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Atualizado: 10 de jan.

A máquina de fake news do século XXI: Deepfakes crescem 830% no Brasil e ameaçam integridade Eleitoral em 2026


Geração de vídeos realistas por IA a custo zero, combinada com plataformas generativas, criou ferramentas perfeitas para fabricação de narrativas políticas falsas. Enquanto regulação avança, capacidade de detecção falha e beneficiários da desinformação lucram com impunidade.


Da Redação d`O estopim Tech | 10 de janeiro de 2026


Arte: Bruno Fonseca e Larissa Fernandes/Agência Pública
Arte: Bruno Fonseca e Larissa Fernandes/Agência Pública

Em setembro de 2024, no bairro Monte Sinai em Manaus, moradores receberam em redes sociais uma publicação impactante: um trecho de telejornalismo do Jornal Nacional onde o apresentador William Bonner recomendava voto em um candidato local a vereador. O problema: o vídeo era totalmente falso, gerado por inteligência artificial.​


Casos como esse multiplicam-se pelo Brasil. Entre 2024 e janeiro de 2026, deepfakes—conteúdos gerados ou manipulados por IA para substituir rostos, vozes e corpos em vídeos—cresceram 830% em um ano. Enquanto isso, ferramentas cada vez mais sofisticadas de geração de conteúdo sintético (como Sora do OpenAI e Veo 3 do Google) democratizaram a produção de desinformação: qualquer pessoa com um computador pode, em minutos, criar narrativas falsas hiperrealistas praticamente indistinguíveis da verdade.​


A tecnologia que prometia eficiência tornou-se a arma mais refinada da desordem democrática. E enquanto o Estado responde com legislação, quem se beneficia da incapacidade de distinguir verdade de ficção gerada por máquina continua operando com impunidade.


830%: o crescimento vertiginoso da fraude digital


Em 2023, a Sumsub (empresa de verificação de identidade) publicou seu Identity Fraud Report, analisando 2 milhões de tentativas de fraude em 224 países. O Brasil apresentou um fenômeno singular: enquanto a América do Norte registrava aumento de 1.740% em deepfakes e a América Latina média de 410%, o Brasil disparava isoladamente com 830% de crescimento.​


Contextualizando: enquanto a Espanha enfrentava o maior volume absoluto de deepfakes do mundo (um em cada dez ataques globais ocorre lá), o Brasil superava todos os demais países latino-americanos juntos em incidentes dessa natureza.​


Mais recente ainda: entre 2023 e 2024, deepfakes envolvendo abuso infantil explodiram de 4,7 mil para 67 mil casos—um aumento de 1.325%. Crianças reais tiveram seus rostos inseridos em conteúdo sexual gerado por IA. Em escolas brasileiras, pelo menos 16 casos de deepfakes sexuais foram identificados em 10 estados entre 2024 e 2025.​


Mas os números mais perturbadores não estão apenas em estatísticas globais. Estão em operações do crime organizado. Um grupo com 46 mil membros no Brasil foi mapeado em 2024 comercializando deepfakes de celebridades brasileiras por valores entre R$ 19,90 e R$ 25—industrializando a criação de desinformação.​


Foto: Divulgação Google
Google Veo 3, a IA de vídeos da Google | Foto: Divulgação Google

De ferramentas de entretenimento a armas políticas


Até 2023, deepfakes eram principalmente curiosidade: vídeos de celebridades em situações absurdas, montagens humorísticas. A técnica era complexa, cara e necessitava de expertise. Mudou drasticamente quando OpenAI, Google, Meta e outras gigantes lançaram ferramentas de geração de vídeo acessíveis, baratas ou gratuitas.​


Em dezembro de 2024, OpenAI anunciou Sora, um modelo capaz de gerar vídeos com até um minuto de duração, com qualidade cinematográfica, a partir de um texto simples. Praticamente simultâneo, Google lançou Veo 3. Essas ferramentas não demandam conhecimento de programação. Um clique, um prompt em linguagem natural, e em minutos: um vídeo fake pronto para viralizar.​


A democratização da desinformação ocorreu em velocidade exponencial.


