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Por Michael Andrade, da redação de O estopim - Fonte: G1 | 8 de março de 2026


Bombardeios realizados por Israel atingiram depósitos de combustível na capital iraniana, Teerã, na madrugada deste domingo (8), provocando grandes incêndios, deixando ao menos quatro mortos e causando uma forte deterioração da qualidade do ar na cidade. A informação foi divulgada por autoridades locais e por agências internacionais.


Fotógrafos registram espessa fumaça após um ataque de Israel a depósito em Teerã, capital do Irã, no dia 8 de março de 2026 Foto: Majid Asgaripour/Wana/Reuters
Fotógrafos registram espessa fumaça após um ataque de Israel a depósito em Teerã, capital do Irã, no dia 8 de março de 2026 Foto: Majid Asgaripour/Wana/Reuters

Após os ataques, autoridades iranianas orientaram a população a permanecer em casa e evitar atividades ao ar livre, diante do risco de exposição a poluentes tóxicos liberados pelos incêndios. A recomendação foi divulgada pela Agência de Notícias da República Islâmica (IRNA).


Segundo órgãos ambientais do Irã, as explosões atingiram tanques de armazenamento de combustível, liberando substâncias químicas perigosas na atmosfera. Esses poluentes podem se combinar com a água das nuvens e provocar chuva ácida, fenômeno que pode causar irritações na pele, problemas respiratórios e danos ambientais.


A chuva ácida ocorre quando grandes quantidades de poluentes ficam suspensas no ar e acabam se misturando às nuvens carregadas de chuva. Essa reação química altera o nível de acidez da água, tornando-a potencialmente nociva para pessoas, plantas e estruturas urbanas.


De acordo com informações da agência France Presse, ao menos quatro depósitos de petróleo e um centro logístico foram atingidos durante os ataques. Parte da rede de abastecimento da capital foi danificada, o que levou à interrupção temporária da distribuição de combustível em algumas áreas.


As ofensivas também atingiram instalações de armazenamento na cidade de Karaj, localizada a oeste de Teerã.


Desde a noite de sábado, grandes colunas de fumaça foram registradas em diferentes regiões da capital iraniana. Em alguns pontos da cidade, a densidade da fumaça foi tão intensa que moradores relataram que o céu ficou escuro mesmo durante a manhã, fenômeno descrito por autoridades meteorológicas como resultado da mistura entre poluição e cobertura de nuvens.


Segundo a Organização Meteorológica do Irã, a falta de ventos no momento contribuiu para manter os poluentes concentrados sobre a cidade. A previsão é de que rajadas de vento na segunda-feira (9) possam ajudar a dispersar parte da fumaça.


Com cerca de 10 milhões de habitantes, Teerã enfrenta agora problemas simultâneos de poluição do ar e escassez de combustível após os bombardeios.


Dados do Índice de Qualidade do Ar (AQI) da empresa suíça IQAir indicam que a capital iraniana já figura entre as cidades mais poluídas do mundo, ocupando atualmente a 7ª posição no ranking global de poluição atmosférica.


Nas redes sociais, moradores relataram dificuldades para respirar e a sensação de que o dia havia se transformado em noite devido à densa nuvem de fumaça.



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O Estreito de Ormuz, gargalo por onde passam petroleiros e a credibilidade das potências, voltou a ser a linha mais curta entre crise regional e choque global. Ao dizer que os Estados Unidos vão escoltar navios na rota “se necessário”, Donald Trump não está apenas falando de segurança marítima. Está rebatizando a crise como um teste de força e, de quebra, tentando domesticar o preço da energia em casa.


Por Heitor Lemos para O estopim | 3 de Março de 2026


Estreito de Ormuz | Foto: Reprodução/Marine Traffic
Estreito de Ormuz | Foto: Reprodução/Marine Traffic

O presidente Donald Trump afirmou que a Marinha dos EUA pode começar a escoltar petroleiros e navios mercantes no Estreito de Ormuz “se necessário”, em resposta à escalada militar com o Irã e ao travamento da navegação no corredor que liga o Golfo Pérsico ao Mar Arábico. No mesmo pacote, a Casa Branca sinalizou um movimento raro: usar o braço financeiro do governo para oferecer seguro e garantias a embarcações que operem na área, tentando conter a disparada dos custos de frete e de apólices de guerra.


