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Por Raul Silva para O estopim | 27 de março de 2026


O Irã rejeitou a proposta enviada pelos Estados Unidos para encerrar a guerra e apresentou uma contraproposta que exige o fim das agressões, garantias contra novos ataques, indenização pelos danos causados e reconhecimento de direitos estratégicos no estreito de Ormuz. O impasse recoloca no centro da crise uma equação que mistura conflito militar, pressão diplomática, risco nuclear, abalo humanitário e choque sobre energia, fertilizantes e alimentos.


Homem de terno azul e gravata vermelha gesticula em uma mesa, com bandeiras ao fundo. Expressão séria. Ambiente formal.
O presidente dos EUA, Donald Trump, realiza uma reunião de gabinete na Casa Branca, em Washington, DC, EUA, em 26 de março de 2026 | Foto: REUTERS/Evelyn Hockstein.

A recusa iraniana não é apenas um gesto de política externa. Ela indica que, neste momento, Teerã não aceita uma saída que equivalha à rendição estratégica. O plano atribuído a Washington inclui exigências de grande impacto, como o desmonte de instalações de enriquecimento de urânio, o compromisso de não buscar armas nucleares, o corte de apoio a aliados regionais e mudanças no controle de uma das rotas marítimas mais sensíveis do planeta. Para o governo iraniano, trata-se de um pacote que altera o equilíbrio de poder da região e reduz sua capacidade de dissuasão.


O que está em jogo na negociação


Teerã considerou o plano dos EUA excessivo e desconectado da realidade. A proposta americana teria sido encaminhada com 15 pontos e dependeria de mediação internacional.


Do lado iraniano, a resposta apresentada segue outra lógica. Em vez de aceitar o desmonte unilateral de capacidades estratégicas, o país cobra quatro pilares: cessação dos ataques, garantia contra nova guerra, indenização e reconhecimento de direitos ligados a Ormuz. A formulação deixa claro que o Irã tenta transformar a negociação em discussão sobre soberania, e não apenas sobre seu programa nuclear.


A própria escolha dos mediadores ajuda a entender a delicadeza da operação. Paquistão e Turquia aparecem como atores centrais porque mantêm canais com diferentes polos da crise e podem funcionar como ponte num cenário em que a confiança entre Washington e Teerã é praticamente inexistente. A mediação, porém, ainda não produziu um mecanismo estável de desescalada.


Por que Ormuz se tornou o coração do conflito


O estreito de Ormuz é um dos pontos mais sensíveis da geopolítica mundial. Ele conecta o Golfo Pérsico ao mar aberto e concentra parte decisiva do fluxo internacional de petróleo, gás e derivados. Quando o Irã insere Ormuz em sua contraproposta, não está tratando apenas de território ou navegação. Está usando sua posição geográfica como instrumento de negociação política, militar e econômica.


A guerra elevou esse cálculo a outro patamar. O temor do mercado é simples: se o conflito bloquear ou restringir de forma prolongada a passagem de navios, a pressão sobre os preços de energia se espalha com rapidez para cadeias produtivas inteiras. Combustíveis mais caros elevam fretes, pressionam fertilizantes, encarecem insumos agrícolas, aumentam custos industriais e chegam ao consumidor em forma de inflação.


É por isso que a crise deixou de ser um problema regional para se converter em questão global. Ormuz virou a peça que conecta mísseis lançados no Oriente Médio ao preço do diesel, do pão, do transporte e da comida em diferentes continentes.



O choque já atinge petróleo, gás e fertilizantes


Os efeitos econômicos já aparecem com força. O petróleo subiu de forma acentuada desde o início da guerra, e o mercado passou a trabalhar com cenários extremos caso a infraestrutura exportadora iraniana seja atingida ou o estrangulamento em Ormuz se prolongue. A instabilidade não se restringe ao barril. Ela também alcança o gás natural liquefeito, essencial para sistemas elétricos de países asiáticos, e os fertilizantes nitrogenados, fortemente dependentes de gás e de rotas de exportação ligadas ao Golfo.


Esse ponto é decisivo e costuma passar ao largo do noticiário mais imediato. A guerra não ameaça apenas o abastecimento de energia. Ela ameaça a produção agrícola global, sobretudo porque ureia, amônia e outros fertilizantes podem ficar mais caros ou mais escassos em plena preparação de safras importantes no hemisfério norte e em países asiáticos de grande peso demográfico.


