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Por Mário Toledo para O estopim | 20 de junho de 2026


A Seleção Brasileira venceu o Haiti por 3 a 0, em Filadélfia, pela segunda rodada do Grupo C da Copa do Mundo de 2026, com dois gols de Matheus Cunha e um de Vinícius Júnior. A vitória corrigiu parte dos problemas vistos no empate contra Marrocos e mostrou que Ancelotti encontrou uma alternativa mais móvel para o ataque.



Jogador do Brasil, camisa 9 azul, ergue os braços em comemoração diante de torcida com bandeiras do Brasil no estádio.
Matheus Cunha teve boa atuação na vitória do Brasil | Foto: Fifa/Divulgação

A vitória do Brasil por 3 a 0 sobre o Haiti, ontem, 19 de junho de 2026, na Filadélfia, foi menos um espetáculo completo e mais uma resposta funcional ao empate por 1 a 1 com Marrocos na estreia da Copa do Mundo. Matheus Cunha marcou duas vezes, Vinícius Júnior fez o terceiro e participou diretamente dos três gols. O resultado levou a Seleção aos quatro pontos no Grupo C, à frente de Marrocos pelo saldo, e eliminou o Haiti da briga por vaga.


Contra Marrocos, o Brasil foi um time partido. Casemiro e Bruno Guimarães sofreram para controlar o meio, principalmente diante da mobilidade marroquina e da atuação forte de Ayyoub Bouaddi. O gol de Saibari, aos 21 minutos, nasceu de uma transição rápida. Vinícius empatou aos 32, em lance individual de alto nível, mas a Seleção passou boa parte do jogo dependendo mais do talento isolado do que de uma estrutura coletiva limpa.


Contra o Haiti, Ancelotti fez duas mudanças centrais: Danilo entrou no lugar de Ibañez, e Matheus Cunha ocupou a vaga de Igor Thiago. A segunda alteração foi a mais importante. Cunha deu mobilidade, atacou profundidade, aproximou-se de Paquetá e Vinícius e fez o lado esquerdo funcionar. A Reuters definiu a troca como o ajuste que trouxe “equilíbrio, movimento e conexão mais natural” entre meio e ataque.


O Haiti começou com energia, linha baixa e tentativa de competir fisicamente. Resistiu cerca de 15 minutos. Depois, o Brasil encontrou o caminho que faltou contra Marrocos: passe vertical, ataque ao espaço e presença na área.


O primeiro gol veio aos 23 minutos. Vinícius recebeu, finalizou, Placide rebateu e Cunha apareceu para forçar a bola para dentro. Aos 36, nova combinação pela esquerda: Vinícius acelerou, encontrou Cunha em diagonal, e o atacante finalizou forte. Aos 45+3, Paquetá lançou Vinícius, que atacou o espaço e concluiu para fazer 3 a 0 antes do intervalo.


O segundo tempo foi o ponto fraco da noite. Com a vantagem construída, o Brasil reduziu ritmo, aceitou mais posse haitiana e passou a jogar em modo de administração. O Haiti mudou para uma estrutura mais próxima do 4-4-2, tentou pressionar melhor o meio brasileiro e teve sua melhor chance em cabeçada de Ricardo Adé, exigindo boa defesa de Alisson.


O Brasil melhorou porque parou de depender apenas da bola no pé. Contra Marrocos, havia posse sem progressão e pouca ocupação dos corredores internos. Contra o Haiti, Cunha atacou o intervalo entre zagueiro e lateral, Paquetá pisou mais no setor esquerdo e Vinícius recebeu apoio para não virar um duelo solitário contra dois ou três marcadores.


A Seleção, porém, ainda não apresentou uma identidade totalmente madura. O desenho de Ancelotti alternou 4-3-3, losango por dentro e uma saída mais paciente, mas o padrão mais repetido foi a posse lenta seguida de bolas por cima para atacantes em ruptura. Funcionou contra um Haiti limitado, mas também gerou impedimentos, perdas baratas e longos períodos de pouca criatividade.


Alisson: Pouco exigido no primeiro tempo, mas importante quando chamado. A defesa na cabeçada de Ricardo Adé impediu que o Haiti transformasse o segundo tempo em jogo emocional. Também mostrou frieza com os pés em lance de pressão de Isidor.


Danilo: Entrou no lugar de Ibañez e deu mais segurança posicional. Não foi exuberante ofensivamente, mas corrigiu um problema da estreia: a lateral direita deixou de ser uma zona tão vulnerável em transição. Sua presença ajudou Marquinhos a defender com menos exposição.


Marquinhos: Atuação segura. Liderou a linha defensiva, venceu duelos e controlou bem a profundidade haitiana. Contra Marrocos, a zaga tinha sido chamada a correr para trás muitas vezes. Ontem, ela defendeu mais de frente.


Gabriel Magalhães: Muito forte no jogo aéreo e nas coberturas. Teve participação decisiva no lance em que Alisson defende cabeçada de Adé, ajudando a limpar a sobra. Foi um dos responsáveis por manter o Haiti quase sempre fora da zona limpa de finalização.


Douglas Santos: Foi discreto, mas útil no equilíbrio. Deu amplitude pela esquerda, sustentou a circulação e permitiu que Paquetá e Vinícius jogassem mais por dentro. Cometeu erro no começo do segundo tempo, quando o Haiti tentou crescer, e isso mostra que ainda há risco na saída curta.