O gesto vem após dias de ataques e incidentes envolvendo navios, com seguradoras cancelando coberturas e dezenas, depois centenas, de embarcações paradas ou ancoradas por risco elevado. Em uma rota por onde circula cerca de um quinto do petróleo do planeta, qualquer ameaça vira combustão imediata nos mercados e transforma diplomacia em estatística de inflação.



Análise de contexto


Por que Ormuz é mais que um estreito


Ormuz não é apenas um mapa. É um chokepoint, um gargalo estratégico onde a geografia faz política. No trecho mais estreito, a passagem é curta e previsível, o que amplia o poder de quem consegue ameaçar o tráfego com meios relativamente baratos.


Do ponto de vista da Realpolitik, o Irã sempre soube que sua vantagem assimétrica não é competir em porta-aviões, mas em:


  • mísseis antinavio e drones

  • minagem em rotas de navegação

  • lanchas rápidas e táticas de saturação

  • ataques indiretos e plausível negação, a zona cinzenta típica de guerra híbrida


Quando Washington fala em escolta, está dizendo que pretende tirar Teerã do conforto da guerra de nervos e levar a disputa para a arena da responsabilidade direta. O problema é que escoltar navios em Ormuz não é operação de vitrine. É missão de desgaste.


A memória curta do Ocidente e a memória longa do Golfo


A ideia de escolta naval tem precedente. Nos anos 1980, durante a fase conhecida como “guerra dos petroleiros”, os EUA rebatizaram navios, montaram comboios e patrulharam o Golfo para manter o fluxo de óleo. A lógica era a mesma de hoje: segurar o mercado e impedir que o conflito regional se convertesse em crise sistêmica.


A diferença é que o tabuleiro mudou.


Naquela década, a disputa era um reflexo do conflito Irã-Iraque e da arquitetura da Guerra Fria. Agora, Ormuz é também um palco do mundo pós-unipolar, onde China, Rússia, BRICS+ e o Sul Global observam cada movimento como um recado sobre quem dita as regras do mar.


O direito do mar como discurso e como arma


Em tese, a passagem por estreitos usados para navegação internacional é protegida pelo princípio de trânsito no direito do mar. Na prática, Ormuz virou uma arena onde o direito internacional é invocado como argumento, mas dobrado pela correlação de forças.


Há uma ironia útil para entender o momento: Estados Unidos e Irã assinam, citam e contestam o direito do mar conforme a conveniência. Teerã assinou, mas não concluiu a ratificação do principal tratado contemporâneo do tema. Washington, por sua vez, opera como se o tratado fosse “costume” quando precisa defender liberdade de navegação, embora também não o tenha ratificado. O resultado é um pântano jurídico perfeito para escaladas.


Os jogadores


Interesses ocultos


Por trás do discurso sobre “livre fluxo de energia”, há interesses muito concretos:


  • Indústria de seguros e resseguros: prêmio de risco é lucro. Crise prolongada aumenta o preço do medo.

  • Trading de commodities: volatilidade é oportunidade para quem opera derivativos e tem informação antes do resto.

  • Complexo industrial-militar: escolta naval exige presença, e presença exige contratos, manutenção, munição, logística.

  • Política doméstica nos EUA: energia cara é veneno eleitoral permanente. “Proteger Ormuz” também é proteger a bomba de gasolina.


A decisão de oferecer seguro estatal e garantias financeiras para a navegação tem cheiro de intervenção que Washington costuma criticar quando vem do Sul Global: socializa o risco para manter o fluxo e evitar que o mercado imponha limites políticos.


O xadrez geopolítico


EUA


O movimento de Trump tenta combinar força e alívio econômico. Ao mesmo tempo, ele admite um dilema: escoltar navios exige escoltar também a narrativa, porque qualquer ataque a um comboio americano cria pressão por retaliação e amplia a guerra.


