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Investigação revela como vídeo que circula no Telegram e WhatsApp utiliza anacronismos grosseiros e manipulação histórica para transformar a memória da Ditadura Militar em arma de guerra política.


Da Redação de O estopim | 01 de fevereiro de 2026


Vídeo circula na internet espalhando desinformação deliberada pela extrema-direita com objetivo de angariar votos de jovens que devem votar pela primeira vez esse ano
Vídeo circula na internet espalhando desinformação deliberada pela extrema-direita com objetivo de angariar votos de jovens que devem votar pela primeira vez esse ano | Fonte: Reprodução/WhatsApp

Um vídeo granulado, acompanhado de legendas alarmistas e um texto repleto de emojis e apelos urgentes, tornou-se a nova peça central de uma campanha de desinformação que já visa as eleições presidenciais de 2026. O conteúdo, compartilhado massivamente em grupos de Telegram e WhatsApp, alega revelar um "arquivo dos anos 80" supostamente ocultado pela Rede Globo a mando do PT, financiado via "Roubanet".


A peça não é apenas uma fake news comum; é um artefato de guerra híbrida desenhado com um alvo demográfico preciso: a geração Z. Ao dissecarmos o conteúdo, encontramos uma fabricação que desafia a lógica temporal, a verdade jurídica e a história documentada do Brasil.


O anacronismo da "Roubanet": A fake news que a cronologia desmascara


A base da acusação viral desmorona diante de uma simples verificação de calendário. O texto afirma que o Partido dos Trabalhadores (PT) pagou para "enterrar" o arquivo nos anos 80 utilizando a Lei Rouanet (pejorativamente chamada de "Roubanet").


Esta afirmação é uma impossibilidade histórica. A Lei de Incentivo à Cultura (Lei 8.313), conhecida como Lei Rouanet, foi sancionada apenas em 23 de dezembro de 1991, durante o governo de Fernando Collor de Mello. É cronologicamente impossível que qualquer transação tenha ocorrido "via Rouanet" na década de 1980, uma vez que o mecanismo legal sequer existia à época.


Além disso, na década de 1980, o PT era um partido de oposição emergente, sem acesso à máquina federal e com uma relação historicamente conflituosa com a Rede Globo, culminando na edição do debate de 1989 que prejudicou Lula. A ideia de um conluio financiado pelo Estado naquela época é uma fabricação que tenta projetar ressentimentos políticos atuais sobre o passado.


Dilma Rousseff e o "Cofre do Adhemar": O Que Dizem os Fatos


O vídeo utiliza montagens de áudio e cortes abruptos para sugerir que a ex-presidente Dilma Rousseff seria uma criminosa comum ou uma "assaltante de bancos" que confessaria seus crimes em um arquivo secreto. A realidade histórica, documentada pelo Superior Tribunal Militar (STM) e pela Comissão Nacional da Verdade (CNV), é muito mais complexa e difere radicalmente da narrativa bolsonarista.


Dilma Rousseff militou nas organizações COLINA (Comando de Libertação Nacional) e VAR-Palmares (Vanguarda Armada Revolucionária Palmares) durante a ditadura. Documentos da repressão da época a descrevem como uma liderança intelectual ("um dos cérebros") e organizadora, mas não como uma executora de ações armadas na linha de frente.


O episódio mais explorado, o roubo do cofre do ex-governador Adhemar de Barros em 1969, foi realizado pela VAR-Palmares. No entanto, investigações históricas e processos do próprio regime militar indicam que Dilma não participou da execução do assalto no Rio de Janeiro. Embora tenha tido conhecimento da ação como dirigente e participado da gestão dos recursos para a manutenção da organização clandestina, ela não estava na cena do crime.


A narrativa viral apaga deliberadamente o contexto de exceção: a luta armada surgiu como resposta ao fechamento do regime após o AI-5 (1968). Além disso, o vídeo omite o fato de que Dilma foi presa em 1970 e submetida a torturas brutais — pau-de-arara, choques e espancamentos — durante quase três anos, crimes de lesa-humanidade reconhecidos pelo Estado brasileiro. Transformar uma vítima de tortura estatal em mera "bandida" é uma estratégia de revisionismo histórico.


