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Por Helena Valente para O estopim | 23 de Maio de 2026



A denúncia apresentada pelo Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Pernambuco, o Sintepe, sobre possíveis irregularidades em contratos de manutenção e reforma de escolas estaduais colocou a gestão Raquel Lyra diante de uma pergunta que não cabe mais na propaganda oficial: onde foi parar o dinheiro destinado à educação pública? O caso ganhou força após vídeo da presidenta licenciada do sindicato, Ivete Caetano, circular com imagens de boletins de medição, valores milionários e escolas que, segundo a entidade, seguem com infiltrações, mofo, risco elétrico, forros quebrados e ambientes sem condições adequadas para estudantes e profissionais.


O episódio atinge o centro do discurso político da governadora. Raquel Lyra tem repetido que passou parte do governo “arrumando a casa” e que agora Pernambuco “acelerou”. A denúncia do Sintepe inverte o sentido da frase e impõe outra leitura: se a casa foi arrumada, por que escolas listadas como atendidas por reformas continuam parecendo abandonadas? Se o governo acelerou, acelerou a entrega real ou acelerou a liberação de pagamentos sem garantia pública de resultado?


A pergunta é dura, mas necessária. Não se trata de afirmar, sem conclusão dos órgãos de controle, que houve desvio. Trata-se de cobrar explicação imediata sobre a distância entre a planilha oficial e a parede mofada, entre o boletim de medição e o fio exposto, entre o valor liquidado e a sala sem segurança.


Fachada branca de prédio alto com janelas verticais, galhos de árvore na frente e brasão na base.
Fachada da ETEPAM, escola que consta como recém reformada e onde os boletins de medição afirmam que foram gastos mais de R$ 2 milhões em melhorias | Foto: Sintepe

O Sintepe afirma ter coletado informações no Portal da Transparência do Governo de Pernambuco sobre um contrato de manutenção de escolas no valor total de R$ 182.784.905,05. Segundo a entidade, o contrato teria abrangido 798 unidades de ensino em todo o Estado.


A partir de boletins de medição de obra, o sindicato informou ter analisado parte da documentação e realizado vistoria presencial em uma amostra de dez escolas. A conclusão apresentada em coletiva foi grave: unidades que aparecem como contempladas por serviços de manutenção e reforma seguiriam com problemas estruturais incompatíveis com os valores informados.


Entre os problemas apontados estão:

  • infiltrações e mofo em paredes, tetos e salas de aula;

  • fiação exposta e risco de choque elétrico;

  • ambientes interditados ou inadequados para atividades pedagógicas;

  • banheiros sem condições adequadas de uso;

  • quadras deterioradas;

  • climatização insuficiente;

  • relatórios fotográficos com possíveis inconsistências;

  • suspeita de repetição de imagens em boletins de medição de períodos diferentes.


O sindicato diz ter encaminhado a denúncia ao Tribunal de Contas do Estado, ao Ministério Público de Pernambuco e ao Tribunal de Contas da União. A apuração desses órgãos será decisiva para separar erro administrativo, falha de fiscalização, irregularidade contratual e eventual dano ao erário.


Em vídeo publicado nas redes sociais, Ivete Caetano aparece diante da Escola ETEPAM e apresenta documentos, mostrando valores que passam de R$ 1,4 milhão, R$ 1,6 milhão e R$ 2,3 milhões para intervenções em unidades da rede estadual. Ela questiona, como escolas que aparecem em registros oficiais de manutenção continuam com sinais de precariedade.


Esse é o ponto central. O caso não depende apenas da retórica oposicionista nem da defesa automática do Palácio. O que precisa ser respondido é documental: qual serviço foi contratado, qual serviço foi executado, quem mediu, quem atestou, quem pagou, qual fonte de recurso foi usada e qual escola recebeu efetivamente cada intervenção.


A força da fala de Ivete Caetano está justamente na exposição de uma contradição concreta. Se o boletim informa manutenção elétrica, por que há denúncia de risco elétrico? Se o relatório fotográfico comprova serviço, por que o Sintepe aponta repetição de imagens? Se a escola foi reformada, por que professores e estudantes ainda convivem com mofo, infiltração e teto comprometido?