Em termos práticos, o conflito pode produzir uma sequência em cascata: menos trânsito marítimo, mais prêmio de risco, energia mais cara, fertilizante mais caro, produção agrícola pressionada e alimentos mais caros. Em regiões já marcadas por insegurança alimentar, esse encadeamento pode ter efeito social severo.


O risco que vai além da guerra convencional


Há um elemento ainda mais grave nesse impasse: o risco associado a instalações nucleares e a materiais sensíveis. O tema não se resume à discussão clássica sobre proliferação. Especialistas e organismos internacionais alertam que ataques ou acidentes em torno da infraestrutura nuclear iraniana podem gerar contaminação, danos ambientais e necessidade de evacuações em larga escala, a depender do alvo e do tipo de material envolvido.


A Agência Internacional de Energia Atômica vem insistindo que ataques a instalações nucleares não deveriam ocorrer e que a região opera sob nível elevado de alerta. O problema é que, em um conflito com múltiplos frontes, erros de cálculo, falhas de comunicação e danos indiretos ganham peso enorme.


Mesmo quando não há liberação radiológica imediata para o exterior, impactos internos em instalações, perda de energia, incêndios ou danos a estruturas críticas já representam um quadro de instabilidade de alto risco. Em outras palavras, a guerra em torno do Irã não produz apenas medo de escalada militar. Ela produz também temor de uma crise tecnológica e ambiental com consequências transfronteiriças.


Líbano, Israel e a expansão horizontal da guerra


Os bombardeios seguem atingindo não só o território iraniano, mas também países vizinhos, enquanto o conflito se aprofunda no Líbano e mantém Israel sob ataque. Isso mostra que a guerra já ultrapassou a lógica de confronto bilateral.


No Líbano, a criação de uma nova zona tampão por Israel e a ampliação das operações terrestres indicam que o tabuleiro regional está sendo redesenhado pela força. A participação do Hezbollah, aliado histórico de Teerã, transforma a frente libanesa em peça central da pressão militar contra o Irã e, ao mesmo tempo, em canal de multiplicação do sofrimento civil.


Essa expansão horizontal é um dos fatores que mais dificultam qualquer cessar-fogo. Ainda que Washington e Teerã encontrem alguma base de negociação, será preciso lidar com interesses israelenses, milícias regionais, governos árabes, segurança marítima e recomposição diplomática. O conflito, portanto, não depende só dos dois principais negociadores formais.


Equipes de resgate em uniformes vermelhos trabalham em escombros de concreto com vergalhões expostos, ambiente de destruição e urgência.
Equipes de emergência removem uma vítima dos escombros de um prédio residencial danificado por um ataque, em meio ao conflito entre os EUA e Israel com o Irã, em Teerã, Irã, 27 de março de 2026 | Foto: Majid Asgaripour/WANA (West Asia News Agency) via REUTERS

O custo humano cresce dentro e fora do Irã


O agravamento militar já se reflete na dimensão humanitária. Milhões de pessoas foram afetadas por deslocamentos, destruição de infraestrutura, interrupção de serviços e medo de novos ataques. Dentro do Irã, famílias deixaram grandes centros urbanos em busca de áreas consideradas mais seguras. No Líbano, a nova ofensiva ampliou deslocamentos e agravou a pressão sobre escolas, hospitais, água, energia e abrigo.


Esse tipo de deslocamento em massa tem dois efeitos simultâneos. O primeiro é imediato: pressiona a rede de atendimento e expõe populações a risco sanitário, insegurança alimentar, trauma e perda de renda. O segundo é estrutural: quebra a rotina econômica, fragmenta vínculos comunitários, sobrecarrega Estados já frágeis e aprofunda fissuras sectárias e políticas.


A depender da duração da guerra, os deslocamentos podem deixar de ser fenômeno provisório e se transformar em crise prolongada, com repercussão regional. Isso inclui rotas para países vizinhos, pressão sobre fronteiras, aumento da demanda humanitária e agravamento de vulnerabilidades já existentes.


