top of page

Opinião

Quando banqueiros, reguladores, políticos e conglomerados de mídia ocupam o mesmo salão, o problema deixa de ser episódico e passa a ser sistêmico


Por Raul Silva para O estopim | 22 de março de 2026


Montagem com fotos de figuras públicas ligadas por linhas vermelhas. Texto no topo: "O Que a Globo Não Mostra". Fundo marrom com recortes.
Relações não divulgadas: diagrama detalha conexões de figuras políticas com o escândalo do Banco Master, destacando doações para campanhas eleitorais e outros vínculos com BOLSONARISTAS | Foto: Reprodução/Redes Sociais

As peças que circulam nas redes e nos anexos enviados à redação acertam num ponto e erram em outro. Acertam quando percebem que há algo profundamente desconfortável na promiscuidade entre poder financeiro, prestígio midiático, trânsito institucional e proteção reputacional. Erram quando trocam método por fúria, quando transformam suspeita em sentença e quando personalizam sem prova um caso que, na essência, é estrutural.


O Brasil não está diante apenas de um escândalo bancário. Está diante de uma radiografia cruel de como elites econômicas constroem respeitabilidade, compram tempo, ocupam espaços de influência e tentam atravessar crises carregando consigo pedaços do Estado, do mercado e da opinião publicada. O caso Banco Master, com todos os seus desdobramentos recentes, não pode ser lido como uma anomalia isolada. Ele expõe um padrão. E o padrão é mais grave do que o personagem.


A pergunta decisiva não é se este ou aquele jornalista atacou o alvo certo, nem se uma coluna agradou mais a um campo político do que a outro. A pergunta relevante é outra: como um banqueiro de crescimento meteórico conseguiu circular com tamanha desenvoltura entre autoridades, reguladores, empresários, políticos e ambientes de mídia até o castelo começar a ruir?


Esta é a chave do caso. Em ciência política, poder não é apenas mando formal. Poder é capacidade de acesso, de agenda, de influência, de veto, de construção de imagem e de neutralização preventiva de danos. Quando um agente privado acumula essas camadas ao mesmo tempo, o debate deixa de ser moralista e passa a ser institucional.


No escândalo do Banco Master o terreno factual que não pode ser varrido para debaixo do tapete


Há fatos públicos demais para que alguém trate tudo isso como coincidência infeliz.


O primeiro fato é a porta giratória. Roberto Campos Neto deixou a presidência do Banco Central ao fim de 2024 e, depois do período legal de quarentena, assumiu posição de comando no Nubank, com assento na estrutura de liderança e no conselho da holding. Formalmente, o rito foi enquadrado na lei. Politicamente, porém, a pergunta permanece inteira: seis meses bastam para dissipar a sombra de um conflito entre quem regulou o sistema e quem passa a operar numa de suas empresas mais poderosas?


O segundo fato é societário e simbólico. A Globo Ventures, braço de investimentos ligado à família Marinho, foi apontada pela imprensa de negócios como sócia minoritária do Nubank por meio de uma operação de media for equity (uma estratégia onde startups trocam participação acionária (equity) por espaço publicitário em veículos de mídia (TV, rádio, digital) ou influência, sem envolver dinheiro vivo). Ainda que a participação seja pequena, pequena participação não significa pequeno problema quando o ativo envolvido é influência, reputação e ambiente de cobertura.


O terceiro fato é a vitrine. Daniel Vorcaro, então controlador do Banco Master, apareceu como figura de abertura no Summit Valor Econômico Brazil-USA, em Nova York, evento organizado por um veículo do Grupo Globo. Não se trata aqui de criminalizar patrocínio de evento empresarial, algo corriqueiro no capitalismo contemporâneo. O ponto é outro: quando um personagem hoje situado no epicentro de um escândalo financeiro era, ontem, tratado como emblema de credibilidade e oportunidade de negócios, a imprensa precisa se perguntar se enxergou mal, se investigou pouco ou se se acomodou demais ao brilho do patrocinador.


O quarto fato é a extensão institucional da crise. O BRB anunciou em março de 2025 a compra de participação majoritária no Banco Master. Depois, o caso se agravou de forma dramática, com investigação criminal, liquidação extrajudicial do banco e novos questionamentos sobre a supervisão, a política de garantias, a atuação de autoridades e a rede de relações construída em torno do conglomerado.