A denúncia vem sendo tratada no debate público como mais um escândalo na educação pernambucana e levanta questionamentos sobre dinheiro vinculado à educação, especialmente em um ambiente de confusão entre Fundeb, Fundef, precatórios e despesas de manutenção.


Essa distinção importa. O Fundeb financia a educação básica e possui regras de vinculação. Parte dos recursos deve ser destinada à remuneração de profissionais da educação e outra parte pode custear ações de manutenção e desenvolvimento do ensino. Já os precatórios do Fundef, decorrentes de diferenças históricas no financiamento educacional, também carregam forte marca de vinculação à educação e de disputa jurídica com trabalhadores da área.


Por isso, a gestão estadual precisa responder com precisão: os R$ 182,7 milhões questionados saíram de qual fonte? Houve uso de recursos de precatórios do Fundef? Houve mistura com outras rubricas da educação? Algum valor relacionado ao Fundeb entrou na execução? As despesas foram classificadas corretamente? As escolas receberam o serviço correspondente ao que foi liquidado?


Quando o dinheiro é carimbado para educação, a régua de transparência precisa ser mais alta. Não basta dizer que houve manutenção. É preciso mostrar a ordem de serviço, a nota de empenho, a medição, a foto, o fiscal responsável, a liquidação, o pagamento e o resultado físico dentro da escola.


Teto de sala vazia com placas faltando, luminárias e alto-falantes; paredes cinza e porta azul ao fundo.
Auditório da ETEPAM após reforma | Fonte: Sintepe.

A denúncia revela uma fratura comum na administração pública: a diferença entre a escola que aparece na planilha e a escola que o estudante encontra quando chega para estudar.


Na planilha, há valores milionários, medições, relatórios, fotos e atestos. No chão da escola, segundo o Sintepe, há mofo, fiação exposta, teto quebrado e calor. Essa distância é o verdadeiro escândalo, independentemente do desfecho jurídico.


Se a manutenção foi paga e não resolveu o problema, houve ao menos falha de planejamento. Se a medição foi atestada sem execução adequada, houve falha de fiscalização. Se documentos foram repetidos ou usados para justificar serviços não realizados, o caso entra em patamar mais grave e precisa de responsabilização administrativa, civil e, se for o caso, criminal.


A pergunta que o governo precisa responder não é apenas “quanto foi investido?”. A pergunta correta é: o que mudou na escola depois que o dinheiro saiu do cofre público?


Armários azuis gastos com cadeados em corredor, com adesivos e arranhões; pequeno texto branco visível.
Armários usados na ETEPAM após melhorias estruturais feitas pelo Governo Raquel Lyra na escola | Fonte: Sintepe

A Secretaria de Educação informou à imprensa que vem empenhando esforços para tornar o ambiente escolar mais seguro e adequado ao processo de ensino e aprendizagem. Também afirmou que as escolas passam por serviços de manutenção, reforma e ampliação, além de citar repasses do Programa Investe Escola para ações pedagógicas, conservação e melhorias de infraestrutura.


Em manifestação ao Jamildo.com, a Secretaria declarou que não haveria impedimento legal para a contratação da empresa Cetus Construtora e que duplicidades em boletins de medição teriam sido identificadas e saneadas.


A resposta, no entanto, não encerra o caso. Ao contrário, abre novas perguntas. Se havia duplicidade, quando ela foi identificada? Quem identificou? Qual foi o impacto financeiro? Houve pagamento indevido? O valor foi glosado? A empresa foi notificada? Houve responsabilização de fiscais? A documentação corrigida foi publicada de forma acessível?


A expressão “saneada” não pode funcionar como borracha administrativa. Em contratos de quase R$ 183 milhões, toda inconsistência precisa deixar rastro público de correção.



A empresa citada nos registros e nas reportagens é a Cetus Construtora Ltda.. A discussão sobre a contratação envolve valores elevados, serviços espalhados por centenas de unidades e execução simultânea em regiões diferentes do Estado.


Esse tipo de contrato exige fiscalização robusta. Não basta que a empresa apresente boletim. O Estado precisa conferir a execução física, validar quantidades, verificar qualidade, cruzar datas, comparar fotos, ouvir a direção da escola e registrar eventuais falhas.


