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O presidente da Câmara de Vereadores de Arcoverde, Luciano Pacheco, publicou um vídeo de cerca de um minuto em que reage ao pedido de cassação que tramita contra ele, acusa a autora da denúncia de ter interesses políticos e comerciais no embate e exibe documentos de empenho ligados a órgãos da administração municipal. A gravação, divulgada na noite de segunda-feira, 4 de maio, intensifica uma disputa que já mistura denúncia por suposto exercício irregular da advocacia, guerra de versões, questionamentos sobre rito interno da Casa e uma nova sessão extraordinária marcada para esta terça-feira, 5 de maio, às 19h.


Por Raul Silva para O estopim | 5 de maio de 2026


Político fala ao microfone em uma sala com bandeiras ao fundo. Tela exibe votos; crucifixo na parede. Ele parece enfático.
Luciano Pacheco, presidente da Câmara de Vereadores de Arcoverde | Foto: Reprodução

A fala de Luciano parte de uma pergunta. Segundo ele, é preciso entender por que alguém pediria a cassação de seu mandato. Em seguida, o vereador cita Mércia Cavalcante de Lira Lumba e sustenta haver possíveis irregularidades em contratos da livraria Lira Cultural com órgãos do município, entre eles a Secretaria de Assistência Social, a AESA e a Secretaria de Educação.


Documento textual com informações financeiras e administrativas. Texto circulado: secretaria, data, valor empenhado, onde é e nome.
Empenho apresentado por Luciano Pacheco em vídeo | Foto: Reprodução

Na parte final, o vídeo passa a exibir imagens de empenhos e registros administrativos. Luciano usa o material para sustentar que existe conflito de interesses e afirma que a autora da denúncia não poderia contratar com o município por ter vínculo familiar com integrante da gestão. A acusação é grave, mas, até a manhã desta terça-feira, não havia resposta pública das pessoas citadas no vídeo nem posicionamento formal da Prefeitura de Arcoverde sobre o tema.


Documento financeiro com texto em português. Destaques em vermelho incluem "AESA," nome, data (07/10/2025) e valor (R$ 1.683,00). Emoção neutra.
Empenho apresentado por Luciano Pacheco em vídeo | Foto: Reprodução

O movimento tem peso político evidente. Em vez de se limitar à defesa jurídica sobre o mérito da denúncia que atinge seu mandato, Luciano tenta abrir uma frente paralela de desgaste contra a denunciante e contra a administração municipal.


Tabela com texto sobre subsídio para manutenção de espaço cultural. Valor destacado: R$ 6.000,00. Fundo branco com texto preto.
Empenho apresentado por Luciano Pacheco em vídeo | Foto: Reprodução

O caso ganhou corpo no início de abril, quando foi protocolado pedido de cassação contra Luciano Pacheco. A denúncia sustenta que ele teria exercido atividade privativa de advogado enquanto já ocupava a presidência da Câmara de Arcoverde, o que os denunciantes tratam como incompatível com o cargo.


Segundo documentos e relatos, os fatos centrais apontados na denúncia estão concentrados entre 28 e 30 de abril de 2025. A acusação cita presença de Luciano em cartório da 4ª Vara Criminal da Comarca de Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro, para acesso a mídias de processo, além de registro de atuação em sessão do Tribunal do Júri na defesa de um acusado. Para os denunciantes, a sequência indica exercício efetivo da advocacia quando ele já estava impedido por exercer função na Mesa Diretora do Legislativo.


A base legal invocada é o artigo 28, inciso I, do Estatuto da Advocacia, que trata da incompatibilidade do exercício da advocacia por membros da Mesa do Poder Legislativo. A denúncia também resgata questionamentos antigos sobre episódio semelhante em 2010, quando Luciano já havia presidido a Câmara.


Luciano nega irregularidade. Sua linha de defesa foi apresentada em etapas. Primeiro, afirmou que a ofensiva tem motivação política e ligação com seu rompimento com o grupo do prefeito Zeca Cavalcanti. Depois, passou a sustentar que houve falhas regimentais na tramitação interna da denúncia.