Durante as eleições municipais de 2024 no Brasil, o Observatório IA Nas Eleições—parceria entre Data Privacy Brasil, Aláfia Lab e Desinformante mapeou 78 casos de materiais confirmados ou alegadamente criados por meio de IA. Mas esse número subestima a realidade.​


Casos emblemáticos:


Em São Paulo, o candidato Pablo Marçal (PRTB) postou uma deepfake sem sinalizar o uso de IA, como exige a resolução do TSE. No vídeo, um rosto é trocado pelo de Marçal e a pessoa assopra pó branco uma referência a acusações infundadas contra rival.​


Em Salvador, o prefeito reeleito Bruno Reis (União) postou vídeos nos quais seu rosto é adicionado ao corpo de um homem que dança o jingle da campanha. No Instagram, veio com aviso "feito com IA." No TikTok, nenhuma advertência.​


Em Manaus, como mencionado, William Bonner apareceu em deepfake recomendando voto em vereador.​


Havia ainda deepnudes imagens com teor sexual gerado por IA. Candidatas em Rio de Janeiro e Bauru (SP) registraram boletins de ocorrência após serem alvo de deepfakes pornográficos postados em redes sociais e sites de conteúdo adulto.​


Google, Meta e a perversão da "IA Democrática"


Enquanto candidatos usavam IA para criar conteúdo falso, as próprias gigantes de tecnologia continuavam alimentando a máquina de desinformação.


Em setembro de 2024, o Jornal da Paraíba revelou que o Gemini, IA do Google, continuava fornecendo informações sobre candidatos à prefeitura de João Pessoa, apesar das promessas públicas do Google em restringir respostas políticas pela ferramenta.​


O Gemini também havia gerado informações sobre candidatos à prefeitura de São Paulo: Ricardo Nudes (MDB), Pablo Marçal (PRTB), José Luiz Datena (PSDB) e Marina Helena (Novo).​


A Meta, por sua vez, usou chatbots e algoritmos de recomendação que amplificavam conteúdo desinformativo. Enquanto isso, investigadores sugerem que a empresa monitora remoção de conteúdo de forma lenta e defasada, deixando deepfakes circularem por horas ou dias antes de ação.​


O padrão é claro: essas plataformas ganham com desinformação (quanto mais polêmica, mais engajamento; quanto mais engagement, mais publicidade vendida), enquanto externamente celebram investimentos em "segurança eleitoral."


Regulação das Redes Sociais e Big Techs | Foto: Reprodução
Regulação das Redes Sociais e Big Techs | Foto: Reprodução

A regulação que não consegue acompanhar a tecnologia


Reconhecendo o risco, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) editou a Resolução nº 23.732/2024, que alterou regulações de propaganda eleitoral.​


As principais inovações:

  • Proibição absoluta de deepfakes usados em propaganda eleitoral

  • Obrigação de aviso explícito quando qualquer conteúdo sintético é usado

  • Responsabilização de big techs: plataformas que não removem conteúdo desinformativo "imediatamente" podem sofrer sanções

  • Criação de repositório de decisões do TSE para agilizar processos de remoção


O presidente do TSE, ministro Alexandre de Moraes, chamou a resolução de "uma das normas mais modernas do mundo" com relação ao combate a desinformação.​


Mas a realidade jurídica revelou-se complexa. Um estudo do Instituto de Direito Público (IDP), em parceria com Ethics4AI e Mackenzie, analisou 56 decisões de Tribunais Regionais Eleitorais envolvendo possíveis deepfakes. O achado alarmante: em 25% dos casos, os juízes nem consideraram que se tratava de conteúdo eleitoral.​​


Juízes, frequentemente sem expertise em tecnologia, classificavam conteúdos desinformativos como "discurso político legítimo"—não como fraude eleitoral.​


Além disso, a Resolução TSE funciona primordialmente para conteúdo visível em plataformas públicas. Mas a maioria dos deepfakes circula em grupos privados de WhatsApp, Telegram e Discord—ambientes onde moderação é praticamente inexistente e plataformas argumentam não ter responsabilidade.​