A administração pública não pode terceirizar a confiança. Quando uma escola continua com problema depois de uma suposta manutenção, o fiscal do contrato precisa explicar por que atestou. Quando a foto se repete, alguém precisa explicar por que ela passou. Quando o serviço é pago e o usuário final não percebe a melhoria, o gestor precisa mostrar o que foi feito.


O caso da educação não aparece isolado. Ele se soma a uma sequência de episódios em áreas sensíveis do governo estadual, especialmente na saúde, onde a narrativa de obras e requalificações também tem sido confrontada por imagens de precariedade.


No Hospital da Restauração, maior emergência pública de Pernambuco, o governo anunciou investimentos milionários em reforma, ampliação e requalificação. Ainda assim, vídeos recentes mostraram água invadindo áreas internas, parte do teto cedendo e relatos de pacientes e acompanhantes com medo durante as chuvas. Também circularam registros de vazamentos por luminárias, tomadas e paredes.


A comparação é inevitável porque o padrão político se repete: o governo anuncia obra, exibe número, produz peça publicitária e vende a ideia de aceleração. Depois, a realidade aparece por baixo da pintura, na água que escorre, no teto que cede, no fio exposto, no mofo e no medo de quem precisa usar o serviço público.


Educação e saúde são áreas diferentes, com contratos diferentes e fontes de recurso diferentes. Mas a pergunta pública é a mesma: o dinheiro anunciado está virando entrega real ou está virando apenas imagem de governo?


Governos têm direito de divulgar ações. Mas propaganda pública não pode ocupar o lugar da transparência. Quando uma gestão diz que “arrumou a casa”, precisa aceitar que a sociedade abra a porta e olhe os cômodos.


No caso das escolas, o que se vê nas denúncias do Sintepe é um choque entre narrativa e evidência. O governo diz que acelerou. O sindicato diz que encontrou escolas deterioradas apesar de pagamentos milionários. A imprensa mostrou que a própria Secretaria reconhece ter havido duplicidades em boletins, ainda que afirme que o problema foi corrigido.


Esse conjunto é suficiente para exigir investigação ampla. Não basta uma nota de assessoria. Pernambuco precisa saber se houve erro, negligência, desperdício, pagamento indevido ou fraude.


Fachada moderna do Tribunal de Contas de Pernambuco, com placa Edif. Dom Helder Câmara, vista em ângulo.
Tribunal de Contas do Estado de Pernambuco | Fonte: TCE/PE

O Tribunal de Contas, o Ministério Público e o Tribunal de Contas da União precisam atuar com rapidez, porque escolas continuam funcionando enquanto a apuração se arrasta.


O caminho mínimo passa por cinco providências:

  • auditoria dos contratos, empenhos, liquidações e pagamentos;

  • cruzamento entre boletins de medição e vistorias presenciais;

  • análise das fotografias usadas para comprovar execução;

  • identificação dos fiscais que atestaram cada serviço;

  • verificação da origem dos recursos e da compatibilidade com as regras da educação.


Também é necessário ouvir diretores, professores, estudantes, empresas contratadas, fiscais de contrato e gestores da Secretaria de Educação. A investigação não pode ficar limitada à formalidade dos documentos, porque a denúncia trata justamente da distância entre documento e realidade.


Mulher de camisa branca fala ao microfone em sala com painéis de madeira, em postura séria e concentrada.
Raquel Lyra atual governadora de Pernambuco | Foto: Reprodução

Raquel Lyra chegou ao governo prometendo gestão técnica, reconstrução administrativa e capacidade de entrega. A denúncia do Sintepe atinge esse núcleo de imagem. Se a gestão se vende como organizada, precisa provar que sabe controlar contratos. Se diz que acelerou, precisa demonstrar que a aceleração não atropelou a fiscalização.


O problema não é apenas contábil. É político, social e moral. Cada real mal aplicado em uma escola pública é retirado de estudantes que já enfrentam desigualdade, salas quentes, evasão, violência, falta de estrutura e desvalorização dos profissionais.


