Por Raul Silva para O estopim | 13 de abril de 2026

O Tribunal Regional Eleitoral de Pernambuco suspendeu, em decisão liminar desta segunda-feira, 13, a divulgação da pesquisa do Instituto Veritá sobre a disputa pelo Governo do Estado que havia apontado empate técnico entre a governadora Raquel Lyra, do PSD, e o ex-prefeito do Recife João Campos, do PSB. A medida atendeu a pedido do diretório estadual do MDB, partido aliado de Campos, e determinou a retirada do conteúdo já publicado sob responsabilidade do instituto, com multa diária de R$ 10 mil em caso de descumprimento. O relator, desembargador Fernando Braga Damasceno, apontou indícios de falhas metodológicas, inconsistências estatísticas e deficiência de transparência no registro do levantamento.
A decisão não entra, neste momento, no mérito eleitoral da disputa entre os nomes mais competitivos do Estado. O foco da liminar é a regularidade técnica do levantamento registrado sob os números PE-02184/2026 e BR-04215/2026.
Pelas informações reproduzidas da decisão e pelos dados públicos da própria pesquisa, o relator identificou três eixos de problema.
O primeiro foi o plano amostral. A Justiça Eleitoral entendeu que a descrição apresentada não permitia verificar com segurança como a amostra foi distribuída e controlada no território pernambucano, o que é central em um estado de forte desigualdade regional e peso político distinto entre Região Metropolitana, Zona da Mata, Agreste e Sertão.
O segundo ponto foi a consistência estatística. O magistrado registrou haver indícios de inconsistência grave, expressão incomum e juridicamente relevante em decisões sobre pesquisas. Quando um tribunal usa esse vocabulário, o que está em discussão deixa de ser apenas uma divergência entre adversários e passa a atingir a confiabilidade do produto divulgado ao eleitor.
O terceiro eixo foi a metodologia de coleta. O relatório do Veritá informa que as entrevistas foram conduzidas por unidade automatizada de respostas, com reconhecimento de voz e transcrição de áudio para texto. Para o relator, a forma como essa metodologia foi descrita não assegurava fiscalização suficiente pelas partes interessadas e tampouco permitia aferir, de modo adequado, a fidedignidade das respostas.
A íntegra do levantamento mostra que a pesquisa ouviu 2.010 eleitores entre 24 e 30 de março, com margem de erro de 2,5 pontos percentuais e nível de confiança de 95%. O relatório também informa custo de R$ 154.770 e registra a pesquisa como iniciativa do próprio instituto, sem contratante externo declarado.
No cenário estimulado para governador, Raquel Lyra e João Campos aparecem com 35,4% cada nas intenções de voto brutas, o que gera empate técnico e, no material de divulgação, produz o principal efeito político do levantamento: a narrativa de equilíbrio numa disputa que, em outros estudos recentes, vinha mostrando vantagem para João Campos.
O mesmo relatório traz um dado politicamente sensível para o Palácio do Campo das Princesas: aprovação de 61,3% para a gestão Raquel Lyra. Na prática, a combinação entre aprovação majoritária da governadora e empate eleitoral com o principal adversário oferecia um insumo valioso para a comunicação política do grupo governista.
A liminar suspende a divulgação da pesquisa, mas não produz sentença definitiva sobre fraude, manipulação deliberada ou eventual responsabilidade de agentes políticos externos ao instituto. Esse ponto é decisivo para separar fato comprovado de suspeita política.
O que está documentado, até aqui, é o seguinte: houve uma representação do MDB, houve acolhimento parcial do pedido em tutela de urgência e houve determinação judicial para retirada do conteúdo por risco de dano ao processo eleitoral. O mérito ainda será julgado.
Essa distinção importa porque, em Pernambuco, pesquisas passaram a funcionar não só como medição de humor do eleitorado, mas como instrumento de guerra simbólica entre blocos que já se movimentam para 2026. Quando um levantamento sugere empate, ele muda cálculo de alianças, discurso de viabilidade, arrecadação, comportamento de prefeitos e até a disposição de partidos médios em negociar.

Até o momento, não há documento público localizado que comprove contratação da pesquisa suspensa pelo governo Raquel Lyra, pelo PSD de Pernambuco ou pela estrutura política da governadora.