Este vídeo circula em grupos do Telegram e WhatsApp, utilizando dados históricos distorcidos e/o fora de contexto para gerar desinformação deliberada com intuito de radicalizar jovens e angariar votos para a extrema-direita nas eleições 2026 | Fonte: Reprodução/WhatsApp

A Estratégia do "Colapso de Contexto" no Telegram


A disseminação deste material depende da arquitetura de aplicativos como o Telegram e o WhatsApp. O fenômeno, conhecido por pesquisadores como "colapso de contexto", ocorre quando uma informação perde sua fonte original e autoria à medida que é encaminhada.


No Telegram, grupos com até 200 mil membros funcionam como "bunkers digitais". Diferente das redes sociais abertas, onde o conteúdo pode ser checado ou contestado publicamente, esses aplicativos criam câmaras de eco onde a mentira circula sem contraditório. O vídeo chega ao usuário "limpo" de metadados, validado apenas pela confiança em quem o enviou (um amigo ou familiar), o que aumenta sua credibilidade percebida.


O texto viral instrui explicitamente: "Não esconda esta sujeira", "Temos que enviar este vídeo para o mundo inteiro". Este é um gatilho de ação projetado para transformar cada usuário em um soldado da desinformação, criando um senso de urgência artificial.


O Alvo: "Os Jovens de 2021" e o Pleito de 2026


O aspecto mais perigoso do texto é seu foco explícito na demografia juvenil. Ao listar as idades ("15 anos está com 19", etc.), a mensagem revela uma estratégia de recrutamento geracional para as eleições de 2026.


Jovens que hoje têm entre 16 e 20 anos não possuem memória vivida da Ditadura Militar, nem mesmo dos governos do PT do início dos anos 2000. Eles são o alvo perfeito para o revisionismo histórico. A extrema-direita tem se posicionado nessas redes como uma força "contracultural" e "rebelde", oferecendo a esses jovens uma versão da história onde a ditadura foi uma "revolução necessária" e a esquerda é um "sistema corrupto" a ser varrido.


O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e a Polícia Federal já identificaram que a desinformação organizada e o uso de Inteligência Artificial para criar deepfakes (vídeos falsos hiper-realistas) serão os maiores desafios para a integridade das eleições de 2026 .


O Risco Democrático


A retórica de "terminar a faxina" e "varrer a esquerdalha" utiliza metáforas de limpeza que historicamente precedem a violência política real. Ao desumanizar adversários e falsificar a história, essas redes preparam o terreno não apenas para ganhar votos, mas para contestar a legitimidade do processo democrático caso o resultado não lhes agrade, repetindo o roteiro de 2022.


Combater essa desinformação exige mais do que apenas checagem de fatos; exige letramento digital e histórico. É fundamental entender que o vídeo do "arquivo enterrado" não é uma revelação secreta, mas uma montagem fraudulenta desenhada para manipular a indignação de quem não viveu a história.

 
 
 

A ilusão da Soberania Digital: como o Brasil investe em nuvem "soberana" enquanto entrega seus dados às Big Techs americanas


Enquanto o governo celebra a Nuvem de Governo como marco de autonomia, 60% dos dados brasileiros residem em servidores estrangeiros controlados por Google, Meta, Amazon e Microsoft. A promessa de inovação mascara uma transferência silenciosa de poder.


Da Redação d`O estopim Tech | Investigação em Tecnologia e Geopolítica Digital | 10 de janeiro de 2026


Bandeira brasileira em código binário | Foto: Reprodução
Bandeira brasileira em código binário | Foto: Reprodução

O Brasil inaugurou, com pompa, sua Nuvem de Governo Soberana em 2025. Infraestrutura de última geração, datacenters em Brasília e São Paulo, investimento de R$ 700 milhões. A narrativa era clara: autonomia tecnológica, proteção de dados estratégicos, independência das gigantes americanas.


