A Samsung não quer mais vender um celular. Ela quer vender um gerente para a sua vida — e cobrar uma assinatura por isso.
Por Atlas Siqueira para O estopim Tech | 14 de Janeiro de 2026
Galaxy S26 Ultra segundo vazamentos nas redes | Foto: Reprodução/Redes Sociais
Esqueça o dia 25 de fevereiro. Essa é a data que a Samsung vai subir no palco em São Francisco para repetir o que os vazamentos massivos de hoje (14) já confirmaram. O Galaxy S26 Ultra não é um segredo; é um ultimato. Ao analisar as especificações finais vazadas e a estratégia da sul-coreana, fica claro que o S26 não é uma evolução do S25; é uma mudança de regime. O hardware, antes o protagonista, virou apenas o palco para o verdadeiro show: uma Inteligência Artificial que promete fazer tudo por você, quer você queira ou não.
O GALAXY S26 ULTRAO HARDWARE: a morte do brilho, a vida na eficiência
Para os viciados em ficha técnica, o S26 Ultra traz o esperado Snapdragon 8 Elite Gen 5 (versão "For Galaxy"). Fabricado em litografia de 2nm, ele promete ser o chip mais frio já colocado em um Android. Mas a verdadeira notícia técnica não é a velocidade, é a tela.
A Samsung finalmente parou de brigar com o sol. O novo painel M14 OLED não foca em atingir 5.000 nits de brilho (um número inútil que só serve para drenar bateria em 5 minutos), mas sim na eficiência energética. A promessa é de 20% a 30% menos consumo. Por que isso importa? Porque a bateria continua estacionada nos 5.000-5.400mAh. Sem essa tela nova, o processamento de IA local drenaria o aparelho antes do almoço.
Nas câmeras, a "mentira" ficou mais bonita. O sensor de 200MP retorna, mas agora acoplado a um pós-processamento que recria texturas que a lente ótica sequer capturou. Estamos nos aproximando perigosamente do ponto onde a foto não é um registro da realidade, mas uma interpretação artística da IA sobre o que ela acha que você viu.
O MERCADO: a Inflação da memória e o "imposto IA"
Quem perde com o S26 Ultra? O seu bolso, e não estou falando só do preço do aparelho. O mercado de semicondutores em 2026 vive uma crise de preços de memória RAM e NAND. Para rodar a tal "Galaxy AI" localmente, o S26 Ultra precisa de, no mínimo, 16GB de RAM rápida (LPDDR5X). Isso encarece o custo de produção (BOM) violentamente.
A estratégia da Samsung é clara: subsídio cruzado. O preço do hardware vai subir (esperem algo acima dos R$ 10.000 no Brasil no lançamento), mas o verdadeiro lucro virá do ecossistema. Com o Google e a Apple fechando o cerco, a Samsung precisa que você use os serviços dela. O S26 é a isca para prender você no "Jardim Murado" da One UI 8.5, onde recursos premium de IA poderão virar assinatura após o primeiro ano gratuito.
A concorrência (leia-se: chinesas como Xiaomi e Oppo) ganha espaço no segmento de hardware puro, entregando as mesmas especificações pela metade do preço. Mas a Samsung aposta que o consumidor ocidental prefere a "segurança" da marca Galaxy do que arriscar a importação de um Xiaomi 17 com software duvidoso.
IMPACTO SOCIAL E FUTURO: a conveniência custa a sua agência
Aqui reside o perigo real do S26 Ultra. A promessa da "IA Agêntica" (Agentic AI) — onde o celular agenda reuniões, responde e-mails e compra passagens sozinho — é sedutora. Quem não quer um assistente pessoal?
Mas o custo invisível é a atrofia da decisão. Quando o algoritmo decide qual é a "melhor" resposta para o seu e-mail, ele está moldando suas relações pessoais. Quando ele filtra quais notícias são relevantes para o seu resumo matinal, ele está desenhando sua visão de mundo.
O S26 Ultra marca a transição do smartphone como uma "bicicleta para a mente" (como dizia Jobs) para uma "cadeira de rodas para a mente". Estamos pagando caro para terceirizar nossa cognição. Se a tendência se confirmar, o futuro não será sobre quem tem o processador mais rápido, mas sobre quem tem o algoritmo que melhor simula a humanidade do seu dono.
Veredito Preliminar: O Galaxy S26 Ultra será, sem dúvida, a máquina mais poderosa de 2026. Mas ao comprá-lo, pergunte-se: você está comprando uma ferramenta ou contratando um chefe?
A privatização da memória: como a corrida por IA transformou componentes em commodities escassas e encarecidas
Enquanto data centers de IA desviam capacidade de produção de memória, fabricantes lucram bilhões e consumidor brasileiro médio enfrenta aumento de até 30% no preço de smartphones. A inovação beneficia corporações; o custo, as pessoas comuns.