Irã


Teerã quer provar que consegue impor custo a adversários sem precisar “fechar” Ormuz por decreto. A simples percepção de ameaça já paralisa o tráfego. Para o Irã, isso vale como dissuasão e como moeda de troca.


Israel


No contexto atual, Israel se beneficia quando o foco do debate vira “segurança de rotas” e não o custo humanitário e jurídico da escalada. Ao mesmo tempo, é um risco: a economia global punida por energia cara tende a cobrar saída, não bravata.


Monarquias do Golfo


Os produtores querem exportar, mas temem virar alvo. A promessa de escolta pode ajudar a reabrir rotas, mas também pode transformar infraestrutura e portos em peças ainda mais expostas.


China e o resto da Ásia


Para Pequim, Ormuz é vulnerabilidade estratégica. A China precisa de energia e quer estabilidade, mas também observa se os EUA usam o mar como instrumento de coerção. É o tipo de episódio que alimenta, silenciosamente, a busca por rotas alternativas e por contratos fora do dólar.


Europa


A União Europeia, fragilizada por crises energéticas recentes, tende a repetir o roteiro: defender “liberdade de navegação” e, ao mesmo tempo, correr atrás de suprimentos e estoques.


Impacto no Brasil


O Brasil não está no Golfo, mas Ormuz está no nosso bolso.


  • Combustíveis e inflação: choque no Brent costuma contaminar preços internos, mesmo quando o país exporta petróleo. Pressão de custo chega no diesel, frete e alimentos.

  • Petrobras e arrecadação: alta de preços pode elevar receita e dividendos, mas também aumenta o conflito político sobre repasse ao consumidor e política de preços.

  • Balança comercial e dólar: turbulência eleva aversão a risco, fortalece moeda americana e encarece importações. É o tipo de cenário que castiga o consumo e pressiona juros.

  • Fertilizantes e logística: com fretes mais caros e rotas desviadas, cadeias globais ficam mais lentas e mais caras. Para um país dependente de insumos agrícolas importados, isso é um alarme.

  • Diplomacia: como membro do BRICS+ e ator relevante no Sul Global, o Brasil tende a ser cobrado por posicionamento: defender o direito internacional, condenar ataques a civis e, ao mesmo tempo, evitar o isolamento de parceiros comerciais.


Em termos estratégicos, a crise expõe uma pergunta incômoda: até que ponto o Brasil quer seguir dependente de um sistema energético e logístico onde decisões tomadas em Washington, Tel Aviv ou Teerã viram inflação em Recife, Porto Alegre e Manaus?


A promessa de escolta no Estreito de Ormuz é, ao mesmo tempo, tentativa de estabilizar mercados e aposta de alto risco. Comboios podem reabrir rotas, mas também podem criar o incidente perfeito para transformar um conflito regional em guerra aberta.


Se o petróleo é o sangue da economia global, Ormuz é a artéria mais exposta. A pergunta é simples e brutal: quem está disposto a apertar o torniquete e por quanto tempo o mundo aguenta sangrar?


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Heitor Lemos

Heitor Lemos é correspondente internacional sênior e analista-chefe de geopolítica em O estopim. Escreve sobre guerras, energia, sanções e disputas de poder sob a ótica do Sul Global, com foco nos impactos para o Brasil e a América Latina.

 
 
 

Tráfego no Estreito de Ormuz quase zera após retaliação iraniana; seguradoras cancelam cobertura de risco de guerra e petróleo dispara no mercado internacional.


Por Clara Mendes para O estopim | 2 de Março de 2026


Estreito de Ormuz, imagem de satélite | Foto: Google Earth
Estreito de Ormuz, imagem de satélite | Foto: Google Earth

Pelo menos 150 embarcações, incluindo petroleiros e navios de gás natural liquefeito (GNL), ficaram ancoradas no Estreito de Ormuz e em águas próximas neste domingo (1º), após a escalada do conflito envolvendo o Irã e novos ataques na região que derrubaram o ritmo de navegação na principal passagem de escoamento de petróleo do Golfo Pérsico.


