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Por Raul Silva para O estopim | 14 de maio de 2026

Juliano Cazarré entrou no GloboNews Debate de 12 de maio cercado por uma controvérsia previsível: dias antes, havia lançado um encontro pago para homens, embalado por palavras como liderança, fé, família, responsabilidade e “enfraquecimento masculino”. Ao colocá-lo em horário nobre para discutir “o papel do homem nos tempos atuais”, a emissora assumiu um risco editorial que o programa não conseguiu controlar. O que foi vendido como debate virou, em vários momentos, vitrine. E vitrine para quê? Para um repertório já gasto, mas ainda socialmente perigoso: o da masculinidade ferida que se apresenta como cura moral do país enquanto relativiza a violência de gênero, recorre a estatísticas falsas e reposiciona o velho patriarcado como se fosse simples defesa da família.
Seria cômodo reduzir a cena a um erro individual de Juliano Cazarré. Não é suficiente. O ator é só a face televisiva mais recente de uma engrenagem bem maior, que mistura conservadorismo moral, oportunismo midiático, ressentimento masculino e verniz religioso. O discurso é conhecido. O homem teria perdido seu lugar. A sociedade teria “demonizado” a masculinidade. A família estaria ameaçada. A fé seria o último reduto de ordem. As mulheres, emancipadas demais. O feminismo, exagerado. A igualdade, uma espécie de desvio civilizatório.
Esse roteiro não nasceu no estúdio da GloboNews. Ele circula há anos em bolhas digitais, em influenciadores red pill, em setores bolsonaristas e em segmentos religiosos que transformaram púlpito, live e corte de rede social em aparelho de reprodução ideológica. O que a TV fez foi retirar esse discurso da margem e recolocá-lo sob luz respeitável, como se estivesse diante de uma opinião apenas “polêmica”, e não de uma narrativa que ajuda a naturalizar hierarquia entre homens e mulheres.

Debate jornalístico não é sinônimo de deixar alguém falar o que quiser por tempo suficiente para viralizar. Quando um convidado usa números falsos ou sem base para relativizar a violência contra as mulheres, a mediação tem obrigação de interromper, contextualizar e corrigir. Não depois. Na hora.
Foi exatamente aí que o programa falhou, principalmente por causa do histórico do discurso machista que o ator já carregava consigo, ou seja, era totalmente previsível que alguma fala do tipo ocorresse ali. E ao permitir que a discussão deslizasse para a equivalência falsa entre violência geral e feminicídio, o debate abriu espaço para uma operação retórica conhecida. Primeiro, dissolve-se a especificidade da violência de gênero no caldo amplo da violência urbana. Depois, desloca-se o foco para o sofrimento masculino como se ele anulasse ou desautorizasse a denúncia feita pelas mulheres. Por fim, reapresenta-se o homem como vítima principal de um mundo que teria passado a culpá-lo por tudo.
Não há honestidade intelectual nisso. Há estratégia. Feminicídio não é qualquer homicídio. É o assassinato de mulheres em razão do gênero, geralmente em contexto doméstico, afetivo, de controle e posse. Misturar esse fenômeno com mortes violentas em contextos completamente distintos não é nuance. É distorção. E distorção, quando ganha palco jornalístico sem freio, vira munição para o obscurantismo.

O site do evento lançado por Cazarré fala em liderança, direção, proteção, presença masculina, homem de princípios, homem que assume seu lugar, homem que serve, marido, pai, fé vivida na prática. O vocabulário parece brando. Mas a gramática é antiga. A ideia central continua sendo a de que existe um lugar natural do homem na condução da família e da vida pública, enquanto às mulheres cabe gravitar ao redor dessa centralidade, desde que o homem exerça a chefia com “responsabilidade”.
É assim que o patriarcado sobrevive no século 21. Ele troca a brutalidade explícita pela linguagem da missão. Troca a imposição pela pedagogia da ordem. Troca o mando cru pela retórica do cuidado. Mas preserva a estrutura. O homem conduz. A mulher acompanha. O homem lidera. A mulher auxilia. Quando esse arranjo é apresentado como virtude espiritual ou remédio social, o que se está fazendo é reciclar desigualdade.

