A entrevista por telefone do advogado e professor de Direito Fernandes Braga ao Jornal Itapuama, da Rádio Itapuama FM, nesta terça-feira, 21, reposicionou o foco da crise aberta na noite anterior na Câmara de Vereadores de Arcoverde
Por Raul Silva para O estopim | 21 de abril de 2026
Citado durante a Tribuna Livre da sessão que terminou em tumulto, Fernandes Braga afirmou que sua atuação no caso envolvendo o agora ex-vereador Claudelino Costa foi “exclusivamente técnica”, acusou o uso indevido da tribuna para ataques pessoais, anunciou reação nas esferas ética e penal e disse que o episódio expôs uma deterioração do debate político e jurídico dentro da Casa.

A fala veio depois de uma sessão marcada por bate-boca, interrupções e confusão generalizada. O pano de fundo era a análise do parecer sobre a denúncia apresentada por Micael Lopes de Gois contra Claudelino Costa, já em cenário alterado pela renúncia do parlamentar ao mandato. Na prática, a renúncia embaralhou o eixo da discussão, ampliou a disputa de versões sobre a perda ou não do objeto do processo e abriu mais uma frente de desgaste para o presidente da Câmara, Luciano Pacheco, também citado por Braga e por outros atores do caso.
Logo no início da entrevista, Fernandes Braga reagiu ao fato de ter sido citado na sessão e adotou um tom duro contra o advogado que se pronunciou na Tribuna Livre. Em um dos trechos centrais da fala, disse:
“Primeiro, quero dar os parabéns ao advogado que sustentou ontem lá na Câmara dos Vereadores. Eu não me recordo o nome dele, que geralmente tem essa dificuldade de recordar quem não me deixa lembrança. Mas enfim, quero dar os parabéns a ele e dizer que mais uma vez ele vai ter um minuto de fama. Cavou mais um pente sobre mim. Eu nem estava presente.”
Braga buscou marcar distância entre o embate político travado na Câmara e sua condição de defensor de Claudelino Costa. Segundo ele, sua presença no caso se deu para sustentar uma linha estritamente jurídica, ligada ao curso do processo e à suspensão do feito em razão da ação penal em andamento. Na entrevista, afirmou:
“Então, assim, a minha atividade, a minha atribuição é exclusivamente técnica.”
A partir daí, o advogado passou a sustentar que a sessão ultrapassou os limites de uma discussão de mérito.
“Então, assim, é inadmissível que um profissional do Direito utilize o púlpito de uma Casa legislativa do Poder Legislativo para agredir pessoas”, declarou, antes de acrescentar que houve exaltação, quebra de microfone e ofensas dirigidas a seu irmão, o delegado Israel Rubis.
O núcleo jurídico da entrevista de Fernandes Braga foi a tentativa de separar o debate processual da escalada pessoal registrada na Câmara. Segundo ele, a menção ao seu nome e ao do irmão extrapolou o terreno do contraditório e avançou para a imputação de crimes.
Foi nesse ponto que ele elevou o peso das acusações. Nas palavras transcritas do arquivo da entrevista:
“A partir do momento que esse vereador, esse advogado, diz lhe que esse advogado aqui que vos fala se defendia se proteger através de um distintivo de um delegado de polícia que é o meu irmão. Ele está dizendo de um lado, atacando o delegado, dizendo que o delegado está praticando um crime de advocacia administrativa e do outro norte e imputando a mim um fato criminoso de tráfico de influência. Isso é muito sério. Isso é muito grave. Isso tem que ficar claro.”
Ao formular essa leitura, Braga procurou converter a crise política em questão de responsabilização formal. Na mesma entrevista, afirmou que o outro advogado “vai ter que responder no tribunal de Ética e Disciplina” e acrescentou que pretende ingressar com queixa-crime, sustentando que houve imputação de fatos criminosos sem base.
Se a primeira metade da fala de Fernandes Braga foi dedicada a rebater as menções feitas a ele e ao irmão, a segunda deslocou parte da responsabilidade para o comando da sessão. Para o advogado, a desorganização do debate não foi um acidente lateral, mas consequência da forma como os trabalhos foram conduzidos.
No trecho mais direto contra a presidência da Casa, ele afirmou que:
“o maior responsável outrora por esse episódio chama se o presidente da Casa Legislativa”. Depois, aprofundou a crítica ao dizer que “todo esse processo é deflagrado em decorrência da irresponsabilidade e da incompetência de se conduzir os processos da casa legislativa”.
A crítica tem peso político porque a atual crise da Câmara de Arcoverde já não se limita ao caso Claudelino. Nas últimas semanas, o ambiente legislativo local passou a ser marcado por acusações cruzadas, questionamentos sobre a legalidade de atos internos e nova pressão sobre Luciano Pacheco, citado em outros procedimentos e já submetido a desgaste público crescente.
