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Lançamento previsto para esta quinta-feira, na UFPE, integra a Semana da Água 2026 e reúne dados de 352 pluviômetros em Pernambuco, além de estimativas para cobrir falhas históricas de medição


Por Clara Mendes para O estopim | 19 de Março de 2026


A Agência Pernambucana de Águas e Clima (Apac) lança nesta quinta-feira (19), no Recife, uma nova ferramenta de monitoramento das chuvas e o Banco Estadual de Precipitação Preenchida de Pernambuco, iniciativa que promete ampliar a capacidade do Estado de acompanhar a ocorrência de chuva em tempo quase real e de reconstruir séries históricas com falhas de registro para planejamento e gestão de risco.


Prédio da SEMOBI e APAC com fachada de tijolos e placa, cercado por arame. Céu azul com nuvens e vegetação ao redor. Ambiente urbano.
Fachada da Agência Pernambucana de Águas e Clima (Apac) no Recife, destacando o edifício moderno e suas instalações.| Foto: Reprodução/WhatsApp

A apresentação está prevista para ocorrer na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), dentro da programação da Semana da Água 2026, que neste ano adota o tema “Água e Gênero”, alinhado ao mote proposto pela ONU para o Dia Mundial da Água, celebrado em 22 de março.



O que muda com a nova ferramenta da Apac


A Apac mantém hoje uma rede de 352 pluviômetros, entre equipamentos convencionais e automáticos, instalados e em funcionamento em Pernambuco. Segundo a agência, todos os 185 municípios do estado têm pelo menos uma estação de chuva, e áreas com maior densidade urbana, como a Região Metropolitana do Recife (RMR), concentram mais equipamentos para registrar a precipitação.


Na prática, a rede é usada para acompanhar acumulados de chuva e subsidiar decisões de rotina e de emergência, como avisos de risco hidrológico e geológico, além de ações de órgãos municipais e estaduais de Defesa Civil.


O novo pacote anunciado pela Apac inclui uma camada adicional: além de mostrar a chuva medida, o Banco Estadual de Precipitação Preenchida busca reduzir o “buraco” de informação quando uma estação falha, fica fora do ar ou quando séries históricas têm lacunas que dificultam análises de tendência e modelagem hidrológica.


Banco estadual de precipitação preenchida


A proposta do Banco Estadual de Precipitação Preenchida é organizar, de forma sistematizada, registros de chuva medidos no estado e incluir estimativas calculadas para preencher falhas nas séries temporais. O objetivo, de acordo com a programação da Semana da Água, é dar mais consistência a bases usadas em estudos, planos de contingência e políticas de recursos hídricos.


Na programação oficial divulgada para o evento, o banco aparece como um dos destaques da semana, com lançamento marcado para o dia 19 na UFPE.


Como a chuva “estimada” entra no mapa


Séries de precipitação costumam ter falhas por interrupções de energia, panes de sensores, problemas de transmissão ou manutenção. Quando isso acontece, uma estação pode ficar dias sem registrar ou transmitir dados. Em análises climatológicas e em simulações hidrológicas, essas lacunas distorcem médias, extremos e cálculos de volume acumulado.


Uma saída é usar métodos de preenchimento de falhas que combinam dados de estações vizinhas, topografia e padrões históricos. No caso de Pernambuco, um estudo publicado em 2025 na Revista Brasileira de Geografia Física descreve uma proposta de preenchimento automático de falhas de precipitação para o sistema SWAT/SUPer usando inteligência artificial, chamada SUPer-FILL.


O artigo descreve o uso de um método de aprendizado de máquina do tipo Cubist combinado com uma técnica de correção de viés estatístico (QMap) para estimar valores de chuva e tornar séries mais completas em uma bacia piloto.


Embora a Apac não tenha detalhado publicamente, até a conclusão desta matéria, o método exato adotado no Banco Estadual de Precipitação Preenchida, a referência direta ao SUPer-FILL no ecossistema de pesquisa de Pernambuco e o anúncio do banco no mesmo ciclo da Semana da Água indicam a convergência entre gestão pública e produção acadêmica na tentativa de reduzir incertezas em dados meteorológicos.


Por que isso importa em um cenário de extremos


O Brasil vive uma escalada na frequência e no impacto de desastres relacionados à chuva, como enxurradas, inundações e deslizamentos. No Relatório Anual “Estado do Clima no Brasil 2025”, o Cemaden aponta que as chuvas foram responsáveis por 86% das mortes registradas em desastres climáticos no país e que, entre 2020 e 2023, cerca de 8,7 milhões de pessoas ficaram desabrigadas ou desalojadas devido a enchentes.


