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Por que as massas aceitam sua própria opressão? A resposta não está na violência — está em um sistema sofisticado de manipulação que convence os explorados de que a ordem estabelecida é natural, inevitável e até desejável.


Por Raul Silva para O estopim | 06 de janeiro de 2026

Raul Silva é escritor, jornalista e especialista em Ciência Política. Professor de Língua Portuguesa e especialista em Literatura, escreve semanalmente no portal O Estopim sobre política, história, sociedade e cultura — com compromisso com os fatos, a democracia e a ética no debate público.


O sistema que não parece sistema


Se alguém disse a você que as elites brasileiras usam um único instrumento de controle — um partido, uma emissora, um algoritmo — você provavelmente duvidaria. E teria razão em duvidar. O que existe é algo muito mais sofisticado: uma arquitetura integrada de dominação onde cada componente alimenta e valida os outros, criando um ciclo praticamente impossível de romper.


Este sistema não governa apenas através da força. Governa através do consentimento. Faz as massas acreditarem que aquilo que as oprime é aquilo que as liberta.


A história da concentração de mídia no Brasil é exemplar. Dez conglomerados controlam a maioria dos veículos de comunicação do país. Mas isto não é meramente um problema econômico. É um problema político, simbólico e histórico. Aqueles que controlam estes meios controlam o que você acessa, quais narrativas são legitimadas, quais informações são suprimidas — e fazem isto enquanto fingem ser "jornalismo imparcial".


Durante a ditadura militar, o papel dos meios de comunicação era explícito: executar a vontade do regime. Hoje, o papel é mais sutil, mas fundamentalmente idêntico: gerenciar a realidade política em favor daqueles que já detêm poder econômico. A diferença é que agora a manipulação é tão sofisticada que a maioria nem percebe que está sendo manipulada.


Arquitetura Integrada de Controle Social: Como as Elites Mantêm Dominância
Arquitetura Integrada de Controle Social: Como as Elites Mantêm Dominância 

O Psicopolítica Digital: quando o Algoritmo pensa por você


Os algoritmos das redes sociais não são neutros. São instrumentos deliberados de psicopolítica que operam ao nível da emoção, do inconsciente, da "liberdade vigiada". Você acredita que está escolhendo o que assistir, o que ler, em quem confiar. Mas sua escolha já foi antecipada. Já foi canalizada. Já foi convenientemente oferecida a você pelo algoritmo, em um processo tão invisível que você jura que é livre.


A ilusão é perfeita justamente porque é invisível.


Durante as eleições brasileiras, campanhas políticas pagaram para segmentar mensagens a públicos específicos usando dados psicográficos. Isto não é publicidade convencional. É manipulação emocional em massa, operando em tempo real, ajustando mensagens de acordo com os perfis psicológicos de cada grupo. O resultado é que você recebe uma realidade completamente diferente daquela que seu vizinho recebe — e ambos acreditam estar vendo a "verdade".


Pesquisas revelam que 63% dos brasileiros admitem ter sido influenciados por algoritmos. Apenas 30% reconhecem fazer parte de uma bolha. A ironia é que quanto mais manipulado você está, mais convencido fica de estar livre.


Os robôs amplificam isto. Durante as eleições de 2014, mais de 10% do debate no Twitter era gerado por bots. Minorias organizadas criam a ilusão de consenso popular. A democracia se torna um teatro onde a vontade real das massas é irrelevante.


As Elites, a indústria da Desinformação e o sucateamento intencional da Educação Pública


A desinformação deixou de ser fenômeno episódico. Tornou-se uma indústria global profissionalizada que opera permanentemente no Brasil.


A dinâmica é sofisticada. Um meme falso viraliza nas redes. É replicado por veículos alinhados à direita. É levado a parlamentares que o legitimam em discursos. Finalmente, a "grande mídia" o cobre como notícia. Neste processo, aquilo que começou como mentira organizada é transformado em fato, em realidade política que molda comportamentos e decisões.


Isto não é novo. Mas tornou-se profissional, sistemático e praticamente impossível de contra-atacar.


