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Por Raul Silva para O estopim | 21 janeiro de 2026


O Banco Central decretou em 21 de janeiro de 2026 a liquidação extrajudicial da Will Financeira S.A. Crédito, Financiamento e Investimento, conhecida como Will Bank, instituição controlada pelo Banco Master. Com a medida, as operações do banco digital são interrompidas e passa a ser nomeado um liquidante para levantar ativos e dívidas e organizar o pagamento de credores conforme a ordem legal.


Cartão do Will Bank: braço digital do Banco Master foi liquidado pelo Bacen - Foto: Will Bank/Divulgação
Cartão do Will Bank: braço digital do Banco Master foi liquidado pelo Bacen - Foto: Will Bank/Divulgação

Segundo o BC, a decisão foi tomada após se tornar “inevitável” diante do comprometimento da situação econômico-financeira da instituição, da insolvência e do vínculo de controle com o Banco Master, que entrou em liquidação em novembro de 2025. O Will vinha operando sob Regime Especial de Administração Temporária após a quebra do Master, numa tentativa de preservar o funcionamento e buscar uma solução de mercado, como venda para outro investidor.


Bloqueio na Mastercard foi o gatilho imediato para liquidação do Will Bank


O BC informou que, em 19 de janeiro, foi constatado o descumprimento da grade de pagamentos no arranjo de pagamentos da Mastercard, seguido do bloqueio da participação do Will no sistema. Na prática, isso levou à suspensão do uso dos cartões e foi apontado como fator decisivo para caracterizar a insolvência e acelerar a liquidação.


A Reuters registrou que a Mastercard suspendeu os cartões do Will por não conformidade com cronogramas de liquidação no arranjo de pagamentos e que, no contexto da crise do conglomerado Master, havia retenções de valores como garantia para cumprir exigências de liquidação.


O que muda para clientes e investidores


Com a liquidação extrajudicial, contas e serviços deixam de funcionar, e o cliente perde o acesso imediato a transferências, cartões e novos contratos. O correntista vira credor no processo de liquidação, e os pagamentos passam a depender do trabalho do liquidante e das garantias aplicáveis.


Depósitos e alguns investimentos têm cobertura do Fundo Garantidor de Créditos, com limite de até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, por instituição, respeitando as regras do fundo para conglomerados financeiros. A Reuters informou que cerca de R$ 6,3 bilhões mantidos no Will seriam elegíveis para cobertura do FGC, num momento em que o fundo já foi pressionado pelos desembolsos relacionados ao Banco Master.


O Banco Central também apontou que uma das medidas previstas na liquidação é a indisponibilidade de bens de controladores e ex-administradores, mecanismo que busca proteger credores enquanto se apuram responsabilidades.


Dívidas não somem e golpes costumam aparecer


É preciso ressaltar que a liquidação extrajudicial não apaga débitos: empréstimos, financiamentos e faturas continuam válidos, apenas mudam de administração, que passa ao liquidante ou a eventual instituição que assuma parte das operações. Também há alerta para tentativas de golpe: a orientação é acompanhar apenas comunicados oficiais do Banco Central, do liquidante e do FGC, lembrando que o FGC não cobra taxas para pagar garantias.


No fim das contas, a liquidação é aquele tipo de notícia que ninguém quer ler no aplicativo do banco, e que o banco definitivamente não quer ver virar notificação em massa.

 
 
 

Por Raul Silva para O estopim | 21 de janeiro de 2026


A cofundadora e vice-presidente do Instituto Maria da Penha, Regina Célia Barbosa, afirmou que o país vive um processo de “naturalização” do feminicídio, mesmo às vésperas de 20 anos da Lei Maria da Penha, sancionada em 2006 e considerada um marco no enfrentamento à violência doméstica e familiar. A avaliação foi feita em entrevista publicada pela Agência Pública nesta semana, em um momento em que os números de mortes de mulheres seguem altos e a resposta do poder público é apontada como insuficiente.


Regina Célia Barbosa é vice-presidente do Instituto Maria da Penha — Foto: Reprodução/TV Globo
Regina Célia Barbosa é vice-presidente do Instituto Maria da Penha — Foto: Reprodução/TV Globo

feminicídio

Dados recentes reforçam o alerta. A 19ª edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública registrou 1.492 feminicídios em 2024, novo recorde da série histórica monitorada desde 2015, o que mantém a média de cerca de quatro mulheres mortas por dia em crimes motivados por gênero. O levantamento também indica que a maioria das vítimas era negra, tinha entre 18 e 44 anos, e foi morta por companheiro ou ex-companheiro, frequentemente dentro de casa.


No início de janeiro, o governo federal voltou a tratar o tema como prioridade ao instituir o Dia Nacional de Luto e de Memória às Mulheres Vítimas de Feminicídio, fixado em 17 de outubro. Na mesma comunicação, o Planalto citou dados do Sinesp e do Mapa da Segurança Pública 2025, apontando milhares de ocorrências acumuladas na última década e reiterando a dimensão do problema.


