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Representação pede investigação por improbidade, afastamento cautelar, convocação de suplentes e corte de subsídios. O caminho legal, porém, é mais longo e menos automático do que o embate político sugere.


Por Raul Silva para O estopim | 21 de maio de 2026



Dois homens sorrindo, um segura um documento. Fundo vermelho com porta branca. Um homem usa camisa azul. Cena ao ar livre e clima descontraído.
Guilherme Ribeiro presidente do PT Arcoverde e Jairo Rodrigues Secretário de Comunicação no MPPE de Arcoverde | Foto: Comunucação/PT Arcoverde

O diretório municipal do PT de Arcoverde protocolou uma representação no Ministério Público de Pernambuco contra nove vereadores da Câmara Municipal de Arcoverde e transformou uma crise política local em uma disputa de natureza institucional, administrativa e judicial. Na peça, o partido sustenta que houve absenteísmo deliberado para esvaziar sessões, derrubar o quórum mínimo e paralisar o funcionamento do Legislativo. A denúncia pede investigação por improbidade administrativa, afastamento cautelar dos parlamentares, convocação imediata de suplentes e desconto proporcional nos subsídios pagos aos faltosos. O caso se passa em meio a sessões frustradas, vídeos publicados nas redes e um conflito aberto em torno da presidência da Casa.


O ponto central, no entanto, está menos no impacto político imediato da denúncia e mais no que a lei realmente permite a partir daqui. A representação do PT pode abrir um caminho formal de apuração, mas não produz, por si só, qualquer efeito automático sobre mandato, remuneração ou composição da Câmara. Entre a peça entregue ao MPPE e uma eventual sanção existe um percurso jurídico que depende de triagem, coleta de provas, contraditório, enquadramento legal e, em alguns casos, decisão judicial.



A representação sustenta que a crise deixou de ser apenas um impasse interno e passou a comprometer o próprio funcionamento do Poder Legislativo municipal. O PT atribui a paralisação a um boicote organizado por nove vereadores, apontados nominalmente na peça: Célia, Heriberto do Sacolão, João Marcos, João Taxista, Luiza Margarida, Paulinho Galindo, Rodrigo Roa, Sargento Brito e Wellington Siqueira. O presidente da Câmara, Luciano Pacheco, ficou fora do polo passivo porque, segundo o documento, teria sido o único presente nas sessões esvaziadas.


O partido afirma que a conduta foi assumida publicamente em vídeo e que não se tratou de ausência fortuita, motivada por doença, licença ou força maior. A tese é a de um absenteísmo consciente, usado como instrumento de pressão política contra a presidência da Casa. A peça também cita sessões frustradas em março e maio, com impacto sobre pautas administrativas e sobre a tramitação de pedidos de cassação.


Na prática, o PT pede seis providências centrais: a autuação da notícia e a abertura de investigação, a requisição das listas de presença e dos registros das sessões, o ajuizamento de ação por improbidade, o afastamento cautelar dos nove vereadores, a posse imediata dos suplentes e a emissão de recomendação para desconto proporcional nos subsídios pagos aos faltosos.



Antes mesmo de chegar à legislação federal, o caso encontra regras claras no plano local. O Regimento Interno da Câmara de Arcoverde estabelece que as sessões ordinárias só podem ser abertas com a presença da maioria absoluta dos vereadores. Como a Lei Orgânica do município, atualizada em 2024, registra uma Câmara com 10 cadeiras, o número mínimo para abrir os trabalhos é de seis parlamentares. Se esse número não for alcançado, o presidente aguarda 15 minutos, manda lavrar uma ata sintética e declara prejudicada a realização da sessão.


Esse ponto é decisivo porque ajuda a separar duas discussões. A primeira é política: a minoria ou a maioria pode faltar como forma de pressão? A segunda é jurídica: quando a ausência deixa de ser uma escolha individual do parlamentar e passa a afetar a continuidade de um poder constitucionalmente instituído? No caso de Arcoverde, a denúncia do PT tenta justamente deslocar o debate para essa segunda camada.



