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Por Raul Silva para O estopim | 29 de março de 2026



A menos de uma semana do fechamento da janela partidária, marcado para 3 de abril, os partidos em Pernambuco aceleraram a filiação de novos nomes, a troca de legendas entre parlamentares e a montagem de chapas proporcionais para a disputa de 2026. O movimento envolve a base da governadora Raquel Lyra (PSD), o campo liderado pelo prefeito do Recife, João Campos (PSB), e siglas que tentam recuperar peso no tabuleiro estadual, como MDB, PSDB, PRD e PT.


Sessão plenária em uma Assembleia Legislativa. Pessoas sentadas em cadeiras, painel eletrônico ao fundo e bandeiras no palco. Ambiente formal.
Sessão plenária na Assembleia Legislativa de Pernambuco. | Foto: Blog Dantas Barreto

A corrida não se resume a formalidades partidárias. Ela define quem chega a abril com mais bancada, mais capilaridade territorial, mais poder de barganha e mais capacidade de negociar espaços nas chapas majoritárias. Em ano eleitoral, a janela funciona como termômetro de força e também como instrumento de reorganização do sistema político.


Pela regra do Tribunal Superior Eleitoral, deputados federais, estaduais e distritais podem trocar de legenda sem perda de mandato durante a janela partidária, aberta em 5 de março e encerrada em 3 de abril. O mecanismo beneficia apenas mandatos proporcionais, mas seus efeitos extrapolam esse universo. Quando um partido ganha ou perde quadros nesse período, ele não altera apenas números internos. Ele muda o seu peso na negociação das campanhas, na distribuição de recursos e na montagem das nominatas.


Em Pernambuco, esse processo ganhou força desde a primeira quinzena de março e se intensificou nos últimos dias. O próprio cálculo feito por setores do noticiário político local indica uma movimentação ampla, com expectativa de mais de 30 parlamentares trocando de legenda no estado entre Câmara dos Deputados, Assembleia Legislativa e Câmara do Recife.


PSD e PSB disputam o centro da vitrine


Os dois polos mais visíveis da janela são hoje o PSD, sob comando de Raquel Lyra em Pernambuco, e o PSB, presidido nacionalmente por João Campos.


No campo governista, a estratégia é usar a máquina estadual, a atração de quadros e o reposicionamento de aliados para consolidar o PSD como eixo da base reeleitoral de Raquel. O partido já vinha acumulando expectativa de crescimento na Alepe e reforçou a ofensiva também na Câmara dos Deputados. O caso mais simbólico dos últimos dias foi o da filiação de Guilherme Uchoa Jr., que deixou o PSB e ingressou no PSD em ato com Raquel Lyra e Gilberto Kassab.


Dois indivíduos em destaque lado a lado, ambos com expressões sérias. Fundo desfocado colorido. Ambiente profissional.
João Campos (PSB) e Raquel Lyra (PSD) em destaque. | Foto: Júlia Aguiar/1-8-2025 e Diego Nigro/Valor/31-10-2022

Ao mesmo tempo, o entorno da governadora trabalha para ampliar a musculatura do bloco com siglas satélites e nomes regionais. No interior, a filiação de Anderson Luiz ao PSD, em Caruaru, foi tratada como parte da preparação de uma chapa mais competitiva para a Assembleia.


Do outro lado, o PSB tenta preservar a imagem de partido em expansão e de principal eixo oposicionista em Pernambuco. O partido recebeu a deputada federal Maria Arraes, fortaleceu seu discurso de crescimento durante ato nacional de filiações em Brasília e busca agregar nomes com densidade eleitoral para manter peso tanto na Câmara quanto na Alepe. A legenda também virou destino de pré-candidatos vinculados ao entorno de João Campos e ao campo anti-Raquel.


A janela também reabriu espaços para legendas que não estão no centro da polarização estadual, mas querem sobreviver com influência real.


O MDB deu seu lance mais visível com a filiação do presidente da Alepe, Álvaro Porto, num movimento que fortaleceu o partido e, ao mesmo tempo, aprofundou o esvaziamento do PSDB em Pernambuco. A entrada de Álvaro, articulada em Brasília, foi lida como uma tentativa de recolocar o MDB no jogo com mais densidade institucional e mais valor de mercado para a composição de 2026.


O PSDB, por sua vez, reagiu ao baque ao retornar à base de Raquel Lyra com nova direção e ao receber o deputado federal Pastor Eurico, que deixou o PL. Ainda que distante do protagonismo de ciclos anteriores, o partido tenta evitar irrelevância e preservar algum poder de negociação.


