Pesquisa Genial/Quaest mostra que a disputa não é apenas sobre indicadores, mas sobre bolso, percepção e bloqueio político
Por Raul Silva para O estopim | Cobertura especial das Eleições 2026
15 de julho de 2026

A pesquisa Genial/Quaest de julho de 2026 mostra um paradoxo central para o governo Lula: 51% dos entrevistados dizem que o presidente não merece mais quatro anos, enquanto 45% afirmam que sim. O dado aparece em um cenário de melhora parcial na aprovação, empate entre avaliações positiva e negativa e avanço de políticas sociais e econômicas, mas também de forte percepção de perda no poder de compra, alimentos caros e dificuldade para transformar medidas de governo em sensação concreta de melhora. A pesquisa ouviu 2.004 pessoas entre 10 e 13 de julho, com margem de erro de 2 pontos percentuais e 95% de confiança.
O dado dos 51% não pode ser lido isoladamente. Na mesma rodada, a aprovação do governo Lula aparece em 48%, contra 47% de desaprovação. A avaliação positiva e a negativa estão empatadas em 36%, com 26% classificando o governo como regular. Ou seja, há desgaste, mas não colapso.
A tendência também importa. Em junho, 55% diziam que Lula não merecia mais quatro anos. Em julho, o índice caiu para 51%. O “sim” subiu de 41% para 45%. O governo segue pressionado, mas há movimento na margem.
A pergunta, portanto, não é apenas por que tanta gente rejeita mais um mandato. É por que uma parte do país reconhece entregas do governo e, ainda assim, não transforma isso em disposição de continuidade.
A explicação mais forte está na vida concreta. O Brasil pode ter bons indicadores em áreas importantes, mas a população mede governo no supermercado, no aluguel, na conta de luz, no emprego disponível e no cartão de crédito.
Segundo o IBGE, a taxa de desocupação ficou em 5,6% no trimestre encerrado em maio de 2026, abaixo dos 6,2% registrados no mesmo trimestre de 2025, e o rendimento real habitual chegou a R$ 3.726. O dado confirma um mercado de trabalho aquecido.
Mas a percepção captada pela Quaest vai em outra direção: 66% dizem que os alimentos subiram no último mês, 68% afirmam que o poder de compra está menor do que há um ano e 53% dizem que está mais difícil conseguir emprego hoje do que há 12 meses.
Esse choque entre indicador e sensação é decisivo. A política pública melhora o quadro geral, mas a inflação sentida no prato e o endividamento corroem a confiança antes que o ganho apareça como melhora de vida.
O governo tem entregas que dialogam com a base popular. A ampliação da isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil foi sancionada em 2025, com descontos para rendas até R$ 7.350 e maior tributação sobre altas rendas.
Mesmo assim, na pesquisa, 65% dizem que não foram beneficiados pela nova isenção. Entre os que foram beneficiados, 39% afirmam não ter sentido diferença na renda e 35% dizem que a renda aumentou, mas não muito.
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Esse é o ponto político central: uma medida pode ser correta, progressiva e socialmente justa, mas não render apoio se não for percebida como mudança direta. A esquerda governa sob um desafio antigo, que é transformar política pública em experiência sentida.
A análise também passa pela correlação de forças. O governo Lula não governa com um Congresso naturalmente alinhado. A composição da Câmara mostra um bloco amplo de centro e centro-direita com 273 deputados, além de uma bancada do PL com 97 parlamentares, enquanto a Federação Brasil da Esperança, que reúne PT, PCdoB e PV, aparece com 81 deputados.
Isso significa que cada avanço passa por negociação, concessão, atraso ou bloqueio. Para setores da esquerda, esse Congresso atua como inimigo das pautas populares porque segura medidas redistributivas, amplia barganhas e transfere custos políticos ao Executivo.
O problema é que a população, em geral, não separa responsabilidades institucionais. Quando uma promessa demora, chega menor ou não chega, a cobrança recai sobre o presidente. O Congresso bloqueia, mas quem paga a conta simbólica é o governo.
A pesquisa mostra que a rejeição a mais quatro anos de Lula é quase total no campo bolsonarista e muito alta entre eleitores de direita não bolsonarista. Entre bolsonaristas, 96% dizem que Lula não merece continuar. Entre eleitores de direita não bolsonarista, o índice é de 91%.
O dado mais importante está entre os independentes. Nesse grupo, 54% dizem que Lula não merece mais quatro anos e 38% dizem que merece. Houve melhora em relação às rodadas anteriores, mas o governo ainda perde no segmento que costuma decidir eleição.
Esse quadro mostra que o problema não está apenas na oposição organizada. Está também no eleitor que não se identifica com Lula nem com Bolsonaro e avalia o governo pela sensação de estabilidade, renda e futuro.
Outro fator é a disputa de narrativa. A Quaest mostra que 40% dizem ter visto notícias mais negativas sobre o governo Lula, contra 34% que dizem ter visto notícias mais positivas. As redes sociais e a TV seguem como fontes centrais de informação política.
Isso não significa que a percepção negativa seja fabricada do nada. Significa que problemas reais ganham interpretação política em um ambiente de comunicação fragmentada, com oposição ativa, desinformação, guerra cultural e baixa paciência social.
A direita disputa a frustração cotidiana com linguagem simples. A esquerda, muitas vezes, responde com dado técnico. O dado pode estar correto, mas nem sempre vence a experiência de quem sente que o dinheiro acaba antes do mês.
O que acontece agora
O resultado da Quaest não encerra a disputa de 2026. Ele mostra que Lula segue competitivo, mas com um alerta evidente: a aprovação do governo não basta se parte da população acha que a melhora não chegou à sua casa.
A tarefa política colocada ao campo progressista é dupla. De um lado, defender avanços concretos diante de um Congresso conservador e de uma oposição que trabalha pelo desgaste permanente. De outro, reconhecer que a população não vota apenas por balanço macroeconômico, mas pela sensação de dignidade, renda, comida, tempo livre e futuro.
Se o governo conseguir transformar entregas em percepção de melhora, o número dos 51% pode recuar. Se a vida continuar parecendo mais cara do que os anúncios oficiais sugerem, a pergunta sobre “merecer mais quatro anos” seguirá como o centro da eleição.
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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo do portal O estopim. Atua com análise política, apuração de interesse público e jornalismo digital voltado à compreensão das causas e consequências dos fatos.
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