A Lei Orgânica também contém dois dispositivos que pesam no diagnóstico. O primeiro determina o desconto proporcional nos proventos dos vereadores faltosos em relação às sessões não assistidas. O segundo prevê perda de mandato para o vereador que deixar de comparecer, em cada sessão legislativa anual, à terça parte das sessões ordinárias, salvo doença comprovada, licença ou missão autorizada pela edilidade. O texto ainda trata como hipótese de perda de mandato a utilização do cargo para atos de improbidade administrativa e considera incompatível com o decoro o abuso das prerrogativas parlamentares ou a percepção de vantagens ilícitas ou imorais.


Isso significa que o ordenamento local já oferece instrumentos de reação. A Presidência pode justificar ou não a falta, registrar a ausência, promover o desconto proporcional e, em cenário mais extremo, abrir ou admitir o debate político-administrativo sobre perda de mandato, desde que observadas as regras de rito e defesa. A própria Lei Orgânica admite provocação por partido político legalizado em hipóteses de perda de mandato ligadas a proibições e decoro. Em outras palavras, a representação ao MPPE não substitui os mecanismos internos da Câmara, mas tenta acelerar sua responsabilização por outra via.


Fachada do Ministério Público de Pernambuco, Promotoria de Arcoverde. Prédio com paredes de tijolos, jardim em frente e texto em placa.
Sede do Ministério Público de Pernambuco em Arcoverde PE | Foto: Reprodução/Redes Sociais

O Ministério Público tem base constitucional para promover inquérito civil e ação civil pública em defesa do patrimônio público, da moralidade administrativa e de interesses coletivos. Essa é a porta jurídica utilizada pelo PT ao levar o caso para fora da Câmara. A legislação nacional também dá ao MP poder para requisitar documentos, colher informações e, se houver elementos suficientes, propor ação judicial.


Mas é justamente na passagem do conflito político para a esfera judicial que o caso fica mais complexo.


A representação foi construída com base na Lei de Improbidade Administrativa. O problema para os denunciantes é que, depois da reforma de 2021, o enquadramento por improbidade ficou mais restritivo. Hoje, o artigo 11 da lei exige ação ou omissão dolosa, e a jurisprudência passou a cobrar um lastro probatório mais robusto para diferenciar improbidade de mera irregularidade, desorganização administrativa ou disputa política dura. O Supremo Tribunal Federal consolidou que a responsabilização por improbidade exige responsabilidade subjetiva. Em português claro, não basta mostrar que a Câmara parou. É preciso demonstrar que a paralisação decorreu de conduta dolosa juridicamente enquadrável.


Esse detalhe faz toda a diferença. O PT parte de uma premissa forte ao dizer que a intenção estaria confessada em vídeo. Se o conteúdo comprovar, de fato, uma decisão coordenada de faltar para impedir o funcionamento da Casa, a tese ganha densidade. Ainda assim, a prova do dolo não encerra o debate. O Ministério Público e, depois, o Judiciário terão de avaliar se essa conduta se encaixa no tipo legal da improbidade ou se permanece no terreno da responsabilidade político-administrativa interna.


Há ainda outra lei importante no pano de fundo: o Decreto-Lei nº 201, de 1967, que disciplina a responsabilidade de prefeitos e vereadores. No caso dos vereadores, esse decreto prevê hipóteses de cassação de mandato pela Câmara, inclusive quando o parlamentar usa o mandato para praticar atos de corrupção ou de improbidade administrativa. Isso reforça um aspecto central da crise de Arcoverde: parte relevante da resposta institucional pode continuar dentro da própria Câmara, desde que haja quórum e disposição política para processar o caso.


Prédio do Poder Legislativo com fachada espelhada, palmeira à frente e carro branco estacionado. Céu nublado ao fundo. Pessoas caminhando.
Câmara de Vereadores de Arcoverde | Foto: Reprodução/Redes Sociais

O primeiro passo costuma ser a autuação da demanda como notícia de fato. Nessa fase inicial, o Ministério Público analisa se o relato descreve lesão ou ameaça relevante a interesse tutelado pelo órgão, se há base documental mínima e se o caso realmente está em sua esfera de atribuição. Essa etapa não é mera formalidade. É ali que a representação pode seguir, ser arquivada ou ser convertida em procedimento mais robusto.


Se entender que o fato exige apuração, o promotor pode instaurar o instrumento adequado, que pode ser um procedimento preparatório, um procedimento administrativo ou um inquérito civil, a depender da natureza do que precisa ser esclarecido. Na prática, isso abre espaço para o MPPE ouvir os envolvidos, analisar os vídeos citados, comparar as listas de presença, requisitar atas, examinar folhas de pagamento, verificar se houve justificativas formais de ausência e aferir o impacto concreto da paralisia sobre a atividade legislativa.