O PL 2338: ambição regulatória encontra realidade tecnológica


Em paralelo, o Projeto de Lei 2338/2023 (Marco Legal da IA) foi aprovado pelo Senado e tramita na Câmara dos Deputados.​


O PL segue modelo similar ao AI Act da União Europeia, classificando sistemas de IA em níveis de risco: excessivo (proibido), alto (requisitos rigorosos), médio e baixo.​


Especificamente para deepfakes, o PL inclui proteção contra deepfakes de imagens íntimas não consentidas, responsabilidade de desenvolvedores de sistemas de IA, e cláusulas de proteção à liberdade de expressão (sátira e paródia permanecem).​


Mas há problema crítico: o PL responsabiliza desenvolvedores de IA, não usuários ou distribuidores. Um criminoso que baixa um programa gratuito de deepfake, cria conteúdo falso e o distribui não é diretamente responsabilizado.​


É como responsabilizar fabricantes de faca por crimes de faca—útil em alguns casos, insuficiente em outros.


Além disso, o PL ainda não foi aprovado. A lacuna regulatória permanece aberta enquanto tecnologias evoluem.​


Marco Legal da IA: o texto aprovado pelo Senado traz impactos relevantes para os agentes de IA, principalmente para aqueles que desenvolvam ou utilizem as tecnologias classificadas como de alto risco (Arte: TUTU)
Marco Legal da IA: o texto aprovado pelo Senado traz impactos relevantes para os agentes de IA, principalmente para aqueles que desenvolvam ou utilizem as tecnologias classificadas como de alto risco (Arte: TUTU)

Detecção vs. Geração: uma corrida que a defesa está perdendo


Aqui emerge um paradoxo fundamental: a mesma tecnologia que permite criar deepfakes é usada para detectá-los.​


No Brasil, laboratórios como o recod.ai da Unicamp (200 pesquisadores no campus, 350 colaboradores globais) desenvolvem algoritmos que analisam pistas invisíveis ao olho humano—iluminação, sombras, textura da pele, ruídos digitais—para diferenciar vídeos reais de sintéticos.​


O coordenador do recod.ai, Anderson Rocha, descreve uma "corrida de gato e rato": conforme pesquisadores criam detector novo, outro grupo cria gerador melhor para escapar da detecção.​


O problema é assimétrico: criadores de deepfakes demandam minutos. Detectores demandam análise longa. Distribuidores de conteúdo não têm incentivo para fazer análise automaticamente.​


Além disso, modelos de detecção frequentemente falham com diversidade. Se treinados principalmente com rostos brancos e jovens, falham detectando deepfakes de pessoas mais velhas ou de outras etnias.​


Instituições públicas como TSE, STF e Polícia Federal têm ferramentas de detecção, mas com capacidade limitada, especialmente para conteúdo em ambientes privados.​


O Mercado Criminoso da Desinformação: quem lucra?


A comercialização de deepfakes alcançou escala industrial. Um grupo com 46 mil membros—mapeado pela SaferNet em 2024—vendia deepfakes de celebridades brasileiras por preços acessíveis.​


Esses grupos operam em Dark Web, Telegram e plataformas criptografadas.


Mas quem lucra mais não são microempreendedores de deepfakes. São:


Big Techs: Google, Meta, Amazon e Microsoft lucram com publicidade enquanto plataformas amplificam conteúdo desinformativo. Algoritmos são otimizados para engajamento, não para verdade. Desinformação gera mais engajamento.​


Candidatos e partidos políticos: 85 candidatos declararam gastos com empresas que fornecem conteúdos gerados por IA, sendo que ao menos 38 publicaram conteúdos sintéticos sem avisar ao eleitor.​


Criminosos organizados: Fraudes por deepfake crescem. Golpistas usam áudio de CEO para convencer funcionário a fazer transferência bancária. Usam rostos falsos para abrir contas em fintechs. Entre janeiro e julho de 2025, 1,242 milhão de tentativas de fraude por deepfake foram registradas só na Serasa Experian.​


Atores geopolíticos: Análise de especialistas sugere que agências de inteligência estrangeira experimentam com deepfakes em eleições de países rivais.​


Quem NÃO lucra: democracia, confiança pública, eleitores que votam baseados em informações falsas.