Em meados de abril, ele divulgou vídeo afirmando que os próprios vereadores tiveram de anular atos iniciais do processo, entre eles a leitura da denúncia e o sorteio da comissão de avaliação realizados em 6 de abril. Segundo Luciano, a movimentação teria sido conduzida de forma atabalhoada e sem respeito ao Regimento Interno e à Lei Orgânica do Município.


Mais adiante, ao final da sessão de 27 de abril, acrescentou outro eixo à defesa. Disse que a OAB Pernambuco arquivou denúncia sobre seu exercício profissional e que o Ministério Público de Pernambuco também não apontou ilícito penal. Segundo a versão do vereador, o compromisso jurídico no Rio de Janeiro era anterior à sua posse como presidente da Câmara e o que houve foi apenas o cumprimento de obrigação processual já assumida, sem captação de novos clientes.


A defesa de Mércia Lira rebateu esse argumento. Em nota pública, o advogado Tércio Soares Belarmino afirmou que Luciano tenta confundir a opinião pública ao vincular o arquivamento de um procedimento a outro caso distinto. Segundo ele, a representação disciplinar apresentada pela denunciante à subseção da OAB em Arcoverde foi encaminhada ao Tribunal de Ética e Disciplina da OAB Pernambuco e continuaria sem relação direta com a narrativa de absolvição apresentada pelo presidente da Câmara.


Esse ponto é central porque revela o tamanho da disputa. Já não se discute apenas o fato original, mas também qual versão documental prevalece. Em outras palavras, o caso deixou de ser apenas uma apuração sobre eventual incompatibilidade funcional e virou uma batalha sobre credibilidade, rito, competência institucional e opinião pública.


A denúncia não ficou restrita ao protocolo. Ela explodiu dentro do plenário. Em 6 de abril, a Câmara viveu uma sessão marcada por tumulto, interrupções e forte embate entre Luciano e vereadores da base governista. Naquele episódio, a denúncia foi recebida por nove votos a zero, depois de o vice-presidente Claudelino Costa conduzir a apreciação em meio a microfones desligados, acusações de manobra política e troca de ofensas entre grupos rivais.


No sorteio realizado na sessão extraordinária de 6 de abril, a comissão foi formada por Heriberto do Sacolão, João Taxista e Rodrigo Rôa. Luciano reagiu dizendo que a tramitação seria judicializada. Claudelino, por sua vez, sustentou que o presidente da Casa, por ser o investigado, não poderia conduzir os atos da própria apuração. 


O clima seguiu em escalada nas semanas seguintes e o caso transformou-se em crise institucional. A disputa extrapolou o campo técnico e passou a reorganizar as forças políticas da Câmara, com reflexos diretos na relação entre Luciano e o governo municipal.


Rua com prédios, bandeiras e céu azul. Pessoas andam na calçada. Criança em triciclo. Placa "Doe Sangue" visível. Igreja ao fundo.
Câmara de Vereadores de Arcoverde | Foto: Reprodução/Redes Sociais

Para a noite desta terça-feira, 5 de maio, a Câmara marcou sessão extraordinária destinada à leitura e votação do parecer da comissão prévia sobre a admissibilidade da denúncia. O rito é decisivo. Se a maioria aceitar o parecer favorável ao prosseguimento, será necessário um novo sorteio para formação de comissão processante. Se a admissibilidade cair, a tentativa de abertura formal do processo sofre novo revés político.


Até a publicação desta matéria, não havia resultado da sessão porque o encontro estava previsto para as 19h, horário de Brasília. O que já se sabe é que o ambiente chega contaminado por semanas de acusações cruzadas, documentos expostos em redes sociais e disputa aberta entre o presidente da Câmara, seus pares e setores da gestão municipal.


Há, neste momento, pelo menos quatro planos simultâneos em curso. O primeiro é o plano jurídico, sobre a existência ou não de incompatibilidade entre o mandato de presidente da Câmara e a atuação de Luciano no processo do Rio de Janeiro. O segundo é o plano regimental, que envolve a validade dos atos praticados no Legislativo municipal. O terceiro é o plano político, marcado pelo rompimento de Luciano com o grupo governista e pela tentativa de reorganização de maioria na Casa. O quarto é o plano comunicacional, no qual vídeos, notas e documentos passaram a ser usados como instrumentos de convencimento e pressão.