Nada disso autoriza tribunal de internet. Mas tudo isso exige jornalismo duro, documento na mesa, contraditório real e disposição para investigar inclusive os salões que costumam ficar fora da foto.



A porta giratória não é um detalhe técnico


A literatura sobre Estado, burocracia e captura regulatória ensina algo elementar: a autonomia formal de instituições reguladoras não impede, por si só, a colonização informal de suas agendas. Em português claro, regras existem, mas relações contam. E contam muito.


No Brasil, a ideia de que basta cumprir a quarentena legal para que o debate ético se encerre virou uma espécie de salvo-conduto para a desfaçatez institucional. Não encerra. Não pode encerrar.


O caso de Campos Neto não é escandaloso apenas porque houve migração do Banco Central para uma gigante financeira. Ele é escandaloso porque essa travessia ocorre num ambiente em que o sistema já vinha sendo pressionado por suspeitas de supervisão frouxa, por debate sobre fintechs, por assimetrias regulatórias e por forte valorização de agentes privados que se apresentavam como símbolo da modernização financeira. A legalidade mínima foi cumprida. O interesse público máximo, esse segue em aberto.


Não por acaso, o próprio Senado passou a discutir a ampliação dessa quarentena. Quando o sistema político começa a debater mudança na regra, é porque a regra atual já não convence nem simbolicamente.


O problema não é a mídia ter negócio. É a mídia fingir que negócio não produz tensão


Toda empresa jornalística opera sob condicionantes econômicos. Isso não é novidade, nem pecado original. O problema começa quando essa dimensão econômica é empurrada para a penumbra e o público é convidado a consumir o produto final como se ele brotasse num campo asséptico, puro e sem interesses cruzados.


Se um grupo de mídia mantém braço de investimento, participa de operações de media for equity e realiza eventos patrocinados por grandes agentes do mercado, a obrigação elementar não é pedir confiança cega. É oferecer transparência radical.


Quem é sócio de quem. Quem patrocina o quê. Que barreiras editoriais existem. Como se evita contaminação entre área de negócios e cobertura. Quais mecanismos de correção entram em cena quando o veículo noticia empresas, executivos ou setores com os quais mantém relação econômica direta ou indireta.


Esse deveria ser o padrão mínimo numa democracia adulta. Sem isso, a suspeita prospera. E quando a suspeita prospera, cresce também o terreno fértil para campanhas de desinformação.


No entanto, é preciso falar de um ponto que exige honestidade intelectual.


Mulher com cabelo cacheado fala em frente a fundo vermelho com texto "ESTÚDIO". Ela veste blusa azul. Ambiente parece ser um estúdio de TV.
Recentemente depois de anos vendendo uma imagem de rigor e independência, a jornalista Malu Gaspar viu sua credibilidade afundar sob suspeitas sobre fontes, manipulação de narrativa e antigos vínculos com operações politicamente orientadas. Quando a máscara caiu, o que restou foi a dúvida pública: tratava-se de jornalismo ou de militância disfarçada? | Foto: Reprodução/Globo News

Parte do material viral que circulou sobre o caso misturou fatos com falsidades. Uma das distorções mais ruidosas foi a tentativa de associar indevidamente a jornalista Malu Gaspar a um agradecimento feito por Vorcaro no evento de Nova York. A checagem pública posterior mostrou que a referência era a outra profissional, Malu Filgueiras. Também circularam alegações sem prova sobre supostos pagamentos a jornalistas.


Isso precisa ser dito com clareza porque jornalismo sério não pode combater blindagem com calúnia. Quem fabrica mentira contra jornalistas presta um serviço involuntário aos verdadeiros operadores da fumaça. Desvia o foco, embaralha o debate e permite que a discussão central, a rede objetiva de relações entre dinheiro, influência e poder, seja substituída por guerra tribal de internet.


A crítica dura e ética não precisa de invenção. Os fatos conhecidos já são graves o bastante.


Repare na arquitetura completa do problema. Um banqueiro cresce oferecendo rentabilidade e construindo aura de ousadia. A política o recebe porque capital com apetite sempre encontra portas abertas em Brasília. O mercado o tolera enquanto a engrenagem gira. A mídia empresarial o acolhe em eventos, palcos e circuitos de prestígio. O regulador, ao menos naquilo que veio a público, não conseguiu impedir que a crise avançasse a tempo de evitar um desastre maior.