O papel do Paquistão e da Turquia na tentativa de evitar o pior


A mediação de Paquistão e Turquia merece atenção porque revela o tamanho do vácuo diplomático. Em conflitos dessa natureza, mediadores não surgem apenas por boa vontade. Eles aparecem quando os canais tradicionais estão esgotados ou politicamente bloqueados.


O Paquistão tem interesse direto em evitar uma guerra longa por razões energéticas, econômicas e de segurança interna. A Turquia, por sua vez, tenta preservar espaço de influência regional e impedir que a desordem geopolítica produza efeitos mais profundos em seu entorno estratégico. Ambos sabem que uma guerra prolongada encarece energia, desorganiza comércio, amplia deslocamentos e aumenta o risco de transbordamento militar.


Ainda assim, a mediação enfrenta um problema central. Os termos em disputa não são marginais. Eles tocam no núcleo da arquitetura de segurança regional. Quando os Estados Unidos exigem limitações estruturais e o Irã responde cobrando soberania, garantias e reparação, fica claro que não se negocia apenas um cessar-fogo, mas o desenho político do pós-guerra.


O que está em jogo a partir de agora


A pergunta central, daqui em diante, é se a negociação vai servir para conter a guerra ou apenas para ganhar tempo antes de nova escalada. Há sinais de que ambos os lados ainda testam os limites um do outro. Os EUA pressionam com exigências amplas e poder militar. O Irã responde usando Ormuz, aliados regionais e a recusa a um acordo considerado assimétrico.


No curto prazo, três variáveis merecem acompanhamento contínuo.


A primeira é o grau real de interrupção do fluxo por Ormuz. Quanto mais prolongado o estrangulamento, maior o impacto internacional.


A segunda é a situação da infraestrutura nuclear e energética, porque qualquer ataque mais profundo pode reconfigurar o custo político e ambiental da guerra.


A terceira é a capacidade dos mediadores de transformar troca de mensagens em mecanismo verificável de desescalada, com compromissos mínimos, cronograma e canais estáveis.


Sem isso, a tendência é de manutenção de um conflito que mistura guerra aberta, intimidação estratégica, barganha sobre rotas energéticas e devastação humanitária.


Uma crise que já não cabe apenas na editoria internacional


A recusa do Irã ao plano dos EUA mostra que a guerra entrou em uma fase em que diplomacia, economia, segurança nuclear, meio ambiente e abastecimento global passaram a ser partes inseparáveis do mesmo problema. Tratar o episódio apenas como mais um capítulo de tensão no Oriente Médio é reduzir o alcance do que está em curso.


O centro da disputa agora não é apenas quem vence no campo militar, mas quem impõe os termos da estabilidade futura. E essa estabilidade envolve desde a circulação de navios em Ormuz até a contenção de danos nucleares, o preço global dos alimentos e a sobrevivência civil em países já exaustos por décadas de guerra e disputas por poder.


O que se vê, portanto, é uma crise que abre a porta para uma realidade muito maior. O Irã rejeitou um plano. Mas, no plano de fundo, o que está sendo recusado ou disputado é um novo arranjo de forças para todo o Oriente Médio.


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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo de O estopim. Atua na cobertura de política, meio ambiente, economia e temas de interesse público, com foco em contexto, impacto e responsabilização.

Por Raul Silva para O estopim | 22 de março de 2026


Os sinais de que a guerra em torno do Irã caminha para uma fase mais longa e mais perigosa se acumularam neste fim de semana. O conflito, que já entrou na quarta semana, deixou de se concentrar apenas em bases, centros militares e instalações estratégicas tradicionais e passou a pressionar três nervos centrais da ordem regional e global: o Estreito de Ormuz, a infraestrutura de energia e o entorno de áreas sensíveis para a segurança nuclear. Nesse novo cenário, Donald Trump endureceu a retórica, misturou pressão militar com ultimato econômico e ampliou a percepção de que Washington não trabalha, ao menos por ora, com uma saída rápida.


