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GPUs, memória, redes, nuvem e energia sustentam cada resposta de IA e concentram poder em poucas empresas e países.


Por Atlas Siqueira para O estopim Tech | 10 de julho de 2026



DataBank - Georgia Tech Data Center, Atlanta. Photo by Halkin Mason.
Servidores em data center que fornecem processamento para modelos de inteligência artificial | Foto: DataBank - Georgia Tech Data Center, Atlanta. Photo by Halkin Mason.

A infraestrutura de inteligência artificial fica escondida atrás de uma interface simples. O usuário escreve uma pergunta, espera alguns segundos e recebe uma resposta. Antes disso, porém, o pedido percorre servidores, chips especializados, memória, redes, bancos de dados e sistemas de segurança.


Modelos menores podem funcionar em celulares e computadores. Os grandes serviços de IA generativa, no entanto, dependem principalmente de data centers capazes de operar milhares de processadores em conjunto.


A primeira etapa é o treinamento. Nela, o modelo processa grandes conjuntos de dados e ajusta seus parâmetros para aprender relações entre palavras, imagens, sons ou outras informações.


Esse trabalho é dividido entre GPUs, TPUs e outros aceleradores. As TPUs, por exemplo, são circuitos desenvolvidos pelo Google especificamente para cargas como treinamento, inferência e aprendizado por reforço.


Depois vem a inferência. É o momento em que o modelo já treinado recebe uma solicitação e calcula a resposta. Uma consulta individual costuma exigir menos processamento que o treinamento, mas milhões de usuários transformam a inferência em uma operação contínua.


Os processadores precisam acessar dados com rapidez. Por isso, servidores de IA usam memória de alta largura de banda, conhecida como HBM, instalada perto dos aceleradores.


Também é necessário conectar vários chips. Tecnologias como NVLink e redes de alta velocidade permitem que as GPUs troquem informações e funcionem como um sistema maior. Quando a comunicação é lenta, os processadores ficam esperando dados e parte do desempenho é desperdiçada.


A infraestrutura ainda inclui armazenamento, processadores convencionais, fontes de energia, sistemas de refrigeração e programas que distribuem o trabalho entre as máquinas.


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Quando uma pessoa envia uma pergunta, o aplicativo geralmente encaminha o pedido para uma API. O backend identifica o usuário, aplica limites de uso, verifica regras de segurança e direciona a solicitação para um servidor disponível.


O modelo transforma o texto em unidades chamadas tokens, realiza os cálculos e gera a resposta gradualmente. Outros sistemas podem consultar documentos, executar buscas, guardar o histórico ou filtrar conteúdo antes que o resultado volte à tela.


Isso significa que a qualidade de um serviço não depende apenas do modelo. Latência, estabilidade, privacidade e preço também são definidos pela infraestrutura ao redor dele.


O crescimento da IA fortaleceu empresas que controlam chips, nuvem e redes. No trimestre encerrado em abril de 2026, a NVIDIA registrou US$ 75,2 bilhões em receita de data centers, avanço anual de 92%. O resultado ajuda a dimensionar quanto dinheiro está sendo transferido para a camada física da IA.


Google, Amazon e Microsoft também desenvolvem processadores próprios e oferecem capacidade computacional em suas nuvens. Essa verticalização reduz custos internos, mas aumenta a dependência de poucas plataformas para startups, universidades e empresas menores.


Data centers precisam de fornecimento elétrico contínuo e refrigeração para retirar o calor produzido pelos servidores.


Segundo a Agência Internacional de Energia, o consumo de eletricidade dos data centers cresceu 17% em 2025. A entidade estima que esse consumo poderá dobrar até 2030, mesmo com a melhora da eficiência dos equipamentos.


O risco é que ganhos de eficiência sejam superados pela expansão do uso. Modelos mais econômicos podem reduzir o custo de cada resposta, mas também estimular a criação de mais serviços, agentes e aplicações automatizadas.


O Brasil tem uma matriz elétrica com participação elevada de fontes renováveis, o que pode favorecer data centers de menor emissão. Há, porém, gargalos de conectividade de longa distância, mão de obra especializada e dependência de equipamentos importados, segundo análise do BNDES.


Construir soberania em IA não significa apenas instalar servidores. O país precisa formar profissionais, ampliar centros de pesquisa, proteger dados estratégicos e desenvolver capacidade para operar, auditar e adaptar modelos e infraestrutura.