As caríssimas memórias RAM | Foto: Reprodução
Em dezembro de 2025, a Micron Technology, terceira maior fabricante mundial de memória RAM e armazenamento, fez um anúncio que ecoou pela indústria: descontinuaria sua linha de produtos Crucial, voltada a consumidores domésticos, após 29 anos de operação.
A empresa não citaria problemas econômicos ou falhas de mercado. A justificativa era simples e brutal: a demanda por memória de alta largura de banda (HBM) para data centers de IA era tão lucrativa que não fazia sentido continuar vendendo componentes a consumidores individuais.
"O crescimento impulsionado pela IA nos data centers levou a um surto na demanda por memória," explicou Sumit Sadana, executivo da Micron. "Nós tomamos a decisão de sair do mercado de consumidores para melhorar o suprimento a nossos clientes estratégicos maiores em segmentos que crescem mais rapidamente."
Em outras palavras: lucrar com a IA é mais importante que fornecer memória ao consumidor comum.
O resultado? Smartphones e computadores pessoais enfrentam escassez histórica de componentes. Preços explodem. Consumidor brasileiro, já atingido por inflação e tributação agressiva, vê seu poder de compra de tecnologia despencar. E quem lucra? Investidores em data centers, fornecedores de chips de IA, fundos de capital privado e fabricantes que veem suas ações dispararem em valor enquanto planeta enfrenta crise de componentes.
Esta é a história de como a "inovação" em inteligência artificial transformou-se em transferência silenciosa de riqueza dos muitos para os poucos.
O êxodo da memória: quando lucro determina oferta
Como decisões corporativas criam escassez artificial? Até 2024, a indústria de memória funcionava em premissa simples: oferta e demanda. Havia demanda por chips de memória para consumidores (smartphones, PCs, laptops), então fabricantes mantinham linhas de produção diversificadas.
Tudo mudou aceleradamente entre 2024 e 2025. A explosão de investimentos em data centers de IA, impulsionada por Google, Amazon, Meta, Microsoft e startups como OpenAI, criou demanda sem precedentes por memória de altíssima performance. E, crucialmente, essa demanda oferecia margens de lucro radicalmente superiores.
A Samsung é exemplo clássico. Em outubro de 2024, o vice-presidente executivo de memória da Samsung, Jaejune Kim, afirmou que a empresa "observou uma forte demanda por dispositivos de memória para IA e data centers" no terceiro trimestre. Mas havia consequência: essa demanda levaria a "escassez que se intensificará ainda mais" para dispositivos móveis e PCs.
Tradução corporativa: Samsung está desviando capacidade de produção de smartphones para data centers de IA porque ganha mais dinheiro.
A Micron simplesmente formalizou o que outras estavam fazendo tranquilamente. Fechou divisão de consumo. Redirecionou 100% da capacidade para data centers.
SK Hynix fez o mesmo, embora menos dramaticamente. Western Digital reduziu produção de armazenamento consumer.
O resultado acumulativo: produção de memória para consumidor despencou em oferta enquanto demanda permanecia estável (ou crescente).
Um especialista resumiu: "A situação é bastante drástica e generalizada." Segundo pesquisa da Counterpoint Research, o mercado de smartphones enfrentará queda de 2,1% em 2026, revertendo previsões de crescimento.
Crise das Memórias RAM | Foto: Reprodução
Os números da escassez: quanto mais raro, mais caro
Inflação de componentes em escala histórica. Quando oferta se contrai enquanto demanda permanece elevada, preço sobe. Simples economia. Mas os números são vertiginosos.
Memória RAM DDR4: Um módulo de 16 GB da linha Corsair Vengeance RGB Pro custava R$ 650 em 10 de novembro de 2025. No dia 2 de dezembro, mesmo produto: R$ 1.599. Alta de 146% em três semanas.
Chips de memória DRAM: De acordo com o DigiTimes, negociações de fornecimento de DRAM tiveram reajustes entre 80% e 100% apenas em dezembro de 2024, enquanto chips DDR5 experimentaram picos de preço quatro vezes maiores do que no início do ano.
Memória NAND para empresas: Subiu até 60% em novembro de 2025, segundo relatório setorial.
Samsung e SK Hynix: Anunciaram aumentos de até 60% nos preços de seus chips de memória, com mais reajustes previstos.
Qualcomm Snapdragon: Aumentou 20% no preço do processador que equipará celulares topo de linha Android em 2026.
O impacto para smartphones é direto. Apenas os 12 GB de memória de um Samsung Galaxy topo de linha passaram a custar quase US$ 40 a mais que no ano anterior.
Mais preocupante ainda: a Counterpoint projeta que o preço da memória suba mais 40% até meados de 2026, pressionando ainda mais custos finais.
O brasileiro médio e o efeito cascata
Quando decisões corporativas americanas atingem a carteira de quem ganha salário mínimo. Os números são suficientes para assustadores. Mas para o consumidor brasileiro, a realidade é ainda mais dura.