Área urbana destruída com prédios desmoronados. Pessoas andam entre escombros em busca de sobreviventes. Tom desolador e cinzas predominantes.
Drone captura a extensão da destruição em Dimona, Israel, após ataque iraniano, mostrando edifícios danificados e escombros espalhados pela área | Foto: Roei Kastro/REUTERS

O que está em jogo não é apenas a continuidade dos bombardeios. O que se desenha é a transformação de uma guerra já grave em uma crise de duração incerta, com efeitos sobre petróleo, gás, cadeias logísticas, inflação, rotas marítimas, serviços essenciais e estabilidade política em vários países do Oriente Médio. Quanto mais o conflito se aproxima de usinas, refinarias, redes elétricas, terminais de exportação, plantas de dessalinização e instalações nucleares, mais caro fica recuar e mais difícil se torna reconstruir uma via diplomática.


O salto de qualidade na escalada está na natureza dos alvos e das ameaças. Nas últimas horas, o governo dos Estados Unidos, sob Trump, passou a vincular diretamente a reabertura do Estreito de Ormuz à possibilidade de ataques contra usinas de energia iranianas. Do lado iraniano, a resposta veio no mesmo tom, com ameaças de fechamento total da rota marítima e de ampliação de ataques contra infraestrutura crítica em países da região caso Teerã seja atingida nesse ponto.


Isso altera a gramática da guerra. Em vez de uma disputa concentrada na degradação de capacidades militares e nucleares do adversário, o confronto se desloca para estruturas que sustentam a vida econômica e civil. Em conflitos assim, a extensão do tempo costuma ser alimentada por dois fatores. O primeiro é o efeito dominó, porque um ataque a energia ou água tende a gerar retaliação em escala ampliada. O segundo é o interesse político dos beligerantes em mostrar força mesmo quando o custo humanitário se multiplica.


Ormuz deixou de ser pano de fundo e virou centro da guerra


O Estreito de Ormuz sempre foi um ponto sensível da geopolítica do Golfo, mas agora se tornou o eixo concreto da escalada. A passagem é vital para o escoamento de petróleo e gás natural liquefeito. Quando ela opera sob ameaça ou bloqueio de fato, a guerra deixa de ser apenas regional e passa a impor custos imediatos ao mercado global, aos governos importadores e aos consumidores.


É por isso que a disputa por Ormuz funciona como um dos principais sinais de prolongamento. Fechar, restringir ou militarizar o corredor significa abrir uma frente paralela, porque proteger navios, garantir seguros, reposicionar frotas e reorganizar rotas exige tempo, coordenação e mais presença militar. Ainda que parte do fluxo seja desviada por oleodutos alternativos, a capacidade de compensação é limitada. Na prática, quanto mais Ormuz vira objeto de pressão, mais o conflito ganha fôlego próprio.


Trump passou a falar de forma mais agressiva e menos previsível. Depois de sugerir, na semana passada, a possibilidade de uma redução da operação, o presidente dos Estados Unidos subiu o tom e estabeleceu um prazo de 48 horas para a reabertura plena e sem ameaça do Estreito de Ormuz. Disse que, se isso não ocorrer, os Estados Unidos podem atingir usinas de energia do Irã, começando pelas maiores.


A retórica importa porque não ficou isolada no improviso de uma fala. Ela foi acompanhada de sinais operacionais e políticos. Integrantes da administração passaram a defender publicamente recursos adicionais para a guerra e a sustentar que o país precisa estar abastecido para o que já fez e para o que ainda poderá fazer. Em linguagem política, isso significa que a Casa Branca trabalha com margem para continuidade, não com prazo curto para encerramento.


Trump também tenta combinar duas mensagens que convivem em tensão. A primeira é a de que a campanha já teria imposto danos severos ao Irã. A segunda é a de que ainda pode ser necessário ampliar ataques para forçar resultados. Quando um governo afirma ao mesmo tempo que está perto da vitória e que precisa abrir novas frentes de pressão, o sinal transmitido ao mercado, aos aliados e ao adversário é o de guerra aberta a novos capítulos.



A infraestrutura energética entrou na linha de tiro


Outro indício forte de prolongamento é o deslocamento da guerra para o setor energético. Os ataques e ameaças sobre campos de gás, redes elétricas, refinarias e terminais de exportação aumentam a capacidade de dano econômico de cada rodada de combate. Não se trata apenas de destruir capacidade militar. Trata-se de comprometer abastecimento doméstico, exportações, geração elétrica e confiança dos mercados.