O vídeo publicado agora se insere exatamente nesse quarto plano, mas busca influenciar todos os outros. Ao atacar a autora da denúncia, Luciano tenta enfraquecer a legitimidade política do processo. Ao mostrar empenhos, tenta produzir suspeição sobre quem o acusa. Ao escolher a linguagem direta das redes, fala menos para os autos e mais para a opinião pública.


A sessão desta noite tende a definir o próximo capítulo, mas não deve encerrar o caso. Seja qual for o resultado, a tendência é de continuidade da disputa em mais de uma frente. Se a denúncia avançar, a pressão sobre Luciano aumentará e o processo ganhará novo peso político. Se recuar, aliados do presidente tratarão o desfecho como prova de perseguição frustrada. Em qualquer cenário, a judicialização permanece como caminho provável.


No centro de tudo está uma questão maior do que o destino individual de um vereador. A Câmara de Arcoverde vive uma crise de autoridade, de rito e de confiança pública. E, quando o plenário vira extensão da guerra política, o prejuízo deixa de ser apenas dos envolvidos. Passa a ser da instituição.


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Raul Silva é jornalista, escritor e produtor de conteúdo de O estopim. Atua com reportagem, análise política e cobertura de temas de interesse público, com foco em contexto, apuração e impacto social.

A entrevista por telefone do advogado e professor de Direito Fernandes Braga ao Jornal Itapuama, da Rádio Itapuama FM, nesta terça-feira, 21, reposicionou o foco da crise aberta na noite anterior na Câmara de Vereadores de Arcoverde


Por Raul Silva para O estopim | 21 de abril de 2026



Citado durante a Tribuna Livre da sessão que terminou em tumulto, Fernandes Braga afirmou que sua atuação no caso envolvendo o agora ex-vereador Claudelino Costa foi “exclusivamente técnica”, acusou o uso indevido da tribuna para ataques pessoais, anunciou reação nas esferas ética e penal e disse que o episódio expôs uma deterioração do debate político e jurídico dentro da Casa.


Homem de óculos, vestindo terno azul e gravata xadrez, olha seriamente para a câmera. Fundo cinza, imagem formal e profissional.
Fernandes Braga advogado de Claudelino Costa e irmão de Israel Rubis a quem teriam sido dirigidos insultos em comentários no Instagram e em citações na Câmara de Veredares de Arcoverde, na noite desta segunda (20), durante seção plenária | Foto: Assessoria Dr. Fernandes Braga

A fala veio depois de uma sessão marcada por bate-boca, interrupções e confusão generalizada. O pano de fundo era a análise do parecer sobre a denúncia apresentada por Micael Lopes de Gois contra Claudelino Costa, já em cenário alterado pela renúncia do parlamentar ao mandato. Na prática, a renúncia embaralhou o eixo da discussão, ampliou a disputa de versões sobre a perda ou não do objeto do processo e abriu mais uma frente de desgaste para o presidente da Câmara, Luciano Pacheco, também citado por Braga e por outros atores do caso.


Logo no início da entrevista, Fernandes Braga reagiu ao fato de ter sido citado na sessão e adotou um tom duro contra o advogado que se pronunciou na Tribuna Livre. Em um dos trechos centrais da fala, disse:


“Primeiro, quero dar os parabéns ao advogado que sustentou ontem lá na Câmara dos Vereadores. Eu não me recordo o nome dele, que geralmente tem essa dificuldade de recordar quem não me deixa lembrança. Mas enfim, quero dar os parabéns a ele e dizer que mais uma vez ele vai ter um minuto de fama. Cavou mais um pente sobre mim. Eu nem estava presente.”

Braga buscou marcar distância entre o embate político travado na Câmara e sua condição de defensor de Claudelino Costa. Segundo ele, sua presença no caso se deu para sustentar uma linha estritamente jurídica, ligada ao curso do processo e à suspensão do feito em razão da ação penal em andamento. Na entrevista, afirmou:


“Então, assim, a minha atividade, a minha atribuição é exclusivamente técnica.”