Mas há um detalhe que desmente a história de soberania completa: os próprios servidores dessa nuvem "soberana" rodam em equipamentos das big techs—AWS, Google, Oracle, Microsoft—instalados em território brasileiro. E, mais importante, continuam sujeitos à legislação americana, particularmente ao Cloud Act de 2018, que autoriza o governo dos EUA a acessar qualquer dado armazenado em empresas americanas, independentemente de onde os servidores estejam fisicamente localizados.​


Enquanto isso, aproximadamente 60% da carga digital do Brasil é executada em datacenters localizados fora do país, principalmente nos EUA. Para contexto: históricos bancários de 180 milhões de brasileiros, prontuários de pacientes, pesquisas de universidades, comunicações privadas—tudo sob controle de atores geopolíticos americanos, operando sob leis americanas.​


O que o Brasil chama de "inovação tecnológica" é, de fato, uma transferência silenciosa de soberania.


Soberania Digital o arranjo que não é soberano


Quando especialistas falam sobre a Nuvem de Governo Soberana, citam frequentemente uma entrevista do presidente do Serpro em fevereiro de 2025. Nela, reconheceu que a infraestrutura opera com "equipamentos e tecnologia das maiores big techs do setor, como AWS, Google, Huawei, Oracle e Microsoft, instalados no seu datacenter em Brasília".​


A justificativa oficial é que as estatais brasileiras operam a nuvem; as empresas americanas apenas fornecem a infraestrutura. Uma distinção jurídica que oculta três vulnerabilidades estruturais:


  • Código-fonte fechado: Os algoritmos que processam os dados não são auditáveis pelo Estado brasileiro. Se há brechas de segurança, o Brasil descobre quando terceiros exploram.


  • Controle de atualizações: As correções de segurança vêm de empresas americanas, seguindo cronogramas americanos, com prioridades americanas.


  • Jurisdição americana permanente: O Cloud Act torna irrelevante a localização física do servidor. Um arquivo confidencial do Ministério da Educação armazenado em servidores Microsoft no Rio de Janeiro pode ser requisitado por ordem judicial americana, sem notificação às autoridades brasileiras.​


A União Europeia entendeu essa lição. Em 2024, aplicou multa histórica de €1,2 bilhão à Meta justamente por tentar transferir dados de cidadãos europeus para servidores americanos, onde estariam sujeitos ao Cloud Act e a programas de vigilância como o PRISM.​


O Brasil? Continua operando a ilusão.


US Cloud Act | Foto: Reprodução
US Cloud Act | Foto: Reprodução

O Cloud Act: a lei que torna fronteiras irrelevantes


Poucos brasileiros ouviram falar do Cloud Act (Clarifying Lawful Overseas Use of Data Act). Ainda assim, ele molda a realidade digital em que vivemos.​


Aprovado pelo Congresso americano em 2018, autoriza o governo dos EUA a exigir que empresas americanas forneçam dados, independentemente de onde estejam armazenados fisicamente. Isso significa que a Microsoft, a Amazon, o Google têm obrigação legal de cumprir ordens judiciais americanas, mesmo que o servidor esteja no Brasil, Índia ou Indonésia.​


Investigadores federais americanos investigam um suspeito de terrorismo? Podem acessar todos os seus emails armazenados na nuvem Microsoft, ainda que o servidor esteja em São Paulo. Agências de inteligência suspeitam de espionagem? Podem usar o FISA para acessar dados sem supervisão judicial.​


O Brasil, enquanto isso, gasta recursos em soberania de fachada. Entre 2014 e 2025, o governo federal investiu pelo menos R$ 23 bilhões em licenças de software, computação em nuvem e segurança digital. Grande parte flui para empresas americanas que respondem primeiro ao governo dos EUA, depois às leis brasileiras—quando é conveniente.​