No campo religioso, Frei Gilson virou hoje um dos casos mais evidentes dessa operação. Sua fala sobre a mulher ter nascido para “auxiliar” o homem e sua crítica ao chamado empoderamento feminino não são ruídos laterais. Elas fazem parte de uma pedagogia de subordinação que tenta dar fundamento sagrado a uma relação desigual. Quando um religioso com alcance massivo diz que o homem recebeu de Deus a liderança e que à mulher cabe outro papel, o que ele oferece não é só uma interpretação bíblica. Ele fornece uma autorização moral.
E essa autorização moral, em um país atravessado por violência doméstica, não é um detalhe teológico qualquer. É uma matéria de interesse público. Porque a mulher agredida não escuta essas falas num seminário abstrato. Ela escuta isso dentro de uma cultura que já a ensina a suportar, ceder, preservar o casamento, silenciar para não “destruir a família”, obedecer para não afrontar Deus. O resultado é um ambiente onde a opressão se espiritualiza e o abuso encontra linguagem de absolvição.
Não se trata de culpar uma única figura religiosa por toda a violência contra as mulheres. Trata-se de dizer o óbvio que muita gente se recusa a enfrentar: discursos de submissão feminina ajudam a manter viva a cultura que relativiza a violência, desculpa o controle masculino e cobra das vítimas uma santidade sacrificial que jamais é exigida dos agressores.

A crítica precisa ir além de Frei Gilson. Ela alcança a estrutura que o acolhe, o normaliza e o transforma em ativo de massa. A Igreja Católica no Brasil gosta de repetir que não pode ser julgada por recortes. Pois bem. Que seja julgada então por suas escolhas concretas.
Quando o padre Júlio Lancellotti, conhecido pelo trabalho com a população de rua e pela recusa a qualquer discurso de ódio, foi silenciado nas redes e impedido de seguir com transmissões ao vivo, a mensagem institucional foi cristalina: há vozes que incomodam mais do que outras. Incomoda mais um padre que denuncia a crueldade social do que um religioso conservador que mobiliza multidões enquanto reforça papéis hierárquicos entre homens e mulheres.
Em São Paulo, Dom Odilo Scherer se tornou símbolo dessa contradição. No Recife, Dom Paulo Jackson aparece em outro ponto do mesmo mapa, ao emprestar legitimidade institucional a eventos de grande escala com Frei Gilson sem que se veja resposta proporcional às implicações públicas desse discurso sobre mulheres. O contraste salta aos olhos. Para a voz evangélica da compaixão radical, freio. Para a voz rentável, multitudinária e disciplinadora, acolhimento.
A instituição pode alegar prudência, foro interno, autonomia canônica. O problema é que, fora dos muros e dos códigos eclesiásticos, o efeito social é outro. O que passa para o público é uma pedagogia perversa: o cristianismo que confronta a exclusão vira problema administrativo; o cristianismo que reforça obediência, gênero e autoridade masculina segue livre para crescer.

Há também uma responsabilidade específica do jornalismo. Não basta dizer que ouvir lados diferentes é parte do ofício. Isso é verdade, mas é só o começo. Jornalismo não existe para equilibrar formalmente qualquer disputa. Existe para informar com método, contexto e compromisso com a realidade. Quando uma emissora põe no mesmo nível um discurso sustentado por distorções e outro lastreado em pesquisa e experiência concreta, corre o risco de fabricar uma simetria fraudulenta.
Esse é o ponto central. O jornalismo não pode funcionar como lavanderia reputacional da misoginia contemporânea. Não pode chamar de “polêmica” o que já se consolidou como engrenagem de rebaixamento feminino. Não pode vestir de pluralismo a omissão diante da mentira factual. E não pode, sobretudo, tratar como curiosidade cultural um ideário que oferece ao homem ressentido um pacote sedutor: culpa terceirizada, autoridade restaurada, religião como escudo e mulher como horizonte de serviço.
Se o debate vira vitrine para esse pacote, a imprensa deixa de iluminar o problema e passa a distribuí-lo.
Não estamos diante de um desacordo inocente sobre costumes. O que está em disputa é a possibilidade de fazer retroceder, com palavras aparentemente brandas, conquistas mínimas de autonomia feminina. O léxico pode variar. Valores familiares. Masculinidade sadia. Fé no lar. Mas a arquitetura permanece reconhecível: conter a liberdade das mulheres, recolocar o homem no centro e reabilitar a desigualdade como se fosse virtude.
Num país que segue registrando números brutais de feminicídio, denúncias de violência e agressões dentro de casa, tratar isso como debate abstrato é uma forma de cegueira editorial. A violência contra a mulher não começa no soco. Ela começa na ideia de posse. Na pedagogia da obediência. Na glamourização da chefia masculina. Na ridicularização do feminismo. Na catequese da resignação. Na mentira repetida para esvaziar a gravidade dos fatos.
Juliano Cazarré não inventou esse enredo. Frei Gilson tampouco. Mas ambos ajudam a atualizá-lo. E o jornalismo que lhes oferece palco sem a devida contenção crítica não está apenas falhando na mediação. Está ajudando a empurrar para a arena pública um discurso que já custou caro demais às mulheres brasileiras.
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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo de O estopim. Escreve sobre política, mídia, direitos humanos e os mecanismos de poder que costumam se esconder atrás de discursos respeitáveis.
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