A partir daí, o advogado passou a sustentar que a sessão ultrapassou os limites de uma discussão de mérito.


“Então, assim, é inadmissível que um profissional do Direito utilize o púlpito de uma Casa legislativa do Poder Legislativo para agredir pessoas”, declarou, antes de acrescentar que houve exaltação, quebra de microfone e ofensas dirigidas a seu irmão, o delegado Israel Rubis.

O núcleo jurídico da entrevista de Fernandes Braga foi a tentativa de separar o debate processual da escalada pessoal registrada na Câmara. Segundo ele, a menção ao seu nome e ao do irmão extrapolou o terreno do contraditório e avançou para a imputação de crimes.



Foi nesse ponto que ele elevou o peso das acusações. Nas palavras transcritas do arquivo da entrevista:


“A partir do momento que esse vereador, esse advogado, diz lhe que esse advogado aqui que vos fala se defendia se proteger através de um distintivo de um delegado de polícia que é o meu irmão. Ele está dizendo de um lado, atacando o delegado, dizendo que o delegado está praticando um crime de advocacia administrativa e do outro norte e imputando a mim um fato criminoso de tráfico de influência. Isso é muito sério. Isso é muito grave. Isso tem que ficar claro.”

Ao formular essa leitura, Braga procurou converter a crise política em questão de responsabilização formal. Na mesma entrevista, afirmou que o outro advogado “vai ter que responder no tribunal de Ética e Disciplina” e acrescentou que pretende ingressar com queixa-crime, sustentando que houve imputação de fatos criminosos sem base.


Se a primeira metade da fala de Fernandes Braga foi dedicada a rebater as menções feitas a ele e ao irmão, a segunda deslocou parte da responsabilidade para o comando da sessão. Para o advogado, a desorganização do debate não foi um acidente lateral, mas consequência da forma como os trabalhos foram conduzidos.


No trecho mais direto contra a presidência da Casa, ele afirmou que:


“o maior responsável outrora por esse episódio chama se o presidente da Casa Legislativa”. Depois, aprofundou a crítica ao dizer que “todo esse processo é deflagrado em decorrência da irresponsabilidade e da incompetência de se conduzir os processos da casa legislativa”.

A crítica tem peso político porque a atual crise da Câmara de Arcoverde já não se limita ao caso Claudelino. Nas últimas semanas, o ambiente legislativo local passou a ser marcado por acusações cruzadas, questionamentos sobre a legalidade de atos internos e nova pressão sobre Luciano Pacheco, citado em outros procedimentos e já submetido a desgaste público crescente.


O tumulto da noite de 20 de abril foi registrado por veículos e perfis locais com versões convergentes em um ponto central: a sessão saiu do controle antes da conclusão da pauta. A discussão se acirrou durante a Tribuna Livre, quando o advogado Eldy Magalhães, que atuou pela parte denunciante no caso Claudelino Costa, passou a fazer referências a Fernandes Braga, à vereadora Célia Galindo e ao delegado Israel Rubis.


Célia reagiu, ainda que à distância, por telefone. Israel Rubis também entrou na cena do conflito. A sessão acabou encerrada sem conclusão regular da votação prevista, o que ampliou a percepção de colapso institucional em uma Câmara já atravessada por disputas políticas, jurídicas e pessoais.


Fernandes Braga retomou esse ponto para sustentar que a tribuna perdeu completamente o foco do objeto formal. Em outro trecho literal da entrevista, afirmou:


“Eu tinha um minuto, eu tinha um tempo regimental e lá eu colocava o objeto que eu vou sentar e o processo de cassação, abertura, suspensão. Claudelino, vereador Claudelino. E ontem eu não sei qual era o objeto. O objeto agora é uma vereadora. Uma outra hora é um ataque a um delegado, outra hora é um ataque a um colega advogado, um advogado atacando, outro ataca a própria OAB.”