Um especialista em cibersegurança alertou: "A probabilidade de um criminoso digital sendo pego ainda é baixa. É muito mais vantajoso para um cibercriminoso estando no Brasil cometer crimes, inclusive fora do país."


Regular as Redes e Big Techs é preciso | Ilustração: Paula Villar
Regular as Redes e Big Techs é preciso | Ilustração: Paula Villar

A incerteza jurídica como campo fértil para Desinformação


Um fenômeno paralelo ocorre nas cortes: disputas judiciais sobre responsabilidade de plataformas deixam vácuo temporal onde desinformação prospera sem risco significativo de remoção.


Em 2024, o Supremo Tribunal Federal declarou o artigo 19 do Marco Civil da Internet parcialmente inconstitucional, aumentando responsabilidade de plataformas por conteúdo de terceiros.​


Mas houve oito embargos de declaração (recursos judiciais). A incerteza jurídica resultante significa que big techs não fazem investimentos robustos em moderação, argumentando estar à espera de clareza legal.​


Esse "compasso de espera favorece justamente aqueles que se beneficiam da disseminação de desinformação."​


Para 2026, quando ocorrem eleições presidenciais, essa incerteza jurídica é particularmente danosa. Especialistas temem que deepfakes se proliferem ainda mais porque nem plataformas nem autoridades têm linhas claras de ação.​


2026: o laboratório eleitoral aprimorado


As eleições municipais de 2024 foram chamadas de "laboratório" por especialistas.​


Os testes indicaram: (1) deepfakes funcionam para manipular narrativas; (2) regulação TSE tem lacunas; (3) detecção é insuficiente; (4) distribuição em apps privados é incontrolável; (5) população tem dificuldade em identificar conteúdo falso.​


Para 2026, o cenário é mais ameaçador. Presidenciais implicam apostas mais altas. Polarização é extrema. Tecnologia evoluiu (Sora, Veo 3). Criminosos têm 16 meses para aprimorar técnicas.​


Um relatório da R7 em dezembro de 2025 alertou: "Ataques com deepfake crescem 126% em 2025; materiais gerados por IA forjam rostos, vozes e vídeos."

O especialista Antônio Netto enfatizou: "O deepfake tem potencial de convencimento muito maior que conteúdo genérico IA. Um vídeo alterado para colocar palavras na boca de um político é exatamente o que deepfake se propõe fazer: simular realidade e potencialmente enganar."


Caminho das Fake News — Foto: Wagner Magalhães/g1
Caminho das Fake News — Foto: Wagner Magalhães/g1

A verdade como Produto Raro


A raiz do problema não está na tecnologia. Está na economia política da desinformação.


Quem se beneficia quando população não consegue distinguir verdade? Narrativa política conveniente mas falsa. Candidato cuja mensagem é ampliada mesmo sendo desinformativa. Plataforma que lucra com cliques de conteúdo polarizador. Ator geopolítico que quer desestabilizar democracia rival.


Para todos esses agentes, verdade é custo, não benefício.


Um pesquisador da área resumiu: "Modelos de negócio de redes sociais instrumentalizam emoções. Verdade é chata. Falsidade sensacionalista vira viral."

A solução proposta por educadores é "letramento em IA"—ensinar população a reconhecer sinais de síntese. Mas isso é trabalho de longa duração (anos), e tecnologia evolui em meses.​


Enquanto isso, desinformação não espera por alfabetização. Ela se propaga, influencia voto, corrói confiança em instituições.