Essa fase é decisiva porque o caso não se resolve apenas com narrativa. O Ministério Público vai precisar responder perguntas objetivas: houve falta sem justificativa legal? Houve coordenação entre os ausentes? A paralisação foi pontual ou reiterada? Projetos, votações, fiscalizações e processos internos deixaram de ocorrer por causa das ausências? Houve pagamento integral de subsídios em sessões frustradas? Houve reação formal da Mesa Diretora ou do controle interno?


Dependendo das respostas, o MPPE pode adotar caminhos diferentes. Pode arquivar o caso se entender que os fatos não configuram ilícito. Pode expedir recomendação administrativa para que a Câmara cumpra regras de desconto e publicidade. Pode buscar solução extrajudicial. Ou pode ajuizar ação por improbidade, se concluir que há prova de dolo, tipicidade e lesão relevante à moralidade administrativa.


A crise em Arcoverde ficou politicamente ruidosa, mas a lei não trabalha em modo automático. A mera apresentação da representação não afasta vereador, não corta salário de imediato, não empossa suplente e não produz cassação instantânea.


O afastamento cautelar pedido pelo PT é uma medida excepcional. Pela Lei de Improbidade, ele depende de decisão judicial e deve ser justificado pela necessidade concreta de evitar novos ilícitos ou proteger a instrução processual. Não se trata de punição antecipada nem de atalho para recompor maioria em plenário. Em geral, o Judiciário exige fundamentação objetiva, risco demonstrado e adequação da medida ao caso concreto.


A convocação de suplentes também não decorre automaticamente da representação. Pela Lei Orgânica de Arcoverde, a convocação ocorre nos casos de vaga ou licença. Se houver um afastamento judicial, ainda será necessário discutir se a decisão gera, por si, situação apta a justificar a convocação temporária e em que moldes isso se daria. Sem essa ordem específica, o pedido formulado pelo PT pode esbarrar numa lacuna prática.


O mesmo raciocínio vale para o desconto nos subsídios. A previsão local existe e é clara, mas sua aplicação depende de apuração administrativa e de verificação da natureza da falta. Se houve ausência injustificada, o corte encontra respaldo normativo. Se houve justificativa formal aceita pela Presidência, o cenário muda. A denúncia do PT pressiona para que esse filtro seja feito com rigor, mas o filtro ainda precisa ser feito.


Cadeira de vereadores vazia em uma câmara municipal. Mesas de mármore, bandeiras ao fundo e cadeiras pretas e brancas no salão. Atmosfera formal.
Plenário da Câmara de Arcoverde | Foto: Reprodução Redes Sociais

A representação parte de três elementos que, do ponto de vista jurídico, não são desprezíveis.


O primeiro é a materialidade mínima inicial. A peça não se apoia só em rumor político. Ela lista nomes, datas, links de vídeos e sessões concretas, e descreve a consequência institucional das ausências.


O segundo é a existência de regra local expressa sobre quórum, desconto por falta e perda de mandato por ausência reiterada. Isso afasta o argumento de que a crise estaria num vácuo normativo.


O terceiro é o interesse público envolvido. Quando o conflito interno deixa de ser apenas disputa entre bancada e presidência e passa a bloquear sessões, votações e funções de fiscalização, o caso ganha relevância para além dos grupos em confronto.


A robustez política da denúncia não elimina seus obstáculos legais.


O primeiro é o padrão atual da improbidade administrativa, mais exigente do que era no passado. A reforma legislativa e a jurisprudência recente reduziram o espaço para enquadrar como improbidade toda conduta censurável no plano ético ou político.


O segundo é a autonomia do Legislativo. O Judiciário e o Ministério Público podem agir quando há indício de ilegalidade, lesão à moralidade ou abuso, mas tendem a ser cautelosos quando a controvérsia pode ser tratada por mecanismos regimentais internos.


O terceiro é a própria arquitetura dos pedidos. Afastar nove vereadores e, ao mesmo tempo, determinar a posse imediata de suplentes é uma solução juridicamente ousada. Pode ser defendida sob o argumento da continuidade institucional, mas está longe de ser uma decorrência simples da lei local.