A crise não ficou restrita ao plenário. O episódio avançou para entrevistas, postagens e comentários em redes sociais, especialmente nas publicações da Itapuama FM que passaram a repercutir o caso na manhã desta terça-feira. Em um desses comentários posteriores, ainda repercutidos publicamente, apareceu a referência a “correr pra Paraíba”, expressão que voltaria a ser mencionada por Fernandes Braga ao vivo.


Na entrevista, o advogado retomou o tema de forma explícita e procurou responder tanto ao tumulto da sessão quanto à repercussão digital. Disse:


“eu quantas vezes eu precisar ir a cidade de Arcoverde eu vou, não vou correr pra Paraíba. Eu não sou um foragido. Eu não sou um homem contra a lei. Eu não sou um marginal, não vive à margem da lei.”

Ao mesmo tempo, voltou a subir o tom contra o colega ao afirmar:


“É um cidadão misógino. É um cidadão homofóbico, inclusive veiculando em comentários no WhatsApp dizendo que o delegado iria correr para a Paraíba, de que ele não tinha a intenção de ter relações homo homossexuais comigo.”

Trata-se de uma acusação atribuída exclusivamente a Fernandes Braga. Até a publicação deste texto, O estopim não encontrou manifestação pública nova de Eldy Magalhães especificamente sobre essas declarações feitas no Jornal Itapuama.


No plano jurídico, um dos pontos mais sensíveis do episódio é o debate sobre a continuidade ou não do processo político após a renúncia de Claudelino Costa. Fernandes Braga sustentou, ao longo da entrevista, que seu papel foi o de defender tecnicamente a leitura de suspensão e, depois, de perda de objeto. Esse entendimento dialoga com o cenário que já vinha sendo apresentado na própria pauta legislativa da Câmara e em reportagens locais sobre o parecer da comissão prévia.


Na prática, a renúncia deslocou o centro da crise. O que seria uma sessão voltada à apreciação de um parecer relacionado a Claudelino transformou-se em novo capítulo da crise de governabilidade da Casa. Foi justamente essa mudança de eixo que Braga tentou enfatizar ao afirmar que a Tribuna Livre deixou de discutir o objeto formal e passou a operar como espaço de ataque pessoal e disputa paralela.


A entrevista de Fernandes Braga interessa por duas razões. A primeira é imediata: ela oferece a resposta de um dos personagens citados na sessão mais caótica recente da Câmara de Arcoverde. A segunda é estrutural: ela ajuda a dimensionar como a crise local deixou de ser apenas um conflito sobre mandato, denúncia ou regimento e passou a atingir o próprio ambiente institucional do Legislativo.


Quando um advogado usa a rádio para anunciar representação ética, queixa-crime, crítica à presidência da Casa e repúdio à forma como a tribuna foi usada, o caso já não se resume ao plenário. Ele se projeta para a arena pública, para a disputa de narrativas e para os desdobramentos formais que podem surgir nos próximos dias.


A Câmara de Arcoverde terá de responder não apenas sobre o futuro processual do caso Claudelino, mas também sobre a condução de uma sessão que terminou sem ordem, sem deliberação conclusiva e com repercussões políticas, jurídicas e públicas ainda em aberto.


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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo de O estopim. Atua na cobertura de política, instituições, justiça e bastidores do poder local, com foco em contexto, apuração documental e interesse público.

Em entrevista por telefone ao Jornal Itapuama, na manhã desta terça-feira, ex-vice-prefeito afirmou que estava na academia quando ouviu seu nome ser mencionado na sessão, foi ao plenário para cobrar explicações e reagiu após o que classificou como ofensas e provocação


Por Raul Silva, da redação de O estopim - Fonte: Jornal Itapuama | 21 de abril de 2026



Homem de óculos fala ao microfone em estúdio de rádio. Veste camisa clara. Mesa branca com revista à direita. Ambiente profissional.