Iniciativas de contra-ataque: Unicamp, TSE e limites da resistência


Não há inação completa. A Unicamp criou ferramentas usadas pela Polícia Federal para detectar pornografia infantil. O TRE-GO desenvolveu GuaIA, um projeto de IA para monitorar automaticamente desinformação em redes sociais sobre eleições estaduais.​


A UERJ e UNICAMP desenvolveram Vota AI, ferramenta que analisa programas de governo (ao menos 60 mil).​


Mas iniciativas acadêmicas e judiciais enfrentam desafios:

  • Recursos limitados: Universidades e cortes eleitorais têm orçamentos reduzidos comparado ao investimento de big techs

  • Velocidade da evolução: Modelo de detecção de 2024 pode ser obsoleto em 2025

  • Ambientes privados: Ferramentas funcionam em conteúdo público; WhatsApp, Telegram e Discord são praticamente invulneráveis

  • Expertise limitada: Número reduzido de especialistas em deepfake detection no Brasil


Iniciativa traz vídeos, textos e áudios com conteúdos elaborados por professores e equipe de reportagem (imagem: divulgação)
Iniciativa traz vídeos, textos e áudios com conteúdos elaborados por professores e equipe de reportagem (imagem: divulgação)

A arquitetura da impunidade


A máquina de fake news do século XXI não existe por acaso. É produto de:

  • Tecnologia acessível: Ferramentas generativas baratas/gratuitas

  • Incentivos perversos: Plataformas lucram com engajamento, não com verdade

  • Lacunas regulatórias: Lei atrasa tecnologia; criminalidade avança

  • Ambientes incontroláveis: Mensageria privada escapa de moderação

  • Assimetria de poder: Criadores de deepfakes operam rapidamente; detectores são lentos

  • Beneficiários: Candidatos, plataformas, criminosos, atores geopolíticos—todos ganham quando democracia desconfiar de sua própria vista


A pergunta que fica para 2026 é: conseguirá o Brasil estabelecer defesa robusta contra desinformação sintetizada antes que eleição presidencial seja contaminada por narrativas indistinguíveis de realidade?


Ou continuaremos em um mundo onde a verdade é privada de quem pode produzir ficção convincente a custo zero?


Essa não é mais questão tecnológica. É questão política.

 
 
 

A frase “julgar pelo conteúdo do caráter, não pela cor da pele” virou commodity moral. Estampa murais, discursos oficiais, cards de rede social. Mas, quando a retiramos do cenário que a produziu, ela deixa de apontar para a justiça e passa a servir de escudo para manter tudo como está. Martin Luther King Jr. pronunciou essas palavras diante de um país atravessado por pobreza, violência policial e exclusão; exigiu que a promessa constitucional fosse, enfim, cumprida para quem a nação acostumara a deixar de fora. Não foi um poeta do consolo: pediu medidas concretas, uma espécie de carta de direitos para os desfavorecidos, empregos dignos, moradia, escolas que abrissem caminhos, uma reorganização material que desse substância à igualdade. O sonho era um motor, não um descanso. É por isso que, décadas depois, a operação que recorta uma única frase e a opõe a políticas de reparação não é inocente: é uma falsificação da igualdade.


Martin Luther King Jr. - Foto: Reprodução
Martin Luther King Jr. - Foto: Reprodução

Nos Estados Unidos, essa falsificação amadureceu como técnica. Ao longo dos anos, a imagem de King foi sendo polida para caber no porta-retratos da unanimidade: menos denúncia de estruturas, mais citação edificante. Já na era recente, a partir da eleição de 2016, esse processo ganhou potência institucional. A versão “daltônica” da igualdade — a que manda não ver cor para não “dividir” — reapareceu em palanques, coletivas e projetos de lei. Em estados que avançaram com normas que restringem a discussão de escravidão, segregação e racismo nas escolas, a frase de King foi convocada para justificar silenciamentos curriculares. Programas de diversidade e inclusão viraram alvos sob a acusação de “privilégio”. E, quando a corte suprema encerrou a possibilidade de considerar a raça entre os fatores de admissão universitária, parte do establishment conservador comemorou como se o sonho do pastor tivesse sido “finalmente” realizado: igualdade proclamada por decreto, como se a realidade de acesso, permanência e renda fosse apenas um detalhe. Tudo isso seduz porque nos diz o que gostaríamos de acreditar sobre nós mesmos: que já somos justos, que tratamos todos da mesma forma, que o mérito bastará. Mas seduz exatamente porque esvazia o conteúdo que dói: admitir pontos de partida desiguais e enfrentar o custo político de corrigi-los.