Casemiro: Fez um jogo melhor do que contra Marrocos porque o adversário exigiu menos intensidade no meio. Protegeu a entrada da área, ganhou divididas e organizou a primeira cobertura. A dúvida continua sendo a mesma: contra seleções mais fortes, conseguirá sustentar grandes espaços?


Bruno Guimarães: Foi um dos termômetros da melhora. Progrediu melhor a bola, acionou o lado esquerdo e apareceu em cobranças e passes verticais. No empate com Marrocos, foi engolido em vários momentos. Contra o Haiti, teve mais tempo para pensar e executou melhor.


Lucas Paquetá: Muito mais confortável. Contra Marrocos, pareceu deslocado e lento para decidir. Ontem, jogou como interior pela esquerda, aproximou-se de Vinícius e Cunha e deu o passe para o terceiro gol. Ainda alterna bons momentos com perdas bobas, mas foi peça importante no funcionamento ofensivo.


Raphinha: Segue sendo a maior interrogação do ataque. Teve um gol anulado por impedimento, perdeu boa chance e saiu aos 40 minutos com aparente problema físico. Sua função aberta pela direita parece desconectada do restante do time. Quando o jogo pende para o lado esquerdo, ele fica isolado.


Matheus Cunha: O melhor ajuste de Ancelotti. Fez dois gols, atacou a área, pressionou a saída haitiana e conectou setores. Mais importante do que os gols foi a maneira como ocupou espaços: não ficou preso como referência fixa, nem abandonou a área. Deu ao Brasil o que Igor Thiago não tinha dado contra Marrocos: mobilidade com presença.


Vinícius Júnior: O protagonista técnico. Fez o gol contra Marrocos, decidiu de novo contra o Haiti e participou dos três gols. A diferença é que, desta vez, não precisou carregar tudo sozinho. Com Paquetá e Cunha perto, recebeu em movimento, atacou espaço e teve opções para soltar a bola. Foi o jogador que mais desequilibrou.


Rayan: Entrou cedo, por causa da saída de Raphinha, mas não encaixou. Teve coragem para cortar para dentro, só que faltou precisão nas combinações. A Reuters aponta que ele não se acomodou bem no jogo, o que pode abrir espaço para Luiz Henrique na próxima partida caso Raphinha não tenha condição.


Endrick: Entrou no segundo tempo e quase marcou, mas o lance foi anulado por impedimento. Participou pouco porque o Brasil já tinha reduzido o ritmo. Ainda assim, ofereceu profundidade e presença de área, algo que pode ser útil contra defesas baixas.


Gabriel Martinelli: Foi o melhor dos suplentes ofensivos. Deu velocidade ao lado esquerdo e acertou a trave em jogada bonita após combinação com Vinícius. Sua entrada mostrou que o Brasil tem alternativa para manter agressividade sem depender sempre da mesma estrutura.


Ederson: Entrou no fim para dar energia ao meio. Quase apareceu como elemento surpresa na área em cruzamento de Martinelli. Pouco tempo para avaliação profunda, mas sua presença indica que Ancelotti quer opções de maior chegada e intensidade.


Danilo Santos: Entrou junto com Ederson na reta final. Participou de um período em que o Brasil já administrava o resultado. Não comprometeu, mas também não teve tempo para alterar a dinâmica.


É preciso cuidado para não tratar o Haiti como mero figurante. A diferença técnica foi clara, mas o contexto pesa. A seleção haitiana disputa apenas sua segunda Copa, a primeira desde 1974. Mesmo eliminada, competiu com dignidade, tentou sair para o jogo no segundo tempo e teve em Bellegarde, Providence, Simon e Etienne seus momentos de maior resistência. O próprio técnico Sébastien Migné elogiou os jogadores e reconheceu a distância entre as equipes.


O futebol global gosta de vender a ideia de igualdade competitiva, mas a Copa também escancara desigualdades estruturais. Brasil e Haiti não entram em campo com o mesmo acúmulo de investimento, calendário, formação, infraestrutura e mercado. O mérito brasileiro existe. A luta haitiana também.


A vitória sobre o Haiti corrige a tabela, melhora o saldo e reduz a pressão. Mas não resolve tudo. O Brasil ainda precisa transformar bons encaixes em padrão. Contra Marrocos, sofreu quando o rival pressionou forte e ocupou melhor o meio. Contra o Haiti, melhorou quando teve espaço para correr. A pergunta para Ancelotti é o que acontece quando o adversário negar as duas coisas.


A Seleção volta a campo contra a Escócia em 24 de junho, em Miami, enquanto Marrocos enfrenta o Haiti no mesmo dia. A liderança do grupo pode ser decidida no saldo de gols, o que torna a queda de intensidade no segundo tempo um detalhe menos inocente do que parece.


O Brasil venceu bem, mas não encantou por inteiro. O placar foi de time grande. O funcionamento ainda é de equipe em construção. O avanço tem nome: Matheus Cunha. A dependência segue tendo rosto: Vinícius Júnior. O desafio, agora, é fazer a Seleção deixar de ser um conjunto de respostas pontuais para virar uma equipe com convicção coletiva.


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Mário Toledo é jornalista esportivo e analista de conjuntura de O estopim. Especialista na cobertura de futebol nacional e internacional, entende o esporte como um fenômeno social e político. Disseca táticas, bastidores e os impactos socioeconômicos do esporte com rigor analítico, ética e foco na democratização do futebol.

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