O “engarrafamento” ocorre depois de bombardeios de EUA e Israel contra o Irã e da sequência de ataques a navios na área, relatados por autoridades e empresas de navegação. As interrupções já deixaram ao menos cinco petroleiros danificados e registraram duas mortes, segundo informações compiladas por agências e operadores.


Dados de rastreamento marítimo citados em relatórios internacionais apontam que os navios se concentraram em áreas abertas próximas às costas de grandes produtores do Golfo, como Arábia Saudita e Iraque, e também perto do Catar, maior exportador mundial de GNL, enquanto armadores evitam cruzar a rota sob risco de novos ataques.



Ataques, avisos de risco e divergência sobre “fechamento”


Em um dos episódios reportados, o navio de produtos “Stena Imperative”, de bandeira dos EUA, sofreu danos por “impactos aéreos” quando estava atracado no Golfo; uma morte foi registrada no local, segundo a empresa responsável pela embarcação. Em outro caso, um tripulante morreu após um projétil atingir o petroleiro “MKD VYOM” enquanto navegava próximo à costa de Omã, ainda de acordo com relatos do setor.


A United Kingdom Maritime Trade Operations (UKMTO) informou que não recebeu comunicação de “fechamento oficial” do Estreito de Ormuz pelos canais reconhecidos de segurança marítima, mas ressaltou que há atividade militar em curso e “ameaça elevada” à navegação comercial. A via tem cerca de 34 km de largura no ponto mais estreito e é a principal ligação marítima do Golfo com o restante do mundo.


No fim de fevereiro, o Joint Maritime Information Center (JMIC) elevou o nível de risco marítimo regional para “CRITICAL”, afirmando que ataques com mísseis e drones contra embarcações comerciais foram confirmados em áreas do Golfo de Omã e proximidades.


Seguro de guerra cai e custo do frete sobe com o fechamento de Ormuz


Com a piora do cenário, seguradoras marítimas anunciaram cancelamentos de cobertura de risco de guerra para operações no Golfo e áreas adjacentes, com vigência a partir de 5 de março, segundo comunicados publicados por clubes e seguradoras do setor. O movimento eleva o custo de viagens e pressiona o frete de petróleo e derivados.


No mercado, prêmios de seguro de guerra chegaram a subir para até 1% do valor da embarcação em cerca de 48 horas, segundo fontes do setor ouvidas em relatórios internacionais, contra aproximadamente 0,2% na semana anterior.


Reflexo no Brasil e no Nordeste


A disparada do petróleo já entrou no radar da Petrobras. Fontes ouvidas pela Reuters relataram que a estatal monitora o impacto do conflito e pretende observar a trajetória do preço do barril e do câmbio ao longo da semana antes de decidir sobre preços de combustíveis no mercado interno.


Analistas consultados pela CNN Brasil apontam que o Brasil, mesmo exportador de petróleo fora da zona de risco, pode sentir efeitos em cadeia, com pressão sobre custos de energia, frete e insumos importados, como fertilizantes, além de risco inflacionário se o impasse se prolongar. No interior do Nordeste, o diesel pesa diretamente no transporte rodoviário que

abastece cidades do Sertão e do Agreste com alimentos e mercadorias, o que amplia a sensibilidade a oscilações internacionais do barril.


Contexto


O Estreito de Ormuz é a principal rota marítima de saída do petróleo e do gás do Golfo Pérsico e concentra cerca de um quinto do consumo global de petróleo. Na prática, mesmo sem bloqueio físico permanente, ataques a navios e a decisão de armadores de suspender travessias têm efeito imediato de paralisar o fluxo e criar filas de embarcações dos dois lados da passagem.


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Clara Mendes

Clara Mendes é repórter de hard news e plantonista do portal O estopim, com foco em economia, política e acontecimentos urgentes com impacto direto no Nordeste.

 
 
 
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