Quando a estrutura colapsa, começa a disputa pela narrativa. Uns querem jogar tudo no colo do Judiciário. Outros tentam terceirizar a culpa para jornalistas específicos. Outros ainda usam o escândalo para alimentar antipolítica difusa, como se a corrupção estrutural do capital pudesse ser explicada apenas pela perversidade de um ator estatal isolado.


Essa leitura é pobre. E, pior, é funcional aos verdadeiros beneficiários do nevoeiro.


O caso Master não é uma simples história de banqueiro ousado que exagerou na curva. É uma aula prática sobre como se fabricam legitimidade, proximidade e proteção na fronteira entre Estado e mercado. A economia política explica isso com sobriedade: interesses privados não disputam apenas lucro. Disputam também regulação, linguagem, prestígio e a moldura pela qual a sociedade entende o que está acontecendo.


O jornalismo tem uma obrigação adicional neste caso


Não basta noticiar a operação policial, a liquidação bancária ou os vazamentos da semana. É preciso investigar o ecossistema que permitiu a construção daquela respeitabilidade anterior.


Quem abriu portas? Quem ofereceu palco? Quem tratou como gênio o que depois apareceu como risco sistêmico? Quem se beneficiou comercialmente da proximidade? Quem tinha o dever de fiscalização? Quem preferiu o conforto da relação ao desconforto da apuração?


Essa é a fronteira que separa jornalismo de gerenciamento de danos. E esta fronteira, para ser preservada, exige independência não como slogan, mas como procedimento verificável.


A crise pede respostas concretas, não apenas indignação performática.


  • Transparência editorial reforçada para toda cobertura envolvendo empresas, setores e agentes com relação comercial, societária ou institucional com o veículo.

  • Publicização clara de investimentos e estruturas de propriedade de grupos de mídia, especialmente quando mantêm braços de venture capital, operações de media for equity ou eventos patrocinados por grandes clientes.

  • Revisão séria da quarentena para ex-dirigentes do Banco Central e de agências reguladoras, porque a porta giratória desgasta a confiança pública mesmo quando obedece ao rito legal.

  • Apuração rigorosa sobre as falhas de supervisão e sobre a cadeia de decisões que permitiu a deterioração do Banco Master até um desfecho traumático.

  • Rejeição categórica à personalização sem prova, tanto contra jornalistas quanto contra agentes públicos, para que a crítica não seja capturada pela lógica do boato.


O ponto final que o Brasil precisa encarar


O escândalo não está apenas no banco que ruiu. O escândalo está no sistema de prestígio que o embalou, no circuito de poder que o aproximou de quem importava e na normalidade com que o país convive com a promiscuidade entre finanças, influência e narrativa.


Se tudo isso terminar apenas com a substituição de personagens e a preservação dos métodos, o Brasil terá perdido mais uma chance de aprender com a própria crise.


A democracia não adoece apenas quando há censura explícita ou golpe à luz do dia. Ela também adoece quando interesses privados ocupam, sem transparência suficiente, os espaços de mediação simbólica que deveriam ajudar a sociedade a enxergar o poder com mais clareza.


É por isso que o caso Master precisa ser lido para além do noticiário criminal. O que está em jogo não é só a responsabilidade de um banqueiro, de um regulador ou de um grupo de mídia. O que está em jogo é a capacidade de o país impor distância republicana entre quem fiscaliza, quem lucra, quem influencia e quem narra.


Sem essa distância, a notícia vira fumaça. E a fumaça, no Brasil, quase sempre protege alguém muito poderoso.


O estopim — O começo da notícia!

Acesse o nosso perfil no Instagram e veja essa e outras notícias: @oestopim_ & @muira.ubi

Homem de camiseta com braços cruzados, expressão confiante. Fundo preto. Tatuagem visível no braço direito e relógio no pulso esquerdo.

Raul Silva é jornalista político e analista de conjuntura do O estopim. Escreve sobre instituições, poder, economia política e os conflitos que moldam a democracia brasileira.


