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Tech

O país tem pesquisa, energia e mercado, mas ainda depende de chips, nuvens e modelos estrangeiros para desenvolver e operar inteligência artificial.


Por Atlas Siqueira para O estopim Tech | 10 de julho de 2026



Data center representa a infraestrutura usada por sistemas de inteligência artificial no Brasil
Data center representa a infraestrutura usada por sistemas de inteligência artificial no Brasil | Foto: Scala DC

A inteligência artificial já aparece em bancos, hospitais, escolas, indústrias e órgãos públicos brasileiros. Boa parte dessa tecnologia, porém, funciona sobre chips importados, serviços de nuvem estrangeiros e modelos desenvolvidos fora do país.


Essa dependência afeta preços, privacidade e continuidade dos serviços. Uma mudança comercial, uma restrição internacional ou o aumento do custo da computação pode limitar projetos brasileiros.


Treinar e operar modelos exige chips avançados, data centers, redes, energia e profissionais especializados.


O Brasil tem uma matriz elétrica favorável à computação de menor emissão, mas enfrenta dependência de equipamentos importados, gargalos de conectividade de longa distância e falta de mão de obra qualificada, segundo estudo do BNDES.


Hospedar servidores no país ajuda a reduzir latência e pode manter dados mais próximos dos usuários. Isso, sozinho, não garante soberania. A tecnologia pode continuar controlada por fornecedores externos.


Leia também:


Soberania tecnológica não exige que o Brasil fabrique cada chip ou desenvolva todos os modelos.


Ela significa conseguir escolher fornecedores, proteger dados estratégicos, auditar sistemas e evitar uma dependência unilateral.


Um estudo do Ipea identifica quatro bases para uma política soberana de IA: infraestrutura computacional, dados, profissionais qualificados e pesquisa e desenvolvimento. O trabalho também alerta que o acesso a chips avançados não deve ser tratado como algo sempre disponível no mercado.


O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial prevê investimentos de até R$ 23 bilhões em infraestrutura, capacitação, serviços públicos, inovação empresarial e governança.


Em junho de 2026, o MCTI anunciou R$ 129 milhões para formar quase seis mil profissionais em inteligência artificial. A iniciativa enfrenta um problema real, mas formação precisa vir acompanhada de laboratórios, carreiras e condições para reter talentos.


O que acontece agora


O Brasil pode usar IA para saúde, agricultura, educação, clima e serviços públicos. Mas existe diferença entre aplicar uma ferramenta estrangeira e controlar a tecnologia necessária para mantê-la.


Uma estratégia nacional precisa combinar computação para universidades, dados protegidos, software aberto, compras públicas e apoio a empresas brasileiras.


Sem isso, o país poderá ampliar o uso da IA enquanto continua pagando pelo acesso e submetido às regras de plataformas externas.


O desafio será transformar anúncios em capacidade permanente.


Mais importante que o valor prometido será medir quantos pesquisadores conseguiram acesso à computação, quantas tecnologias foram desenvolvidas no país e quanto do investimento gerou conhecimento nacional.


A soberania possível não é isolamento. É ter poder para escolher, negociar e não depender de um único fornecedor.


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Atlas Siqueira escreve sobre tecnologia, política, infraestrutura digital e economia da inovação. Em O estopim Tech, analisa como decisões técnicas afetam direitos, trabalho e soberania.


Por Raul Silva para O estopim | 18 de junho de 2026



Como dar block no tigrinho? Brasileiros que querem parar de apostar em jogos como o chamado Tigrinho já podem usar uma ferramenta oficial do governo federal para bloquear o próprio CPF em plataformas de apostas autorizadas. O serviço se chama autoexclusão centralizada e funciona pelo gov.br, com acesso por conta prata ou ouro.


Tigre em sinal de bloqueio vermelho sobre fundo preto, com texto BLOCK NO Tigrinho em branco e vermelho.
Campanha pede que as pessoas assinem movimento contra as plataformas de jogos online | Foto: Reprodução

A ferramenta permite que o cidadão restrinja o próprio acesso a todas as plataformas de apostas autorizadas pela Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda, por prazo determinado ou indeterminado. O sistema também impede novos cadastros e o recebimento de publicidade direcionada das bets reguladas.


A autoexclusão é um bloqueio voluntário. Na prática, a pessoa informa ao governo que não quer acessar casas de apostas autorizadas no Brasil. Depois da solicitação, as empresas reguladas devem impedir o acesso daquele CPF durante o período escolhido.


O Ministério da Fazenda informa que a ferramenta foi criada para prevenir danos financeiros, emocionais, sociais e de saúde causados pelo jogo excessivo. O serviço é gratuito e o prazo estimado para efetivação é de até 72 horas, contadas a partir da identificação da solicitação pelas casas de apostas.