No curto prazo, o desfecho mais provável não é uma decisão explosiva, e sim uma etapa de investigação. O MPPE deve primeiro verificar a consistência da representação, reunir elementos documentais e ouvir as partes antes de decidir se leva o caso ao Judiciário. Esse é o rito mais compatível com a gravidade da acusação e com as exigências atuais da legislação de improbidade.


No plano político, a denúncia aumenta a pressão sobre os vereadores citados e sobre a própria Presidência da Câmara. Se as ausências continuarem, a crise tende a ganhar contornos mais severos, porque o acúmulo de faltas pode fortalecer não apenas a via do Ministério Público, mas também as hipóteses de responsabilização previstas na Lei Orgânica e no Decreto-Lei nº 201.


No plano institucional, o caso coloca Arcoverde diante de uma pergunta mais ampla: até onde vai a autonomia do mandato parlamentar quando a ausência deixa de ser um ato individual e passa a comprometer o funcionamento de um poder inteiro? A resposta a essa pergunta não virá de uma postagem em rede social nem de uma frase de efeito em vídeo. Ela virá da prova, do rito e da capacidade das instituições de separar protesto político de paralisação deliberada da máquina pública.


Por ora, o que existe é uma crise formalmente judicializada. O que ainda não existe é punição pronta.


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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo de O estopim. Atua na cobertura de política, poder local e interesse público, com foco em apuração documental e análise institucional.


Por Raul Silva para O estopim | 19 de maio de 2026



A política de Arcoverde entrou, nos últimos meses, numa espiral de desgaste que mistura denúncia, pedido de cassação, renúncia, confusão em plenário, sessão sem quórum e troca permanente de acusações entre vereadores e grupos ligados ao Executivo. O resultado prático é um só: enquanto a Câmara se fecha em disputas internas e a relação com a Prefeitura desce ao nível do confronto aberto, a população fica sem o debate sério que deveria orientar um Poder Legislativo eleito para fiscalizar, legislar e representar.


Fachada de um prédio do Poder Legislativo, com janelas espelhadas refletindo o céu. Bandeiras hasteadas. Um cartaz anuncia itens por R$ 1,50.
Prédio da Câmara Municipal de Arcoverde | Fonte: Reprodução/Facebook

O contraste é eloquente. No início de fevereiro, o discurso oficial era de convergência entre os poderes, com presença de representantes do Executivo na abertura dos trabalhos e promessa de diálogo institucional. Menos de quatro meses depois, o ambiente é outro. O que era anunciado como harmonia virou disputa por narrativa, guerra por controle político da Câmara e uma sequência de episódios que corroem a credibilidade do parlamento municipal.


A crise ganhou força com o avanço de denúncias contra o presidente da Câmara, Luciano Pacheco, acusado por adversários de ter exercido atividade privativa da advocacia enquanto ocupava cargo incompatível na Mesa Diretora. Ele nega irregularidade e sustenta que é alvo de perseguição política. Em paralelo, o então vice-presidente Claudelino Costa renunciou ao mandato em meio a outra frente de desgaste político e jurídico, o que ampliou o ambiente de excepcionalidade dentro da Casa.


Em vez de produzir contenção institucional, o episódio abriu mais frentes de conflito. As sessões passaram a ser contaminadas por disputas que extrapolaram a divergência política e migraram para o terreno da provocação, da exposição pessoal e da desordem.


A sessão de 20 de abril virou símbolo desse rebaixamento. O que deveria ser espaço de debate público terminou associado a bate-boca, interrupção dos trabalhos e tensão fora do rito parlamentar. Não se trata apenas de um incidente isolado. Trata-se de um sintoma. Quando uma Casa legislativa perde a capacidade de manter ordem, foco e decoro, ela deixa de ser arena democrática e passa a operar como palco de conflito performático.


Esse desvio ficou ainda mais evidente quando, em 11 de maio, a sessão ordinária não ocorreu por falta de quórum. A ausência de parlamentares já seria grave em qualquer contexto. Em meio a uma crise instalada, torna-se ainda mais reveladora. Faltar a uma sessão numa conjuntura assim significa aumentar a sensação de que a política local está concentrada mais na disputa entre grupos do que na obrigação com a cidade.