A Counterpoint Research estima que preços de smartphones subirão até 30% no quarto trimestre de 2025, com possível alta adicional de 20% no início de 2026. Alguns modelos poderiam alcançar aumentos acumulados de até 50% se pressão continuar.
No Brasil especificamente, a Samsung estima reajustes entre 10% e 20% nos preços de smartphones das linhas básicas e intermediárias, enquanto smartphones intermediários devem ter altas de 10% a 15%.
Para contexto: um smartphone de entrada que custava R$ 800 em 2025 passará a custar entre R$ 880 e R$ 960 em 2026. Para quem ganha salário mínimo (R$ 1.518 em janeiro de 2026), comprar novo aparelho consome entre 58% a 63% da renda mensal, praticamente impossível sem crédito predatório.
E há problema adicional: impostos. De acordo com o Instituto Brasileiro de Planejamento Tributação (IBPT), 37,5% do valor final de um smartphone premium são impostos, ou até 68,8% se incluir carga indireta. A Samsung desistiu de reduzir preços há tempo porque, em suas palavras, "as margens de lucro são muito apertadas" dada a carga tributária.
Então consumidor não ganha em dobro: sofre tanto com aumento de componentes quanto com sistema tributário regressivo que captura maior porcentagem de sua renda que de milionários.
Um gerente de loja de eletrônicos em Belém previu:
"O efeito mais perceptível nos valores deve aparecer já no primeiro trimestre de 2026 e de forma mais expressiva a partir de abril."
Os investidores bilionários: quem ganha bilhões com a escassez
Capital privado, hyperscalers e fundos de infraestrutura transformam crise em ouro. Enquanto consumidor sofre, quem lucra? Investigação de padrões de investimento revela um ecossistema específico.
Data centers recebem US$ 61 bilhões em investimentos em 2025, ultrapassando recorde anterior de 2024. Desde 2019, apenas EUA e Canadá acumulam US$ 160 bilhões em transações envolvendo empresas de data centers. Ásia-Pacífico atingiu quase US$ 40 bilhões, Europa US$ 24,2 bilhões.
Mas quem investe? Segundo analista da S&P Global:
"O grande interesse vem dos patrocinadores financeiros. Empresas de capital privado são compradores ávidos."
No Brasil, entrou em cena um carrossel de investidores:
Goldman Sachs—gigante americana que apostou bilhões em data centers de IA.
BTG Pactual—maior banco de investimentos brasileiro, posicionando-se na corrida por IA.
Patria Investimentos—fundo de capital privado que co-investe com ByteDance (proprietária do TikTok) em data center de R$ 200 bilhões em Fortaleza.
General Atlantic—controladora da Actis, investidora de infraestrutura com US$ 108 bilhões sob gestão.
Digital Bridge—gestora de recursos com US$ 96 bilhões de ativos sob gestão.
Sete empresas brasileiras de data center foram anunciadas (Scala, Elea, Omnia, Tecto, Aurea, 247 Data Centers e Terranova), todas com ligação a "grandes investidores, incluindo bilionárias gestoras estrangeiras."
O governo brasileiro, por sua vez, criou incentivo fiscal chamado Redata (Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center), atraindo investidores bilionários com benefícios tributários enquanto classe trabalhadora enfrenta carga de 68,8%.
Enquanto isso, ações de fabricantes de chips explodem em valor:
Micron: Acumula valorização de aproximadamente 175% em 2025.CEO da Micron projeta que condições de escassez persistirão "além de 2026".
SK Hynix: Ações subiram quase quatro vezes em 2025.
Samsung: Ações mais que dobraram de valor em 2025.
A mensagem é clara: escassez = rentabilidade. E rentabilidade atrai capital.
Possível cartel? Um histórico perturbador
Investigações passadas sugerem coordenação, não coincidência. Aqui emerge pergunta crucial: essa redireção de memória para data centers é coincidência de três maiores fabricantes (Samsung 45% do mercado, SK Hynix 28%, Micron 23%), ou coordenação?
Histórico da indústria é preocupante. Em 2018, escritório de advocacia Hagens Berman entrou com ação coletiva contra Samsung, Micron e SK Hynix, acusando-as de cartel de preços entre 2016 e 2017.
De acordo com a ação, as três empresas "combinaram os preços de seus produtos com propósito de aumentar os valores." O aumento de 47% no preço de DRAM em 2017 foi o maior em 30 anos, segundo acusação, possível apenas porque as três juntas dominam 96% do mercado de DRAM.
A mesma investigação apontou que governo chinês investigou o caso por anos, e crime foi "interrompido abruptamente quando governo chinês passou a investigar de perto." Implicação: criminoso suspende atividade quando sob vigilância.
Isso não é especulação. Em 2006, o mesmo escritório conseguiu pagamento de US$ 300 milhões em ação anterior contra cartel de preços de DRAM. Samsung e SK Hynix também foram condenadas a pagar multa conjunta criminal de US$ 731 milhões.
A China reconheceu a tensão. Em 2018, regulador antitruste chinês (Wu Zhenguo) afirmou que investigação sobre Micron, Samsung e SK Hynix fez "progresso significativo," acumulando "grande quantidade de informações."
