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Por Raul Silva para O estopim | 6 de abril de 2026



Fachada da Câmara de Vereadores de Arcoverde com placa verde "Poder Legislativo". Edifício cinza, entrada central. Ambiente urbano.
Fachada da Câmara de Vereadores de Arcoverde, conhecida como Casa James Pacheco, destacando a instituição do Poder Legislativo Municipal em Pernambuco. | Foto: Reprodução/Redes Sociais

Um pedido de cassação protocolado nesta segunda-feira (6) contra o presidente da Câmara de Arcoverde, Luciano Pacheco, abriu um novo capítulo da crise política no município. A denúncia sustenta que o vereador teria exercido a advocacia de forma incompatível com o cargo que ocupa na Mesa Diretora da Casa, enquanto a defesa do parlamentar afirma que há perseguição política em curso após o rompimento com o grupo do prefeito Zeca Cavalcanti.


A peça foi apresentada pela cirurgiã-dentista Mércia Cavalcante de Lira Lumba, representada pelo advogado Tércio Soares Belarmino, e aponta que Pacheco teria praticado atos privativos da advocacia em 29 e 30 de abril de 2025, no âmbito de uma ação penal que tramita na 4ª Vara Criminal de Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro. A acusação se apoia no artigo 28, inciso I, do Estatuto da Advocacia, que estabelece incompatibilidade para o exercício da advocacia por membros da Mesa do Poder Legislativo.


No documento consultado pela reportagem, o pedido é dirigido ao vice-presidente da Câmara, Claudelino Costa, e pede a abertura do rito político-administrativo previsto no Regimento Interno da Casa. A denúncia também anexou referências a documentos do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro e ofícios da OAB de 2011 para sustentar a tese de reincidência.


Homem de terno cinza e gravata roxa em um escritório, com bandeiras brasileiras ao fundo. Expressão séria. Ambiente formal.
O vereador Luciano Pacheco, que ocupa a presidência da câmara, está enfrentando um pedido de cassação que envolve Mércia Cavalcante Lira Lumba. Ela é irmã da Secretária de Ação Social do Governo Zeca Cavalcanti. | Foto: Reprodução/Redes Sociais

Nas páginas iniciais do material, a autora da denúncia afirma que Luciano Pacheco, eleito presidente da Câmara em 1º de janeiro de 2025, não poderia mais advogar enquanto ocupasse a função. A peça menciona uma certidão processual segundo a qual o vereador teria ido ao cartório buscar informações sobre mídias anexadas ao processo no Rio de Janeiro e, depois, participado da sessão do júri “na defesa do acusado”. O texto ainda cita um episódio de 2011, quando a incompatibilidade entre presidência da Câmara e advocacia já teria sido levada à OAB.


Do ponto de vista jurídico, o centro da controvérsia está menos na atividade política de Pacheco e mais na interpretação da vedação profissional prevista em lei. O Estatuto da Advocacia trata a hipótese como incompatibilidade, e não como mero impedimento parcial, o que, em tese, veda a prática da advocacia enquanto o agente estiver na Mesa Diretora. Isso não significa, por si só, cassação automática. Significa que a Câmara precisará decidir primeiro se recebe a denúncia e, em seguida, se entende haver prova suficiente para abrir comissão processante.


Na reação pública, Luciano Pacheco disse ver no pedido uma tentativa de esvaziar politicamente sua atuação à frente do Legislativo. Na nota divulgada após o protocolo, ele afirmou que virou alvo de “perseguição implacável” por defender a autonomia da Câmara e por colocar seu nome à disposição para uma pré-candidatura a deputado federal. Também acusou o grupo governista de usar a máquina pública e vínculos familiares para tentar atingir sua reputação.


Foi nessa mesma manifestação que Pacheco deu tom político ainda mais agudo ao caso. Ele afirmou que Mércia Cavalcante de Lira Lumba é mãe de Caio Lira, descrito por ele como comissionado da área de Turismo, Esportes e Eventos, e irmã de Neila Lira, citada na nota como ligada à Assistência Social da gestão municipal. A referência foi usada pelo presidente da Câmara para sustentar a tese de que a denúncia tem motivação política, e não apenas jurídica.


Dois homens de camisa amarela levantam as mãos sorrindo em um comício. Fundo azul e verde. Camisetas com adesivos "Zeca 20". Atmosfera alegre.
Prefeito Zeca e vice-prefeito Siqueirinha que romperam politicamente com Luciano Pacheco, sinalizando um novo rumo na administração municipal. | Foto: Reprodução/Divulgação de Campanha Zeca Cavalcanti

O pedido de cassação não aparece num ambiente neutro. Em 24 de março, o prefeito Zeca Cavalcanti e o vice-prefeito Siqueirinha divulgaram nota oficial tornando público o afastamento político de Luciano Pacheco do grupo da gestão. O comunicado não detalhou os motivos do rompimento e informou apenas que, dali em diante, a relação com o vereador passaria a ser exclusivamente institucional.


Seis dias depois, a temperatura subiu. A sessão ordinária da Câmara prevista para 30 de março foi cancelada por falta de quórum. Dos dez vereadores, apenas Luciano Pacheco compareceu ao plenário. A ausência coletiva travou a pauta, impediu a abertura formal dos trabalhos e virou símbolo do racha entre o presidente da Casa e a base alinhada ao Executivo. Coberturas locais e reações institucionais passaram a tratar o episódio como um esvaziamento político do Legislativo.


A repercussão foi imediata. A UVP - UNIÃO DE VEREADORES DE PERNAMBUCO classificou o caso como grave e disse que a ausência coletiva compromete a representação popular e a credibilidade das instituições democráticas. A ANV - ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE VEREADORES, em nota repercutida dias depois, também demonstrou preocupação com possível interferência do Executivo nas atividades do Legislativo e reforçou a necessidade de independência entre os poderes locais.


LEIA O PEDIDO DE CASSAÇÃO NA INTEGRA OU FAÇA O DOWNLOAD




Presidente da Câmara de Arcoverde, Luciano Pacheco, se manifesta contra o pedido de cassação em nota oficial, denunciando perseguição política e uso indevido da máquina pública. | Foto: Reprodução/Rede Social do vereador Luciano Pacheco
Presidente da Câmara de Arcoverde, Luciano Pacheco, se manifesta contra o pedido de cassação em nota oficial, denunciando perseguição política e uso indevido da máquina pública. | Foto: Reprodução/Rede Social do vereador Luciano Pacheco

Arcoverde entrou numa disputa em que o processo jurídico e a guerra política caminham lado a lado. De um lado, há uma acusação formal baseada em lei federal, em registros processuais e em documentos anexados ao protocolo. De outro, há um presidente de Câmara que responde dizendo ser alvo de retaliação política logo após romper com o grupo do prefeito e depois de ver o plenário esvaziado numa sessão ordinária.


A próxima etapa será institucional. Caberá à Câmara decidir se recebe ou não a denúncia e se abre o rito previsto em seu regimento. O que está em julgamento, portanto, não é apenas a permanência de Luciano Pacheco no cargo, mas a capacidade do Legislativo municipal de separar prova, disputa de poder e pressão política num momento em que a crise já transbordou para o centro da cena pública em Arcoverde.


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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo de O estopim, com atuação em política, poder local e fiscalização do setor público.

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