No episódio final da série sobre Bíblia e autoritarismo, O Estopim investiga como uma leitura seletiva das Escrituras foi transformada em tecnologia de legitimação política — da Roma imperial ao Brasil da guerra cultural


Por Clara Mendes

21 de março de 2026


Homem com camisa preta e óculos. Texto no fundo vermelho: "O estopim Podcast. De Romanos 13 ao Bolsonarismo: Bíblia, Autoritarismo e Resistência".
Podcast "O Estopim" discute a relação entre Romanos 13, bolsonarismo e resistência, com Raul Silva no episódio 16 | Arte de Capa: Raul Silva

A disputa entre religião e política não é nova. O que muda, de época em época, é a forma como essa tensão se organiza, se comunica e se torna socialmente eficaz. Em certos momentos, a fé aparece como linguagem de justiça, limite moral ao poder e defesa dos vulneráveis. Em outros, ela é convertida em instrumento de disciplinamento, obediência e sacralização da autoridade.


É justamente nesse ponto de inflexão que se situa o episódio final da série Bíblia e autoritarismo, de O Estopim, apresentado por Raul Silva. O tema — “De Romanos 13 ao bolsonarismo: Bíblia, autoritarismo e resistência” — parte de uma passagem central do Novo Testamento para examinar uma questão decisiva da conjuntura brasileira: como a religião foi mobilizada para blindar lideranças políticas, enquadrar moralmente a sociedade e disputar a própria gramática da democracia.


O texto em questão é Romanos 13, tradicionalmente invocado para defender obediência às autoridades constituídas. Durante séculos, essa passagem foi usada em chave conservadora para sustentar a ordem vigente, conter a dissidência e associar resistência política a rebeldia moral. A operação hermenêutica é conhecida: retira-se o trecho de seu contexto histórico, reduz-se a complexidade do texto a uma fórmula simples e, em seguida, converte-se essa fórmula em mandamento político.


O resultado é uma teologia da submissão. Nela, o governante aparece menos como agente passível de julgamento moral e mais como figura protegida por um verniz transcendente. A autoridade deixa de ser avaliada pela justiça de seus atos, pela legalidade de sua conduta ou por seu compromisso com o bem comum. O foco desloca-se para o dever de obediência do governado. Em vez de se perguntar se o poder protege a dignidade humana, pergunta-se apenas se o cidadão tem o direito de contestá-lo.


O contexto de Paulo e os limites de uma leitura literalista


Uma leitura rigorosa de Romanos 13 não autoriza essa simplificação. A carta é escrita num contexto imperial, endereçada a uma comunidade cristã vulnerável e desprovida de poder institucional. Não se trata de um tratado universal e atemporal sobre legitimidade estatal, mas de uma intervenção situada numa conjuntura marcada por prudência, sobrevivência e tensão política sob o Império Romano.


Essa diferença é central. O problema não está em reconhecer que Paulo fala de autoridade; o problema está em transformar essa observação em salvo-conduto para qualquer governo, em qualquer regime, sob qualquer circunstância. Quando isso acontece, a Bíblia deixa de ser lida como texto histórico-teológico e passa a funcionar como selo religioso para a manutenção da ordem.


Ao longo do episódio, Raul Silva chama atenção para esse deslizamento. Em sua leitura, texto sem contexto vira slogan, e slogan nas mãos do poder vira obediência organizada. A frase resume não apenas o dilema de Romanos 13, mas o método pelo qual passagens religiosas são frequentemente capturadas por projetos de poder.



Da obediência à hegemonia: quando o púlpito organiza consentimento


A relação entre fé e poder não se esgota na coerção. Em muitos casos, ela opera pelo consentimento. É aqui que a ciência política oferece uma chave importante. Não basta a um projeto autoritário controlar instituições; ele precisa também produzir legitimidade moral, naturalizar sua visão de mundo e apresentar seus interesses como se fossem princípios universais.


Nesse terreno, a religião pode se tornar recurso estratégico de hegemonia. O púlpito não funciona apenas como espaço devocional, mas como instância de produção de sentido, confiança e pertencimento. Quando lideranças religiosas passam a enquadrar a vida pública em categorias absolutas — bem e mal, escolhidos e inimigos, povo de Deus e ameaça civilizacional — a política deixa de ser percebida como disputa democrática e passa a ser encenada como guerra moral.


É justamente esse mecanismo que ajuda a explicar a eficácia simbólica do bolsonarismo.