Agora, em 2025-2026, observamos exatamente o mesmo padrão: três mesmas empresas simultaneamente redirecionam capacidade de produção de consumidor para segmento mais lucrativo (data centers de IA). Cada uma justifica com "demanda crescente de IA."
Um cético poderia argumentar: coincidência. Três empresas independentes fizeram exatamente mesma decisão estratégica, simultaneamente, por mesma razão.
Ou: elas coordenaram, como fizeram em 2016-2017.
Não há prova "fumegante". Mas padrão é perturbador.
Preços nas alturas | Foto: Reprodução
Consequências para consumidor: menos memória, mesmo preço (ou pior)
Fabricantes usam escassez para degradar produtos. A Micron não apenas encerrou divisão de consumidor. Outras fabricantes estão fazendo algo mais sutil e potencialmente mais prejudicial: reduzindo configurações de memória enquanto mantêm (ou aumentam) preço.
De acordo com TrendForce, em 2026 esperamos:
Modelos com 12 GB de RAM: Redução de até 40%, sendo substituídos por versões de 6 ou 8 GB.
Modelos com 16 GB: Devem sofrer rápida redução após breve período como padrão.
Modelos com 4 GB: Devem apresentar crescimento significativo em linhas de entrada.
Paulo Vizaco, diretor da Kingston no Brasil (fabricante de componentes), reconheceu:
"Os consumidores podem passar a ver fabricantes entregando celulares com configurações mais simples, mas cobrando o mesmo valor que era praticado antes."
Em outras palavras: você paga mais, recebe menos. É degradação de produto. Um outro especialista do IFSP complementa:
"No Brasil, o consumidor pode sentir ainda mais no bolso por causa de fatores adicionais, como câmbio, impostos e custos logísticos, o que tende a tornar os reajustes mais agressivos."
A "Inovação" em IA: beneficia corporações, custeia pessoas comuns
Retórica de avanço tecnológico mascara transferência de recursos. A narrativa oficial é: "IA demanda muita memória, por isso é natural redirecionar produção para data centers."
Essa narrativa é tecnicamente verdadeira mas politicamente falsa.
Sim, IA exige infraestrutura volumosa. Mas decisão de qual infraestrutura priorizar é escolha política, não necessidade técnica. Samsung, Micron e SK Hynix poderiam aumentar capacidade de produção para atender tanto data centers quanto consumidor. Eletrônica não é jogo de soma-zero.
O que explica recusa em aumentar produção? Lucro. Memória HBM para data centers de IA oferece margens superiores. Memória para consumidor oferece margens modestas.
Empresas escolhem lucro máximo, não bem-estar social máximo. Essa é a natureza do capitalismo corporativo. Mas resultado é:
IA beneficia gigantes de tecnologia que constroem data centers. Consumidor médio paga o preço.
Um analista resumiu:
"A situação é inédita e afeta toda a cadeia de eletrônicos. Cerca de 90% dos aparelhos dependem de memória RAM."
Pior: Brasil é particularmente vulnerável. O país não produz chips de memória em escala competitiva. Importa 100% da memória que consome. Quando mercado global se contrai, Brasil sofre primeiro e mais intensamente.
Enquanto isso, Google, Amazon, Meta, Microsoft, proprietárias de data centers que criam escassez, continuam crescendo. Seus dados centros de IA são "máquinas de ganhar dinheiro," mesmo que isso encareca tecnologia para população brasileira.
MDIC abre consulta para definir lista de equipamentos de Data Centers elegíveis ao Redata | Foto: Reprodução Gov.br
Governo brasileiro: incentivos invertidos
Redata favorece investidores estrangeiros enquanto consumidor comum sofre. Numa reviravolta irónica, governo brasileiro, em vez de proteger consumidor, criou incentivo fiscal para atrair investidores em data centers de IA.
A Redata (Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center) oferece benefícios tributários para empresas que construem data centers.
Resultado: Bloomberg Sachs, Patria Investimentos, General Atlantic e outras gigantes estrangeiras veem Brasil como mercado atrativo para IA. Investem bilhões. Lucram bilhões. Pagam alíquota reduzida.
Enquanto isso, consumidor brasileiro enfrenta sistema tributário que captura 68,8% do preço de um smartphone em carga indireta.
A desigualdade não é acidental. É resultado de políticas públicas que priorizam investimento estrangeiro sobre bem-estar doméstico.
Governo deveria estabelecer requisitos mínimos para proteção do consumidor (ex: mantém preços acessíveis em mercado doméstico, investe em capacidade de produção local). Em vez disso, oferece isenções e espera "mercado resolver."
Mercado não resolve a favor de quem ganha salário mínimo.
A questão que não será respondida
Quem se beneficia da incapacidade de consumidor comum acessar tecnologia?