O tumulto da noite de 20 de abril foi registrado por veículos e perfis locais com versões convergentes em um ponto central: a sessão saiu do controle antes da conclusão da pauta. A discussão se acirrou durante a Tribuna Livre, quando o advogado Eldy Magalhães, que atuou pela parte denunciante no caso Claudelino Costa, passou a fazer referências a Fernandes Braga, à vereadora Célia Galindo e ao delegado Israel Rubis.
Célia reagiu, ainda que à distância, por telefone. Israel Rubis também entrou na cena do conflito. A sessão acabou encerrada sem conclusão regular da votação prevista, o que ampliou a percepção de colapso institucional em uma Câmara já atravessada por disputas políticas, jurídicas e pessoais.
Fernandes Braga retomou esse ponto para sustentar que a tribuna perdeu completamente o foco do objeto formal. Em outro trecho literal da entrevista, afirmou:
“Eu tinha um minuto, eu tinha um tempo regimental e lá eu colocava o objeto que eu vou sentar e o processo de cassação, abertura, suspensão. Claudelino, vereador Claudelino. E ontem eu não sei qual era o objeto. O objeto agora é uma vereadora. Uma outra hora é um ataque a um delegado, outra hora é um ataque a um colega advogado, um advogado atacando, outro ataca a própria OAB.”
A crise não ficou restrita ao plenário. O episódio avançou para entrevistas, postagens e comentários em redes sociais, especialmente nas publicações da Itapuama FM que passaram a repercutir o caso na manhã desta terça-feira. Em um desses comentários posteriores, ainda repercutidos publicamente, apareceu a referência a “correr pra Paraíba”, expressão que voltaria a ser mencionada por Fernandes Braga ao vivo.
Na entrevista, o advogado retomou o tema de forma explícita e procurou responder tanto ao tumulto da sessão quanto à repercussão digital. Disse:
“eu quantas vezes eu precisar ir a cidade de Arcoverde eu vou, não vou correr pra Paraíba. Eu não sou um foragido. Eu não sou um homem contra a lei. Eu não sou um marginal, não vive à margem da lei.”
Ao mesmo tempo, voltou a subir o tom contra o colega ao afirmar:
“É um cidadão misógino. É um cidadão homofóbico, inclusive veiculando em comentários no WhatsApp dizendo que o delegado iria correr para a Paraíba, de que ele não tinha a intenção de ter relações homo homossexuais comigo.”
Trata-se de uma acusação atribuída exclusivamente a Fernandes Braga. Até a publicação deste texto, O estopim não encontrou manifestação pública nova de Eldy Magalhães especificamente sobre essas declarações feitas no Jornal Itapuama.
No plano jurídico, um dos pontos mais sensíveis do episódio é o debate sobre a continuidade ou não do processo político após a renúncia de Claudelino Costa. Fernandes Braga sustentou, ao longo da entrevista, que seu papel foi o de defender tecnicamente a leitura de suspensão e, depois, de perda de objeto. Esse entendimento dialoga com o cenário que já vinha sendo apresentado na própria pauta legislativa da Câmara e em reportagens locais sobre o parecer da comissão prévia.
Na prática, a renúncia deslocou o centro da crise. O que seria uma sessão voltada à apreciação de um parecer relacionado a Claudelino transformou-se em novo capítulo da crise de governabilidade da Casa. Foi justamente essa mudança de eixo que Braga tentou enfatizar ao afirmar que a Tribuna Livre deixou de discutir o objeto formal e passou a operar como espaço de ataque pessoal e disputa paralela.
A entrevista de Fernandes Braga interessa por duas razões. A primeira é imediata: ela oferece a resposta de um dos personagens citados na sessão mais caótica recente da Câmara de Arcoverde. A segunda é estrutural: ela ajuda a dimensionar como a crise local deixou de ser apenas um conflito sobre mandato, denúncia ou regimento e passou a atingir o próprio ambiente institucional do Legislativo.
Quando um advogado usa a rádio para anunciar representação ética, queixa-crime, crítica à presidência da Casa e repúdio à forma como a tribuna foi usada, o caso já não se resume ao plenário. Ele se projeta para a arena pública, para a disputa de narrativas e para os desdobramentos formais que podem surgir nos próximos dias.
A Câmara de Arcoverde terá de responder não apenas sobre o futuro processual do caso Claudelino, mas também sobre a condução de uma sessão que terminou sem ordem, sem deliberação conclusiva e com repercussões políticas, jurídicas e públicas ainda em aberto.
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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo de O estopim. Atua na cobertura de política, instituições, justiça e bastidores do poder local, com foco em contexto, apuração documental e interesse público.
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