No material em vídeo que circulou após os episódios, uma frase resume com precisão o sentimento predominante: “Faltas às sessões e troca de acusações entre vereadores: só quem perde é a população de Arcoverde”. O ponto central é esse. Não importa qual ala grite mais alto. Numa cidade que depende da regularidade institucional para votar projetos, fiscalizar gastos e destravar agendas públicas, a desorganização do Legislativo deixa de ser um problema de bastidor e passa a ser um problema coletivo.


A pauta da sessão de 18 de maio mostra que a crise deixou de ser lateral e passou ao centro da atividade legislativa. Em vez de um parlamento concentrado em prioridades urbanas, serviços, saúde, infraestrutura, mobilidade e políticas sociais, o que se vê é uma Casa absorvida por requerimentos de cassação e por uma agenda moldada pela luta interna de poder.



Não há democracia madura quando o mecanismo excepcional de responsabilização política passa a ocupar o coração da agenda sem que a população consiga enxergar, com clareza, uma saída institucional rápida, transparente e estável. Instrumentos de apuração e responsabilização são legítimos. O problema surge quando a sucessão de denúncias, notas e embates transforma a Câmara num organismo voltado para si mesmo.


Arcoverde não elegeu vereadores para assistir a sessões consumidas por vaidade, revide e cálculo de facção. E também não elegeu uma Câmara para servir como extensão emocional de brigas entre grupos que até ontem dividiam o mesmo palanque e hoje disputam a narrativa do rompimento. O eleitor vota esperando representação. O que recebe, neste momento, é um espetáculo de instabilidade.


A crise na Câmara não pode ser lida como um problema apenas interno do Legislativo. Ela revela também o esgarçamento da relação política com o Executivo municipal. De um lado, a Prefeitura adotou postura pública de distanciamento formal em relação a parte das denúncias e tenta evitar a imagem de interferência direta. De outro, o ambiente político local é atravessado por acusações de articulação, rompimento de alianças e reposicionamento de lideranças de olho no tabuleiro estadual e nas eleições futuras.


Esse tipo de guerra quase nunca fica restrito ao discurso. Quando Executivo e Legislativo entram numa lógica de hostilidade permanente, a cidade inteira sente. Projetos atrasam, votações se contaminam, a pauta administrativa perde previsibilidade e a confiança do cidadão desaba. A população não acompanha apenas um duelo de versões. Ela convive com o risco real de paralisia.


É nesse ponto que a crítica precisa ser feita com clareza. A política de Arcoverde não está vergonhosa porque existe conflito. Conflito faz parte da democracia. Ela está vergonhosa porque o conflito deixou de produzir mediação, fiscalização e deliberação e passou a produzir ruído, constrangimento público e infantilização da vida institucional.


Retrato com nove quadros de pessoas sorrindo em roupas formais, emoldurados na parede branca. Expressão amigável e formal.
Onde estão os vereadores de Arcoverde? | Foto: Reprodução/IA Gemini

Nas redes sociais e na cobertura local, a reação predominante foi de desgaste. O vocabulário que passou a circular em publicações, comentários e chamadas de vídeos é revelador: crise, caos, semana turbulenta, questionamentos, omissão, vexame. Não é coincidência. É a linguagem que emerge quando a população deixa de enxergar firmeza institucional e passa a perceber a política como descontrole.


Há, de um lado, o registro da sessão de 18 de maio, já sob o peso da crise. Há, de outro, vídeos curtos produzidos para redes sociais e grupos de mensagem em que o foco deixa de ser a deliberação parlamentar e passa a ser o comentário sobre faltas, acusações e desgaste público. Quando a principal narrativa sobre uma Câmara não é a lei que ela discute, mas a confusão que ela produz, o problema político já ultrapassou o limite do tolerável.


Vista aérea de uma cidade ao pé das montanhas em dia nublado. Prédios e casas com tetos alaranjados destacam-se sob nuvens cinza.
Vista da cidade de Arcoverde do Alto do Cruzeiro | Fonte: Wikipédia

Arcoverde tem mais de 82 mil habitantes e não pode naturalizar um padrão de degradação institucional como se fosse folclore político do interior. Não é. É falha de representação. É desvio de prioridade. É quebra de compromisso com a função pública.


A cidade tem o direito de cobrar, no mínimo, cinco coisas imediatas.