Samsung, SK Hynix, Micron:
Lucram com escassez
Ações disparam em valor
CEOs e acionistas ficam mais ricos
Consumidor fica mais pobre
Investidores em data centers:
Goldman Sachs, Patria, General Atlantic, Digital Bridge
Financiam infraestrutura que cria escassez
Depois lucram com demanda por serviços em data centers
Enquanto isso, lucram com aumento de valor de propriedades (data centers como ativos físicos)
Google, Amazon, Meta, Microsoft:
Construem data centers com chips escassos
Treinam IA com acesso ilimitado a memória
Consumidor precisa pagar mais por memória cada vez mais escassa
Assimetria de recursos: gigantes com acesso ilimitado, cidadão comum com acesso restrito
Governo brasileiro:
Oferece isenções fiscais para atrair investidores bilionários
Coleta impostos de consumidor comum
Net result: transferência de riqueza para capital estrangeiro
Resposta à pergunta "quem se beneficia?" é simples: não é você, se você depende de renda de trabalho para comprar tecnologia.
O Silêncio da Inovação
Por que mídia celebra IA enquanto omite impacto em acessibilidade. É revelador que mídia tech celebra avanços em IA (GPU mais rápida, modelo maior, capacidade superior) com fervor quase religioso. Enquanto isso, custo de acesso a tecnologia básica sobe exponencialmente.
Ninguém diz: "IA avançou 40%, smartphone ficou 40% mais caro para trabalhador brasileiro."
A narrativa é selecionada. Inovação é celebrada em abstrato, sem mencionar distribuição desigual de benefício.
Um pesquisador poderia argumentar: "Bem, IA eventual mente beneficiará todos quando custos caírem."
Mas não há indicação que custos cairão. Micron diz escassez persistirá "além de 2026." Samsung alerta que restrições podem durar anos.
Enquanto isso, Samsung está retirando 12 GB de RAM de smartphones médios e substituindo por 8 GB, mantendo preço ou aumentando.
Não é caminho para queda de preço. É caminho para permanente inacessibilidade.
A Privatização da Memória
A memória se tornou recurso privatizado. Não no sentido literal (não há proprietário único), mas no sentido econômico: decisões sobre alocação são determinadas por lucro corporativo, não por bem-estar coletivo.
Micron fechou sua divisão de consumidor. Não porque não conseguisse produzir memória para consumidores. Porque lucrava significativamente menos com consumidores que com data centers de IA.
Samsung, SK Hynix fizeram decisão similar.
Investidores em data centers lucram bilhões.
CEO de Micron afirmou esperar escassez persistente "além de 2026."
Consumidor brasileiro enfrenta preços 20-30% mais altos, produtos com menos capacidade, sistema tributário que captura 68% de seu orçamento.
A pergunta final: "A inovação em IA beneficia corporações ou pessoas comuns?"
A máquina de fake news do século XXI: Deepfakes crescem 830% no Brasil e ameaçam integridade Eleitoral em 2026
Geração de vídeos realistas por IA a custo zero, combinada com plataformas generativas, criou ferramentas perfeitas para fabricação de narrativas políticas falsas. Enquanto regulação avança, capacidade de detecção falha e beneficiários da desinformação lucram com impunidade.
Da Redação d`O estopim Tech | 10 de janeiro de 2026
Arte: Bruno Fonseca e Larissa Fernandes/Agência Pública
Em setembro de 2024, no bairro Monte Sinai em Manaus, moradores receberam em redes sociais uma publicação impactante: um trecho de telejornalismo do Jornal Nacional onde o apresentador William Bonner recomendava voto em um candidato local a vereador. O problema: o vídeo era totalmente falso, gerado por inteligência artificial.
Casos como esse multiplicam-se pelo Brasil. Entre 2024 e janeiro de 2026, deepfakes—conteúdos gerados ou manipulados por IA para substituir rostos, vozes e corpos em vídeos—cresceram 830% em um ano. Enquanto isso, ferramentas cada vez mais sofisticadas de geração de conteúdo sintético (como Sora do OpenAI e Veo 3 do Google) democratizaram a produção de desinformação: qualquer pessoa com um computador pode, em minutos, criar narrativas falsas hiperrealistas praticamente indistinguíveis da verdade.
A tecnologia que prometia eficiência tornou-se a arma mais refinada da desordem democrática. E enquanto o Estado responde com legislação, quem se beneficia da incapacidade de distinguir verdade de ficção gerada por máquina continua operando com impunidade.
830%: o crescimento vertiginoso da fraude digital
Em 2023, a Sumsub (empresa de verificação de identidade) publicou seu Identity Fraud Report, analisando 2 milhões de tentativas de fraude em 224 países. O Brasil apresentou um fenômeno singular: enquanto a América do Norte registrava aumento de 1.740% em deepfakes e a América Latina média de 410%, o Brasil disparava isoladamente com 830% de crescimento.
Contextualizando: enquanto a Espanha enfrentava o maior volume absoluto de deepfakes do mundo (um em cada dez ataques globais ocorre lá), o Brasil superava todos os demais países latino-americanos juntos em incidentes dessa natureza.
