conjunto, quando provoca correria no recuo, quando desloca o centro do desfile para um drama particular.


O Manual do Julgador é cristalino ao lembrar que a fantasia precisa permitir boa evolução; e que o julgador observa dificuldades do componente no uso completo da indumentária. A rainha é componente, com holofote, mas componente. Quando ela entra na avenida sem dominar a convivência com o peso, com o calor, com o espaço apertado e com a responsabilidade do recuo, o problema não é “da celebridade”. É da escola.


No Carnaval 2026, o enredo e a bateria pediam uma rainha que soubesse ouvir. Ouvir o surdo de marcação, ouvir o repique, ouvir o mestre, ouvir a comunidade. E, sobretudo, ouvir o sentido do desfile, porque é aí que mora o tal “carisma” que ninguém compra.


O caso Virgínia: quando a coroa vira cupom


A escolha de Virgínia Fonseca foi vendida como “diálogo com novos públicos”. É uma formulação simpática, moderna, e totalmente preguiçosa.


A Grande Rio não precisava de novos públicos; precisava de novo pacto. Porque uma escola que escolhe Exu, onça, encantaria e mangue, e que se coloca como narradora de mundos marginalizados, não pode entregar o posto mais midiático da bateria a uma figura pública cuja biografia recente é atravessada por polêmicas de consumo, publicidade e apostas.


Virgínia Fonseca como rainha de bateria da Grande Rio | Foto: Rafael Sacharny /Enquadrar/ Estadão Conteúdo
Virgínia Fonseca como rainha de bateria da Grande Rio | Foto: Rafael Sacharny /Enquadrar/ Estadão Conteúdo

A rainha que faltou antes de reinar


O trabalho de uma rainha começa muito antes da Sapucaí. Começa em ensaio de quadra, em ensaio técnico, em visita a barracão, em conversa com ritmista e com velha guarda, em aula com passistas, em humildade para aprender o que não se aprende em reels.


Só que, ainda na temporada de preparação, Virgínia virou notícia por ausência em ensaio de quadra e por tratar a ausência como detalhe da agenda pessoal. O que, para quem vive o Carnaval, não é detalhe: é linguagem. É a velha mensagem de que o tempo da comunidade é um “evento”, enquanto o tempo da celebridade é “vida”.


O desfile como palco de autopropaganda


A estreia na avenida foi, por si, um resumo do problema: a rainha virou pauta por percalços com a fantasia e por uma estratégia comercial que transformou a Sapucaí em extensão de marca.


A Grande Rio, que vinha de enredos que questionam o reducionismo e o preconceito, apareceu, nesse ponto, permitindo que um posto simbólico se confundisse com produto. O nome da marca pessoal estampado em uniforme de equipe de apoio, explorando brechas, pode até ser “inteligente” do ponto de vista do marketing. Para o Carnaval, é um rebaixamento: a bateria vira background de campanha.


O que era para ser “mangue”, crítica, contracultura, coletividade, virou “feed”: eu no centro, o resto como cenário.


A biografia pública de um negócio


Virgínia é, indiscutivelmente, um fenômeno de audiência e conversão. E aí mora o ponto que muita gente evita: a lógica de influência contemporânea monetiza intimidade. A vida privada vira produto, a emoção vira gatilho de consumo, e a presença pública passa a ser medida por venda, não por vínculo.


Isso não é crime. Mas é incompatível com um posto que, para funcionar, exige justamente o contrário: deslocar o foco do “eu” para o “nós”.


Nos últimos anos, Virgínia esteve no centro de controvérsias relacionadas a publicidade de apostas e ao papel de influenciadores na promoção desse mercado. Em depoimento no Senado, afirmou que não se arrepende das propagandas e declarou não ter como atender pedidos de ajuda de seguidores prejudicados por perdas em jogos. A frase pode ser interpretada como honestidade, mas, para quem ocupa um lugar de poder comunicacional, ela soa como um confessionário de indiferença: eu ganho com o alcance; o dano não é meu problema.


Somam-se, ainda, episódios envolvendo sua marca de cosméticos e conflitos de consumo que chegaram ao sistema de justiça e a órgãos de defesa do consumidor, num país em que “empreendedorismo” costuma ser usado como biombo para práticas comerciais agressivas. Quando o Ministério Público entra na história para impor obrigações, o debate deixa de ser fofoca e vira interesse público.


Nada disso impede uma pessoa de desfilar. Mas impede, ao menos para mim, que ela simbolize uma bateria de escola popular que constrói, há anos, uma imagem pública de enfrentamento cultural.


A antirrepresentatividade não é sobre “lacrar”. É sobre coerência

Representatividade, no Carnaval, não é slogan. É coerência estética e política.


Quando uma escola escolhe contar histórias de terreiros, povos originários, periferias e movimentos de contracultura, ela assume um compromisso com sujeitos coletivos. E esse compromisso precisa aparecer nas escolhas internas: quem ocupa o microfone, quem assina pesquisa, quem desenha, quem dança, quem reina.