No caso iraniano, isso é ainda mais sensível porque o país depende fortemente do gás para consumo interno e para geração de eletricidade. Quando instalações dessa cadeia entram na mira, o efeito não fica restrito ao campo de batalha. Ele alcança indústrias, residências, hospitais, telecomunicações, bombeamento de água, logística e comando estatal. Em outras palavras, a guerra passa a atacar o metabolismo do país.


Esse movimento torna a saída diplomática mais difícil por uma razão simples. Quanto maior a destruição da infraestrutura, maior o incentivo político para retaliar antes de sentar à mesa. Em vez de produzir fadiga suficiente para um cessar-fogo, a guerra pode produzir uma lógica de compensação violenta.


A frente regional está mais aberta


A guerra também mostra sinais claros de espalhamento geográfico. O conflito já não se resume ao intercâmbio de ataques entre Irã e Israel, com participação direta dos Estados Unidos. Houve ampliação do risco para o Líbano, para países do Golfo e para a navegação internacional. Ao mesmo tempo, o vínculo entre o front iraniano e a frente envolvendo o Hezbollah reforça a possibilidade de uma guerra de múltiplas camadas.


Esse é um ponto central. Quando diferentes teatros de operação começam a se contaminar, os cálculos militares deixam de depender apenas da relação entre dois governos. Entram em cena aliados, milícias, comandos regionais, rotas de abastecimento, sistemas de defesa aérea e pressões internas de cada capital. A experiência histórica mostra que guerras assim raramente se resolvem rápido.


Um dos elementos mais graves da atual fase é a aproximação do conflito de instalações nucleares e de áreas tratadas como sensíveis por organismos internacionais. Mesmo quando não há confirmação de vazamento radiológico, a simples pressão militar sobre esse tipo de estrutura eleva o risco sistêmico.


A Agência Internacional de Energia Atômica já advertiu que ataques armados a instalações nucleares não deveriam ocorrer e podem ter consequências graves dentro e fora das fronteiras do país atingido. Além disso, a agência continua sem acesso pleno a instalações iranianas afetadas por ataques anteriores, o que reduz a capacidade de verificação independente sobre estoques, atividades e eventuais danos. Quando a fiscalização internacional perde alcance no meio de uma guerra, o conflito ganha mais uma camada de incerteza.


Isso importa também do ponto de vista político. A ausência de verificação robusta alimenta suspeitas, amplia o espaço para narrativas maximalistas e dificulta qualquer costura diplomática sobre limites, garantias e desescalada. Guerra com opacidade nuclear é, quase sempre, guerra com maior chance de durar.


A conta humanitária e ambiental já subiu


Os sinais de prolongamento não aparecem apenas nas falas oficiais ou nos movimentos militares. Eles também estão na deterioração humanitária e ambiental. Organismos internacionais já relatam milhares de mortos e feridos, deslocamento em massa, ataques a serviços de saúde e efeitos sanitários ligados à fumaça tóxica e à contaminação causada por danos em instalações de energia.


Esse ponto é decisivo porque amplia a dificuldade de reconstrução política do pós-conflito. Quanto maior o número de deslocados, feridos, hospitais afetados e cidades expostas a fumaça e falta de água, maior a profundidade social da guerra. E quanto mais a guerra aprofunda danos civis, mais fácil se torna para cada lado justificar internamente a continuidade do confronto em nome de segurança, vingança ou sobrevivência nacional.


A fala de Trump não é só retórica eleitoral ou exibicionismo verbal. Ela pesa porque vem do chefe de Estado do país que participa diretamente da campanha e dispõe da maior capacidade militar para ampliar ou reduzir o conflito em curto prazo. Quando ele troca a linguagem de contenção pela linguagem de ultimato, o mercado escuta, os aliados recalculam posições e o Irã reage como se uma nova rodada estivesse à porta.


Também pesa porque Trump embaralha o horizonte. Ao sugerir, num momento, que a operação poderia ser reduzida, e em seguida ameaçar atingir usinas de energia, ele dificulta a leitura sobre qual é a real linha vermelha americana. Em guerra, ambiguidades desse tipo podem ser úteis como instrumento de pressão. Mas também aumentam o risco de erro de cálculo.


O que observar daqui em diante


Os próximos sinais mais importantes são cinco.


