Quando o governo humilha professores, a governadora já falou
Opinião de Helena Valente para O estopim | 11 de abril de 2026

Há uma tentativa recorrente, quase automática, de salvar autoridades políticas de episódios moralmente desastrosos com um truque velho da linguagem institucional: separar o poder da sua própria voz. Quando o escândalo explode, começam as manobras de assepsia. Diz-se que não foi a governadora, foi a Procuradoria. Não foi o governo, foi uma peça técnica. Não foi uma posição política, foi uma formulação jurídica. Não foi desprezo, foi apenas excesso retórico. Essa operação de limpeza verbal tem uma função muito precisa: arrancar do poder a responsabilidade pelo que o poder diz quando se sente contrariado.
Mas essa separação é falsa. E é falsa não apenas politicamente. Ela é falsa do ponto de vista do discurso, da hierarquia do Estado e da própria lógica do governo. Quando agentes públicos investidos na função de defender judicialmente os atos do Executivo humilham professores, quem se manifesta ali não é um indivíduo privado, descolado do mundo. É a máquina estatal em atuação. E, quando a máquina estatal fala, ela fala sob o comando político de quem governa. Em Pernambuco, isso tem nome: Raquel Lyra.
É nesse ponto que a discussão precisa ser recolocada com mais honestidade e menos conveniência. A pergunta central não é se a governadora digitou ou não digitou a expressão ofensiva. Essa é uma pergunta burocraticamente útil e politicamente infantil. A pergunta séria é outra: pode uma governadora ser considerada politicamente alheia à humilhação praticada por órgãos que trabalham diretamente para sustentar juridicamente o seu governo? A resposta, em qualquer leitura minimamente consistente de responsabilidade política, é não.
A governadora talvez não tenha formulado pessoalmente a frase. Mas isso não a desobriga. Ao contrário. É precisamente por não governar sozinha, por exercer poder por meio de estruturas, cargos, assessorias, secretarias, procuradorias e aparatos institucionais, que sua responsabilidade se amplia. O poder moderno não se exerce apenas pela fala direta do chefe. Ele se exerce pela fala autorizada dos que falam em seu nome, sob sua autoridade e para defender seus interesses administrativos e políticos. Em estruturas de governo, a cadeia de comando não desaparece porque a frase veio por escrito ou porque saiu de um órgão técnico. Ela se materializa justamente nisso.
Por isso, quando professores são retratados com deboche por uma instância do Estado encarregada de defender o governo, não estamos diante de um mero desvio de linguagem. Estamos diante de um sintoma. Um sintoma de ambiente político. Um sintoma de cultura administrativa. Um sintoma de uma forma de enxergar os professores não como sujeitos de direito, mas como incômodo. E ambientes políticos não nascem sozinhos. Eles são formados, tolerados, cultivados ou, no mínimo, não interrompidos pelo comando superior.
É aí que a responsabilidade da governadora deixa de ser apenas abstrata e passa a ser concreta. Porque, numa estrutura hierárquica, o que agentes sob comando dizem publicamente sobre uma categoria profissional não pode ser tratado como capricho individual isolado, principalmente quando o ataque não é um comentário casual, mas aparece no interior de uma atuação institucional, com finalidade política evidente: enfraquecer moralmente a legitimidade de quem reivindica direito. Não se trata só de ofender. Trata-se de enquadrar discursivamente os professores como caricatura, como exagero, como incômodo judicial, como entrave administrativo. Esse tipo de formulação não é neutro. É uma tecnologia de rebaixamento.
Toda violência institucional, antes de se consolidar como prática administrativa, costuma passar pela linguagem. Primeiro se muda o nome das coisas. Depois se distorce a posição moral de quem reivindica. Em seguida se esvazia a legitimidade da demanda. Por fim, a exclusão ou a precarização aparecem como solução racional. É um método conhecido. Quem quer negar o direito à convocação não começa dizendo que quer negar direitos. Começa rebaixando simbolicamente quem cobra esse direito. Chama de exagerado, de oportunista, de frustrado, de problema. O insulto não é ornamento. O insulto prepara o terreno.
É por isso que reduzir esse caso a um problema de “termo inadequado” é, no fundo, proteger o essencial. O problema não é apenas a grosseria. O problema é o projeto discursivo que a grosseria cumpre. Ao ridicularizar professores aprovados que buscam reconhecimento institucional, o Estado desloca a cena. Em vez de se discutir a precarização, a não convocação, a opção por vínculos frágeis e o desprestígio do concurso público, passa-se a discutir o comportamento dos próprios atingidos. Eles deixam de ser apresentados como trabalhadores lesados e passam a ser enquadrados como personagens inconvenientes, quase infantis, supostamente incapazes de aceitar a realidade. É uma operação clássica de poder: transformar a vítima da arbitrariedade em caricatura moral da sua própria reivindicação.
Nesse plano, a governadora não pode se colocar do lado de fora da cena. Porque a cena existe para proteger o governo. A fala institucional não foi produzida contra a vontade do poder. Foi produzida para defender a vontade do poder. Esse é o dado decisivo. A estrutura que humilha professores não está atuando contra o Palácio. Está atuando em favor do Palácio. Está produzindo linguagem de defesa para um governo que precisa justificar administrativamente aquilo que politicamente o expõe. Portanto, dizer que Raquel Lyra nada tem a ver com isso porque não pronunciou a frase é aceitar uma ficção conveniente demais para ser séria.