Virgínia pode dizer que ama o Carnaval. Mas amar não basta. É preciso compreender que o Carnaval não é um palco neutro: é um território em disputa, uma máquina de visibilidade, um espaço onde minorias sociais lutam para não serem apenas tema e sim autoria.


Ao coroar uma figura cuja trajetória pública é marcada por publicidade controversa e por uma cultura de ostentação, a Grande Rio escorrega justamente no lugar em que deveria ser mais cuidadosa: na imagem que projeta para fora sobre o que é “Caxias”, sobre o que é “comunidade”, sobre o que é “povo”.


E há uma ironia triste nisso. O Manguebeat nasceu gritando que a lama não era atraso: era potência. A Grande Rio, com sua escolha, parece ter dito o contrário: que a potência precisa de uma vitrine para “valer”.


O que a Grande Rio poderia ter feito (e ainda pode)


A escola não precisa demonizar Virgínia para corrigir o erro. Precisa, isso sim, reconhecer a natureza do equívoco: não foi “a internet que pegou no pé”. Foi a comunidade dizendo, com vaias e desconforto, que o posto não é prêmio de popularidade.


Há alternativas, e todas passam por um princípio simples: rainha de bateria é pacto, não contrato.


  1. Reafirmar o posto como trabalho: presença mínima em ensaios, vivência real com a bateria, rituais internos respeitados, e uma postura pública que não trate o Carnaval como “conteúdo”.

  2. Blindar o desfile de autopromoção: se a escola precisa de patrocínio, que o patrocínio seja tratado com transparência e limites. A Sapucaí não é vitrine pessoal.

  3. Investir na casa: passistas, musas de comunidade, mulheres da bateria, lideranças locais. A Grande Rio tem material humano de sobra para ocupar o posto com verdade.

  4. Coerência com o enredo: se o desfile é contracultura, a escolha simbólica precisa dialogar com contracultura, não com o manual do “branding”.


A Grande Rio acertou em tudo, menos no coração do desfile


O Carnaval é uma soma de escolhas. A Grande Rio foi brilhante naquilo que sustenta uma escola campeã: narrativa, estética, risco e identidade. Mas errou onde não podia errar: no coração do desfile, na bateria, no ponto em que a comunidade se reconhece.


Virgínia Fonseca pode ter carisma, seguidores e dinheiro. O que ela não tem, ou, ao menos, não demonstrou ter até aqui, é a disposição de desaparecer um pouco para que a escola apareça. E ser rainha de bateria, no fim, é isso: ser destaque sem ser dono; ser estrela sem virar produto; ser figura sem sequestrar o sentido.


A Grande Rio, que aprendeu a falar de conflito, precisa agora encarar o seu próprio.


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Clarice Drummond

Clarice Drummond é jornalista e crítica carnavalesca. Pesquisadora apaixonada pelas escolas de samba do Rio e de São Paulo, ela cobre a folia como fenômeno cultural, político e artístico o ano inteiro, dissecando quesitos e enredos com rigor técnico e emoção.


Por Clara Mendes da Redação de O estopim | 25 de janeiro de 2026


Protagonista do longa rodado no Recife e dirigido pelo pernambucano Kleber Mendonça Filho destaca a força da trama; produção soma quatro indicações históricas à premiação máxima do cinema.


O ator Wagner Moura afirmou, em entrevista recente à CNN Brasil, que a dimensão do sucesso de “O Agente Secreto” e suas chances reais no Oscar ficaram evidentes ainda durante a estreia mundial do filme na França. Segundo o artista baiano, a reação efusiva do público e da crítica no Festival de Cannes de 2025 — onde a produção foi ovacionada por 13 minutos e garantiu prêmios de Melhor Ator e Direção — serviu como um termômetro preciso para a campanha que culminou, na última quinta-feira (22), nas indicações a Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Elenco e Melhor Ator.


Kleber Mendonça Filho e Wagner Moura no set de "O Agente Secreto"  | Foto: Laura Castor
Kleber Mendonça Filho e Wagner Moura no set de "O Agente Secreto"  | Foto: Laura Castor

“Vi em Cannes que poderíamos ir ao Oscar”, disse Moura, ao analisar a trajetória da obra. O ator interpreta Marcelo, um professor universitário que foge de São Paulo para o Recife em 1977, durante a ditadura militar, tentando escapar de um passado misterioso enquanto lida com as tensões políticas e lendas urbanas da capital pernambucana.


Para o protagonista, a universalidade da história, mesmo sendo profundamente enraizada na cultura local, foi o que cativou o júri internacional. “É um filme muito brasileiro, mas que não tem medo de dialogar com o cinema mundial”, completou o ator, reforçando a visão do diretor Kleber Mendonça Filho.


As filmagens, que movimentaram a economia e o turismo de Pernambuco, utilizaram cenários icônicos do Recife, como o Cinema São Luiz, a Rua da Aurora e a Ponte Governador Paulo Guerra. A produção também incorporou elementos marcantes da cultura do estado, como o bloco carnavalesco Pitombeira dos Quatro Cantos e a lenda da "Perna Cabeluda", detalhes que agora ganham visibilidade global.