Passo a passo para dar block no Tigrinho pelo gov.br


1. Acesse o serviço de autoexclusão no gov.br:

Entre na página oficial Solicitar a autoexclusão centralizada, Apostas, dentro do portal gov.br, e clique em Iniciar. O serviço também é indicado pelo Ministério da Fazenda na página de autoexclusão da Secretaria de Prêmios e Apostas.


2. Faça login com conta gov.br prata ou ouro:

O acesso exige autenticação com conta gov.br de nível prata ou ouro. Contas bronze precisam ser elevadas antes de usar o serviço.


3. Autorize o compartilhamento de dados:

Depois do login, o sistema pede autorização para uso dos dados pessoais necessários ao módulo de impedidos do Sistema de Gestão de Apostas. Sem essa autorização, o bloqueio não é concluído.


4. Clique em “Solicitar ou consultar minha exclusão das plataformas”:

Segundo o Ministério da Saúde, após entrar na plataforma, o cidadão deve usar a opção Solicitar ou consultar minha exclusão das plataformas, no menu lateral.


5. Escolha o prazo do bloqueio:

O usuário deve escolher por quanto tempo deseja ficar impedido de acessar as bets autorizadas. As opções vão de 1 mês a período indeterminado.


6. Informe o motivo da autoexclusão:

O sistema pede a seleção do motivo. A opção pode ir de decisão voluntária à prevenção do uso de dados em plataformas de apostas.


7. Leia e aceite os termos:

Antes de confirmar, o cidadão precisa aceitar os Termos de Uso e a Política de Uso de Dados Pessoais. Também declara ciência de que, durante o prazo escolhido, não poderá acessar plataformas autorizadas nem receber publicidade direcionada.


8. Confirme a solicitação:

Depois da confirmação, o pedido é enviado para a base centralizada. A efetivação pode levar até 72 horas após a identificação da solicitação pelas casas de apostas.


O bloqueio vale para qualquer Tigrinho?


Não necessariamente. O ponto central é que a ferramenta do gov.br atinge plataformas autorizadas pela Secretaria de Prêmios e Apostas. Se o jogo estiver em site clandestino, link de grupo de mensagem, aplicativo não autorizado ou página sem licença, o bloqueio pelo gov.br pode não ser suficiente.


O próprio Ministério da Fazenda afirma que a norma dos jogos online não libera nem proíbe um jogo específico. Ela estabelece regras de certificação. Jogos que não passarem por certificação não podem ser considerados legais.


Por isso, quem quer se proteger do Tigrinho deve combinar três medidas: autoexclusão pelo gov.br, remoção dos aplicativos e bloqueio de sites no celular, navegador ou roteador.


Dá para cancelar o bloqueio?


Depende do prazo escolhido. Segundo o Ministério da Fazenda, quando a autoexclusão é feita por prazo determinado, não é possível revogar antes do fim do período. Quando é feita por prazo indeterminado, a revogação só pode ser solicitada depois de 12 meses.


Quando procurar ajuda?


Se a pessoa não consegue parar de apostar, mente sobre perdas, pede dinheiro para cobrir dívidas ou sente ansiedade quando tenta interromper o jogo, o bloqueio digital pode ser apenas o primeiro passo.


O Ministério da Saúde orienta que pessoas com problemas relacionados a apostas procurem Unidades Básicas de Saúde, Centros de Atenção Psicossocial, profissionais de saúde de confiança ou a Ouvidoria do SUS pelo telefone 136.


Dar block no Tigrinho pelo gov.br não é só uma decisão tecnológica. É uma medida de proteção financeira, emocional e familiar. A aposta online foi desenhada para manter o usuário dentro da plataforma. O bloqueio, quando feito cedo, interrompe o ciclo antes que a dívida, a ansiedade e o isolamento cresçam.


O serviço oficial não resolve todos os problemas sozinho, sobretudo quando o acesso ocorre por sites clandestinos. Mas coloca uma barreira importante no CPF do apostador e cria uma primeira distância entre impulso e aposta.


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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo do O estopim, com foco em serviço público, política, tecnologia e temas de interesse social.

Por Raul Silva para O estopim | 18 de junho de 2026


Homem idoso de terno cinza fala ao microfone em reunião, com bandeira ao fundo e placa EMBAIXADOR CELSO AMORIM.
Ministro Celso Amorim na Conferência de Segurança Internacional do Forte | Foto: Vinicius Loures/Câmara dos Deputados

O assessor especial da Presidência da República, embaixador Celso Amorim, defendeu que a concentração da inteligência artificial nas mãos de poucas empresas, sediadas em poucos países, pode aprofundar desigualdades globais e fragilizar sistemas democráticos. A declaração foi feita na terça-feira, 16 de junho, durante a Conferência de Segurança Internacional do Forte, que reuniu autoridades e especialistas da União Europeia e da América do Sul.

IA nas mãos de poucas empresas pode ampliar a desigualdade

A fala de Amorim recoloca no centro do debate uma pergunta que vai além da tecnologia: quem controla os sistemas que organizam dados, informação, trabalho, consumo, segurança e disputa política. Segundo ele, diante do poder das big techs, os Estados não podem abrir mão da capacidade regulatória, “derivada do voto do povo”.