Dados de brasileiros nas mãos de americanos | Foto: Reprodução
Dados de brasileiros nas mãos de americanos | Foto: Reprodução

60% dos Dados Brasileiros No Exterior


Uma estatística pouco divulgada revela a extensão da dependência: aproximadamente 60% da carga digital do Brasil é executada em datacenters localizados nos EUA e em países estrangeiros. O restante, frequentemente, também está sob controle de empresas americanas, mesmo quando fisicamente no Brasil.​


Esse número não é abstrato. Representa:


  • Históricos bancários de milhões de brasileiros processados em servidores da AWS

  • Prontuários médicos de pacientes guardados em infraestrutura Google

  • Pesquisas acadêmicas de universidades federais em datacenters Microsoft

  • Comunicações privadas de cidadãos transitando por redes de empresas americanas


Um especialista foi direto: "Aproximadamente 40% dos dados gerados por brasileiros são processados no exterior por falta de capacidade instalada em território nacional. Esse cenário amplifica a dependência tecnológica, eleva riscos à soberania digital e contribui para o déficit de US$ 6,8 bilhões registrado na balança comercial de TI em 2024."

A vulnerabilidade não é teórica. Em agosto de 2025, após Trump anunciar tarifas de 50% sobre produtos brasileiros, o Brasil experimentou: aumento de 30% em tentativas de invasão cibernética com origem nos EUA, especialmente contra infraestruturas críticas.​


O Supremo Tribunal Federal registrou mais de 750 milhões de tentativas de ataque em meses subsequentes.


Samsung e Google | Foto: Reprodução
Samsung e Google | Foto: Reprodução

Samsung, Google e a extração de dados em escala massíva


Em janeiro de 2026, a Samsung fez anúncio pouco notado pela maioria dos brasileiros, mas que ilustra perfeitamente como a dependência opera: dobraria o número de smartphones equipados com Gemini, a inteligência artificial do Google, passando de 400 milhões para 800 milhões de aparelhos até o final do ano.​


O Brasil não tem alternativa competitiva. Não há IA brasileira com escala global. Não há smartphone brasileiro que dispute mercado. A Samsung domina o mercado brasileiro, e agora integra massivamente a IA do Google.


Essa integração não é meramente técnica. É um mecanismo de coleta de dados estruturado. O co-CEO da Samsung afirmou: "Vamos aplicar IA a todos os produtos, todas as funções e todos os serviços o mais rápido possível."

Cada interação do usuário brasileiro com Gemini—busca de informação, consumo de mídia, até reconhecimento de objetos pela câmera—alimenta a máquina de treinamento do Google. O Google ganha acesso a dados de 800 milhões de dispositivos em tempo real, vindos de um mercado de 180 milhões de pessoas.


O que o Brasil ganha? Dependência aprofundada.


Meta é dona do Facebook, do Instagram e do WhatsApp | Foto: JN
Meta é dona do Facebook, do Instagram e do WhatsApp | Foto: JN

Meta e o episódio da ANPD: uma "vitória" que desmente a Soberania


Em junho de 2024, a Meta anunciou atualização na política de privacidade autorizando o uso de dados publicamente disponíveis de usuários brasileiros para treinar sua inteligência artificial generativa.​


A ANPD reagiu rapidamente. Em 2 de julho de 2024, emitiu medida preventiva suspendendo a prática, impondo multa diária de R$ 50 mil por descumprimento.​


Mas em setembro de 2024, após a Meta recorrer, a ANPD reverteu a decisão preventiva, permitindo que o uso de dados prosseguisse com restrições administrativas.​


O que esse episódio revela é fundamental: a regulação brasileira não consegue bloquear práticas corporativas; consegue, no máximo, negociar suas condições.

Enquanto a União Europeia implementou o GDPR, que estabelece direitos com mecanismos de enforçamento reais, o Brasil negocia planos de conformidade que funcionam como exercícios de convencimento público, não de proteção efetiva.