Já o PRD aproveitou a janela para dar um salto de visibilidade com a filiação do deputado federal Fernando Rodolfo, que deixou o PL e assumiu o comando da federação PRD-Solidariedade em Pernambuco. A leitura predominante é de que a sigla tentará negociar seu tamanho como força auxiliar do campo governista.


No PT, o movimento tem um ritmo diferente. A sigla passou parte do mês concentrada na definição da aliança com João Campos para o governo estadual, mas também vem trabalhando para fortalecer sua disputa proporcional. Um exemplo foi a filiação de Breno Araújo em Serra Talhada, em ato que reuniu lideranças petistas e marcou a tentativa de ampliar a presença do partido no interior.


A diferença, no caso do PT, é que a janela não é tratada apenas como disputa por nomes disponíveis. Ela está subordinada à estratégia maior de combinar palanque para Lula, composição majoritária e chapas competitivas para Câmara e Assembleia.


Mais do que siglas, a disputa nessa janela partidária é por território


A aparência da janela é a de uma dança de cadeiras. O conteúdo é mais profundo. Cada filiação recente ajuda a responder três perguntas centrais.


A primeira é quem terá bancada suficiente para falar grosso nas negociações de abril em diante.


A segunda é quais partidos conseguirão formar chapas proporcionais com densidade real, evitando o risco de nominatas frágeis, pouco competitivas ou concentradas demais em um só polo regional.


A terceira é quem chega mais forte ao momento de travar a disputa por vice, Senado, tempo de televisão, estrutura municipal e distribuição de recursos.


Três homens são mostrados lado a lado. À esquerda, um de terno com expressão neutra. Ao centro e à direita, expressões sérias. Fundo neutro.
Ex-presidente do PRD confirma que a troca de comando do partido em Pernambuco foi acertada com Luciano Bivar, mostrando coesão na transição de liderança. | Foto: Reprodução/Blog Dantas Barreto

É por isso que a movimentação dos últimos dias não pode ser lida como mero ritual cartorial. Ela é uma fase de pré-campanha. E, em Pernambuco, funciona também como um campo de medição entre dois projetos já em rota de colisão. O de Raquel Lyra, que tenta converter a força do governo em base partidária sólida, e o de João Campos, que tenta apresentar o PSB como centro natural de uma frente mais ampla contra a reeleição da governadora.


Os próximos dias tendem a revelar menos uma grande surpresa isolada e mais o desenho concreto do equilíbrio de forças. Partidos médios devem concluir ajustes de sobrevivência. Siglas grandes tentarão fechar a janela exibindo crescimento. Lideranças regionais vão medir onde há mais espaço, mais recursos e mais perspectiva de mandato. E os dois principais campos da eleição estadual seguirão tratando cada nova filiação como prova de vitalidade política.


Neste domingo, portanto, a fotografia ainda está em movimento. Mas o sentido dela já é claro. Os partidos correm para filiar novos nomes porque sabem que, antes mesmo do início oficial da campanha, a eleição começa pela capacidade de reunir gente, território, bancada e projeto.


Em Pernambuco, a janela partidária deixou de ser apenas um prazo do calendário eleitoral. Virou o primeiro grande teste de força de 2026.


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Raul Silva é jornalista, escritor e produtor de conteúdo de O estopim. Atua na cobertura de política, sociedade e cultura, com foco em contexto, interesse público e verificação dos fatos.

Por Raul Silva para O estopim | 29 de março de 2026



A governadora Raquel Lyra (PSD) chega ao domingo, 29 de março, nos últimos dias da janela partidária de 2026 com uma contradição política no centro de sua estratégia eleitoral. De um lado, avançou sobre a base proporcional, reforçou o PSD, atraiu apoios no interior e ampliou a musculatura do bloco governista na Assembleia Legislativa. De outro, entra na semana decisiva sem apresentar uma definição fechada para a chapa majoritária que tentará levá-la à reeleição.


Mulher de camisa branca fala ao microfone em palco, fundo azul com texto "PERNAMBUCO". Outro homem ao fundo, atmosfera formal.
Raquel Lyra participa de evento no Recife, onde evita comentar sobre o cenário eleitoral e mantém indefinição sobre a chapa para 2026. | Foto: Reprodução

O impasse não é apenas de calendário. Ele expõe a natureza da disputa que Raquel precisará administrar até as convenções. A governadora acumulou alianças, mas ainda não resolveu com nitidez quem ocupará a vice, como serão distribuídas as duas vagas ao Senado e de que forma a recém-homologada Federação União Progressista, formada por União Brasil e PP, se comportará em Pernambuco depois da formalização nacional.