A preocupação do embaixador mira a estrutura de poder criada em torno da IA. As grandes empresas de tecnologia controlam plataformas, infraestrutura digital, bancos de dados, modelos de linguagem, mecanismos de distribuição de conteúdo e parte decisiva da conversa pública.


Quando esse conjunto fica concentrado em poucos grupos privados, a tecnologia deixa de ser apenas ferramenta econômica. Passa a influenciar eleições, mercados, relações de trabalho, segurança pública, educação, saúde e soberania nacional.


Amorim alertou para o risco de a IA dominada por poucos grupos aprofundar desigualdades e minar democracias. O problema, portanto, não está apenas no avanço técnico, mas na assimetria entre quem desenvolve, controla e lucra com os sistemas e quem apenas consome seus impactos.


Amorim também relacionou a governança da IA à proteção de dados. Para o embaixador, “Sem proteção digital, não há autonomia decisória nem confiança institucional”. Ele afirmou ainda que dados se tornaram ativos econômicos, políticos e militares, capazes de alimentar modelos de inteligência artificial, orientar decisões estratégicas e permitir monitoramento em larga escala.


Esse ponto é decisivo para países como o Brasil. Sem infraestrutura própria, proteção regulatória e capacidade pública de fiscalizar o uso de dados, o país tende a depender de sistemas produzidos fora de seu território e orientados por interesses comerciais externos.


A advertência ganha força quando Amorim cita a necessidade de atenção a bases sensíveis, como os dados do Sistema Único de Saúde. Em uma economia movida por IA, informações públicas de saúde, educação, segurança e assistência social passam a ter valor estratégico.


O debate sobre regulação das big techs costuma ser apresentado como embate entre inovação e controle estatal. A fala de Amorim desloca essa leitura. O que está em jogo é saber se a inteligência artificial será orientada por interesse público ou apenas por concentração de mercado.


Amorim defendeu que o desenvolvimento tecnológico seja direcionado a bens comuns, como redução da pobreza, proteção ambiental e garantia de direitos humanos.


A ausência de regras claras favorece quem já tem escala, dados e capital. Empresas menores, países pobres e populações vulneráveis entram no jogo em desvantagem. Nesse cenário, a IA pode acelerar desigualdades existentes, automatizar exclusões e transformar dependência tecnológica em dependência política.


A ameaça às democracias não ocorre apenas por ataques diretos. Ela também se manifesta de forma mais difusa, quando plataformas digitais direcionam o debate público, organizam visibilidade, distribuem desinformação e alteram a forma como cidadãos recebem informações. A própria Agência Brasil aponta que o poder das big techs é debatido no mundo por causa da capacidade das redes de influenciar o debate público, disseminar notícias falsas em massa e afetar o mercado de trabalho.


Com a inteligência artificial generativa, esse desafio aumenta. A produção de texto, imagem, áudio e vídeo sintéticos reduz o custo da manipulação informacional. Ao mesmo tempo, algoritmos pouco transparentes podem ampliar conteúdos extremos, esconder temas de interesse público e organizar bolhas políticas com precisão cada vez maior.


O problema, portanto, não é apenas tecnológico. É institucional. Democracias dependem de informação confiável, pluralidade, fiscalização e capacidade de responsabilização. Sistemas controlados por poucas empresas, com regras internas opacas e alcance global, desafiam esse equilíbrio.


A fala de Amorim também incluiu a dimensão militar da inteligência artificial. Ele alertou para o uso da tecnologia em guerras e para o desenvolvimento de armas autônomas, em um contexto no qual a decisão sobre força letal pode se tornar mais distante do operador humano.


Esse ponto aproxima a regulação da IA de uma agenda de segurança internacional. Não se trata apenas de proteger usuários de plataformas. Trata-se de discutir como sistemas autônomos podem alterar conflitos, vigilância, defesa nacional e equilíbrio entre países.


A fala de Celso Amorim indica que o Brasil quer posicionar a inteligência artificial como tema de soberania, democracia e desenvolvimento. A pergunta central é se o país terá força política, técnica e institucional para transformar esse diagnóstico em política pública.


Sem regulação, infraestrutura própria e proteção de dados, a IA tende a reproduzir a lógica que marcou outras etapas da economia digital: concentração de poder em poucas empresas, dependência tecnológica de países periféricos e baixa transparência para os cidadãos.


A inteligência artificial pode ampliar capacidades humanas, melhorar serviços públicos e acelerar descobertas. Mas, sem controle democrático, também pode aprofundar desigualdades, automatizar discriminações e deslocar decisões públicas para sistemas privados que não prestam contas ao eleitor.


O desafio está posto: regular a IA não significa barrar o futuro. Significa disputar quem terá poder para defini-lo.


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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo do O estopim, com foco em política, tecnologia, poder e temas de interesse público.

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