A retórica ganhou ecos fora do eixo norte-americano. Na Europa, líderes da extrema direita ensaiaram se vestir de King ao enfrentar reveses judiciais, buscando emprestar ao próprio projeto a aura de legitimidade moral de quem dedicou a vida à ampliação de direitos. A lógica é a mesma: usar o símbolo para abençoar uma agenda que, no cotidiano, nega as ferramentas que tornariam possível aquilo que o símbolo representa. No Brasil, esse roteiro encontrou terreno fértil durante a ascensão do bolsonarismo. A ponte se fez por eventos, redes e uma máquina de comunicação afinada com a linguagem da guerra cultural. A importação não foi só de slogans; foi de uma arquitetura de enfrentamento: taxar de “ideologia” o ensino honesto sobre racismo, renomear políticas de inclusão como “divisão”, empacotar a palavra “mérito” como passe livre para ignorar a herança do nosso apartheid informal. Em datas simbólicas, multiplicaram-se postagens de autoridades citando King para sugerir que cotas “trairiam” o seu legado. O truque é elegante: toma-se um princípio moral incontestável — ninguém deve ser julgado pela cor — e usa-se como arma para desautorizar os instrumentos que aproximam esse princípio da vida real.


O país, no entanto, andou noutra direção quando olhamos para marcos legais e dados. A lei de cotas no ensino federal foi atualizada com ajustes de renda, incorporação de quilombolas e aperfeiçoamento do mecanismo de ingresso depois de uma década de avaliação. No serviço público, a reserva foi ampliada para trinta por cento e passou a contemplar também indígenas e quilombolas, com percentuais definidos. Estudos do sistema federal de educação e de centros de pesquisa apontam diversificação do perfil socioeconômico e racial das universidades, desempenho acadêmico compatível entre cotistas e não cotistas e efeitos positivos sobre permanência quando há política de apoio estudantil. A opinião pública, medida por institutos de referência, indica maioria favorável às cotas, com debate saudável sobre desenho e fiscalização — bem diferente do que faz supor a gritaria nas redes. E, na escola básica, a legislação há duas décadas determina o ensino de história e cultura afro-brasileira e indígena, sinalizando que encarar o passado não é um capricho, mas um dever pedagógico.


Por que, então, a falsificação da igualdade convence? A sociologia oferece chaves. O chamado “racismo daltônico” rejeita o racismo em teoria, mas bloqueia políticas que o enfrentam na prática, invocando neutralidade; e a política dos “apitos de cachorro” desloca a conversa de políticas públicas para símbolos morais, mobilizando maiorias sem parecer explicitamente racista. Nesse terreno, a citação fragmentada de King funciona como passaporte de respeitabilidade para agendas que, no concreto, esvaziam o combate a desigualdades. Ao mesmo tempo, o próprio campo dos direitos civis nos Estados Unidos reatualizou o legado por dentro: a campanha contemporânea dos Pobres recupera a trindade denunciada por King — racismo, pobreza e militarismo — como problemas entrelaçados, devolvendo densidade ao que tentaram transformar em peça de souvenir.