A pandemia foi um laboratório perfeito. Movimentos antivacina, alimentados por desinformação nas redes, conseguiram reduzir coberturas vacinais no Brasil. A manipulação informacional não é apenas política — ela mata. Grupos evangélicos, conservadores e extremistas utilizam estas plataformas para disseminar desinformação sobre saúde, educação e direitos. Perpetuam ciclos de vulnerabilidade que servem aos interesses das elites.


Dois Caminhos: A Reprodução Intergeracional da Desigualdade no Brasil
Dois Caminhos: A Reprodução Intergeracional da Desigualdade no Brasil

Ao mesmo tempo que criam uma rede de desinformação deliberada, as Elites Políticas e Econômicas buscam acabar com qualquer ferramenta que possa contradizer as fake news recorrentes e veiculadas em massa. Seu principal alvo? A educação pública. O Brasil não sofre de falta de recursos para educação. Sofre de prioridades políticas que escolhem investir em outros setores enquanto a educação é intencionalmente esvaziada.


Desde os anos 1990, observa-se cortes orçamentários substanciais, redução de pessoal docente, deterioração da infraestrutura escolar. Isto não é negligência. É política deliberada.


E aqui reside algo ainda mais perverso: enquanto a educação pública é destruída, surge um fenômeno que parece ser seu oposto, mas na verdade a complementa perfeitamente.



O Influenciador Digital: quando a ignorância virou liberdade


Influenciadores sem formação acadêmica acumulam milhões de seguidores através de conteúdo superficial. Seu discurso é consistente: estude menos, trabalhe por conta própria, fique rico rápido, a CLT é escravidão, educação formal é desnecessária.


Esta narrativa é particularmente apelativa para jovens pobres que já enfrentam uma educação pública falida. Oferece-lhes esperança fácil, ainda que falsa. A ironia é que quanto mais pobre é o jovem, menor é sua probabilidade real de sucesso através deste caminho. Ele ainda precisa de capital simbólico, de redes de contato, de conhecimento técnico — coisas que a educação formal fornece, mas que o influenciador nunca vai mencionar.


O discurso antieducação não é apenas alienação. É alienação sofisticada: faz você acreditar que está sendo libertado enquanto está sendo encarcerado. Faz você atacar sindicatos, rejeitar direitos trabalhistas, celebrar precarização — tudo porque foi convencido de que isto é progresso, liberdade, força.


A geração mais conectada também é mais alienada
A geração mais conectada também é mais alienada

Capital Cultural: a barreira invisível


Pierre Bourdieu ajuda a entender isto. O conceito de capital cultural revela algo que a ideologia dominante prefere esconder: a desigualdade educacional não é mérito. É herança.

Uma criança nascida em uma família de professores, rodeada de livros, com conversas sobre filosofia e política ao redor da mesa — possui capital cultural vastamente superior ao de uma criança cuja família nunca completou o ensino médio, que não possui livros, cuja conversa é dominada pela luta pela sobrevivência.


Quando estas duas crianças chegam à escola, aquela com maior capital cultural já está predestinada ao sucesso. Seu modo de falar é o modo da escola. Seus interesses são os interesses da escola. A outra criança, mesmo inteligente, enfrenta uma barreira invisível mas intransponível.


E aqui está o crime: a escola toma isto como evidência de falta de aptidão. Transforma uma barreira estrutural em um atributo individual. Assim, a desigualdade é legitimada como natural, como mérito.


O ciclo fechado: a reprodução geracional da Miséria Intelectual


O resultado de todos estes mecanismos é um sistema quase hermético onde:


  • Uma criança pobre nasce em um Brasil onde sua escola é sucateada, onde seu capital cultural é desvalorizado, onde a mídia a convence de que educação não importa, onde os algoritmos a radicalizam, onde a religião a conforma, onde o mercado de trabalho a explora.

  • Uma criança rica nasce em um Brasil onde tudo é invertido. Sua escola é excelente, seu capital cultural é o padrão, a mídia a inspira, os algoritmos a educam, a religião a legitima, o mercado de trabalho a premia.

  • E quando uma criança pobre, através de esforço sobre-humano, consegue vencer todos estes obstáculos? Frequentemente encontra um ambiente universitário onde ainda não pertence — onde seus pares são majoritariamente ricos, onde há violências simbólicas sutis que a fazem sentir-se estranha.

