Por Raul Silva para O estopim | 11 de abril de 2026
O novo levantamento do Datafolha, divulgado neste sábado, 11 de abril de 2026, redesenha a corrida presidencial ao mostrar um país mais dividido, mais desconfiado e menos disposto a entregar vantagem confortável a qualquer um dos polos. A pesquisa ouviu 2.004 eleitores com 16 anos ou mais, em 137 municípios, entre 7 e 9 de abril, com margem de erro de dois pontos percentuais. No retrato mais sensível do momento, Luiz Inácio Lula da Silva aparece com 39% no primeiro turno, contra 35% de Flávio Bolsonaro, e empata tecnicamente no segundo turno com o senador do PL, que marca 46% ante 45% do presidente.

A fotografia eleitoral não se resume ao duelo entre governo e oposição. A pesquisa também mostra uma deterioração ampla de confiança nas instituições, recorde de desconfiança em relação ao Supremo Tribunal Federal, insegurança elevada em relação ao processo eleitoral e sinais de desgaste social que atravessam economia doméstica, endividamento com apostas online e até o humor do país diante da Copa do Mundo de 2026. O dado central é que a disputa entrou na fase em que a rejeição pesa tanto quanto a intenção de voto.
A pesquisa Datafolha foi registrada no TSE sob o protocolo BR-03770/2026. As entrevistas foram presenciais e ocorreram entre 7 e 9 de abril de 2026. O levantamento ouviu 2.004 eleitores em 137 municípios. A margem de erro é de 2 pontos percentuais e o nível de confiança é de 95%.

No voto espontâneo, quando o eleitor responde sem ver a lista de candidatos, mais da metade do eleitorado ainda não apresenta escolha consolidada. São 52% de indecisos ou entrevistados que não citaram nenhum nome. Lula tem 20% e Jair Bolsonaro, embora inelegível, aparece com 14%, o que sinaliza que a memória política do campo conservador continua ancorada no ex-presidente. Tarcísio de Freitas, Ciro Gomes, o “atual presidente” e o “candidato do PT” aparecem com 1% cada.
O número mostra um eleitorado ainda pouco mobilizado formalmente, mas preso aos dois polos que dominam a política nacional desde a última década. Mesmo sem disputar, Jair Bolsonaro segue funcionando como referência simbólica do campo conservador. Lula, por sua vez, mantém liderança na lembrança espontânea, mas distante de um patamar que indique conforto.

No cenário estimulado de primeiro turno, Lula lidera com 39%, seguido por Flávio Bolsonaro, com 35%. Ronaldo Caiado marca 5%, Romeu Zema registra 4%, Renan Santos tem 2%, Aldo Rebelo e Cabo Daciolo aparecem com 1% cada. Brancos, nulos e nenhum somam 10%, enquanto 4% dizem não saber.
O número mais importante não é apenas a liderança de Lula, mas o tamanho da vantagem. A diferença de quatro pontos está dentro de uma zona politicamente desconfortável para um incumbente que busca a reeleição. O presidente conserva a dianteira, mas não impõe distância segura. Flávio, por sua vez, mostra que herdou parcela relevante do espólio bolsonarista e conseguiu converter lembrança orgânica do pai em intenção de voto estimulada.

É no segundo turno que a pesquisa ganha peso estratégico. No principal cenário testado, Flávio Bolsonaro tem 46% e Lula, 45%. Como a margem de erro é de dois pontos, o quadro é de empate técnico. Ainda assim, a ultrapassagem numérica tem efeito político imediato. Ela desmonta a narrativa de vantagem estável do presidente e obriga o governo a reconhecer que a corrida entrou em território de risco real.
Nos cenários contra Ronaldo Caiado e Romeu Zema, Lula aparece com 45%, enquanto ambos marcam 42%. A diferença é pequena e também fica dentro da margem de erro. O ponto comum é a estabilidade do presidente em torno dos 45%, índice que funciona ao mesmo tempo como piso e teto. Há um núcleo duro consolidado, mas há também dificuldade clara de expansão.