Na prática, Raquel entra na última semana da janela partidária com mais base do que no início do ano, mas sem a fotografia final de sua chapa.


A situação da governadora não é a de isolamento político, como em momentos anteriores de sua gestão. O quadro mudou. O União Brasil declarou apoio à sua reeleição em 18 de março, e o ex-prefeito de Petrolina Miguel Coelho aceitou o convite para disputar o Senado ao seu lado. Ao mesmo tempo, o PSD seguiu recebendo novas filiações, entre elas a do deputado federal Guilherme Uchôa Júnior, num movimento que ajuda Raquel a demonstrar capacidade de atração no plano partidário.


Mas uma coisa é ampliar a base. Outra, bem diferente, é concluir a engenharia da chapa.


Nem a vice-governadora Priscila Krause (PSD) foi confirmada publicamente na vice. A própria Raquel já evitou cravar sua permanência e disse, ainda em fevereiro, que a composição poderia ser fechada apenas mais adiante. A fala foi interpretada como sinal de que todas as peças ainda estavam em negociação.


No Senado, o quadro também permanece incompleto. Miguel Coelho passou a ocupar uma das vagas mais visíveis do campo governista, mas o segundo nome segue cercado de dúvidas. O senador Fernando Dueire (MDB) se movimenta como opção, porém enfrenta um problema político e partidário: o MDB tende a permanecer mais próximo da Frente Popular. Já o deputado federal Eduardo da Fonte (PP) continua no radar, mas a relação com o governo sofreu desgaste nas últimas semanas e a federação recém-homologada adicionou uma nova camada de disputa interna.


A janela partidária e o prazo real de pressão


Pelo calendário oficial do Tribunal Superior Eleitoral, a janela partidária de 2026 começou em 5 de março e termina em 3 de abril. É nesse período que deputados federais, estaduais e distritais podem trocar de legenda sem perder o mandato. Embora a definição da chapa majoritária não dependa formalmente do fim da janela, esse prazo funciona como acelerador político. É nele que se mede força, se distribui espaço, se testam lealdades e se desenham os contornos reais de cada palanque.


Para Raquel Lyra, esse cronograma importa por duas razões. Primeiro, porque o governo ainda aguarda o fechamento da janela para saber com mais precisão como ficarão as bancadas e em quais condições poderá operar na Alepe nos próximos meses. Segundo, porque a governadora precisa mostrar que a ampliação da base não é apenas numérica, mas também eleitoral.


Sem essa tradução para a chapa, o ganho de musculatura partidária corre o risco de parecer incompleto.


Pessoas em pé em um palco com fundo azul exibindo “União Progressista” e “UP”. Plateia observa, cenário formal e solene.
Anúncio oficial da formação da Federação União Progressista na Câmara, com líderes e membros keyados reunidos para o evento. | Foto: Renato Araújo/Câmara dos Deputados

A homologação da União Progressista pelo TSE, em 26 de março, reorganizou o tabuleiro. Em tese, a federação reforça o bloco de centro e centro-direita com o qual Raquel tenta montar sua reeleição. Em Pernambuco, a tendência predominante continua sendo de apoio à governadora. Mas a formalização nacional não eliminou os conflitos locais. Em alguns casos, ela apenas os concentrou.


O principal deles envolve protagonismo. Miguel Coelho, hoje já apresentado como pré-candidato ao Senado ao lado de Raquel, representa o núcleo do União Brasil que aderiu ao palanque governista. Eduardo da Fonte, por sua vez, mantém influência decisiva no PP e assumirá peso ainda maior dentro da federação em Pernambuco. O problema é que os dois orbitam o mesmo espaço de poder e têm pretensões que nem sempre cabem de forma harmoniosa na mesma equação.


É por isso que a governadora, mesmo com a federação homologada, ainda não pode vender a narrativa de chapa encerrada. A união fortalece o bloco, mas não resolve automaticamente a distribuição das posições mais cobiçadas.


O contraste com João Campos pesa para Raquel Lyra


A indefinição de Raquel também é lida em contraste com o avanço do campo adversário. João Campos (PSB) entrou no fim de semana com o apoio formalizado do PT, consolidando uma chapa com Humberto Costa, Marília Arraes e Carlos Costa. Esse desenho dá ao prefeito do Recife uma vantagem narrativa importante: a de quem conseguiu converter articulação em imagem pronta.