O primeiro é o grau de fechamento efetivo de Ormuz. Se o bloqueio parcial virar fechamento total ou se o corredor passar a depender de escolta internacional permanente, a chance de prolongamento sobe muito.


O segundo é a passagem das ameaças sobre energia para ataques de grande escala contra usinas, refinarias, terminais e redes de água. Uma guerra que entra nesse estágio se torna mais difícil de conter.


O terceiro é a consolidação de uma frente regional mais ampla, com maior envolvimento de aliados e grupos armados fora do território iraniano.


O quarto é o nível de acesso da Agência Internacional de Energia Atômica às instalações afetadas e a capacidade de monitoramento independente sobre riscos nucleares.


O quinto é a disposição real de Washington. Se o governo Trump avançar com reforços, orçamento extra e linguagem de longo prazo, a sinalização predominante será a de continuidade, mesmo que a Casa Branca mantenha aberta a porta de uma eventual negociação.


O quadro desta noite (horário do Irã) é o de uma guerra que passou a ameaçar não apenas Estados e exércitos, mas sistemas. Sistemas de energia, de transporte, de abastecimento, de saúde e de fiscalização internacional. É isso que faz a escalada atual ser mais preocupante do que a rodada anterior.


A pergunta já não é apenas se o Irã resistirá militarmente ou se Israel e Estados Unidos manterão superioridade aérea e tecnológica. A pergunta central passou a ser outra: quantas frentes ainda podem ser abertas antes que o custo econômico, humanitário e ambiental torne a guerra mais fácil de começar do que de terminar.


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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo do O estopim, com foco em política, direitos, economia e análise de conjuntura. Escreve a partir de apuração factual, cruzamento de dados e compromisso com o interesse público.


Conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã avança para infraestrutura de energia no Golfo; Trump ameaça destruir o maior campo de gás do mundo e líderes citam risco de interrupção no Estreito de Ormuz.


Por Clara Mendes para O estopim | 20 de Março de 2026


Imagem de satélite do Estreito de Ormuz. Águas azuis profundas contrastam com a aridez das terras circundantes em tons marrons e cinzas.
O Estreito de Ormuz é uma passagem marítima crucial que conecta o Golfo de Omã ao Golfo Pérsico. Esta via estratégica é de extrema importância geopolítica e econômica, especialmente para o Irã e os países que dependem do transporte de petróleo e gás natural através dessa região | Foto: Los Angeles Times

A escalada da guerra no Oriente Médio atingiu o setor de energia após um ataque israelense às instalações do campo de gás South Pars, no Golfo Pérsico, e a retaliação iraniana com mísseis contra um campo de gás no Catar e outros alvos ligados a petróleo e gás na região. Nesta quinta-feira (19), Irã e Estados Unidos trocaram ameaças publicamente, enquanto Israel confirmou que uma refinaria na cidade de Haifa, no norte do país, foi atingida por ataque iraniano.


South Pars, chamado de North Field no lado catari, é a maior jazida de gás natural do mundo e concentra uma das maiores reservas conhecidas do planeta. O campo é compartilhado por Irã e Catar e sustenta parte central da geração de eletricidade e da indústria petroquímica iraniana, além de ser a base da cadeia de gás natural liquefeito do Catar. A ofensiva abriu um novo foco de risco no Golfo, com efeitos imediatos no preço do petróleo e do gás e ameaça direta ao tráfego de navios no Estreito de Ormuz.


O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, afirmou que o país vai atacar com zero moderação caso haja novos bombardeios à infraestrutura energética iraniana. Antes, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse que, se o Irã atacar o Catar novamente, Washington vai destruir massivamente o campo de South Pars. Trump também declarou que os Estados Unidos não sabiam que Israel atacaria o local, mas fontes israelenses disseram à agência Reuters que o ataque foi planejado em colaboração com os americanos.


Ainda nesta quinta, o Irã bombardeou uma refinaria de petróleo em Haifa, segundo autoridades israelenses. O governo de Israel afirmou que os danos foram mínimos e não houve confirmação oficial de vítimas no local.


A escalada sobre instalações de gás e refinarias ocorre em meio à disparada dos combustíveis. Na quarta-feira (18), após o ataque ao South Pars, o barril do petróleo chegou a US$ 108, segundo a Radioagência Nacional, com informações da Reuters. Na quinta, o foco do mercado voltou para a possibilidade de interrupção do Estreito de Ormuz, canal por onde passa parte relevante do petróleo e do gás exportado pelos países do Golfo.


