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Por Raul Silva para O estopim | 18 de junho de 2026

A Polícia Federal deflagrou na manhã desta quinta-feira a 9ª fase da Operação Compliance Zero, novo desdobramento das investigações sobre irregularidades ligadas ao Banco Master. A ofensiva cumpre 18 mandados de busca e apreensão na Bahia, em São Paulo e no Distrito Federal, além de medidas cautelares como proibição de contato entre investigados e suspensão de passaporte. No centro da nova etapa está a suspeita de corrupção envolvendo agente público com prerrogativa de foro.
O avanço da operação marca uma mudança de patamar no caso. Até aqui, a Compliance Zero vinha sendo associada sobretudo ao núcleo empresarial e financeiro que orbitava Daniel Vorcaro, ex-controlador do Master. A fase desta manhã empurra a apuração para o coração da política nacional ao atingir, segundo reportagens publicadas ao longo do dia, o senador Jaques Wagner, líder do governo Lula no Senado, e o empresário Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro.
Na nota oficial divulgada nesta manhã, a PF informou que a nova fase da operação apura a eventual participação de agente público em um esquema de irregularidades envolvendo instituições do sistema financeiro nacional. A corporação afirmou que os fatos sob investigação podem, em tese, configurar corrupção passiva, corrupção ativa e lavagem de dinheiro.
A Polícia Federal não identificou nominalmente os alvos na nota pública. Ainda assim, a confirmação de que a etapa mira um agente público com foro privilegiado, somada à informação de que os mandados foram expedidos pelo Supremo Tribunal Federal, deu imediatamente ao caso um peso político mais alto do que nas fases anteriores.
Segundo CNN Brasil, Folha de S.Paulo, UOL e Reuters, a nova fase teve como um dos alvos o senador Jaques Wagner, do PT da Bahia, hoje líder do governo no Senado. As reportagens também apontam Augusto Lima como alvo de buscas. Lima é ex-sócio de Daniel Vorcaro e figura conhecida nas apurações ligadas ao Banco Master desde as primeiras fases da Compliance Zero.
A Folha informou que houve buscas em endereços ligados a Augusto Lima em Salvador e também no hotel em Brasília onde Wagner reside. O jornal também relatou diligência em endereço do enteado do senador, Eduardo Sodré Martins. Já o UOL noticiou que Augusto Lima foi o responsável por levar ao governo da Bahia um sistema de crédito consignado para servidores públicos que, depois, acabou incorporado ao universo de negócios do Master.
Até a publicação desta matéria, não havia manifestação pública de Jaques Wagner sobre a operação desta manhã. A defesa de Augusto Lima também não havia apresentado resposta pública nas reportagens consultadas.
A Compliance Zero começou em novembro de 2025 e tem como eixo a suspeita de fraudes financeiras, lavagem de dinheiro, articulação política e uso de estruturas paralelas para proteger interesses do grupo de Daniel Vorcaro. Ao longo dos últimos meses, a investigação saiu do terreno estritamente bancário e passou a alcançar relações empresariais, operadores políticos, ex-dirigentes públicos e personagens próximos ao núcleo de poder em Brasília.
O Banco Master, que já ocupava posição central no caso, acabou liquidado extrajudicialmente pelo Banco Central em novembro do ano passado. Desde então, cada nova fase da operação ampliou o alcance institucional do escândalo. A etapa desta quinta-feira é a mais sensível até agora do ponto de vista político, porque atinge um aliado direto do Palácio do Planalto em um momento em que o governo depende da articulação no Senado para temas estratégicos.
A entrada de Jaques Wagner no radar da investigação não produz apenas ruído partidário. Ela aumenta a pressão sobre o governo federal porque atinge um dos senadores mais influentes da base lulista, com papel central na interlocução entre Planalto e Congresso. Ainda que a operação não signifique culpa formada, a simples condição de alvo de busca em uma investigação com esse grau de exposição já altera o ambiente político.
A Reuters informou que o ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse confiar em Wagner e esperar que ele esclareça os fatos às autoridades. A fala indica uma tentativa inicial do governo de tratar o episódio como assunto a ser respondido no campo jurídico, sem transformar a nova fase da operação em crise política aberta. O problema é que o caso Master já deixou há algum tempo de ser apenas um inquérito financeiro. Ele virou um teste de resistência institucional, com efeitos sobre a credibilidade de agentes públicos, a supervisão do sistema financeiro e a relação entre poder político e interesse privado.
A nova fase da Compliance Zero tende a acelerar duas frentes. A primeira é a jurídica: análise do material apreendido, rastreamento de vínculos e eventual aprofundamento da linha que investiga corrupção e lavagem. A segunda é a política: cobrança por explicações públicas, pressão da oposição e desgaste para o governo caso surjam novos elementos conectando o entorno de Vorcaro a figuras centrais do poder em Brasília.
Por enquanto, a manhã desta quinta-feira já deixou um dado incontornável. O caso Banco Master entrou de vez em uma etapa em que a fronteira entre escândalo financeiro e crise política ficou muito mais estreita.
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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo do O estopim, com foco em política, investigação e temas de interesse público.
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