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Conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã avança para infraestrutura de energia no Golfo; Trump ameaça destruir o maior campo de gás do mundo e líderes citam risco de interrupção no Estreito de Ormuz.


Por Clara Mendes para O estopim | 20 de Março de 2026


Imagem de satélite do Estreito de Ormuz. Águas azuis profundas contrastam com a aridez das terras circundantes em tons marrons e cinzas.
O Estreito de Ormuz é uma passagem marítima crucial que conecta o Golfo de Omã ao Golfo Pérsico. Esta via estratégica é de extrema importância geopolítica e econômica, especialmente para o Irã e os países que dependem do transporte de petróleo e gás natural através dessa região | Foto: Los Angeles Times

A escalada da guerra no Oriente Médio atingiu o setor de energia após um ataque israelense às instalações do campo de gás South Pars, no Golfo Pérsico, e a retaliação iraniana com mísseis contra um campo de gás no Catar e outros alvos ligados a petróleo e gás na região. Nesta quinta-feira (19), Irã e Estados Unidos trocaram ameaças publicamente, enquanto Israel confirmou que uma refinaria na cidade de Haifa, no norte do país, foi atingida por ataque iraniano.


South Pars, chamado de North Field no lado catari, é a maior jazida de gás natural do mundo e concentra uma das maiores reservas conhecidas do planeta. O campo é compartilhado por Irã e Catar e sustenta parte central da geração de eletricidade e da indústria petroquímica iraniana, além de ser a base da cadeia de gás natural liquefeito do Catar. A ofensiva abriu um novo foco de risco no Golfo, com efeitos imediatos no preço do petróleo e do gás e ameaça direta ao tráfego de navios no Estreito de Ormuz.


O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, afirmou que o país vai atacar com zero moderação caso haja novos bombardeios à infraestrutura energética iraniana. Antes, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse que, se o Irã atacar o Catar novamente, Washington vai destruir massivamente o campo de South Pars. Trump também declarou que os Estados Unidos não sabiam que Israel atacaria o local, mas fontes israelenses disseram à agência Reuters que o ataque foi planejado em colaboração com os americanos.


Ainda nesta quinta, o Irã bombardeou uma refinaria de petróleo em Haifa, segundo autoridades israelenses. O governo de Israel afirmou que os danos foram mínimos e não houve confirmação oficial de vítimas no local.


A escalada sobre instalações de gás e refinarias ocorre em meio à disparada dos combustíveis. Na quarta-feira (18), após o ataque ao South Pars, o barril do petróleo chegou a US$ 108, segundo a Radioagência Nacional, com informações da Reuters. Na quinta, o foco do mercado voltou para a possibilidade de interrupção do Estreito de Ormuz, canal por onde passa parte relevante do petróleo e do gás exportado pelos países do Golfo.


A Agência de Informação de Energia dos Estados Unidos (EIA) estima que, em 2024, passaram pelo Estreito de Ormuz cerca de 20 milhões de barris de petróleo por dia, o equivalente a aproximadamente 20% do consumo global de líquidos de petróleo. A Agência Internacional de Energia (IEA) também aponta que cerca de 20 milhões de barris diários transitam pelo corredor e que 93% do gás natural liquefeito do Catar e 96% do LNG dos Emirados Árabes Unidos passam pelo estreito, representando 19% do comércio global de LNG.



Com o mercado sob pressão, a IEA anunciou a maior liberação coordenada de estoques de emergência da sua história: 400 milhões de barris, segundo comunicado oficial publicado em 11 de março. A medida busca reduzir o impacto de uma interrupção prolongada de oferta sobre preços e inflação em países importadores.


A Índia classificou os ataques a estruturas energéticas como inaceitáveis. Países europeus e o Japão discutiram cooperação para manter aberto o Estreito de Ormuz e divulgaram um comunicado conjunto com medidas para estabilizar o mercado de energia, segundo informações publicadas pela Radioagência Nacional.


O ataque em South Pars também elevou o nível de alerta em países do Golfo. Reportagens da Reuters apontam que instalações em Qatar, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Kuwait e Bahrein entraram no radar após ameaças de novos ataques e avisos de evacuação em áreas industriais.


A escalada sobre infraestrutura civil e energética ocorre em paralelo a bombardeios em áreas urbanas. Na quarta-feira (18), a Organização Mundial da Saúde afirmou estar preocupada com ataques a equipamentos de saúde e relatou ocorrências envolvendo hospitais e clínicas no Irã, no Líbano e em Israel, de acordo com relato divulgado pela Radioagência Nacional.