Em política, há duas formas elementares de responsabilidade. A responsabilidade autoral e a responsabilidade de comando. A primeira recai sobre quem diz ou faz diretamente. A segunda recai sobre quem chefia, autoriza, sustenta, se beneficia e responde pela estrutura que diz ou faz. Governadores quase nunca precisam pronunciar com a própria boca os absurdos que sustentam suas políticas. O aparelho fala por eles. O que distingue um governante responsável de um governante cínico é justamente a forma como reage quando o aparelho revela, em voz alta, aquilo que o poder tentava manter sob verniz institucional.
Se a governadora se cala, o silêncio não é neutro. O silêncio, nesse contexto, funciona como ratificação por conveniência. E esse talvez seja o ponto mais duro de toda a análise. Porque o silêncio posterior não apaga o insulto anterior. Ele o estabiliza. Ele informa à burocracia que não houve excesso intolerável. Informa à categoria que a dignidade do magistério não foi suficiente para provocar correção imediata. Informa à sociedade que professores podem ser publicamente diminuídos por órgãos do Estado sem que o comando político se sinta obrigado a restabelecer o mínimo civilizatório.
Há quem tente refugiar a governadora numa distinção formal entre “governo” e “corpo técnico”. Essa distinção até pode ser útil para a administração de rotinas ordinárias. Mas ela desaba em episódios de violência institucional. Em momentos como esse, a técnica deixa de ser neutra e revela sua função política. A peça jurídica não é um texto de gabinete sem mundo. Ela é um instrumento de contenção de direitos, de blindagem de decisões e de produção de narrativa oficial. A técnica, aqui, não vem depois da política. Ela é política escrita em linguagem administrativa.
E é justamente por isso que esse tipo de agressão tem tanta força simbólica. Porque ele não sai da boca de um provocador qualquer. Sai do interior da linguagem estatal. E a linguagem estatal tem um peso específico. Quando ela ofende, ela não apenas insulta. Ela rebaixa institucionalmente. Ela sinaliza quem merece escuta e quem merece desprezo. Ela distribui dignidade e humilhação conforme a conveniência do poder. Ela ensina, inclusive aos escalões inferiores da administração, qual é o tom permitido contra determinadas categorias. Em outras palavras, ela produz cultura governamental.
Nenhum governo que respeite substantivamente a educação permite que professores sejam tratados dessa forma por quem o representa. Isso não é uma afirmação moral abstrata. É uma constatação sobre o que significa governar. Respeito à educação não se mede apenas em palanque, nem em slogan, nem em cerimônia, nem em postagem oficial sobre valorização docente. Respeito à educação se mede também no vocabulário que o Estado usa quando os professores deixam de ser foto e viram conflito. É nesse instante que cai a maquiagem do discurso público. É nesse instante que aparece o que o poder realmente pensa sobre quem educa.
Por isso, a tentativa de dissociar Raquel Lyra da humilhação dirigida aos professores é menos uma defesa jurídica do que uma operação de blindagem simbólica. Busca preservar a figura da governadora da contaminação moral produzida por sua própria máquina. Mas, no plano da responsabilidade política, essa descontaminação não se sustenta. Quem ocupa a chefia do Executivo responde, sim, pelo teor das agressões produzidas em nome do seu governo. Responde porque nomeia, responde porque comanda, responde porque se beneficia da atuação desses órgãos, responde porque tem dever de correção e responde, sobretudo, porque poder sem responsabilidade vira apenas covardia hierárquica.
A dureza desse diagnóstico não decorre de exagero verbal. Decorre da própria natureza do caso. Professores não foram tratados com descuido acidental. Foram enquadrados por um discurso que busca diminuir sua estatura cívica, enfraquecer sua legitimidade e preparar a opinião pública para aceitar que sua reivindicação não seja vista como direito, mas como inconveniência. Isso é grave em qualquer área. Na educação, é ainda mais revelador. Porque expõe uma contradição central de governos que se dizem comprometidos com a escola pública, mas permitem que a máquina trate educadores como entraves quando esses educadores cobram coerência entre discurso e prática.
Daí a conclusão política inevitável. Mesmo que a frase ofensiva não tenha sido pronunciada diretamente por Raquel Lyra, ela já foi dita pelo seu governo. E, quando o governo diz, a governadora já falou. Não no sentido literal da autoria material, mas no sentido real do poder. Falou porque foi sua estrutura que falou. Falou porque foi em sua defesa que se falou. Falou porque a linguagem usada pertence ao campo de ação do Estado que ela chefia. Falou, enfim, porque ninguém assume o bônus do mando e terceiriza, quando convém, a brutalidade produzida pela própria engrenagem.
Se quiser romper com isso, a governadora tem um caminho simples e inequívoco: repudiar publicamente o conteúdo, restabelecer a dignidade institucional violada e reconhecer que professor não pode ser alvo de deboche por parte de quem age em nome do Estado. Qualquer resposta menor do que isso será apenas continuação do problema por outros meios. E qualquer tentativa de se esconder atrás da burocracia confirmará, na prática, aquilo que o episódio já revelou no discurso: quando a educação exige respeito concreto, o poder prefere o aparato ao compromisso.
No fim das contas, é isso que torna o caso tão politicamente devastador. Não é só uma frase. É um retrato. Um retrato de como a linguagem do Estado pode ser usada para deslegitimar professores. Um retrato de como a técnica pode funcionar como máscara da agressão. Um retrato de como a cadeia de comando tenta usufruir da distância entre assinatura e responsabilidade. E, acima de tudo, um retrato de uma verdade que governos detestam admitir: toda vez que a máquina humilha, o comando já está implicado.
O estopim — O começo da notícia!
Acesse o nosso perfil no Instagram e veja essa e outras notícias: @oestopim_ & @muira.ubi
Helena Valente é repórter especial e analista de Educação de O estopim, com foco em políticas públicas, trabalho docente, financiamento educacional e desigualdades estruturais que atravessam a escola pública brasileira.
8.png)