Mais recente ainda: entre 2023 e 2024, deepfakes envolvendo abuso infantil explodiram de 4,7 mil para 67 mil casos—um aumento de 1.325%. Crianças reais tiveram seus rostos inseridos em conteúdo sexual gerado por IA. Em escolas brasileiras, pelo menos 16 casos de deepfakes sexuais foram identificados em 10 estados entre 2024 e 2025.
Mas os números mais perturbadores não estão apenas em estatísticas globais. Estão em operações do crime organizado. Um grupo com 46 mil membros no Brasil foi mapeado em 2024 comercializando deepfakes de celebridades brasileiras por valores entre R$ 19,90 e R$ 25—industrializando a criação de desinformação.
Google Veo 3, a IA de vídeos da Google | Foto: Divulgação Google
De ferramentas de entretenimento a armas políticas
Até 2023, deepfakes eram principalmente curiosidade: vídeos de celebridades em situações absurdas, montagens humorísticas. A técnica era complexa, cara e necessitava de expertise. Mudou drasticamente quando OpenAI, Google, Meta e outras gigantes lançaram ferramentas de geração de vídeo acessíveis, baratas ou gratuitas.
Em dezembro de 2024, OpenAI anunciou Sora, um modelo capaz de gerar vídeos com até um minuto de duração, com qualidade cinematográfica, a partir de um texto simples. Praticamente simultâneo, Google lançou Veo 3. Essas ferramentas não demandam conhecimento de programação. Um clique, um prompt em linguagem natural, e em minutos: um vídeo fake pronto para viralizar.
A democratização da desinformação ocorreu em velocidade exponencial.
Durante as eleições municipais de 2024 no Brasil, o Observatório IA Nas Eleições—parceria entre Data Privacy Brasil, Aláfia Lab e Desinformante mapeou 78 casos de materiais confirmados ou alegadamente criados por meio de IA. Mas esse número subestima a realidade.
Casos emblemáticos:
Em São Paulo, o candidato Pablo Marçal (PRTB) postou uma deepfake sem sinalizar o uso de IA, como exige a resolução do TSE. No vídeo, um rosto é trocado pelo de Marçal e a pessoa assopra pó branco uma referência a acusações infundadas contra rival.
Em Salvador, o prefeito reeleito Bruno Reis (União) postou vídeos nos quais seu rosto é adicionado ao corpo de um homem que dança o jingle da campanha. No Instagram, veio com aviso "feito com IA." No TikTok, nenhuma advertência.
Em Manaus, como mencionado, William Bonner apareceu em deepfake recomendando voto em vereador.
Havia ainda deepnudes imagens com teor sexual gerado por IA. Candidatas em Rio de Janeiro e Bauru (SP) registraram boletins de ocorrência após serem alvo de deepfakes pornográficos postados em redes sociais e sites de conteúdo adulto.
Google, Meta e a perversão da "IA Democrática"
Enquanto candidatos usavam IA para criar conteúdo falso, as próprias gigantes de tecnologia continuavam alimentando a máquina de desinformação.
Em setembro de 2024, o Jornal da Paraíba revelou que o Gemini, IA do Google, continuava fornecendo informações sobre candidatos à prefeitura de João Pessoa, apesar das promessas públicas do Google em restringir respostas políticas pela ferramenta.
O Gemini também havia gerado informações sobre candidatos à prefeitura de São Paulo: Ricardo Nudes (MDB), Pablo Marçal (PRTB), José Luiz Datena (PSDB) e Marina Helena (Novo).
A Meta, por sua vez, usou chatbots e algoritmos de recomendação que amplificavam conteúdo desinformativo. Enquanto isso, investigadores sugerem que a empresa monitora remoção de conteúdo de forma lenta e defasada, deixando deepfakes circularem por horas ou dias antes de ação.
O padrão é claro: essas plataformas ganham com desinformação (quanto mais polêmica, mais engajamento; quanto mais engagement, mais publicidade vendida), enquanto externamente celebram investimentos em "segurança eleitoral."
Regulação das Redes Sociais e Big Techs | Foto: Reprodução
A regulação que não consegue acompanhar a tecnologia
Reconhecendo o risco, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) editou a Resolução nº 23.732/2024, que alterou regulações de propaganda eleitoral.
As principais inovações:
Proibição absoluta de deepfakes usados em propaganda eleitoral
Obrigação de aviso explícito quando qualquer conteúdo sintético é usado
Responsabilização de big techs: plataformas que não removem conteúdo desinformativo "imediatamente" podem sofrer sanções
Criação de repositório de decisões do TSE para agilizar processos de remoção
O presidente do TSE, ministro Alexandre de Moraes, chamou a resolução de "uma das normas mais modernas do mundo" com relação ao combate a desinformação.