Raquel ainda não está nessa etapa. Seu campo tem ativos, prefeitos, partidos, estrutura e capilaridade. Mas ainda precisa transformar isso numa mensagem simples para o eleitor. Em política majoritária, a diferença entre ter apoios e parecer ter rumo pode ser decisiva.


Há, evidentemente, uma racionalidade na demora. Antecipar a chapa antes de acomodar todos os aliados pode produzir perdas desnecessárias. Fechar cedo demais pode empurrar insatisfeitos para candidaturas proporcionais hostis, reduzir margem de negociação e aprofundar fissuras dentro de uma coalizão heterogênea.


Dois indivíduos seguram microfones, parecendo falar em eventos separados. A mulher veste listras e o homem usa terno azul. Fundo neutro.
Governadora de Pernambuco, Raquel Lyra, e o prefeito do Recife, João Campos, em destaque como potenciais adversários políticos nas eleições de 2026. | Foto: Reprodução/Folha de Pernambuco

Raquel parece apostar justamente no movimento contrário. Em vez de anunciar a moldura final, prefere preservar flexibilidade. Foi essa a linha adotada quando evitou comentar o cenário eleitoral durante agenda de governo no Recife, em 23 de março, sob o argumento de que não queria misturar gestão e disputa eleitoral. Publicamente, o discurso é o de foco administrativo. Politicamente, porém, a leitura é de que a governadora tenta ganhar tempo para fechar melhor a conta.


Esse cálculo tem vantagens, mas também custo. Quanto mais a adversária posterga a definição, mais o campo oposicionista explora a imagem de um palanque ainda sem forma final.


O problema não é falta de nomes, mas excesso de vetores


Dizer que Raquel entra na última semana da janela sem definição de chapa não significa dizer que lhe faltam opções. O problema é outro. Existem nomes demais, interesses demais e centros de força demais para poucas posições.


Priscila Krause representa continuidade administrativa e lealdade de governo. Miguel Coelho traz o peso do Sertão e de uma família politicamente estruturada. Fernando Dueire oferece mandato, trânsito em Brasília e experiência senatorial. Eduardo da Fonte carrega densidade partidária, capilaridade e capacidade de negociação. Ao redor deles, gravitam ainda outros atores de peso, como Mendonça Filho, quadros do Podemos, do Avante e lideranças municipais que querem participar da equação.


Esse excesso de vetores ajuda a explicar por que a chapa ainda não saiu do terreno da hipótese para o da formalização política plena.


Two women smiling and holding hands. One in a floral blouse, the other in a black shirt. Brazilian flag visible in the background. Warm mood.
Raquel ainda pondera sobre a continuidade de Priscila Krause como sua vice-governadora. | Foto: Reprodução

Os próximos dias serão decisivos menos pelo anúncio imediato de uma chapa completa e mais pela sinalização de autoridade política. Raquel precisará mostrar pelo menos três coisas.


A primeira é que o crescimento do PSD e da base governista na janela partidária se traduz em comando real sobre o processo.


A segunda é que a federação União Progressista não se tornará uma nova frente de instabilidade dentro do seu palanque.


A terceira é que sua reeleição não dependerá apenas da força da máquina estadual, mas de uma narrativa organizada, com alianças coerentes e direção clara.


Se conseguir isso, a indefinição atual poderá ser lida como prudência estratégica. Se não conseguir, ela passará a ser interpretada como dificuldade de coordenação.


Entre a ampliação da base e a ausência de moldura


Neste domingo, o retrato de Raquel Lyra é o de uma governadora que melhorou sua posição em relação ao começo do ano, mas ainda não concluiu a peça central da disputa. Ela chega aos últimos dias da janela partidária com mais partidos, mais filiações e mais conversas, porém sem ter transformado tudo isso numa chapa fechada.


Num cenário em que João Campos já avança com imagem mais organizada do seu campo, a governadora entra na semana final pressionada a converter força difusa em desenho político compreensível. O que está em jogo não é apenas a ocupação de vagas. É a capacidade de fazer o eleitor enxergar quem está com ela, por quê e em torno de qual projeto.


Até aqui, Raquel reuniu peças. A semana que começa dirá se conseguirá montar o tabuleiro.


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Raul Silva é jornalista, escritor e produtor de conteúdo de O estopim. Atua na cobertura de política, sociedade e cultura, com foco em contexto, interesse público e verificação dos fatos.

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