O mesmo relatório registra que, em 2025, foram enviados 2.505 alertas ao longo do ano, para 1.133 municípios monitorados, e que os eventos registrados em 2025 atingiram diretamente 336.656 pessoas. Na análise do Cemaden, 2022 é citado como um ano de desastres de grande porte, com grande número de fatalidades em Recife (PE) e Petrópolis (RJ), e 2023 e 2024 aparecem associados a condições oceânicas e atmosféricas que favoreceram extremos de chuva.


Nesse contexto, sistemas de monitoramento em escala estadual e bases históricas mais completas são apontados por pesquisadores e órgãos de defesa civil como peça central para antecipar risco, calibrar alertas e orientar decisões de infraestrutura.


Pernambuco: rede de dados e leitura do território


Pernambuco tem 9.058.931 habitantes, segundo o Censo 2022, de acordo com o IBGE. Em um estado com litoral densamente urbanizado e extensas áreas de semiárido, a variabilidade da chuva é um fator que afeta desde o abastecimento até a ocorrência de enxurradas rápidas.


A Apac já vinha ampliando a oferta de informação de clima e chuva com bases públicas. Um exemplo é o Atlas Climatológico de Pernambuco, elaborado com dados de 24 estações meteorológicas e 213 estações pluviométricas, em parceria com instituições como o IPA e o Inmet, cobrindo as normais climatológicas de 1991 a 2020.


Além do atlas, a agência mantém páginas com climatologia média por município e explicações sobre leitura de acumulados de precipitação, que são usadas por cidadãos, imprensa, pesquisadores e gestores.


O que será apresentado na UFPE


Até a publicação desta matéria, a Apac não havia divulgado um documento técnico completo com especificações do Banco Estadual de Precipitação Preenchida, nem um manual público da ferramenta de monitoramento anunciada.


O evento, porém, foi divulgado como lançamento do banco e integra uma semana que reúne atividades de debate e formação, incluindo iniciativas sobre eventos extremos e mudanças climáticas. O estopim procurou a Apac para solicitar detalhes sobre: quais bases alimentam o banco, qual método de preenchimento será adotado, como o público e pesquisadores poderão acessar os dados, e se haverá integração com plataformas já existentes da agência.


O lançamento ocorre em meio a um período de maior pressão sobre sistemas de alerta e monitoramento no país. No relatório do Cemaden, 2022 aparece como ano de desastres de grande porte com fatalidades em Recife, e o documento aponta a intensificação de riscos em áreas urbanas vulneráveis, onde a chuva extrema se combina com ocupação de encostas e margens de rios.


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Clara Mendes é repórter de hard news e plantonista do portal O estopim, com foco em serviço, dados públicos e cobertura de decisões que impactam o dia a dia.

Atualizado: 18 de mar. de 2025

Por: Raul Silva - Jornalista para Atlas Político do Teoria Literária


Um retrato da crise alimentar sob o governo Raquel Lyra e o papel da literatura na denúncia social


Enquanto 51% dos pernambucanos ganham menos de R$ 500, Raquel Lyra aumentou seu salário para R$ 22 mil
Enquanto 51% dos pernambucanos ganham menos de R$ 500, Raquel Lyra aumentou seu salário para R$ 22 mil

Na obra Vidas Secas, Graciliano Ramos expõe a fome como tragédia cíclica no Nordeste. Quase um século depois, Pernambuco revive esse enredo, mas com um vilão moderno: políticas fiscais que aprofundam a desigualdade. Dados oficiais revelam que 23,9% dos pernambucanos enfrentam insegurança alimentar grave (Rede Penssan, 2023), enquanto os preços dos alimentos bateram recordes em 2024. Este texto desvenda como decisões do governo Raquel Lyra (PSDB) agravaram a crise e por que a literatura é ferramenta essencial para decifrar essa realidade.


O ICMS E A EQUAÇÃO DO DESESPERO

Em janeiro de 2023, o governo estadual elevou a alíquota do ICMS sobre itens da cesta básica, como arroz (de 7% para 12%), feijão (de 7% para 10%) e óleo de soja (de 12% para 15%). O ICMS, imposto estadual cobrado em cada etapa da cadeia produtiva, impacta diretamente o preço final. Resultado: Pernambuco registrou inflação alimentar de 12% em 2023 (IBGE), contra 9,5% nacionalmente.


Como o imposto estrangula o consumidor?
  • Exemplo 1: O quilo do arroz subiu 18% entre 2022 e 2023 (CONAB), puxado pelo ICMS e pela redução de safras.