Ao contrário, o relatório público do próprio levantamento registra de forma expressa que o contratante foi o próprio Instituto Veritá, ou seja, iniciativa própria. Esse é hoje o dado documental mais objetivo disponível sobre a origem formal da pesquisa.
Também não localizei, nesta apuração, decisão judicial, registro eleitoral, documento de contratação pública ou prova material que autorize afirmar que Raquel Lyra encomendou o estudo suspenso.
Isso não elimina o interesse político que o resultado produziu para o grupo governista, nem impede questionamentos sobre circulação seletiva do conteúdo ou aproveitamento político do levantamento. Mas interesse político e autoria da encomenda são coisas diferentes. No jornalismo e no processo judicial, essa diferença precisa ser preservada.
Há, sim, elementos de contexto que ajudam a entender por que a pesquisa virou alvo imediato de contestação.
O Instituto Veritá divulgou, no mesmo pacote de dados, números favoráveis ao ambiente político da governadora, como a aprovação de 61,3% da gestão estadual. Em Pernambuco, aliados e adversários passaram a ler o material não apenas como fotografia estatística, mas como peça de reposicionamento narrativo da pré-campanha.
Há ainda circulação, em ambientes políticos e em publicações partidárias ou alinhadas a grupos de oposição e de governo, de acusações sobre supostas relações entre institutos e contratos públicos. Nesta apuração, porém, essas acusações não vieram acompanhadas, no caso específico da pesquisa suspensa do Veritá, de prova documental suficiente para sustentar a afirmação de que houve encomenda por Raquel Lyra.
Em linguagem direta: há vantagem política potencial para a governadora no conteúdo divulgado, mas não há, até aqui, prova pública de que ela ou seu grupo tenham contratado essa pesquisa.
O relatório do Veritá informa coleta automatizada com reconhecimento de voz, além de filtros de consistência e auditoria de 20% das entrevistas por telefone ou visita domiciliar. Em tese, métodos automatizados não são proibidos. O problema começa quando a descrição técnica não basta para permitir auditabilidade externa, rastreabilidade do procedimento e aferição independente da qualidade do dado.
Esse é um ponto sensível porque a Justiça Eleitoral exige mais do que apresentação de números finais. Exige transparência suficiente para que partidos, adversários, Ministério Público e a própria sociedade possam compreender como aqueles números foram produzidos.
Num cenário eleitoral antecipado, pesquisa sem transparência robusta deixa de ser apenas estatística e passa a ser artefato de influência. Foi justamente esse risco que o relator disse querer conter ao conceder a liminar.
A suspensão do levantamento não redefine, por si só, o quadro eleitoral. Mas devolve peso aos outros estudos recentes que não mostravam o mesmo nível de equilíbrio entre Raquel Lyra e João Campos.
Também fortalece uma leitura que já circulava nos bastidores: a de que a batalha por Pernambuco começou antes da campanha formal e será travada, em boa medida, na arena da credibilidade. Quem conseguir apresentar números mais confiáveis, narrativa mais consistente e alianças mais amplas sairá na frente.
Para João Campos e seu campo de apoio, a decisão serve como reação institucional a um levantamento que reduzia sua vantagem simbólica. Para Raquel Lyra, o efeito é mais delicado: um material que lhe era politicamente favorável passa a carregar a marca da suspensão judicial, o que pode converter bônus narrativo em desgaste.
Ainda falta conhecer o inteiro teor oficial da decisão com acesso público mais amplo ao processo, a manifestação formal do Instituto Veritá nos autos e eventual defesa técnica detalhada sobre os pontos levantados pelo TRE-PE.
Também será necessário acompanhar se o tribunal manterá a liminar no julgamento do mérito ou se o instituto conseguirá demonstrar regularidade suficiente para reverter a suspensão.
No momento, o que se pode afirmar com segurança é que a Justiça Eleitoral de Pernambuco viu risco real na circulação daquele levantamento e decidiu interromper seus efeitos imediatos.
Em ano pré-eleitoral, isso não é detalhe técnico. É um aviso político e jurídico de que, em Pernambuco, a guerra das pesquisas já começou.
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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo de O estopim, com atuação voltada para política, poder regional e investigação de temas de interesse público.
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