A repercussão já afeta a economia criativa local. Agências de turismo no Recife relatam aumento na procura por roteiros que visitam as locações do filme, um fenômeno que deve se intensificar até a cerimônia de entrega das estatuetas, marcada para 15 de março de 2026.


Esta é a consolidação de um ciclo de reconhecimento internacional para o cinema de Pernambuco, que nos últimos anos projetou obras como O Som ao Redor e Bacurau. “O Agente Secreto” tenta quebrar o jejum do Brasil na premiação, superando marcas de clássicos como Cidade de Deus e Central do Brasil.


Embora a cerimônia do Oscar ocorra em Los Angeles e as decisões de mercado passem pelo eixo Rio-São Paulo, a alma de “O Agente Secreto” é puramente nordestina. Para o cidadão de Arcoverde e do interior, o filme representa não apenas entretenimento, mas a exportação da identidade pernambucana — do sotaque à arquitetura — para a vitrine mais disputada do mundo, provando que as narrativas do Nordeste possuem força técnica e artística para competir de igual para igual com Hollywood.

Por Raul Silva para O estopim | 21 de janeiro de 2026


Porto Alegre/São Paulo — Em um início de 2026 marcado por disputas sobre o que é real, o escritor Jeferson Tenório afirma que a literatura oferece um tipo de leitura do mundo que escapa da pressa e da simplificação. “A ficção… devolve [a realidade] de uma maneira mais lúcida”, diz o autor, ao defender que romances e contos conseguem mapear afetos, contradições e complexidades que o debate público frequentemente atropela.


A declaração integra a entrevista que abre a temporada 2026 do podcast Pauta Pública, da Agência Pública, cujo tema é “Diálogos para entender o que é real”. No episódio, Tenório discute a dificuldade contemporânea de distinguir informação, invenção e conteúdos deliberadamente falsos, em um ambiente em que narrativas circulam com força de fato e em que tecnologias ampliam a velocidade e a escala dessa confusão.


O escritor Jeferson Tenório | Imagem: Reprodução
O escritor Jeferson Tenório | Imagem: Reprodução

Literatura como antídoto contra a indiferença


Para o escritor, a literatura opera em outro ritmo: permite observar eventos e crises “saindo do calor da hora”, chamando o contraditório e evitando respostas automáticas. A aposta, segundo ele, é menos a “análise fria” e mais uma investigação subjetiva, capaz de revelar como violência, desigualdade e medo atravessam corpos e relações.


Na conversa, Tenório também conecta o cenário global de escalada de tensões à própria ideia de política como linguagem para evitar violência, e alerta para a normalização do conflito como método. Nesse contexto, ele sustenta que a literatura pode funcionar como uma forma de resistência: ao recusar a indiferença diante do sofrimento do outro, ela reafirma um pacto básico de humanidade.


Da leitura tardia ao romance como “demora”


Tenório relata ainda um percurso pessoal que atravessa sua obra: ele se define como um leitor tardio, que só se aproximou da ficção mais velho, e descreve a descoberta dos livros como algo quase obsessivo. O processo de escrita, conta, costuma ser longo, feito de maturação: primeiro nasce a história, depois os personagens irradiam suas relações com o mundo, até chegar o momento de sentar e escrever.


“De Onde Eles Vêm” e o “direito ao encanto”


No episódio, o autor fala também de “De Onde Eles Vêm” (Companhia das Letras, 2024), romance centrado em Joaquim, jovem negro e periférico que ingressa na universidade por políticas de ação afirmativa e enfrenta, ao mesmo tempo, hostilidade e fascínio pelo ambiente acadêmico. Para Tenório, a história toca no “direito ao encanto”, o direito de pessoas negras e pobres se aproximarem da arte e da literatura sem culpa, e no direito de escolha, historicamente negado a amplas parcelas da população.


Reconhecimento e disputas em torno de “O Avesso da Pele”


A entrevista também recoloca em evidência a trajetória de Tenório como um dos nomes centrais da literatura brasileira recente. Seu romance “O Avesso da Pele” venceu o Prêmio Jabuti de 2021 na categoria Romance Literário e se consolidou como uma obra referência em debates sobre racismo, violência e estrutura social no Brasil.


Nos últimos anos, porém, o livro também foi alvo de controvérsias e tentativas de retirada de escolas em estados como Paraná, Goiás e Mato Grosso do Sul, episódio que reacendeu discussões sobre censura, mediação pedagógica e circulação de obras literárias na educação pública.


Ao estrear o Pauta Pública de 2026, Tenório volta ao ponto central de sua fala: num tempo em que a realidade parece cada vez mais “disputada”, a literatura não resolve o mundo, mas pode ajudar a lê-lo melhor. E, convenhamos, em certas semanas, ler melhor já é quase um ato revolucionário.

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