Não há política educacional séria quando o prédio adoece. Não há valorização do professor quando ele trabalha sob risco elétrico. Não há aprendizagem plena quando o aluno precisa dividir atenção entre a aula e a infiltração no teto.


O Governo de Pernambuco deve explicações objetivas à sociedade. Não basta dizer que investiu. Precisa provar que entregou.


As perguntas centrais são:

  • qual foi o valor total contratado, empenhado, liquidado e pago à Cetus Construtora na manutenção das escolas;

  • quais escolas foram atendidas e quais serviços foram realizados em cada unidade;

  • qual foi a fonte de recurso usada em cada pagamento;

  • quem foram os fiscais responsáveis por atestar os boletins;

  • quais boletins tiveram duplicidade ou inconsistência;

  • se houve glosa, ressarcimento, penalidade ou correção contratual;

  • por que escolas apontadas como reformadas seguem com problemas estruturais;

  • como o governo pretende proteger estudantes e servidores enquanto a apuração ocorre.


A resposta precisa vir com documentos, não com slogans.


O Sintepe e Ivete Caetano colocaram uma pergunta que o governo não pode tratar como ataque político: cadê a reforma das escolas?


A sociedade pernambucana tem o direito de fazer outra: se a gestão passou três anos dizendo que arrumava a casa e agora diz que acelerou, acelerou exatamente o quê?


A resposta precisa aparecer nas escolas. Não no vídeo oficial, não no discurso de palanque, não na placa de obra. Precisa aparecer na sala sem mofo, no banheiro funcionando, no fio protegido, na quadra segura, no teto firme e no dinheiro público aplicado onde deveria estar.


Enquanto isso não acontecer, a denúncia sobre os R$ 183 milhões continuará sendo mais que uma disputa entre governo e sindicato. Será um retrato incômodo de um Estado que anuncia transformação, mas ainda precisa provar que transformou a vida de quem depende da escola pública.


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Helena Valente é repórter especial e analista de Educação de O estopim. Dedica sua cobertura às políticas públicas, ao financiamento da educação, às desigualdades escolares e aos impactos das decisões de Brasília no cotidiano de estudantes, professores e comunidades. Sua escrita une apuração, análise crítica e compromisso com a defesa da escola pública, gratuita, laica, inclusiva e socialmente referenciada.

Por Raul Silva para O estopim | 9 de abril de 2026



Dois adultos sorriem em um ambiente interno. Um homem de barba branca veste terno azul e uma mulher de cabelo ruivo usa blusa verde.
Na foto, a professora Ivete Caetano, educadora pernambucana e líder sindical, aparece ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O registro reúne duas figuras públicas ligadas ao debate sobre educação e à vida política nacional. | Foto: Pericles Chagas

A professora Ivete Caetano participa, às 10h, de um encontro na Sala 102 do Hotel Cruzeiro, em Arcoverde, para uma reunião com apoiadores para dialogar com lideranças locais, juventude, professores e apoiadores. A agenda foi organizada como um espaço de escuta e articulação política, com foco em temas como educação pública, desenvolvimento regional, representação do interior e fortalecimento de pautas sociais no debate estadual.


A movimentação em torno do nome de Ivete reúne setores ligados à educação, lideranças comunitárias e grupos que defendem maior presença do Sertão nas decisões políticas de Pernambuco. Em Arcoverde, cidade com peso regional no Moxotó, o encontro tende a funcionar como ponto de partida para a construção de alianças e para a apresentação de uma agenda política ancorada em experiência de base, diálogo com categorias profissionais e presença em debates públicos sobre políticas educacionais.


Natural de Parnaíba, no Piauí, Ivete Caetano se mudou para o Recife ao fim do ensino médio para continuar os estudos. Graduada em História, atuou durante toda a trajetória profissional na educação básica, experiência que ajudou a consolidar sua inserção nas discussões sobre escola pública, valorização docente, condições de trabalho e acesso à educação. Ao longo de mais de quatro décadas de atuação, tornou-se um nome conhecido no campo educacional pernambucano, associando a vivência em sala de aula à atuação coletiva em defesa de políticas públicas para o setor.