Mas a realidade jurídica revelou-se complexa. Um estudo do Instituto de Direito Público (IDP), em parceria com Ethics4AI e Mackenzie, analisou 56 decisões de Tribunais Regionais Eleitorais envolvendo possíveis deepfakes. O achado alarmante: em 25% dos casos, os juízes nem consideraram que se tratava de conteúdo eleitoral.
Juízes, frequentemente sem expertise em tecnologia, classificavam conteúdos desinformativos como "discurso político legítimo"—não como fraude eleitoral.
Além disso, a Resolução TSE funciona primordialmente para conteúdo visível em plataformas públicas. Mas a maioria dos deepfakes circula em grupos privados de WhatsApp, Telegram e Discord—ambientes onde moderação é praticamente inexistente e plataformas argumentam não ter responsabilidade.
O PL 2338: ambição regulatória encontra realidade tecnológica
Em paralelo, o Projeto de Lei 2338/2023 (Marco Legal da IA) foi aprovado pelo Senado e tramita na Câmara dos Deputados.
O PL segue modelo similar ao AI Act da União Europeia, classificando sistemas de IA em níveis de risco: excessivo (proibido), alto (requisitos rigorosos), médio e baixo.
Especificamente para deepfakes, o PL inclui proteção contra deepfakes de imagens íntimas não consentidas, responsabilidade de desenvolvedores de sistemas de IA, e cláusulas de proteção à liberdade de expressão (sátira e paródia permanecem).
Mas há problema crítico: o PL responsabiliza desenvolvedores de IA, não usuários ou distribuidores. Um criminoso que baixa um programa gratuito de deepfake, cria conteúdo falso e o distribui não é diretamente responsabilizado.
É como responsabilizar fabricantes de faca por crimes de faca—útil em alguns casos, insuficiente em outros.
Além disso, o PL ainda não foi aprovado. A lacuna regulatória permanece aberta enquanto tecnologias evoluem.
Marco Legal da IA: o texto aprovado pelo Senado traz impactos relevantes para os agentes de IA, principalmente para aqueles que desenvolvam ou utilizem as tecnologias classificadas como de alto risco (Arte: TUTU)
Detecção vs. Geração: uma corrida que a defesa está perdendo
Aqui emerge um paradoxo fundamental: a mesma tecnologia que permite criar deepfakes é usada para detectá-los.
No Brasil, laboratórios como o recod.ai da Unicamp (200 pesquisadores no campus, 350 colaboradores globais) desenvolvem algoritmos que analisam pistas invisíveis ao olho humano—iluminação, sombras, textura da pele, ruídos digitais—para diferenciar vídeos reais de sintéticos.
O coordenador do recod.ai, Anderson Rocha, descreve uma "corrida de gato e rato": conforme pesquisadores criam detector novo, outro grupo cria gerador melhor para escapar da detecção.
O problema é assimétrico: criadores de deepfakes demandam minutos. Detectores demandam análise longa. Distribuidores de conteúdo não têm incentivo para fazer análise automaticamente.
Além disso, modelos de detecção frequentemente falham com diversidade. Se treinados principalmente com rostos brancos e jovens, falham detectando deepfakes de pessoas mais velhas ou de outras etnias.
Instituições públicas como TSE, STF e Polícia Federal têm ferramentas de detecção, mas com capacidade limitada, especialmente para conteúdo em ambientes privados.
O Mercado Criminoso da Desinformação: quem lucra?
A comercialização de deepfakes alcançou escala industrial. Um grupo com 46 mil membros—mapeado pela SaferNet em 2024—vendia deepfakes de celebridades brasileiras por preços acessíveis.
Esses grupos operam em Dark Web, Telegram e plataformas criptografadas.
Mas quem lucra mais não são microempreendedores de deepfakes. São:
Big Techs: Google, Meta, Amazon e Microsoft lucram com publicidade enquanto plataformas amplificam conteúdo desinformativo. Algoritmos são otimizados para engajamento, não para verdade. Desinformação gera mais engajamento.
Candidatos e partidos políticos: 85 candidatos declararam gastos com empresas que fornecem conteúdos gerados por IA, sendo que ao menos 38 publicaram conteúdos sintéticos sem avisar ao eleitor.
Criminosos organizados: Fraudes por deepfake crescem. Golpistas usam áudio de CEO para convencer funcionário a fazer transferência bancária. Usam rostos falsos para abrir contas em fintechs. Entre janeiro e julho de 2025, 1,242 milhão de tentativas de fraude por deepfake foram registradas só na Serasa Experian.
Atores geopolíticos: Análise de especialistas sugere que agências de inteligência estrangeira experimentam com deepfakes em eleições de países rivais.
Quem NÃO lucra: democracia, confiança pública, eleitores que votam baseados em informações falsas.
Um especialista em cibersegurança alertou: "A probabilidade de um criminoso digital sendo pego ainda é baixa. É muito mais vantajoso para um cibercriminoso estando no Brasil cometer crimes, inclusive fora do país."
