Com a presença de lideranças sindicais e a conferência magna do sociólogo Jessé Souza, o 12° Congresso do Sintepe reafirma o compromisso dos trabalhadores da educação com a democracia e a justiça socioambiental
Por Raul Silva para O estopim | 26 de maio de 2026
O 12º Congresso do Sintepe foi aberto nesta terça-feira (26), em Gravatá, com um recado político direto: a defesa da democracia, da soberania nacional e da escola pública voltou ao centro da agenda sindical em Pernambuco. Reunido no Hotel Canárius até a sexta-feira, 29, o encontro mobiliza cerca de mil delegados e delegadas da rede estadual para atualizar o plano de lutas da categoria em meio à disputa por valorização profissional, melhores condições de trabalho e resposta do poder público para os problemas de infraestrutura das escolas.
A abertura do congresso começou com apresentação do grupo Guerreiros do Passo e do maestro Oséas com sua orquestra de frevo. O gesto não foi protocolar. Ao levar a cultura popular para o centro do plenário, o Sintepe demarcou que a discussão sindical não se separa da identidade social e política de Pernambuco.
Na sequência, a mesa política reuniu dirigentes sindicais, representantes de entidades e convidados do campo educacional e institucional. Participaram da abertura a direção do Sintepe, a presidenta da CNTE, Fátima Silva, o presidente da CUT Pernambuco, Paulo Rocha, o vice-presidente da Internacional da Educação para a América Latina, Heleno Araújo, além de representantes de instituições acadêmicas, movimentos sociais e parlamentares.

Nas intervenções iniciais, o tom predominante foi de alerta contra o avanço conservador e de reafirmação da organização coletiva como instrumento de defesa de direitos. A presidenta licenciada do Sintepe, Ivete Caetano, citou Paulo Freire e Carolina Maria de Jesus para sustentar que democracia sem direitos concretos não passa de promessa vazia. Ao defender participação social, soberania alimentar, paz e autodeterminação entre os povos, Ivete recolocou a educação como parte de um projeto mais amplo de transformação social.
Fátima Silva, da CNTE, reforçou a necessidade de manter a educação pública no centro da disputa política. A dirigente vinculou o congresso à tarefa de preservar conquistas e ampliar direitos, num momento em que a categoria ainda enfrenta pressões salariais, precarização do trabalho e tentativas recorrentes de esvaziar o papel social da escola.
Já Paulo Rocha, da CUT Pernambuco, aproveitou a tribuna para aproximar a pauta educacional de debates mais amplos do mundo do trabalho, como o enfrentamento à escala 6 por 1, a ausência de regulamentação efetiva do direito de greve e as dificuldades de negociação no serviço público. Heleno Araújo, por sua vez, retomou a trajetória histórica das lutas sindicais na educação e reforçou o lema do encontro ao cobrar democracia, soberania e justiça socioambiental como eixo de ação política.
A presidenta em exercício do Sintepe, Cíntia Sales, resumiu o espírito da abertura ao afirmar que a presença dos delegados e das delegadas no congresso representa mais um passo na construção da consciência política da categoria.

A conferência de abertura ficou a cargo do escritor e sociólogo Jessé Souza. Ao falar para o plenário, ele deslocou o debate do terreno imediato da conjuntura para uma explicação estrutural do Brasil. Seu argumento central foi o de que a escravidão não é um capítulo encerrado da história nacional, mas uma lógica que segue organizando hierarquias sociais, formas de humilhação e mecanismos de concentração de poder.
Ao afirmar que é preciso compreender como a escravidão atravessa cerca de cinco séculos da formação brasileira, Jessé Souza conectou passado e presente para sustentar que a desigualdade não pode ser tratada como acidente. Nesse enquadramento, a crise social brasileira deixa de ser vista como falha eventual de gestão e passa a ser entendida como parte de uma engrenagem histórica que naturaliza pobreza, violência e exclusão.
A escolha de Jessé Souza para a conferência de abertura ajuda a explicar a linha política que o congresso quer imprimir. O Sintepe não abriu seus trabalhos olhando apenas para a negociação de curto prazo. Abriu, sobretudo, tentando ligar salário, escola, democracia e estrutura social numa mesma leitura de país.

O caderno de teses distribuído aos participantes reforça essa mesma direção. Nas páginas iniciais, o documento apresenta uma leitura internacional crítica ao neoliberalismo, ao conservadorismo e à extrema direita, defende a autodeterminação dos povos, o multilateralismo e a paz, condena a escalada de guerras e chama atenção para o impacto da crise climática e das disputas geopolíticas sobre a vida da classe trabalhadora.
Na parte dedicada à conjuntura nacional, o texto recupera os ataques de 8 de janeiro de 2023, trata a tentativa de golpe como expressão organizada da extrema direita e associa a reconstrução democrática à retomada de políticas sociais e à defesa das instituições. Já no debate ambiental, o material coloca Amazônia, Cerrado e Semiárido no centro da agenda e afirma que a justiça socioambiental não pode ser separada da desigualdade social.
Em outra frente, a organização do congresso dividiu as resoluções em oito eixos, que vão da conjuntura internacional ao plano de lutas. Na prática, isso mostra que o encontro foi desenhado para ir além do balanço interno do sindicato. A intenção é produzir orientação política para a categoria num ano em que a educação pública volta a ser pressionada tanto pela lógica fiscal quanto pela disputa ideológica.
A abertura do 12º Congresso do Sintepe ocorre poucas semanas depois de o sindicato conquistar, na Alepe, a aprovação do reajuste linear de 5,4% para a carreira da educação em 2026. Também acontece num momento em que a entidade elevou o tom das denúncias sobre a situação física das escolas estaduais e passou a cobrar explicações sobre obras e reformas que, segundo o sindicato, consumiram recursos elevados sem resolver problemas elementares de infraestrutura.
Esse pano de fundo ajuda a entender por que o congresso começou discutindo democracia e soberania, mas sem perder de vista climatização, merenda, condições de trabalho, carreira e investimento real na rede pública. Em Pernambuco, a disputa sindical continua sendo, ao mesmo tempo, uma disputa sobre orçamento, reconhecimento profissional e sentido público da educação.
Ao abrir seu 12º Congresso do Sintepe com cultura popular, falas políticas e uma conferência centrada na herança escravocrata do país, o Sintepe sinaliza que pretende discutir o presente sem abrir mão da história. O sindicato reúne sua base para deliberar sobre caminhos concretos da luta sindical, mas também para formular uma interpretação do Brasil e do lugar da educação nessa disputa.
Mais do que um rito interno, a abertura em Gravatá expôs uma tese política. Para o Sintepe, não haverá valorização da categoria sem democracia efetiva, não haverá escola pública forte sem investimento e não haverá projeto educacional consistente enquanto a desigualdade seguir sendo tratada como paisagem.
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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo de O estopim. Atua na cobertura de política, educação e temas de interesse público com foco em apuração, contexto e impacto social.
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