  • Exemplo 2: O litro do óleo de soja custa R$ 8,90 em Recife, 23% mais caro que em Fortaleza (Procon-PE), onde o ICMS é menor.


Para economistas da UFPE, a medida ignora a regressividade tributária: “Tributar alimentos essenciais em um estado com 4 milhões de pobres (IPEA) é amplificar a exclusão”, afirma a pesquisadora Maria Fernandes.


O FIM DOS INCENTIVOS: QUANDO O ESTADO VIRA COSTA

Além de aumentar impostos, o governo Lyra extinguiu programas críticos para a agricultura familiar, responsável por 70% dos alimentos consumidos no estado (CONTAG). Entre as medidas:


  1. Corte de subsídios para insumos (sementes, fertilizantes), que caíram 27% em 2023 (IPEA).

  2. Fim da isenção fiscal para transporte de alimentos, elevando custos logísticos em 15% (Associação de Caminhoneiros de PE).

  3. Desmonte do Programa Leite de Todos, que garantia acesso a produtores rurais e famílias carentes.

Impactos na produção:
  • A colheita de feijão de corda, base da dieta local, encolheu 15% (CONAB).

  • Agricultores como José Ricardo, de Vitória de Santo Antão, relatam: “Antes, o governo ajudava com diesel e silos. Agora, só nos resta vender a terra”.


COMPARAÇÃO REGIONAL: POR QUE CEARÁ E BAHIA SOFREM MENOS?

Enquanto Pernambuco optou por austeridade fiscal, estados vizinhos adotaram estratégias opostas:

Política

Pernambuco

Ceará

Bahia

ICMS cesta básica

Até 15%

7%

7%

Incentivo a produtores

Corte de R$ 84 mi

Aumento de R$ 62 mi

Programa Agro+ (R$ 120 mi)

Preço do óleo (R$)

8,90

7,20

7,50

Fonte: Procon Estaduais, 2024


A diferença reflete prioridades: Ceará e Bahia mantiveram estoques reguladores e reduziram tributos durante crises, enquanto PE seguiu o manual do ajuste fiscal.


A VOZ DOS ESPECIALISTAS: “UMA TEMPESTADE PREVISÍVEL”

Para o economista Carlos Freitas (UFPE), a crise é fruto de falta de planejamento e diálogo:“O governo ignorou alertas sobre inflação de alimentos e desmontou redes de proteção. O ICMS elevado foi a gota d’água para produtores já asfixiados por custos de transporte e falta de crédito.”

Já a socióloga Ana Lúcia Souza destaca o simbolismo político:“Assim como Jorge Amado denunciou a exploração no cacau, precisamos denunciar a tributação sobre a fome. É uma violência silenciosa.”


LITERATURA E REALIDADE: A ARTE DE (DES)VELAR A FOME

De Os Sertões a Queimada, a literatura nordestina expõe a fome como projeto de poder. Hoje, não há seca física em Pernambuco, mas uma seca de empatia política. Enquanto o governo Lyra alega “responsabilidade fiscal”, o estado ocupa o 5º lugar no ranking de insegurança alimentar (Rede Penssan).


O que dizem os números?
  • 1,2 milhão de pernambucanos dependem de doações para comer.

  • 48% das crianças menores de 5 anos têm dieta inadequada (UNICEF).


UM CAPÍTULO QUE PRECISA SER REESCRITO

A crise alimentar em Pernambuco não é acidente, mas consequência de escolhas. Reduzir impostos para grandes empresas (como fez o governo em 2023, com isenções de R$ 300 milhões para o setor de combustíveis) enquanto taxa o feijão é priorizar o capital em detrimento da vida.

A literatura, como espelho social, nos convida a questionar: quantos Fabianos (de Vidas Secas) precisarão fugir da fome antes que a política se humanize?


FONTES CONSULTADAS:

  • IBGE (Inflação e pobreza);

  • IPEA (Investimentos agrícolas);

  • CONAB (Produção de alimentos);

  • Procon-PE (Comparação de preços);

  • Rede Penssan (Insegurança alimentar);

  • Estudos da UFPE (Análise tributária).

PARA SABER MAIS:

  • Relatório “Tributação e Fome em PE” (UFPE, 2024);

  • Documentário Prato Vazio (Canal Saúde, 2023).


A literatura não apenas descreve o mundo: ela o interroga. E Pernambuco clama por respostas.🔗 Acesse o Atlas Político para mais análises onde a cultura encontra a política.


Nota metodológica: Dados atualizados em junho/2024. Contextos externos (inflação nacional, clima) foram considerados, mas o foco é o impacto das políticas estaduais, passíveis de intervenção governamental.

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