O bolsonarismo e a sacralização da política no Brasil


Jair Bolsonaro não inaugurou a presença da religião na arena pública brasileira. O país sempre viveu tensões e acomodações entre fé, Estado e representação política. O que o bolsonarismo fez foi outra coisa: profissionalizou a fusão entre linguagem religiosa, guerra cultural, ressentimento social e mobilização digital.


O slogan “Deus acima de todos” sintetiza essa operação. À superfície, a frase oferece identificação espiritual. Em profundidade, ela produz uma equivalência entre liderança política, destino nacional e mandato moral. O efeito é poderoso: a crítica ao líder pode ser percebida como crítica à fé; a oposição política pode ser recodificada como ameaça à ordem moral; a disputa eleitoral pode ser sentida como combate entre salvação e decadência.


Essa engenharia simbólica não se sustentou sozinha. Ela encontrou base em setores conservadores do campo religioso, sobretudo em lideranças com grande capilaridade midiática e institucional. A presença crescente da Frente Parlamentar Evangélica, a influência de pregadores e influenciadores confessionais, a mobilização contra pautas de gênero e sexualidade, a retórica anticomunista e a guerra cultural contra universidades, imprensa e direitos humanos compuseram uma infraestrutura política de alta potência.


O bolsonarismo, assim, converteu autoridade espiritual em capital político. E fez isso não apenas em campanhas eleitorais, mas também na rotina do debate público, onde a linguagem bíblica passou a funcionar como instrumento de enquadramento da realidade.



Família, medo moral e disciplinamento social


Um dos elementos centrais dessa estratégia foi a fabricação permanente de pânicos morais. A defesa abstrata da família, a denúncia inflada de ameaças à infância, o combate à chamada “ideologia de gênero” e a demonização do campo progressista criaram um ambiente emocional favorável à disciplina coletiva.


Esse tipo de mobilização é particularmente eficaz porque opera menos pelo argumento racional e mais pelo afeto político: medo, ressentimento, sensação de perda, desejo de ordem, nostalgia de autoridade. Nesse processo, a religião oferece não apenas vocabulário, mas legitimidade. O líder aparece como defensor da civilização; seus críticos, como agentes de corrupção moral.


A consequência sociopolítica é conhecida. O adversário deixa de ser tratado como interlocutor democrático e passa a ser visto como inimigo existencial. É nesse ponto que a polarização deixa de ser mera divergência e assume traços de radicalização autoritária.


Do discurso à ruptura institucional


O episódio também conecta essa sacralização da política aos desdobramentos antidemocráticos que marcaram o pós-eleição de 2022. O país assistiu à persistência de mobilizações radicalizadas, acampamentos, apelos à tutela militar, disseminação de desinformação e culminância golpista no 8 de janeiro de 2023, quando as sedes dos três poderes foram invadidas e depredadas em Brasília.


Ainda que o bolsonarismo não possa ser reduzido a esse evento, ele tampouco pode ser separado de uma cultura política que normalizou a desconfiança permanente em relação às regras do jogo, estimulou a fantasia de exceção e ofereceu cobertura moral à ideia de que a vontade do líder ou do “povo verdadeiro” estaria acima da institucionalidade.


Nesse cenário, a religião atuou, em muitos casos, como linguagem de blindagem. Não necessariamente para organizar tecnicamente a ruptura, mas para criar o ambiente simbólico em que a ruptura pudesse ser sentida como gesto legítimo, patriótico ou até providencial.



A tradição que o autoritarismo omite: Bíblia e resistência


Mas a reportagem — assim como o episódio — insiste num ponto decisivo: a tradição bíblica e cristã não se resume à obediência.


Se Romanos 13 foi frequentemente usado para conter a resistência, a própria Escritura oferece outros marcos de leitura. O Êxodo é uma narrativa contra a sacralização do império. Os profetas confrontam reis e denunciam opressão. Em Atos dos Apóstolos, a frase “é preciso obedecer antes a Deus do que aos homens” estabelece um limite moral à autoridade política. A legitimidade do poder, nessa linhagem, não decorre apenas de sua existência, mas de sua relação com justiça, verdade e dignidade humana.