Apesar de avanços legislativos, Barbosa sustenta que endurecer penas não basta sem política pública efetiva e capilarizada. Em 2024, entrou em vigor a Lei 14.994, que transformou o feminicídio em tipo penal autônomo e elevou a pena para 20 a 40 anos de reclusão, entre outras medidas do chamado “pacote antifeminicídio”. Para a vice-presidente do Instituto, o gargalo continua na prevenção e na rede de proteção, com falhas de articulação entre União, estados e municípios, além de estrutura e atendimento que não acompanham o volume de denúncias.


Na entrevista, ela defende que a Lei Maria da Penha já prevê uma política integrada, envolvendo segurança, saúde, educação e assistência social, com profissionais qualificados e rede de acolhimento que funcione na prática. O “descompasso”, nas palavras dela, aparece quando a mulher denuncia, mas encontra demora, falta de estrutura, ou respostas que não impedem a escalada da violência, inclusive em situações que envolvem medidas protetivas.


Outro ponto destacado é a pressão e a desinformação direcionadas a ativistas e símbolos da legislação. A Pública lembra que investigações apontaram o uso de documento falso em um documentário da produtora Brasil Paralelo para atacar Maria da Penha e desacreditar a lei, em um contexto de ataques online e campanhas de descrédito.


Como buscar ajuda e denunciar


Em situações de risco imediato, a orientação é acionar a Polícia Militar pelo 190. Para informações, acolhimento e encaminhamento de denúncias, o governo federal mantém a Central de Atendimento à Mulher, o Ligue 180, que orienta sobre direitos e indica serviços da rede de atendimento.


Se tem algo que não pode virar rotina é a manchete de mais uma mulher morta. Normalizar isso é dar “ctrl+c” na barbárie e “enter” na impunidade social.


 
 
 

Por Raul Silva para O estopim | 21 de janeiro de 2026


Porto Alegre/São Paulo — Em um início de 2026 marcado por disputas sobre o que é real, o escritor Jeferson Tenório afirma que a literatura oferece um tipo de leitura do mundo que escapa da pressa e da simplificação. “A ficção… devolve [a realidade] de uma maneira mais lúcida”, diz o autor, ao defender que romances e contos conseguem mapear afetos, contradições e complexidades que o debate público frequentemente atropela.


A declaração integra a entrevista que abre a temporada 2026 do podcast Pauta Pública, da Agência Pública, cujo tema é “Diálogos para entender o que é real”. No episódio, Tenório discute a dificuldade contemporânea de distinguir informação, invenção e conteúdos deliberadamente falsos, em um ambiente em que narrativas circulam com força de fato e em que tecnologias ampliam a velocidade e a escala dessa confusão.


O escritor Jeferson Tenório | Imagem: Reprodução
O escritor Jeferson Tenório | Imagem: Reprodução

Literatura como antídoto contra a indiferença


Para o escritor, a literatura opera em outro ritmo: permite observar eventos e crises “saindo do calor da hora”, chamando o contraditório e evitando respostas automáticas. A aposta, segundo ele, é menos a “análise fria” e mais uma investigação subjetiva, capaz de revelar como violência, desigualdade e medo atravessam corpos e relações.


Na conversa, Tenório também conecta o cenário global de escalada de tensões à própria ideia de política como linguagem para evitar violência, e alerta para a normalização do conflito como método. Nesse contexto, ele sustenta que a literatura pode funcionar como uma forma de resistência: ao recusar a indiferença diante do sofrimento do outro, ela reafirma um pacto básico de humanidade.


Da leitura tardia ao romance como “demora”


Tenório relata ainda um percurso pessoal que atravessa sua obra: ele se define como um leitor tardio, que só se aproximou da ficção mais velho, e descreve a descoberta dos livros como algo quase obsessivo. O processo de escrita, conta, costuma ser longo, feito de maturação: primeiro nasce a história, depois os personagens irradiam suas relações com o mundo, até chegar o momento de sentar e escrever.


“De Onde Eles Vêm” e o “direito ao encanto”


No episódio, o autor fala também de “De Onde Eles Vêm” (Companhia das Letras, 2024), romance centrado em Joaquim, jovem negro e periférico que ingressa na universidade por políticas de ação afirmativa e enfrenta, ao mesmo tempo, hostilidade e fascínio pelo ambiente acadêmico. Para Tenório, a história toca no “direito ao encanto”, o direito de pessoas negras e pobres se aproximarem da arte e da literatura sem culpa, e no direito de escolha, historicamente negado a amplas parcelas da população.


Reconhecimento e disputas em torno de “O Avesso da Pele”


A entrevista também recoloca em evidência a trajetória de Tenório como um dos nomes centrais da literatura brasileira recente. Seu romance “O Avesso da Pele” venceu o Prêmio Jabuti de 2021 na categoria Romance Literário e se consolidou como uma obra referência em debates sobre racismo, violência e estrutura social no Brasil.


Nos últimos anos, porém, o livro também foi alvo de controvérsias e tentativas de retirada de escolas em estados como Paraná, Goiás e Mato Grosso do Sul, episódio que reacendeu discussões sobre censura, mediação pedagógica e circulação de obras literárias na educação pública.


Ao estrear o Pauta Pública de 2026, Tenório volta ao ponto central de sua fala: num tempo em que a realidade parece cada vez mais “disputada”, a literatura não resolve o mundo, mas pode ajudar a lê-lo melhor. E, convenhamos, em certas semanas, ler melhor já é quase um ato revolucionário.

 
 
 
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