  • As cotas, ainda que importantes e necessárias, não resolvem este problema fundamental. Apenas permitem que uma minoria escape do ciclo. O ciclo permanece intacto.


A Religião como arma: o Inconsciente Coletivo sob ataque


A religião, historicamente utilizada para manter a população conformada, experimentou um ressurgimento de influência política. A bancada evangélica não apenas legisla sobre temas morais — pauta a política do país, frequentemente em contradição com direitos humanos e democracia.


Pastores chegam a pressionar fiéis para votarem em determinados candidatos, ameaçando que quem vote diferente "não é cristão". A religião, que deveria ser assunto privado em um Estado laico, tornou-se uma ferramenta de controle estatal e de manipulação de comportamento político em massa.


O controle ideológico é tão efetivo porque não é percebido como controle. Funciona ao nível do inconsciente, da fé, do inefável. Pessoas se recusam a questionar porque as convicções religiosas definem identidade. Quando a política se dissolve na religião, torna-se impossível criticar uma sem criticar a outra.


Mas e o controle unificado (político-religioso) acabar tornando-se difícil de manter, descobriu-se algo mais efetivo: controle através da fragmentação.


Os algoritmos recompensam extremismo porque extremismo produz engajamento. Conteúdo radical viraliza mais que conteúdo moderado. Resultado: pessoas são progressivamente radicalizadas, movem-se para posições extremas, isolam-se em bolhas onde todos pensam igual, tornam-se incapazes de diálogo.


Isto serve perfeitamente aos interesses das elites: uma população fragmentada em células antagônicas é incapaz de se unificar contra seus opressores. Enquanto esquerda e direita brigam entre si, a elite concentra ainda mais riqueza e poder.



A Hegemonia como consentimento: o segredo da Dominação perfeita


O que torna o sistema de dominação das elites brasileiras tão efetivo é que ele operacionaliza a hegemonia cultural em seu sentido mais gramsciano. Não governa apenas através da força — governa através do consentimento. Faz a população acreditar que a ordem atual é a única possível, a mais natural, até desejável.


Transforma privilégio em mérito. Desigualdade em oportunidade perdida. Exploração em liberdade de empreender.


Nenhum destes elementos opera isoladamente. Formam um sistema integrado e auto-reforçador onde cada elemento alimenta e valida os outros.


  • A educação pública sucateada torna atraente o discurso do influenciador antieducação.

  • Os algoritmos amplificam este discurso para crianças pobres.

  • A mídia concentrada legitima esta narrativa.

  • A religião a absorve e a santifica.

  • O mercado de trabalho a confirma através da precarização.

  • Cada ciclo geracional reproduz isto com maior intensidade.


Juntos, criam uma realidade onde o pobre internaliza sua pobreza como fracasso pessoal. Onde o trabalhador celebra sua exploração como liberdade. Onde o ignorante rejeita o conhecimento como arrogância de elite.


O Intelectual Orgânico da classe trabalhadora: o caminho necessário


Gramsci observou que as classes subalternas, quando não possuem sua própria intelectualidade orgânica, absorvem a ideologia das classes dominantes. Isto é exatamente o que vemos no Brasil contemporâneo.


A superação desta arquitetura de dominação requer não pequenas reformas, mas transformação estrutural — na propriedade dos meios de comunicação, na educação pública, na distribuição de recursos, nas relações de poder.


Exige aquilo que Gramsci chamava de "reforma intelectual e moral": a construção de uma contra-hegemonia onde as classes trabalhadoras e populares desenvolvem seus próprios intelectuais orgânicos, sua própria narrativa, sua própria visão de mundo que desafie a ordem estabelecida.


Enquanto isto não ocorre, o sistema permanece inabalável, reproduzindo-se a cada geração, capturando consciências através de múltiplos vetores, fragmentando potenciais unidades de resistência, e convertendo estruturalmente as vítimas em defensoras da própria opressão.


O estopim que precisamos acender não é um comercial de chinelos. É a tomada de consciência de que cada estrutura que nos rodeia — cada algoritmo, cada coluna de jornal, cada canal religioso, cada decisão educacional — foi desenhada para nos manter onde estamos. E que a primeira revolução acontece quando recusamos acreditar que isto é inevitável.

 
 
 
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