Na modernidade, essa tradição reaparece em figuras como Dietrich Bonhoeffer, diante do nazismo, e Martin Luther King, ao articular fé e desobediência civil. Na América Latina, ela ganha densidade com a teologia da libertação e com experiências eclesiais voltadas à cidadania, à organização popular e à defesa dos direitos humanos.


A conclusão é incontornável: resistir ao autoritarismo não significa abandonar a fé; em muitos casos, significa impedir que a fé seja sequestrada pelo poder.


Estado laico: o terreno comum da convivência democrática


Ao trazer esse debate para o presente, o episódio recupera outra noção frequentemente distorcida no debate público: o Estado laico.


Longe de ser inimigo da religião, a laicidade é a condição institucional que protege a liberdade religiosa em sociedades plurais. Ela impede que uma crença específica se transforme em norma coercitiva para todas as demais. Garante o direito de crer, de não crer, de mudar de crença, de discordar e de coexistir sem tutela confessional do Estado.


No Brasil contemporâneo, essa distinção tornou-se especialmente relevante. Em vez de defender liberdade de fé, muitos atores políticos passaram a reivindicar privilégios de influência, confundindo presença pública da religião com direito de capturar o aparelho estatal. O efeito dessa confusão é corrosivo: enfraquece a institucionalidade, rebaixa o pluralismo e reintroduz na esfera pública a lógica do privilégio moral travestido de maioria.


O que está em disputa


O mérito maior do episódio final de O Estopim está em recolocar a discussão em seu eixo correto. A questão não é se a religião pode participar da vida pública. Ela sempre participou e continuará participando. A questão é sob quais condições essa participação ocorre: como testemunho ético aberto ao pluralismo ou como aparelho de hegemonia voltado à blindagem do poder.


Essa é uma disputa de longa duração. Ela envolve a interpretação da Bíblia, o papel das igrejas, a formação política das massas, a arquitetura da comunicação digital, a permanência de estruturas conservadoras no Congresso e a capacidade da democracia de se defender de quem tenta corroê-la por dentro.


Entre a fé que consola o poder e a fé que confronta a injustiça, o Brasil atravessa um dos seus testes mais profundos. E talvez por isso Romanos 13 tenha voltado ao centro da cena. Não porque seja apenas uma passagem antiga, mas porque nele se espelha uma pergunta permanentemente brasileira: a autoridade deve ser obedecida por existir, ou deve ser julgada pelo que faz?


A resposta a essa pergunta não interessa apenas a teólogos ou religiosos. Ela interessa à democracia.


Opinião de Helena Valente para O estopim | 19 de março de 2026


Mulher de cabelo castanho fala ao microfone em ambiente formal. Ela veste jaqueta cinza e expressa seriedade. Fundo neutro.
Governadora Raquel Lyra (PSD) | Foto: Júlio Gomes

Quando um governo transforma obrigação legal em peça de marketing, o que está em jogo não é só a narrativa. É o respeito à inteligência de quem ensina, de quem estuda e de quem sustenta a escola pública com o próprio corpo. Em Pernambuco, a tentativa de vender como gesto magnânimo da governadora Raquel Lyra o reajuste do piso do magistério em 2026 é daquelas operações de maquiagem política que insultam a memória recente. Não foi iniciativa espontânea do Palácio. Não foi generosidade. Não foi iluminação republicana. Foi pressão. Foi campanha salarial. Foi mobilização. Foi sindicato na rua. Foi categoria organizada. Foi cobrança pública até o governo sair da inércia e sentar para negociar de verdade.


O Sintepe havia protocolado a pauta da campanha salarial no início de fevereiro. Um mês depois, a própria direção sindical denunciava que não existia proposta concreta apresentada pela gestão estadual. O cenário, portanto, não era de diálogo abundante, mas de empurra com a barriga. A rede estadual assistia ao mesmo filme de sempre: piso nacional reajustado, prazo correndo, categoria cobrando e governo calculando o custo político de continuar calado. Só depois da paralisação, dos atos, da repercussão pública e da pressão política a máquina estadual resolveu se mexer. E, quando se mexeu, tentou vender a obrigação como virtude pessoal da governadora.