Parte dessa trajetória passou pelo Sintepe, onde integrou a direção da entidade e chegou à presidência, tornando-se uma das vozes mais conhecidas nas mobilizações ligadas à carreira dos profissionais da educação e à defesa da escola pública em Pernambuco. Em 2022, ela também tomou posse como integrante do Conselho Estadual de Educação de Pernambuco, colegiado responsável por acompanhar, avaliar e debater políticas educacionais no estado.


A agenda em Arcoverde tem peso simbólico por ocorrer no interior e por reunir atores que costumam cobrar maior atenção do poder público para temas estruturais. Entre eles estão a ampliação de oportunidades para a juventude, o fortalecimento da rede pública de ensino, a interiorização do desenvolvimento e a construção de políticas que considerem a realidade dos municípios fora da Região Metropolitana do Recife.


Mulher de cabelos ruivos, óculos e vestido verde sorriso suave. Fundo claro. Usa colar com pingente dourado, transmite confiança.
Professora Ivete Caetano, educadora pernambucana, reconhecida pela atuação em defesa da educação pública. | Foto: Pericles Chagas

No cenário pernambucano, nomes oriundos da educação costumam carregar uma agenda ligada a direitos sociais, financiamento do ensino, valorização profissional e defesa de serviços públicos.


Ao escolher Arcoverde como palco de um encontro com lideranças locais, Ivete sinaliza que a interiorização da articulação política pode ser central no desenho de sua caminhada. A cidade ocupa posição estratégica no Sertão e funciona como ponto de convergência entre demandas urbanas e rurais, o que amplia o alcance simbólico de uma agenda voltada à escuta de diferentes segmentos sociais.


A reunião marcada para a Sala 102 do Hotel Cruzeiro deve servir para consolidar uma base inicial de interlocução política no Sertão. Para apoiadores, o encontro representa a abertura de uma nova etapa na trajetória de Ivete Caetano.


O movimento ocorre em um ambiente político em que educação, desigualdade regional e qualidade dos serviços públicos voltam a ganhar centralidade no debate sobre representação. Nesse contexto, a entrada de um nome com histórico ligado à escola pública e ao movimento sindical tende a ampliar a presença desses temas na corrida estadual e a reorganizar apoios em segmentos já mobilizados no campo educacional.


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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo do portal O estopim, com atuação em apuração, redação e edição de reportagens de interesse público, com foco em política, educação e sociedade.


Por Raul Silva para O estopim | 3 de abril de 2026



Texto grande "FUNDEF 2026" em branco sobre fundo azul claro com padrão de linhas. Tamanho e cor do texto chamam atenção.
Precatórios do FUNDEF: Planejamento para 2026 destaca a importância de alocar recursos adequadamente na educação, visando o fortalecimento do ensino básico e a valorização dos profissionais da educação. | Foto: Reprodução

O Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Pernambuco, o Sintepe, informou em vídeo divulgado nas redes que a parcela de 2026 do precatório do Fundef, estimada em quase R$ 434 milhões, já foi transferida para a conta judicial do Supremo Tribunal Federal, em Brasília. O avanço acelera o trâmite para um novo repasse a Pernambuco, mas ainda não significa pagamento imediato aos beneficiários, porque seguem pendentes a transferência para a conta específica do Estado e a publicação de um cronograma oficial de liberação.


No vídeo, a presidenta do Sintepe, Ivete Caetano, apresenta o depósito como mais uma etapa vencida na disputa em torno dos precatórios do Fundef e afirma que a assessoria jurídica do sindicato seguirá cobrando celeridade até que os valores cheguem aos profissionais da educação. A mensagem reforça que o dinheiro já saiu da esfera da União e entrou na conta judicial do STF, ponto considerado decisivo no rito que antecede o repasse ao Estado.


Na prática, a informação indica que o processo saiu da fase de expectativa política e entrou numa fase de execução financeira mais concreta. Ainda assim, há um percurso administrativo e judicial a cumprir até que o valor seja convertido em pagamento na ponta, com definição de lotes, conferência cadastral, tratamento dos casos de herdeiros e divulgação dos valores individualizados.