Ainda segundo a Radioagência, mais de 1,3 mil pessoas morreram no Irã desde o início dos ataques, a maioria civis, além de mais de 900 mortos no Líbano. Os números foram atribuídos a levantamentos citados pela Reuters.


Plataforma de petróleo no mar, estruturas metálicas vermelhas e amarelas conectadas. Helicóptero sobrevoa. Céu claro e mar azul. Atmosfera industrial.
Plataforma de extração de gás na Fase 16 do Campo de South Pars, onde o Irã retomou suas operações | Foto: Reprodução

Ataques a campos de gás e refinarias podem gerar incêndios, queima emergencial de gás e vazamentos de metano, além de contaminação do ar por material particulado e gases tóxicos. A IEA estima que o setor de combustíveis fósseis emitiu cerca de 200 bilhões de metros cúbicos de metano em 2024 e que a energia respondeu por aproximadamente 145 milhões de toneladas de metano no mesmo ano. Especialistas usam esses dados para dimensionar o peso climático de episódios de vazamento e queima em larga escala, como os que podem ocorrer após bombardeios em instalações de produção e processamento.


A alta do petróleo no Golfo chega ao Brasil pela cadeia de combustíveis e pelo custo do transporte. Em março, economistas ouvidos pela Rádio Nacional apontaram que o aumento do petróleo pode pressionar a inflação e influenciar decisões sobre juros. No Boletim Focus de 9 de março, o mercado elevou pela primeira vez a projeção da taxa básica de juros de 2026 para 12,13% ao ano, mantendo a expectativa de inflação em 3,91%.


O Brasil é produtor e exportador de petróleo, mas ainda depende de importações para parte do diesel. Em dezembro de 2025, a parcela importada de diesel A representou 33,2% das vendas nacionais, segundo a Síntese Mensal de Comercialização de Combustíveis da ANP.


A guerra no Irã entrou na terceira semana e transformou o Golfo em alvo direto de ataques a ativos de energia. South Pars e o Estreito de Ormuz, que já concentravam disputa geopolítica há décadas, voltaram ao centro de um risco imediato: interrupção de gás e petróleo com impacto global em preços, inflação e abastecimento.


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Clara Mendes é repórter plantonista do O estopim, com foco em hard news, geopolítica e energia.


Por Dante Montenegro Analista de Geopolítica \ 25 de janeiro de 2026


A arquitetura de segurança global, aquela velha catedral erguida sobre os escombros de 1945 e sustentada pelo mito da "ordem liberal baseada em regras", não está apenas em ruínas; ela foi implodida e o terreno já foi vendido para o maior lance. O retorno de Donald Trump à Casa Branca em 2025 não inaugurou apenas uma nova administração, mas uma nova era geológica na política internacional: a era da Pax Armada.


Agente federal e manifestante gesticulam durante protesto contra o assassinato de Renee Nicole Good em Minneapolis, Minnesota, EUA8 de janeiro de 2026 | Foto: Tim Evans/Reuters
Agente federal e manifestante gesticulam durante protesto contra o assassinato de Renee Nicole Good em Minneapolis, Minnesota, EUA 8 de janeiro de 2026 | Foto: Tim Evans/Reuters

Esqueça as ilusões do "Fim da História" de Fukuyama, onde a democracia liberal seria o destino inevitável da humanidade. Neste novo teatro, a distinção clássica entre segurança pública interna e guerra externa evaporou completamente. O mesmo aparato estatal que hoje negocia a soberania da Ucrânia como se fosse um ativo imobiliário tóxico é o que aplica táticas de contrainsurgência militar, testadas em Bagdá e Cabul, nas ruas do Meio-Oeste americano. Para o observador atento, o Heartland de Mackinder, a região pivô da Eurásia, e as avenidas geladas de Minneapolis agora obedecem à mesma lógica de Realpolitik brutal: a soberania tornou-se um privilégio condicional, e a segurança, uma commodity transacionável, acessível apenas àqueles que podem pagar a taxa de proteção do hegemon.


Pax Armada: A falência corporativa da Ucrânia


O "plano de paz" para a Ucrânia, arquitetado nos bastidores por nomes como Keith Kellogg e Richard Grenell, deve ser lido não como um exercício de diplomacia clássica, mas como uma reestruturação de falência corporativa agressiva (um hostile takeover). A estratégia da "dupla coerção", a ameaça simultânea a Moscou com o fornecimento irrestrito de armas de longo alcance e a Kiev com o corte total de fundos vitais, produziu o resultado desejado pelo capital financeiro, não pelos humanistas de Genebra.