Sem isso, empresas e órgãos públicos continuarão dependendo de chips, nuvens e decisões tomadas fora do país.


A infraestrutura define quanto um serviço custa, quanto demora para responder e onde os dados são processados.


Ela também determina o impacto de uma falha. Quando um provedor de nuvem, uma rede ou um fornecedor de chips enfrenta problemas, diversos aplicativos aparentemente independentes podem parar ao mesmo tempo.


A IA parece software. Por trás da tela, ela é também indústria, energia, logística e poder econômico.


O que acontece agora


Fabricantes e empresas de nuvem estão criando chips diferentes para treinamento e inferência. Em 2026, o Google anunciou sua oitava geração de TPUs, enquanto a NVIDIA ampliou sua aposta em sistemas conectados e refrigerados a líquido.


A disputa deixa de ser apenas por modelos maiores. O novo objetivo é produzir mais respostas, com menor custo energético e usando menos capacidade de memória.


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Atlas Siqueira escreve sobre tecnologia, política, infraestrutura digital e economia da inovação. Em O estopim Tech, analisa como decisões técnicas afetam direitos, trabalho e soberania.

O país tem pesquisa, energia e mercado, mas ainda depende de chips, nuvens e modelos estrangeiros para desenvolver e operar inteligência artificial.


Por Atlas Siqueira para O estopim Tech | 10 de julho de 2026



Data center representa a infraestrutura usada por sistemas de inteligência artificial no Brasil
Data center representa a infraestrutura usada por sistemas de inteligência artificial no Brasil | Foto: Scala DC

A inteligência artificial já aparece em bancos, hospitais, escolas, indústrias e órgãos públicos brasileiros. Boa parte dessa tecnologia, porém, funciona sobre chips importados, serviços de nuvem estrangeiros e modelos desenvolvidos fora do país.


Essa dependência afeta preços, privacidade e continuidade dos serviços. Uma mudança comercial, uma restrição internacional ou o aumento do custo da computação pode limitar projetos brasileiros.


Treinar e operar modelos exige chips avançados, data centers, redes, energia e profissionais especializados.


O Brasil tem uma matriz elétrica favorável à computação de menor emissão, mas enfrenta dependência de equipamentos importados, gargalos de conectividade de longa distância e falta de mão de obra qualificada, segundo estudo do BNDES.


Hospedar servidores no país ajuda a reduzir latência e pode manter dados mais próximos dos usuários. Isso, sozinho, não garante soberania. A tecnologia pode continuar controlada por fornecedores externos.


Leia também:


Soberania tecnológica não exige que o Brasil fabrique cada chip ou desenvolva todos os modelos.


Ela significa conseguir escolher fornecedores, proteger dados estratégicos, auditar sistemas e evitar uma dependência unilateral.


Um estudo do Ipea identifica quatro bases para uma política soberana de IA: infraestrutura computacional, dados, profissionais qualificados e pesquisa e desenvolvimento. O trabalho também alerta que o acesso a chips avançados não deve ser tratado como algo sempre disponível no mercado.


O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial prevê investimentos de até R$ 23 bilhões em infraestrutura, capacitação, serviços públicos, inovação empresarial e governança.


Em junho de 2026, o MCTI anunciou R$ 129 milhões para formar quase seis mil profissionais em inteligência artificial. A iniciativa enfrenta um problema real, mas formação precisa vir acompanhada de laboratórios, carreiras e condições para reter talentos.


O que acontece agora


O Brasil pode usar IA para saúde, agricultura, educação, clima e serviços públicos. Mas existe diferença entre aplicar uma ferramenta estrangeira e controlar a tecnologia necessária para mantê-la.


Uma estratégia nacional precisa combinar computação para universidades, dados protegidos, software aberto, compras públicas e apoio a empresas brasileiras.


Sem isso, o país poderá ampliar o uso da IA enquanto continua pagando pelo acesso e submetido às regras de plataformas externas.


O desafio será transformar anúncios em capacidade permanente.


Mais importante que o valor prometido será medir quantos pesquisadores conseguiram acesso à computação, quantas tecnologias foram desenvolvidas no país e quanto do investimento gerou conhecimento nacional.


A soberania possível não é isolamento. É ter poder para escolher, negociar e não depender de um único fornecedor.


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