O precatório do Fundef tem origem na ação judicial em que Pernambuco cobrou da União diferenças de repasses feitos entre 1997 e 2006, período em que o valor mínimo anual por aluno foi calculado de forma contestada por estados e municípios. Ao longo dos últimos anos, o caso se tornou uma das maiores disputas federativas na área da educação, com impacto direto sobre o financiamento da rede pública e sobre o direito de subvinculação de parte dos recursos ao magistério.


A primeira frente dessa disputa resultou no pagamento das parcelas regulares entre 2022 e 2024. Depois, o litígio avançou sobre o chamado saldo controverso, relacionado à diferença entre os cálculos defendidos por Pernambuco e os valores aceitos pela União. Em 2024, um acordo entre o Estado e a Advocacia-Geral da União consolidou essa nova etapa e abriu caminho para um calendário adicional de pagamentos em 2025, 2026 e 2027.


A transferência para a conta judicial do STF não encerra o processo. O próximo passo é o repasse para a conta específica do Fundef em Pernambuco. Só depois dessa etapa o governo estadual poderá anunciar o cronograma de pagamento e alimentar a plataforma usada para consulta de valores e processamento dos casos pendentes.


Esse ponto é central porque a experiência recente mostra que a chegada do dinheiro à conta do Estado não significa crédito automático para todos os beneficiários no mesmo dia. Há exigências administrativas, validação de dados e cumprimento de decisões judiciais, sobretudo nos casos que envolvem espólio, herdeiros e contas judiciais individualizadas.


Se for mantida a lógica aplicada na parcela paga em 2025, 60% do montante deverão ser destinados aos profissionais do magistério com direito ao rateio, enquanto os outros 40% permanecem vinculados a despesas da educação pública estadual. Mas o valor efetivamente rateado em 2026 ainda depende de confirmação oficial após a entrada do recurso em Pernambuco e da atualização dos cálculos finais.


A chamada quarta parcela do Fundef, que tecnicamente corresponde ao saldo controverso reconhecido no acordo, começou a ser destravada em 2024. Em dezembro daquele ano, o Sintepe informou que Pernambuco havia assegurado mais de R$ 1,2 bilhão em valores atualizados até abril de 2024. Em agosto de 2025, a Secretaria de Educação anunciou que a primeira parcela dessa nova etapa havia entrado na conta do Estado e que mais de R$ 336 milhões seriam distribuídos a cerca de 53 mil beneficiários.


Agora, a movimentação da parcela de 2026 recoloca a pressão sobre o governo estadual e sobre o sistema de tramitação judicial para que não se repita um intervalo excessivo entre o depósito na esfera federal e o pagamento na ponta. A cobrança do sindicato é para que o rito seja abreviado e que a categoria receba informações objetivas sobre prazos, critérios e valores.


O tema dos precatórios do Fundef deixou de ser apenas uma ação judicial e se transformou num terreno de disputa política, sindical e institucional. De um lado, o governo estadual procura demonstrar capacidade de execução e de organização dos pagamentos. De outro, o Sintepe sustenta que a conquista é resultado de décadas de pressão sindical, articulação jurídica e mobilização da categoria.


Essa disputa por narrativa não é secundária. Ela influencia a leitura pública sobre quem abriu caminho para a subvinculação dos 60%, sobre a remuneração da assessoria jurídica e sobre a velocidade com que cada parcela é convertida em dinheiro no bolso dos professores e professoras. No vídeo divulgado agora, o sindicato volta a insistir numa mensagem central: nenhum desses repasses ocorreu por inércia administrativa, mas por pressão continuada.


Para os beneficiários, os próximos sinais concretos serão a confirmação do repasse à conta do Estado, a divulgação de cronograma pela Secretaria de Educação e a atualização da plataforma de consulta do Fundef. Sem essas etapas, a transferência ao STF continua sendo um avanço importante, mas ainda intermediário.


O dado novo, portanto, não é o pagamento em si, e sim a comprovação de que a parcela de 2026 entrou na fase judicial de transferência. Em um processo marcado por atrasos, disputas e forte judicialização, isso reduz a margem de incerteza, mas não elimina a necessidade de vigilância pública sobre o destino final dos recursos.


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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo de O estopim, com atuação voltada à cobertura de educação, política e temas de interesse público.


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