Se o primeiro turno mostra força competitiva, a rejeição mostra o limite estrutural dos candidatos. Lula lidera também nesse indicador, com 48%, seguido de perto por Flávio Bolsonaro, com 46%. Depois deles, todos os demais aparecem bem abaixo. Cabo Daciolo tem 19%, Zema e Renan Santos, 17%, Caiado e Aldo Rebelo, 16%.
Em tese, esses números poderiam sugerir espaço para uma alternativa moderada. Mas o mesmo levantamento mostra que Lula é conhecido por 99% do país e Flávio por 93%, enquanto Caiado é conhecido por 46%, Zema por 44%, Aldo por 33% e Renan Santos por 24%. Em outras palavras, parte da baixa rejeição desses nomes decorre simplesmente de baixa exposição nacional. À medida que uma campanha nacional elevaria a visibilidade, a resistência também tenderia a subir.
A pesquisa ainda indica um obstáculo adicional para o bolsonarismo. Segundo os recortes compilados pelo Datafolha, 61% rejeitam candidaturas que prometam anistia a Jair Bolsonaro e a aliados condenados por tramas contra a democracia. Isso limita a margem de ampliação de Flávio para além da própria base.
Os recortes demográficos compilados no relatório merecem atenção porque mostram erosão em terrenos antes mais seguros para o lulismo. No Nordeste, Lula ainda lidera com folga, 53% a 25% sobre Flávio Bolsonaro. Ainda assim, a vantagem é menor do que em medições anteriores citadas na pesquisa Datafolha, um sinal de alerta para a coordenação petista.
Entre as mulheres, Lula também mantém a dianteira, com 41% contra 26%. O problema para o Planalto é que o campo conservador reduziu a distância num segmento em que o bolsonarismo original costumava sofrer resistência muito maior. O relatório também aponta que o presidente vai melhor entre católicos, enquanto Flávio concentra força mais robusta no eleitorado evangélico.
No campo da chamada terceira via, Caiado e Zema continuam sem escala nacional, mas mantêm nichos de competitividade regional e socioeconômica. Caiado cresce no Centro-Oeste e entre famílias de renda intermediária. Zema melhora desempenho entre os mais ricos. Esses bolsões, por si só, não os colocam no centro da disputa, mas podem influenciar alianças e transferências no segundo turno.

A avaliação da administração federal ajuda a explicar o encurtamento eleitoral. Segundo o levantamento, 40% classificam o governo Lula III como ruim ou péssimo, 32% o consideram ótimo ou bom, 26% o veem como regular e 1% não soube responder. Quando a pergunta recai sobre o desempenho pessoal do presidente, a desaprovação chega a 49%, ante 47% de aprovação.
Esse quadro não implica colapso eleitoral automático, mas restringe a capacidade de o governo transformar políticas públicas em capital político de curto prazo. Um presidente pode vencer com avaliação dividida, mas dificilmente atravessa uma campanha longa sem que a desaprovação influencie debate sobre custo de vida, serviços públicos e credibilidade administrativa.

O levantamento vai além da corrida presidencial e mede um mal-estar institucional profundo. A desconfiança no STF chega a 43%, patamar recorde segundo o Datafolha. Apenas 16% dizem ter muita confiança na Corte. A avaliação direta do trabalho dos ministros também é negativa. São 39% os que classificam a atuação do tribunal como ruim ou péssima, contra 23% que a consideram ótima ou boa.
Outro dado de forte impacto político e ético é o repúdio à participação de ministros do STF em julgamentos que envolvam clientes de escritórios ligados a parentes. O índice de desaprovação chega a 79%. No ambiente eleitoral, 69% dizem sentir algum grau relevante de insegurança em relação ao processo eleitoral e às urnas.
A crise de confiança não fica restrita ao Judiciário. O Datafolha aponta 36% de desconfiança em relação ao Judiciário como um todo, 36% de desconfiança na imprensa, 27% de ceticismo absoluto em relação às Forças Armadas e baixa confiança sólida em grandes empresas. Esse ambiente favorece discursos de contestação sistêmica e dificulta a construção de consensos públicos mínimos.
A pesquisa chama atenção para indicadores sociais menos usuais em pesquisas eleitorais. Um deles é o impacto das apostas online sobre o orçamento das famílias. Segundo a compilação, quatro em cada dez apostadores relatam ter entrado em endividamento ou inadimplência severa. O dado ajuda a entender por que parte do mal-estar econômico não se traduz automaticamente em apoio a medidas do governo, mesmo quando há políticas de alívio de renda.
Outro termômetro simbólico aparece no futebol. Apenas 33% acreditam que o Brasil será campeão da Copa do Mundo de 2026. O número funciona como sinal de um país menos confiante até em seus próprios marcadores simbólicos de grandeza nacional.
O cenário de abril não define a eleição de outubro, mas altera o eixo do jogo. O governo entra na fase decisiva sem a gordura que imaginava ter no fim de 2025. O bolsonarismo, por sua vez, prova que encontrou um nome competitivo em Flávio Bolsonaro, mas ainda enfrenta um teto alto de rejeição e a dificuldade de expandir sem reacender o debate sobre anistia e radicalização.
Para Lula, a tarefa mais urgente é recompor vantagem entre mulheres, proteger o Nordeste, reduzir a desaprovação do governo e impedir que o empate técnico no segundo turno se consolide como percepção dominante. Para Flávio, o desafio é ampliar competitividade sem perder o vínculo orgânico com a base do bolsonarismo e sem transformar a memória do pai em âncora de rejeição. Para a terceira via, a pesquisa reforça um diagnóstico duro. Há espaço para ruído, barganha e influência regional, mas ainda não há musculatura para quebrar a polarização.
No fim, o levantamento desenha uma eleição presidencial que será disputada menos no terreno do entusiasmo e mais no da contenção de danos. O país que sai dessa pesquisa não é só o país do empate técnico. É o país da confiança quebrada, da fadiga institucional e da incerteza elevada a seis meses da urna.
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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo do O estopim. Atua na cobertura de política, poder e interesse público, com foco em apuração documental, leitura de dados e contextualização dos fatos para o ambiente digital.
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