O Brasil entra em 2026 com uma disputa que é também narrativa. De um lado, veremos a “daltônica dois ponto zero”: mais requintada na forma, mais agressiva no efeito, embalando-se como paz social enquanto trabalha para tornar tabu o debate sobre desigualdade, renomear inclusão como privilégio e colar em “igualdade” um verniz que dispensa orçamento. Veremos, ainda, tentativas de usar o contencioso jurídico e administrativo como fábrica de manchetes que criam clima — mesmo quando caem, deixam o rastro de que “há exagero” a ser contido. E haverá a importação de símbolos: vídeos que colam a própria imagem à de King para sugerir continuidade entre a luta por direitos e um programa que, na prática, a esvazia. Do outro lado, haverá quem responda com três movimentos complementares. O primeiro é devolver contexto a cada frase: diante do “caráter”, perguntar pelo plano concreto que aproxima pontos de partida; diante da acusação de “divisão” na escola, mostrar a sala de aula que ensina a história real do país com documentos e dados; diante do ataque às cotas como injustas, lembrar que justiça que ignora origem é espelho torto. O segundo é mudar a pergunta pública: não “se inclusão divide”, mas “o que reduz desigualdade de verdade?”, “que desenho garante acesso e permanência?”, “como se presta contas e corrige rumos?”. O terceiro é narrar trajetórias com métrica: a estudante que entrou pela cota e hoje orienta outros jovens; o servidor que abriu política pública no interior esquecido; os indicadores que mostram evasão caindo, desempenho mantendo-se ou melhorando, renda avançando — histórias que, quando casadas com números, deixam de ser exceções ornamentais e viram evidência encarnada.


A resposta também passa por pontes. Comunidades de fé, trabalhadores do comércio, profissionais da segurança, professores: grupos com rotinas e códigos próprios, muitas vezes alvos preferenciais da narrativa da “igualdade confortável”. Dialogar de verdade exige falar com a vida concreta dessas pessoas: violência, emprego, escola dos filhos, orçamento doméstico. É nesse chão que se mostra que políticas de inclusão expandem carreiras e protegem famílias da insegurança econômica; que escola que ensina a história real forma cidadãos mais preparados para o respeito mútuo e o trabalho em equipe; que o Estado funciona melhor quando representa a população que atende. E nada disso dispensa a responsabilidade de quem governa: leis precisam de execução transparente, metas públicas, avaliação de resultados, correção de rota. Quando o poder público presta contas com clareza, ele retira combustível do discurso que pinta inclusão como privilégio opaco.


No fim, a pergunta decisiva não é quem cita melhor Martin Luther King, mas quem transforma a memória em política efetiva. A diferença aparece onde realmente importa: menos evasão e mais permanência; concursos com mais diversidade e melhor serviço prestado; currículo que prepara para a cidadania com honestidade histórica. A falsificação da igualdade cabe em cards e slogans. A igualdade real cabe no orçamento, no planejamento, na fiscalização — e se mede por resultados. Quando isso acontece, a frase célebre que tanto repetem recupera o que tinha de mais valioso: não um escudo para fugir do presente, mas uma bússola para caminhar dentro dele.

 
 
 

Enquanto a governadora Raquel Lyra se apresenta como a arquiteta de um novo horizonte para Pernambuco, com discursos que beiram o lírico e a promessa de transformação radical, a realidade do estado se revela num cenário de profundo descaso e inércia. A narrativa oficial, adornada com gráficos que atestam a suposta queda nos índices de violência e melhorias na gestão dos serviços públicos, esconde o verdadeiro fado de um governo que, embora se vanglorie de ser visionário, não consegue materializar as transformações necessárias para sanar os problemas estruturais do Estado.

Nas palavras ensaiadas e nos discursos carregados de metáforas e castelos de palavras, a governadora tenta pintar um quadro de progresso onde escolas se erguem, hospitais prosperam e a segurança pública alcança patamares inéditos. Porém, essa construção narrativa se desfaz diante do testemunho doloroso dos cidadãos pernambucanos. Em bairros das periferias e em centros urbanos, as escolas vêm “caindo” – não em sentido literal, mas na medida em que a infraestrutura deficiente, a falta de investimentos e a negligência sistemática transformam o ambiente escolar em um espaço de abandono e risco. Hospitais, por sua vez, que deveriam ser templos de cuidado e esperança, frequentemente deixam de atender adequadamente, refletindo uma administração que prioriza discursos retóricos em detrimento de ações concretas.