A crise política que voltou a expor a Câmara de Vereadores de Arcoverde na noite da segunda-feira, 20 de abril, ganhou novo capítulo na manhã desta terça-feira, 21, com a entrevista concedida por telefone por Israel Rubis à jornalista Zalxijoane Lins, durante o Jornal Itapuama. Na conversa, o ex-vice-prefeito e delegado apresentou sua versão para o tumulto registrado no plenário e sustentou que não tinha qualquer envolvimento com o processo político que dominava a sessão, afirmando que só foi até a Casa Legislativa depois de ouvir seu nome ser citado durante a transmissão. A sessão discutia o parecer da comissão prévia sobre o caso envolvendo Claudelino Costa, que havia renunciado ao mandato horas antes, e terminou interrompida em meio a bate-boca, acusações e confusão no plenário.


Na entrevista, Israel Rubis buscou, desde o início, construir uma defesa apoiada na ideia de distanciamento da política eleitoral e de ausência de vínculo com o episódio em debate na Câmara.

“Como é público e notório, em 2022, eu renunciei a um mandato. De lá pra cá, eu venho construindo gradativamente um cenário de me afastando do debate público e eleitoral”, afirmou.

Na mesma linha, acrescentou que sua rotina hoje é centrada no serviço público, nos estudos e na vida pessoal, tentando afastar a imagem de alguém movido por disputa política ou por desejo de confronto.

“Eu sou um sujeito de personalidade tranquila”, disse. “Minha vida é uma vida muito tranquila. Eu sou um cara de casa para o trabalho.”

O contexto da sessão ajuda a dimensionar o peso dessa declaração. A reunião da Câmara ocorreu poucas horas depois de Claudelino Costa formalizar a renúncia ao mandato em Arcoverde, em meio a acusações que vinham tensionando o ambiente político local. Com a saída do então vereador, o parecer em discussão apontava para o arquivamento do caso por perda de objeto, já que o processo de cassação não chegaria a ser concluído após a renúncia. Foi nesse cenário de desgaste institucional que a tribuna livre se transformou no principal foco de tensão da noite.



Segundo Israel Rubis, ele não acompanhava a sessão presencialmente. Disse que estava na academia com a esposa, mantendo sua rotina habitual, quando resolveu ouvir a transmissão.

“Ontem, como eu costumeiramente faço, fui para a academia com minha esposa”, relatou. Em seguida, explicou como passou a acompanhar o que se dizia no plenário: “Durante a atividade física, deu vontade de ver a sessão da Câmara. Eu estava escutando uma videoaula com um fone. Aí botei na sessão da Câmara.”

Foi, segundo sua narrativa, nesse momento que ouviu referências ao seu nome e decidiu deixar a academia para ir ao prédio do Legislativo.


Na versão apresentada por Rubis, o incômodo começou quando a discussão em tribuna, que na avaliação dele deveria se limitar ao mérito jurídico e político do caso em pauta, passou a incluir ataques pessoais.

“Ao invés de falar a respeito do processo lá, do mérito que ele desejava sustentar, ele começou a fazer julgamentos, começou a praticar ofensas”, declarou.

Em seguida, afirmou que o discurso atingiu primeiro seu irmão, o advogado Fernandes Braga, e depois passou a mencioná-lo nominalmente.

“Ele começou a me ofender, começou a querer me ridicularizar, me ofender. Eu não tenho nada a ver com esse processo de cassação.

A transmissão ao vivo da própria Câmara de Vereadores, confirma que a escalada de tensão teve início a partir do uso da Tribuna Popular pelo advogado Eldy Magalhães, que atuou em nome do empresário Micael Lopes no caso envolvendo Claudelino Costa. O advogado fez críticas a Fernandes Braga e também citou a vereadora Célia Galindo, o que ampliou a irritação no plenário. Em dado momento, ao rebater a parlamentar, Eldy Magalhães fez referência a embates anteriores envolvendo Israel Rubis, aumentando ainda mais a temperatura política da sessão.


Foi diante dessa citação, segundo sua entrevista, que Rubis decidiu ir à Câmara.

“De repente, vem meu nome numa situação lá de cima, de uma coisa que eu não tinha nada a ver”, disse.

Já no plenário, afirmou que permaneceu atrás e que não chegou ao local para partir imediatamente para a agressão.

“Se eu tivesse toda a vontade e a consciência de querer agredi-lo, eu tinha partido de onde eu estava”, declarou.