É aqui que o cinismo entra em cena. O governo publicou o acordo no dia 18 de março dizendo tratar-se de “nova demonstração de compromisso com a valorização do funcionalismo público”. A formulação não é inocente. Ela procura deslocar o eixo da história. Em vez de reconhecer que a categoria arrancou uma conquista com organização e enfrentamento, o texto oficial reposiciona o Executivo como protagonista benevolente. É uma disputa de memória em tempo real. Quem conta a história primeiro tenta sequestrar o crédito. E foi isso que se viu.


Mas convém recolocar os fatos no lugar. O piso salarial profissional nacional do magistério foi fixado pelo MEC em R$ 5.130,63 para 40 horas semanais em 2026. Não se trata de um mimo inventado por Raquel Lyra. Trata-se de um parâmetro nacional, de cumprimento obrigatório para as redes públicas. Em Pernambuco, a vitória real da campanha salarial não foi apenas reconhecer o novo piso, mas garantir sua repercussão em toda a carreira, alcançando professores, analistas, administrativos, ativos, aposentados, efetivos, temporários e apoio escolar. Isso não caiu do céu. Isso foi negociado sob pressão porque havia uma categoria organizada dizendo, com todas as letras, que piso sem carreira é maquiagem remuneratória.


A literatura educacional é cristalina sobre esse ponto. Valorização docente não se resume a discurso motivacional de palanque. Ela depende de carreira estruturada, remuneração digna, formação, condições de trabalho e estabilidade institucional. Quando o poder público tenta descolar o piso da carreira, ele esvazia a política de valorização. Mantém um degrau mínimo para poucos e conserva o resto da categoria comprimido. É por isso que a luta do Sintepe não era um capricho contábil. Era defesa da lógica mais elementar de justiça funcional.


Também é preciso desmontar outra fraude retórica: a de que o reajuste saiu da boa vontade do caixa estadual. Salário de professor não sai do bolso da governadora. Sai de dinheiro público vinculado à educação, em grande medida sustentado pelo Fundeb, que financia remuneração e manutenção da educação básica. A própria legislação do novo Fundeb determina que, no mínimo, 70% dos recursos anuais do fundo sejam destinados à remuneração dos profissionais da educação básica em efetivo exercício. Para 2026, a previsão oficial é de que o Governo do Estado de Pernambuco tenha quase R$ 4,9 bilhões em receitas do Fundeb, incluindo mais de R$ 850 milhões de complementação da União. Em outras palavras, não estamos falando de favor palaciano, mas de obrigação financiada por um fundo constitucionalmente vinculado, alimentado por receitas públicas e complementado com recursos federais.


Isso não significa que o Estado não tenha responsabilidade. Tem, e muita. A rede estadual é sua. A folha é sua obrigação. A execução orçamentária é sua. O que não pode é a governadora posar como benfeitora de um direito que ela apenas foi obrigada a cumprir, e ainda sob atraso político. O mínimo virou marketing. O dever virou propaganda. E propaganda em ano eleitoral tem método. Humaniza a chefe, dilui o conflito, apaga o sindicato e tenta convencer a opinião pública de que o avanço veio da sensibilidade do governo, não da correlação de forças.


O mais grave é que esse enredo não se passa num sistema educacional exemplar. Pernambuco segue convivendo com denúncias de escolas com problemas estruturais graves, falta de climatização, merenda precária e reformas lentas. O próprio Sintepe vinculou a campanha salarial de 2026 à cobrança por infraestrutura decente, lembrando que a valorização profissional não cabe em peça publicitária enquanto estudantes e trabalhadores enfrentam calor, fiação exposta e ambientes insalubres. Não existe política séria de educação quando o governo quer colher dividendos da folha e terceiriza o desgaste das escolas ao cotidiano de professores e alunos.


A contradição fica ainda mais ofensiva quando se olha para o volume de recursos que circulam na educação e para a forma como o governo administra sua comunicação. Se há dinheiro constitucionalmente vinculado, se há complementação da União, se há obrigação legal de cumprir o piso, então o debate central deveria ser outro: por que a negociação não foi aberta com a celeridade devida? Por que foi necessário pressionar para que o governo reconhecesse um direito previsível desde janeiro? Por que a resposta só ganha velocidade quando a rua esquenta e a crítica se espalha?