Reprodução Rede Globo
Reprodução Rede Globo

A segurança pública, um dos pilares que a gestão pretende fortalecer, torna-se, na prática, um eco distante. Os dados oficiais, muitas vezes apresentados com otimismo forçado pelo SDSPE, contrastam com o cotidiano de violência que permeia as ruas. Furtos, assaltos e crimes violentos continuam a se multiplicar, enquanto os cidadãos se veem desamparados por um aparato policial sucateado e desprovido dos recursos prometidos. Servidores públicos, por sua vez, sofrem diariamente as consequências de uma gestão improvisada, onde a retórica não se traduz em políticas eficazes e onde a promessa de uma "transformação real" permanece inalcançável.

É nesse contexto que se revela a ironia do tempo: enquanto o governo ensaia discursos de mudança e inovação, o Estado se afunda num mar de omissões e falhas históricas. Se a política fosse um poema, o governo Lyra seria uma ode inacabada – repleta de rimas bonitas e promessas sedutoras, mas desprovida do conteúdo sólido e necessário para sustentar as necessidades urgentes do povo pernambucano. Cada estatística otimista, cada declaração de sucesso, soam como um eco distante que tenta mascarar a dura verdade: a realidade é de um estado em constante derrota, onde a administração se mostra incapaz de conciliar a retórica com as demandas de um povo que clama por mudanças estruturais.

A análise que se encerra neste post não se destina apenas a retratar um cenário de críticas e frustrações, mas constitui um apelo urgente à renovação e à responsabilidade governamental. Pernambuco precisa urgentemente sair do jogo duplo das narrativas – onde palavras sedutoras mascaram uma gestão que falha em agir – e adotar uma postura de ação resoluta, pautada na transparência, na competência e no respeito aos direitos dos cidadãos e dos servidores públicos.

Para que se inicie uma transformação real, é imprescindível que a administração passe da retórica para a prática, implementando reformas estruturais que atendam às demandas crônicas de educação, saúde e segurança. É necessário investir de forma consistente na reestruturação da infraestrutura escolar, garantindo que as instituições de ensino não se convertam em espaços de risco, mas sim em ambientes que promovam o desenvolvimento e a cidadania. No setor da saúde, a urgência de reverter o descaso é sentida diariamente: hospitais que frequentemente deixam de atender com a devida qualidade devem ser revitalizados, equipados e administrados com foco na efetividade do cuidado.

No campo da segurança, a promessa de modernização dos órgãos – especialmente a Polícia Civil – precisa ser acompanhada de medidas concretas, com a destinação de recursos adequados e a implementação de políticas que verdadeiramente reduzam os índices de criminalidade. A população pernambucana, que vive diariamente sob o peso do medo e da vulnerabilidade, merece uma gestão que não se oculte por trás de números abstratos, mas que responda com ações efetivas e reparadoras.

Além disso, as vozes da sociedade, representadas pelos sindicatos, movimentos sociais e cidadãos organizados, clamam por uma administração que se baseie no diálogo e na responsabilidade. Servidores públicos, que carregam o fardo de um sistema negligente, e cidadãos, que experimentam a insegurança e a falta de serviços essenciais, precisam ser ouvidos. A renovação do Estado depende, em grande parte, de uma mudança profunda que não se resuma a discursos poéticos, mas que se materialize em políticas públicas que transformem a realidade.

É fundamental que a governança de Pernambuco reconheça a complexidade dos problemas que enfrenta e abandone o jogo duplo das narrativas ilusórias. A transformação real exige que as promessas de mudança se traduzam em investimentos palpáveis, em políticas estruturais e, sobretudo, em uma cultura de responsabilidade que ultrapasse as fronteiras dos discursos políticos. Somente assim Pernambuco poderá deixar de ser um estado em estado de derrota e emergir como um exemplo de renovação e eficiência na gestão pública.

No entrelace de palavras e promessas, o governo de Raquel Lyra se vê preso em um labirinto de ilusões e inércia – uma retórica encantadora, repleta de discursos líricos e castelos de promessas, que, no entanto, não se traduz em ações concretas para transformar o cotidiano dos pernambucanos. Enquanto a governadora se exibe como a visionária capaz de remodelar o futuro do Estado, a realidade, implacável e crua, revela um Pernambuco que, dia após dia, se afunda mais fundo no descaso e na negligência.

 
 
 
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