  • Regularidade das sessões e presença dos parlamentares

  • Transparência integral sobre denúncias, ritos e votações

  • Contenção do uso da tribuna e do plenário para ataques pessoais

  • Separação clara entre disputa política legítima e sabotagem institucional

  • Retomada urgente da agenda concreta da cidade


Sem isso, a Câmara continuará parecendo menos uma instituição republicana e mais uma arena de humilhação pública. E uma democracia local começa a adoecer justamente quando seus representantes perdem a noção do ridículo institucional, ainda que mantenham intacta a capacidade de ocupar microfones, publicar notas e alimentar trincheiras.


Arcoverde merece divergência, fiscalização e debate duro. O que não merece é a substituição da política por um teatro de ressentimentos em que quase todos falam em nome do povo, mas poucos demonstram disposição real para trabalhar por ele.


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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo de O estopim. Escreve sobre política, interesse público e os impactos concretos das decisões de poder na vida local.


Em entrevista ao Jornal Itapuama, advogado nega provocação, acusa ex-vice-prefeito de tentar agredi-lo, contesta parecer pelo arquivamento do caso Claudelino Costa e diz que vai à Corregedoria e à Justiça


Por Raul Silva para O estopim | 21 de abril de 2026




Homem de terno e gravata vermelha fala ao microfone. Fundo azul com letras "ÂMARA" visíveis. Atmosfera formal e profissional.
Eldy Magalhães em sua fala na Câmara de Vereadores de Arcoverde na seção desta segunda (20) | Foto: Reprodução/YouTube da Câmara de Vereadores de Arcoverde

O advogado Eldy Magalhães afirmou, em entrevista por telefone concedida à jornalista Zalxijoane Lins no Jornal Itapuama, que o tumulto generalizado registrado na noite de segunda-feira, 20, na Câmara de Vereadores de Arcoverde nasceu da disputa em torno do processo político-administrativo contra o ex-vereador Claudelino Costa, foi agravado por embates em plenário e terminou com acusações cruzadas entre ele, o ex-vice-prefeito e delegado Israel Rubis e a vereadora Célia Galindo. Eldy negou ter provocado Israel, disse que pretende acionar a Corregedoria de Polícia e afirmou que também vai buscar reparação nas esferas cível e criminal.


A entrevista ocorreu menos de 24 horas depois de uma sessão que terminou sem conclusão regular dos trabalhos, em meio a gritos, interrupções e forte repercussão política na cidade. O caso ganhou dimensão maior porque a discussão em plenário tratava de um processo que, dias antes, havia sido recolocado em movimento por decisão judicial, o que elevou a temperatura do debate dentro e fora da Casa.


Antes da entrevista à Rádio Itapuama, o ambiente já estava carregado por uma fala de Eldy na tribuna, que circulou em vídeo e ajudou a explicar a reação posterior de Israel Rubis. No trecho transcrito enviado à reportagem, o advogado diz:


“...É com muita satisfação que nós estamos aqui, nessa noite de hoje, logrando êxito no pleito que a gente plantou aqui ainda no ano de 2025, o qual foi tentado ser achincalhado por um advogado parlapatão que, do alto dessa tribuna, deblaterava como um cachorro bradando, sem nenhum conhecimento técnico, se escondendo na imagem de um irmão delegado.Mas o povo de Arcoverde fez a repercussão necessária, não teve medo do distintivo do delegado, nem da carteira sem nível de seu irmão.”

O conteúdo da fala foi lido, na prática, como a passagem em que a discussão jurídica transbordou para o terreno pessoal e político. Foi a partir daí que o bate-boca escalou, a sessão saiu do eixo e a noite terminou com versões conflitantes sobre o que ocorreu na saída do plenário.



Na conversa com Zalxijoane Lins, Eldy tentou reorganizar sua versão dos fatos e afirmou que não havia chamado Célia Galindo de pessoa sem confiança. Segundo ele, a crítica foi dirigida ao comportamento político da vereadora.


“Eu não disse que Célia era uma pessoa sem confiança. Eu disse que Célia agia por conveniência política e não que ela não era uma pessoa de confiança.”

Ao relatar o momento de maior tensão, o advogado responsabilizou Israel Rubis pela escalada física do confronto.


“Ele foi um homem totalmente desequilibrado, agressivo, armado dentro da Câmara de Vereadores, tentando partir pra me agredir fisicamente.”

No mesmo trecho da entrevista, Eldy negou que tenha provocado o delegado.


“De forma alguma eu provoquei o delegado, até porque eu não sou de provocar ninguém.”