Regular as Redes e Big Techs é preciso | Ilustração: Paula Villar
A incerteza jurídica como campo fértil para Desinformação
Um fenômeno paralelo ocorre nas cortes: disputas judiciais sobre responsabilidade de plataformas deixam vácuo temporal onde desinformação prospera sem risco significativo de remoção.
Em 2024, o Supremo Tribunal Federal declarou o artigo 19 do Marco Civil da Internet parcialmente inconstitucional, aumentando responsabilidade de plataformas por conteúdo de terceiros.
Mas houve oito embargos de declaração (recursos judiciais). A incerteza jurídica resultante significa que big techs não fazem investimentos robustos em moderação, argumentando estar à espera de clareza legal.
Esse "compasso de espera favorece justamente aqueles que se beneficiam da disseminação de desinformação."
Para 2026, quando ocorrem eleições presidenciais, essa incerteza jurídica é particularmente danosa. Especialistas temem que deepfakes se proliferem ainda mais porque nem plataformas nem autoridades têm linhas claras de ação.
2026: o laboratório eleitoral aprimorado
As eleições municipais de 2024 foram chamadas de "laboratório" por especialistas.
Os testes indicaram: (1) deepfakes funcionam para manipular narrativas; (2) regulação TSE tem lacunas; (3) detecção é insuficiente; (4) distribuição em apps privados é incontrolável; (5) população tem dificuldade em identificar conteúdo falso.
Para 2026, o cenário é mais ameaçador. Presidenciais implicam apostas mais altas. Polarização é extrema. Tecnologia evoluiu (Sora, Veo 3). Criminosos têm 16 meses para aprimorar técnicas.
Um relatório da R7 em dezembro de 2025 alertou: "Ataques com deepfake crescem 126% em 2025; materiais gerados por IA forjam rostos, vozes e vídeos."
O especialista Antônio Netto enfatizou: "O deepfake tem potencial de convencimento muito maior que conteúdo genérico IA. Um vídeo alterado para colocar palavras na boca de um político é exatamente o que deepfake se propõe fazer: simular realidade e potencialmente enganar."
Caminho das Fake News — Foto: Wagner Magalhães/g1
A verdade como Produto Raro
A raiz do problema não está na tecnologia. Está na economia política da desinformação.
Quem se beneficia quando população não consegue distinguir verdade? Narrativa política conveniente mas falsa. Candidato cuja mensagem é ampliada mesmo sendo desinformativa. Plataforma que lucra com cliques de conteúdo polarizador. Ator geopolítico que quer desestabilizar democracia rival.
Para todos esses agentes, verdade é custo, não benefício.
Um pesquisador da área resumiu: "Modelos de negócio de redes sociais instrumentalizam emoções. Verdade é chata. Falsidade sensacionalista vira viral."
A solução proposta por educadores é "letramento em IA"—ensinar população a reconhecer sinais de síntese. Mas isso é trabalho de longa duração (anos), e tecnologia evolui em meses.
Enquanto isso, desinformação não espera por alfabetização. Ela se propaga, influencia voto, corrói confiança em instituições.
Iniciativas de contra-ataque: Unicamp, TSE e limites da resistência
Não há inação completa. A Unicamp criou ferramentas usadas pela Polícia Federal para detectar pornografia infantil. O TRE-GO desenvolveu GuaIA, um projeto de IA para monitorar automaticamente desinformação em redes sociais sobre eleições estaduais.
A UERJ e UNICAMP desenvolveram Vota AI, ferramenta que analisa programas de governo (ao menos 60 mil).
Mas iniciativas acadêmicas e judiciais enfrentam desafios:
Recursos limitados: Universidades e cortes eleitorais têm orçamentos reduzidos comparado ao investimento de big techs
Velocidade da evolução: Modelo de detecção de 2024 pode ser obsoleto em 2025
Ambientes privados: Ferramentas funcionam em conteúdo público; WhatsApp, Telegram e Discord são praticamente invulneráveis
Expertise limitada: Número reduzido de especialistas em deepfake detection no Brasil
Iniciativa traz vídeos, textos e áudios com conteúdos elaborados por professores e equipe de reportagem (imagem: divulgação)
A arquitetura da impunidade
A máquina de fake news do século XXI não existe por acaso. É produto de:
Incentivos perversos: Plataformas lucram com engajamento, não com verdade
Lacunas regulatórias: Lei atrasa tecnologia; criminalidade avança
Ambientes incontroláveis: Mensageria privada escapa de moderação
Assimetria de poder: Criadores de deepfakes operam rapidamente; detectores são lentos
Beneficiários: Candidatos, plataformas, criminosos, atores geopolíticos—todos ganham quando democracia desconfiar de sua própria vista
A pergunta que fica para 2026 é: conseguirá o Brasil estabelecer defesa robusta contra desinformação sintetizada antes que eleição presidencial seja contaminada por narrativas indistinguíveis de realidade?
Ou continuaremos em um mundo onde a verdade é privada de quem pode produzir ficção convincente a custo zero?
Essa não é mais questão tecnológica. É questão política.