A Agência de Informação de Energia dos Estados Unidos (EIA) estima que, em 2024, passaram pelo Estreito de Ormuz cerca de 20 milhões de barris de petróleo por dia, o equivalente a aproximadamente 20% do consumo global de líquidos de petróleo. A Agência Internacional de Energia (IEA) também aponta que cerca de 20 milhões de barris diários transitam pelo corredor e que 93% do gás natural liquefeito do Catar e 96% do LNG dos Emirados Árabes Unidos passam pelo estreito, representando 19% do comércio global de LNG.



Com o mercado sob pressão, a IEA anunciou a maior liberação coordenada de estoques de emergência da sua história: 400 milhões de barris, segundo comunicado oficial publicado em 11 de março. A medida busca reduzir o impacto de uma interrupção prolongada de oferta sobre preços e inflação em países importadores.


A Índia classificou os ataques a estruturas energéticas como inaceitáveis. Países europeus e o Japão discutiram cooperação para manter aberto o Estreito de Ormuz e divulgaram um comunicado conjunto com medidas para estabilizar o mercado de energia, segundo informações publicadas pela Radioagência Nacional.


O ataque em South Pars também elevou o nível de alerta em países do Golfo. Reportagens da Reuters apontam que instalações em Qatar, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Kuwait e Bahrein entraram no radar após ameaças de novos ataques e avisos de evacuação em áreas industriais.


A escalada sobre infraestrutura civil e energética ocorre em paralelo a bombardeios em áreas urbanas. Na quarta-feira (18), a Organização Mundial da Saúde afirmou estar preocupada com ataques a equipamentos de saúde e relatou ocorrências envolvendo hospitais e clínicas no Irã, no Líbano e em Israel, de acordo com relato divulgado pela Radioagência Nacional.


Ainda segundo a Radioagência, mais de 1,3 mil pessoas morreram no Irã desde o início dos ataques, a maioria civis, além de mais de 900 mortos no Líbano. Os números foram atribuídos a levantamentos citados pela Reuters.


Plataforma de petróleo no mar, estruturas metálicas vermelhas e amarelas conectadas. Helicóptero sobrevoa. Céu claro e mar azul. Atmosfera industrial.
Plataforma de extração de gás na Fase 16 do Campo de South Pars, onde o Irã retomou suas operações | Foto: Reprodução

Ataques a campos de gás e refinarias podem gerar incêndios, queima emergencial de gás e vazamentos de metano, além de contaminação do ar por material particulado e gases tóxicos. A IEA estima que o setor de combustíveis fósseis emitiu cerca de 200 bilhões de metros cúbicos de metano em 2024 e que a energia respondeu por aproximadamente 145 milhões de toneladas de metano no mesmo ano. Especialistas usam esses dados para dimensionar o peso climático de episódios de vazamento e queima em larga escala, como os que podem ocorrer após bombardeios em instalações de produção e processamento.


A alta do petróleo no Golfo chega ao Brasil pela cadeia de combustíveis e pelo custo do transporte. Em março, economistas ouvidos pela Rádio Nacional apontaram que o aumento do petróleo pode pressionar a inflação e influenciar decisões sobre juros. No Boletim Focus de 9 de março, o mercado elevou pela primeira vez a projeção da taxa básica de juros de 2026 para 12,13% ao ano, mantendo a expectativa de inflação em 3,91%.


O Brasil é produtor e exportador de petróleo, mas ainda depende de importações para parte do diesel. Em dezembro de 2025, a parcela importada de diesel A representou 33,2% das vendas nacionais, segundo a Síntese Mensal de Comercialização de Combustíveis da ANP.


A guerra no Irã entrou na terceira semana e transformou o Golfo em alvo direto de ataques a ativos de energia. South Pars e o Estreito de Ormuz, que já concentravam disputa geopolítica há décadas, voltaram ao centro de um risco imediato: interrupção de gás e petróleo com impacto global em preços, inflação e abastecimento.


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Clara Mendes é repórter plantonista do O estopim, com foco em hard news, geopolítica e energia.


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