O congelamento das linhas de fronteira e a criação de "zonas autônomas" no leste ucraniano nada mais são do que a aceitação tácita da força bruta como legisladora das fronteiras. Estamos testemunhando a criação de um novo Muro de Berlim, mas desta vez, ele não é ideológico; é funcional. Ao negar à Ucrânia o reconhecimento de jure sobre seus territórios perdidos, mas aceitar o controle de facto russo, Washington cria um estado de limbo permanente, uma "Coreia no Dnieper", onde a instabilidade controlada serve aos interesses de contenção sem o risco de armagedom nuclear.


Follow the Money: A geopolítica do lítio


Mas o que a mídia tradicional ignora, distraída pela retórica política inflamada e pelos tweets presidenciais, é o imperativo geoeconômico: follow the money. A paz na Eurásia não foi negociada com promessas de liberdade, foi comprada com lítio, titânio e terras raras.


O acordo bilateral pouco divulgado, que canaliza 50% das receitas futuras da exploração mineral ucraniana para um fundo de investimento gerido pelos EUA, revela a verdadeira natureza do jogo. Em um mundo faminto por baterias para veículos elétricos e ligas para a indústria aeroespacial, a Ucrânia possui algumas das maiores reservas inexploradas da Europa. A conclusão é cínica, porém inegável: Kiev não está sendo "salva" por seus valores democráticos ocidentais, mas preservada como um elo vital e cativo na cadeia de suprimentos da indústria bélica e tecnológica americana, visando reduzir a dependência da China.


A reconstrução do país, com custos estimados em meio trilhão de dólares, não será um Plano Marshall estatal e altruísta focado no bem-estar social. Será um banquete privado para gigantes como a BlackRock, o JPMorgan e empreiteiras de defesa como a Halliburton. O que assistimos é a privatização definitiva da segurança nacional, onde o lucro da reconstrução é garantido pelo contribuinte americano, mas os dividendos são inteiramente privados.


O boomerang imperial: Minnesota como laboratório


Enquanto as taças de champanhe tilintam em acordos secretos nos hotéis de luxo da Europa, a democracia sangra no front doméstico. O filósofo Michel Foucault e a teórica Hannah Arendt já alertavam sobre o "efeito bumerangue": as técnicas de repressão e controle desenvolvidas nas colônias inevitavelmente retornam para serem aplicadas contra os cidadãos da metrópole.


A "Operação Metro Surge" em Minnesota é a materialização desse pesadelo. Ao transformar cidades americanas em laboratórios de guerra urbana, despachando 3.000 agentes federais táticos (ICE e CBP) para ocupar Minneapolis, Washington cruzou o Rubicão. O alvo não é o crime comum, mas populações específicas, comunidades Hmong e Somali, tratadas sob a ótica da "população suspeita" típica de zonas de conflito.


A erosão da Posse Comitatus, a lei sagrada de 1878 que historicamente impedia as forças militares de agirem como polícia civil, é o sinal mais claro de que o Império voltou suas armas para dentro. Quando drones de vigilância sobrevoam subúrbios americanos e agentes federais sem identificação detêm cidadãos em veículos descaracterizados, a República cede lugar ao Estado de Segurança Nacional. A dissidência interna passa a ser tratada com o mesmo hard power reservado a insurgentes estrangeiros.


Agentes do ICE imobilizando Alex Pretti antes de sua execução | Foto: Tim Evans/Reuters
Agentes do ICE imobilizando Alex Pretti antes de sua execução em 25 de janeiro de 2026 | Foto: Tim Evans/Reuters

O alvo nas costas do Brasil


E é aqui que o Brasil precisa acordar urgentemente de seu sono dogmático e de sua diplomacia de "boas intenções". A nova doutrina de Washington, que permite classificar cartéis de drogas como "combatentes ilegais" (unlawful combatants), é a ameaça jurídica mais grave à soberania sul-americana em décadas.


Esta designação não é mera retórica; ela tem peso jurídico internacional, baseado no precedente de Guantánamo pós-11 de setembro. Ao classificar grupos criminosos como combatentes militares em vez de civis, os EUA retiram as proteções do devido processo legal e autoatribuem-se o direito de guerra. É a ressurreição do Corolário Roosevelt à Doutrina Monroe, agora anabolizado com drones Reaper e inteligência artificial.