Ao falar sobre os próximos passos, ele disse que pretende judicializar o caso e acionar instâncias de controle.


“eu vou tomar as providências legais, vou representá lo na Corregedoria de Polícia, vou entrar com um processo por reparação cível, processo criminal.”

E, ao tratar do foco principal da disputa, reafirmou a defesa de continuidade do processo contra o ex-vereador.


“O processo segue a marcha normal até o seu final, culminando com a votação dos vereadores pela cassação, por meio da inelegibilidade dos direitos políticos do ex-vereador Laudelino.”

A sessão de segunda-feira terminou em confusão e foi encerrada sem normalidade depois do agravamento do bate-boca em torno da fala de Eldy na Tribuna Popular. Também está documentado que o advogado atuou em nome do empresário Micael Lopes de Gois no mandado de segurança que questionou a paralisação do processo político-administrativo envolvendo Claudelino Costa.


Homem de terno preto e gravata roxa em pé, mãos cruzadas. Fundo bege. Expressão séria. Ambiente interno.
Eldy Magalhães | Fonte: Assessoria de Eldy Magalhães

A decisão da 2ª Vara Cível da Comarca de Arcoverde, assinada em 17 de abril, reconheceu a ilegalidade da suspensão do processo pela Câmara e determinou o imediato prosseguimento do rito previsto no Decreto-Lei nº 201/1967. O Judiciário, porém, negou o pedido de afastamento cautelar do então vereador do mandato e da vice-presidência da Casa. Na prática, a sessão de 20 de abril ocorreu sob pressão institucional, com o Legislativo tendo de decidir como reagiria à ordem judicial e ao parecer que defendia o arquivamento por perda do objeto após a renúncia.


A entrevista de Eldy não foi apenas uma resposta emocional ao tumulto. Ela também funcionou como uma tentativa de sustentar, para a opinião pública, a tese que ele vinha defendendo desde 2025. Segundo essa linha, a renúncia de Claudelino Costa não encerraria automaticamente o processo político-administrativo, sobretudo porque a discussão envolveria também consequências políticas futuras.


Foi nesse ponto que a sessão se tornou explosiva. De um lado, havia o parecer atribuído a Célia Galindo, favorável ao arquivamento sob o argumento de perda do objeto. De outro, a posição do advogado e do grupo que defende Micael Lopes, para quem a Câmara ainda precisava oferecer uma resposta institucional de mérito. A decisão judicial que mandou retomar o processo deu novo fôlego a essa tese e empurrou a crise para dentro do plenário.


Em sua fala nesta manhã Eldy apresenta uma narrativa clara de vítima de agressão e de reação desproporcional por parte de Israel Rubis. Essa, porém, não é a única versão em circulação. Na cobertura local, Israel sustenta que foi ofendido, que teve a imagem atacada e que houve dedo no rosto durante a confusão. O contraste entre os relatos mostra que o episódio permanece cercado por disputa de narrativas.


O que a reportagem consegue afirmar com segurança, neste momento, é que houve tumulto, que a sessão terminou sob forte desordem e que a tensão não se limitou à divergência técnica sobre o caso Claudelino. O debate passou a misturar processo legislativo, ressentimentos políticos, ataques pessoais e uma crise de autoridade dentro da Câmara.


Ao anunciar representação na Corregedoria e ações nas esferas cível e criminal, Eldy transforma a entrevista em uma etapa nova do conflito. O caso deixa de ser apenas um episódio de plenário e passa a ter desdobramento institucional fora da Câmara. Ao mesmo tempo, a Casa segue pressionada a dar destino ao processo político-administrativo que esteve na origem da crise.


Se a Câmara optar por encerrar a controvérsia com novo arquivamento, a tendência é que o embate volte ao Judiciário. Se decidir avançar, o caso seguirá como mais um capítulo de uma disputa que já ultrapassou o rito formal e se converteu em crise política aberta em Arcoverde.


O que a entrevista de Eldy expõe, no fim, é um Legislativo atravessado por animosidades acumuladas, por interpretações opostas sobre os limites da renúncia e por um ambiente em que a política local deixou de caber apenas no campo da argumentação jurídica.


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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo de O estopim. Atua na cobertura de política, bastidores do poder local e temas de interesse público, com foco em contexto, método e responsabilidade editorial.

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