A frase funciona, na lógica de sua defesa, como tentativa de rebater a imagem divulgada em vídeos e relatos segundo a qual ele teria avançado sobre o advogado durante a confusão. Registros públicos do episódio publicados por perfis e veículos locais apontam que houve contenção física no plenário e que a sessão acabou encerrada após o tumulto.

Ao detalhar o momento decisivo da confusão, Israel Rubis disse que tentou interpelar o advogado após o encerramento da fala na tribuna.


“Eu sinalizei que eu estava querendo falar com ele. Eu disse: ‘Velho, o que aconteceu? Ficou difícil pra você me falar meu nome aqui’”, relatou.

Na sua versão, o quadro saiu do campo verbal para o físico quando, segundo ele, houve um gesto de intimidação.

“Ele simplesmente, em determinado momento, partiu com o dedo em riste dentro da minha cara. E aí eu realmente me irritei profundamente”, afirmou.

Em outro trecho, disse que seu desejo era deixar o local e voltar para casa:


“Eu quero ir pra minha casa.”

Essa narrativa é semelhante, em parte, à que já havia aparecido em relatos reproduzidos por veículos da região na cobertura da noite anterior. Em um deles, Rubis afirmou ter sido “agredido verbalmente” e declarou que o advogado o ofendeu sem que ele tivesse, segundo sua versão, qualquer relação com o caso. O mesmo relato aponta que, após o bate-boca, pessoas que estavam no plenário contiveram os envolvidos, enquanto o presidente da Câmara encerrou a sessão por falta de condições de prosseguimento.


Outro ponto central da fala de Israel Rubis foi a tentativa de separar sua figura da atuação profissional do irmão, Fernandes Braga, alvo de parte das críticas feitas na sessão.

“Meu irmão é um homem de 45 anos, tem a formação própria dele, é professor universitário, é advogado. E não cabe a mim dizer quem deve ou quem não deve ser defendido pelo meu irmão”, afirmou.

A declaração foi usada para responder, de maneira indireta, à linha de ataque que vinha sendo construída a partir da atuação jurídica de Fernandes no caso relacionado a Claudelino Costa.


No plano político, a entrevista também procurou fixar a imagem de Rubis como alguém que não pretende retornar à disputa eleitoral.


“Não tenho interesse de ser candidato, de me filiar a partido nenhum, de apoiar B, C, D, E, J, o que for. Não tenho interesse”, disse.

Trata-se de uma afirmação relevante porque o ambiente de Arcoverde tem sido marcado por sucessivas crises entre vereadores, denúncias, trocas de acusações e reacomodações de grupos políticos. A renúncia de Claudelino Costa, anunciada ontem, já havia alterado a pauta e o eixo do debate legislativo local, e o tumulto acrescentou mais instabilidade a um quadro que já era delicado.

O que se tem de objetivamente consolidado até o momento é que a sessão da Câmara de Arcoverde terminou em confusão, que a pauta estava diretamente ligada aos desdobramentos da renúncia de Claudelino Costa e que a intervenção de Eldy Magalhães na tribuna foi o estopim imediato para a desordem no plenário. A partir daí, a dinâmica exata do confronto entre o advogado e Israel Rubis permanece atravessada por versões dos envolvidos e pela disputa pública em torno da responsabilidade pelo episódio.

Na entrevista ao Jornal Itapuama, Israel Rubis deixou claro qual é a interpretação que deseja fixar sobre os fatos: a de que não fazia parte do conflito político central da sessão, a de que foi nominalmente atacado sem ter ligação com o caso debatido e a de que sua reação se deu, segundo ele, depois de ofensas e provocação direta.


“Eu não tenho envolvimento nenhum com essa situação”, declarou.

Em uma Câmara que já vinha operando sob temperatura alta, a manhã desta terça-feira serviu menos para esfriar os ânimos do que para ampliar a batalha de versões sobre um episódio que expôs, mais uma vez, o esgarçamento da política local. Em Arcoverde, o plenário virou arena; novidade, infelizmente, só para quem ainda acredita em conto de fadas legislativo.


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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo de O estopim, com atuação em política, poder local e fiscalização do setor público.

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