Para os estrategistas do Pentágono, a distinção entre uma operação policial colaborativa contra o narcotráfico e uma intervenção militar cinética (ataques de precisão, inserção de forças especiais) na Amazônia ou na Tríplice Fronteira tornou-se meramente semântica. Se o PCC ou o Comando Vermelho forem rotulados como braços de uma ameaça terrorista global, a soberania brasileira sobre seu próprio território será considerada, por Washington, um obstáculo burocrático a ser contornado em nome da "segurança hemisférica".


O triângulo de pressão e a necessidade de realismo


O Brasil encontra-se, portanto, em um triângulo de pressão asfixiante, exigindo uma sofisticação estratégica que Brasília raramente demonstra.


  1. O Vértice Econômico (O Dilema do Agronegócio): O setor respira aliviado com a possibilidade de normalização do fluxo de fertilizantes russos e bielorrussos, essenciais para nossa segurança alimentar e balança comercial. No entanto, essa dependência nos torna vulneráveis a "sanções secundárias" caso os EUA decidam usar o sistema financeiro (SWIFT) como arma para forçar alinhamento político.


  2. O Vértice Territorial (A Amazônia): Nossa soberania na floresta nunca esteve tão ameaçada. Não por invasões de exércitos regulares marchando sobre a fronteira, mas pela erosão gradual da autoridade estatal frente à internacionalização do combate ao crime organizado. A "ajuda" americana pode vir acompanhada de bases, consultores e, eventualmente, diretrizes operacionais que ignoram o comando em Brasília.


  3. O Vértice Diplomático (A Corda Bamba): A nossa tradicional diplomacia de "neutralidade ativa" e a aposta na multipolaridade dos BRICS irritam profundamente uma Casa Branca que opera agora sob uma lógica binária maniqueísta: "ou você é um vassalo, ou é um rival". A tentativa do Brasil de se posicionar como líder do Sul Global pode ser interpretada por Trump não como autonomia, mas como cumplicidade com o eixo China-Rússia.


Si vis pacem, para bellum


A conclusão é amarga, mas necessária para qualquer mente sóbria. A era da diplomacia de salão, dos coquetéis na ONU e das notas de repúdio inócuas acabou. O Direito Internacional tornou-se uma ficção reconfortante que os fracos citam e os fortes ignoram.


O Brasil não pode mais se dar ao luxo de ingenuidades ideológicas, seja à esquerda ou à direita. Washington não tem amigos, tem interesses corporativos predatórios; Moscou não tem parceiros, tem reféns estratégicos e clientes.


Se quisermos sobreviver à Pax Armada sem nos tornarmos um protetorado de fato, o Brasil deve parar de terceirizar sua segurança e sua estratégia. Precisamos blindar a Amazônia não com retórica ambientalista vazia para agradar ONGs europeias, mas com presença militar dissuasória, tecnologia de monitoramento soberana e infraestrutura real de integração. Devemos navegar o mercado global aproveitando o pragmatismo das commodities, mas sabendo que, neste novo tabuleiro de xadrez tridimensional, quem não projeta poder (Hard Power), torna-se inevitavelmente território de extração.


O mundo mudou radicalmente. A complacência será punida com a irrelevância ou, no pior dos cenários, com a intervenção direta.

Por Michael Andrade, da redação de O estopim | 22 de janeiro de 2026


Presidente diz que “nunca nem falou com a ONU” e defende órgão com poderes amplos; iniciativa é vista com desconfiança por parte da comunidade internacional.


Foto: Reprodução
Foto: Reprodução

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, lançou nesta quinta-feira (22), em cerimônia no Fórum Econômico Mundial, em Davos (Suíça), o chamado “Conselho da Paz” (“Board of Peace”), estrutura criada para atuar na “paz” e na reconstrução da Faixa de Gaza, com possibilidade de expansão para outros conflitos.


Durante o discurso, Trump voltou sua artilharia à Organização das Nações Unidas (ONU). Entre as críticas, afirmou que “nunca nem falou com a ONU” e declarou que o organismo “tinha um potencial tremendo”, sugerindo frustração com a efetividade da entidade.


A proposta alimentou reações no cenário internacional por ser vista como uma tentativa de enfraquecer o papel da ONU. Reportagens citam preocupação de diplomatas e analistas de que o conselho funcione como uma espécie de estrutura paralela, com concentração de poder e lógica de adesão baseada em contribuições financeiras.


Na mesma cerimônia, o governo americano apresentou o plano de reconstrução apelidado de “Nova Gaza”, com projeto urbano que inclui arranha-céus e áreas de turismo e negócios na região costeira, além de divisão do território por zonas residenciais e econômicas.


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