Mulher falando ao microfone, vestindo terno risca de giz. Expressão séria, gesticulando. Fundo desfocado e escuro.
Socorro Pimentel | Foto: Roberto Soares/Alepe

As respostas apontam para uma prática política conhecida. Primeiro, adia-se. Depois, testa-se a resistência da categoria. Em seguida, quando o custo do impasse sobe, negocia-se o inevitável. Por fim, apaga-se a luta e divulga-se o desfecho como ato de liderança. É uma engenharia de desgaste da categoria e de apropriação do resultado. Na educação, isso é particularmente perverso porque explora a paciência de uma classe historicamente sobrecarregada e ainda exige gratidão por cada centavo do que já era direito.


Há, sim, um padrão de comunicação no raquelismo que merece escrutínio. Em outras áreas, a gestão já surfou entregas e anúncios marcados por forte participação federal ou por herança administrativa anterior, tentando centralizar politicamente dividendos de obras cuja autoria, financiamento ou maturação são compartilhados. Na BR-104, a retomada foi registrada pelo noticiário como obra com recursos federais e o próprio governo estadual falou em articulação com o Ministério dos Transportes. Na Adutora do Agreste, a entrega foi apresentada como troféu de gestão, embora se trate de um empreendimento histórico, multigovernamental e com protagonismo federal explícito. Em janeiro de 2025, funcionários do IBGE chegaram a criticar o teor promocional de material do governo estadual. O problema não é comunicar. Todo governo comunica. O problema é comunicar de modo a eclipsar coautorias, lutas sociais e a própria natureza pública dos recursos.



No caso do piso, esse vício aparece em estado bruto. A categoria fez campanha. O sindicato pautou. A pressão se acumulou. O prazo eleitoral apertou. A cobrança ecoou na Alepe e nas ruas. Só então o governo fechou acordo. No dia seguinte, aliados correram às redes para parabenizar a governadora por um “acordo histórico”, como se a história começasse no vídeo de celebração e não no mês de mobilização que obrigou a gestão a sair do conforto. É o tipo de operação que aposta numa memória curta e numa sociedade cansada. Só que professoras e professores têm memória de calendário, contracheque e sala de aula. Sabem quem chamou para a luta e sabem quem demorou para responder.


E sabem também que piso não resolve tudo. Sem concurso suficiente, sem infraestrutura digna, sem clima escolar saudável, sem redução do adoecimento, sem valorização dos funcionários e sem respeito à negociação coletiva, a educação segue sendo tratada como vitrine quando convém e como gasto quando a categoria reivindica. O governo tenta posar para a foto da vitória, mas foge da fotografia maior, aquela em que aparece a precariedade da rede, o uso político da comunicação oficial e a insistência em só negociar depois que a pressão se torna incontornável.


É por isso que esta não é apenas uma disputa sobre 5,4%. É uma disputa sobre autoria política e honestidade pública. Quando a governadora tenta chamar para si o mérito central de uma conquista arrancada pelo Sintepe e pela categoria, ela não apenas falseia os fatos. Ela reafirma uma lógica elitista segundo a qual direitos só existem quando o poder os concede. Não. Direitos existem antes do vídeo, antes do post, antes do palanque. O que os transforma em realidade é luta organizada.


Se Raquel Lyra quiser realmente demonstrar compromisso com a educação pública, há um caminho mais digno do que posar de madrinha de um reajuste obrigatório. Que abra as mesas no tempo certo. Que negocie sem chantagem de calendário. Que execute com transparência os recursos da educação. Que trate sindicato como interlocutor, não como obstáculo. Que reconheça publicamente a legitimidade da mobilização. E, sobretudo, que pare de exigir aplauso por cumprir a lei.


Porque a verdade, nua e sem filtro oficial, é simples. A vitória de 2026 tem dono coletivo. Ela nasceu da organização do Sintepe, da disposição de luta da categoria e da pressão social que impediu mais um ano de enrolação. O resto é propaganda.


O estopim — O começo da notícia!

Acesse o nosso perfil no Instagram e veja essa e outras notícias: @oestopim_ & @muira.ubi

Mulher com crachá em redação, olhando séria para a câmera. Fundo com computadores e pessoas trabalhando. Ambiente de escritório.

Helena Valente é repórter especial e analista de Educação de O estopim. Investiga orçamento, carreira docente, infraestrutura escolar e os mecanismos políticos que aprofundam desigualdades na escola pública brasileira.

bottom of page