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Assembleia em Santos (SP) recuou da paralisação prevista para 19 de março, e lideranças marcaram reunião em Brasília para discutir seguros e regras do transporte; diesel disparou com guerra envolvendo Irã.


Por Raul Silva para O estopim | 20 de Março de 2026


Caminhões brancos e vermelhos enfileirados em estrada rural. Braço visível na janela. Paisagem montanhosa ao fundo. Céu azul claro.
A possibilidade de uma greve dos caminhoneiros em 2026 no Brasil levanta preocupações significativas sobre o transporte e abastecimento no país. A mobilização dos caminhoneiros, que já ocorreu em anos anteriores, pode ter consequências profundas para a economia e a logística nacional | Foto: Reprodução/Getty Images

Entidades de caminhoneiros decidiram não deflagrar greve nacional após o governo federal publicar a Medida Provisória (MP) 1.343/2026, que endurece a fiscalização do piso mínimo do frete e impede a emissão do Código Identificador da Operação de Transporte (CIOT) quando o valor contratado ficar abaixo da tabela. A decisão foi tomada em assembleia no Porto de Santos, no litoral de São Paulo, na quinta-feira (19), em meio à alta do diesel.


Segundo a Rádio Nacional, a mobilização pela paralisação ganhou força nas últimas semanas com o aumento do preço do diesel, atribuído a uma escalada de tensão no Oriente Médio envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã. Além do combustível, lideranças do transporte afirmavam que empresas contratantes vinham desrespeitando a tabela do frete mínimo criada em 2018, após a greve que parou o país naquele ano.


A MP publicada em edição extra do Diário Oficial mudou o centro da fiscalização: o controle deixa de depender apenas de abordagens em rodovias e passa a ocorrer na contratação do frete. Pela nova regra, toda operação de transporte rodoviário remunerado de cargas deverá ter CIOT previamente emitido, com dados de contratante, transportador, carga, origem, destino e valor pago, além do piso mínimo aplicável. O CIOT também será vinculado ao Manifesto Eletrônico de Documentos Fiscais (MDF-e), o que permite fiscalização automatizada.


Na prática, se o valor do frete ficar abaixo do piso, o sistema não gera o CIOT e a carga não pode sair da origem. O descumprimento da obrigação de registro do frete no CIOT prevê multa de R$ 10,5 mil por operação.



A MP prevê punições escalonadas para quem contratar reiteradamente abaixo do piso: multas entre R$ 1 milhão e R$ 10 milhões por operação irregular, além de medidas administrativas que podem suspender ou cancelar o Registro Nacional do Transportador Rodoviário de Cargas (RNTRC) de empresas de transporte. Segundo o texto, transportadoras com mais de três autuações em seis meses podem ter o registro suspenso, e, em reincidência, o RNTRC pode ser cancelado, com impedimento de atuação por até dois anos. O governo afirma que as medidas mais severas não se aplicam ao transportador autônomo de cargas (TAC).


A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) tem prazo de sete dias para regulamentar os procedimentos operacionais. Mesmo assim, o governo e a agência afirmam que o núcleo das regras já tem aplicação imediata, por se tratar de medida provisória.

Após a assembleia, o líder Wallace Landim, conhecido como Chorão, da Associação Brasileira dos Condutores de Veículos Automotores (Abrava), disse que representantes do setor vão a Brasília a partir de segunda-feira (23) para discutir emendas ao texto. Entre os temas citados por ele estão seguros, custos de gerenciamento de risco, regras de peso dos caminhões e outros pontos da pauta do transporte.


O presidente do Sindicam, Sindicato dos Caminhoneiros da Baixada Santista, Luciano Santos, afirmou que o cumprimento do piso mínimo é central para a renda do caminhoneiro e defendeu que reajustes no diesel sejam acompanhados de aumento do frete, além de lembrar que o pedágio não deve ser embutido no valor do frete.


Alta do diesel no radar


Dados de levantamentos do setor de combustíveis indicam que o diesel S-10 registrou forte alta no início de março. A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) apontou preço médio nacional de revenda de R$ 6,15 por litro na semana de 1º a 7 de março. Já o Índice de Preços Edenred Ticket Log (IPTL) registrou média de R$ 6,70 por litro na primeira semana de março, alta de 7,72% em relação à última semana de fevereiro, com repasse mais rápido nos postos.


No dia 13 de março, a Petrobras anunciou aumento de R$ 0,38 por litro no preço do diesel vendido às distribuidoras. Reportagens internacionais também apontaram pressão sobre o petróleo e combustíveis com o conflito envolvendo Irã, além de alertas sobre riscos logísticos na importação. No Brasil, cerca de um quarto do diesel consumido é importado, o que aumenta a exposição do mercado doméstico às oscilações externas.


Por que uma greve dos caminhoneiros assusta o abastecimento


O Plano Nacional de Logística (PNL) aponta que as rodovias concentram a maior parte da movimentação de cargas do país. Em 2015, o modal rodoviário respondeu por 65% da produção de transporte medida em toneladas quilômetro útil (TKU), segundo o documento do Ministério dos Transportes. A dependência das estradas explica por que ameaças de paralisação costumam gerar corrida a postos e pressão imediata sobre cadeias de alimentos, medicamentos e insumos industriais.


Do ponto de vista ambiental, o transporte rodoviário também concentra parte relevante das emissões. Inventário nacional publicado pelo Ministério dos Transportes, com ano-base 2024, aponta 270 milhões de toneladas de CO2 emitidas pelo setor rodoviário no ano, com participação de caminhões e ônibus em fatia significativa do total. O levantamento também registra frota pesada de cerca de 2,5 milhões de unidades.


A última grande greve nacional de caminhoneiros, em maio de 2018, levou a desabastecimento em diversas capitais, paralisação de linhas de produção e cancelamentos no transporte aéreo. Estudos e relatórios acadêmicos estimam perdas bilionárias para diferentes setores da economia, com impactos no PIB, inflação e arrecadação. A tabela do piso mínimo do frete foi criada naquele contexto e passou a ser um dos principais pontos de disputa entre transportadores, empresas e governo.


Esta é a segunda vez em menos de uma década que uma alta brusca do diesel coloca a possibilidade de paralisação nacional no radar, em um país cuja logística ainda depende majoritariamente de caminhões para levar alimentos, combustíveis e insumos às cidades.


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Raul Silva é escritor, jornalista e especialista em Ciência Política. Professor de Língua Portuguesa e especialista em Literatura, escreve semanalmente no portal O Estopim sobre política, história, sociedade e cultura — com compromisso com os fatos, a democracia e a ética no debate público.

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