Com salário de mais de R$ 3 milhões ao ano, cargo de ‘Head of Preparedness’ da OpenAI terá foco em saúde mental, cibersegurança e riscos extremos Foto: Michael Dwyer/AP
Com salário de mais de R$ 3 milhões ao ano, cargo de ‘Head of Preparedness’ da OpenAI terá foco em saúde mental, cibersegurança e riscos extremos Foto: Michael Dwyer/AP

OpenAI: a vigilância silenciosa que ninguém legisla


Milhões de brasileiros usam ChatGPT diariamente. Poucos sabem exatamente o que acontece com seus dados.​


Segundo a política de privacidade da OpenAI, a empresa processa dados pessoais em servidores localizados em várias jurisdições, incluindo tratamento nos EUA. Dados técnicos coletados—endereço IP, tipo de navegador, padrões de interação—alimentam o treinamento de modelos.​


A empresa compartilha dados com "fornecedores e prestadores de serviços," inclusive para "computação em nuvem" e "segurança." A cadeia de custódia dos dados brasileiros não é transparente. Quantos terceiros tocam esses dados? Quem são? Qual é seu vínculo com o governo americano?


Ninguém sabe. E o Brasil não legislou sobre isso.


Portaria 5960 e a brecha da segurança aparente


Em resposta às vulnerabilidades, o governo aprovou a Portaria 5960/2023, que estabelece o modelo de contratação de software para órgãos públicos federais.​


A norma exige que dados sensíveis permaneçam em "nuvem de governo," com armazenamento em datacenters brasileiros.


Mas contém brecha significativa: permite o uso de equipamentos das big techs americanas dentro de datacenters brasileiros, desde que o isolamento lógico e físico seja assegurado.​


Um servidor da AWS dentro do Brasil continua sendo um servidor da AWS—sujeito à legislação americana.​


PL 2790: uma lei simbólica mas necessária


Em abril de 2025, o Congresso Nacional aprovou o Projeto de Lei 2790/2022, que estabelece que todos os dados eleitorais devem permanecer no Brasil, sob gestão de órgãos públicos eleitorais.​


O relator argumentou que a medida "reforça o conceito de soberania digital, alinhando-se aos princípios constitucionais".​


A lógica é impecável. Mas a aprovação desse projeto ilustra o problema central: o Brasil precisa legislar sobre dados específicos (eleitorais) porque a soberania geral foi cedida. É como colocar segurança redobrada em uma sala de um prédio cujas outras portas estão escancaradas.


Logo Abin | Foto: Gov.br
Logo Abin | Foto: Gov.br

O alerta da Abin: vulnerabilidade caracterizada como estratégica


Em dezembro de 2025, a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) emitiu relatório alertando para a "dependência estrutural de hardwares estrangeiros e concentração de poder em big techs" como ameaça crítica.​


O documento destacou que a IA pode se transformar em "agente ofensivo autônomo, capaz de planejar, executar e adaptar ataques," elevando o risco de ciberconflitos evoluírem para confrontos militares.​


A Abin caracterizou a dependência como "vulnerabilidade estratégica severa" capaz de facilitar interferência externa, incluindo "guerra cognitiva"—campanhas de desinformação catalisadas por algoritmos estrangeiros.​


A ilusão da inovação: de quem é o benefício?


Quando Samsung anuncia 800 milhões de smartphones com Gemini, celebra-se como avanço. Quando Meta treina IA com dados brasileiros, fala-se de "ferramentas inteligentes." Quando Google oferece educação gratuita, celebra-se "inclusão digital."


Nenhuma narrativa é falsa em si. Há inovação real. Mas estão encapsuladas em modelo onde a proprietária dos dados e do algoritmo não é brasileira, não responde ao Estado brasileiro e não pode ser impedida de mudar de rumo.


A "inovação" brasileira tornou-se, em realidade, consentimento gerenciado ao imperialismo de dados.

Um especialista resumiu: "Os dados do setor público não podem estar na mão das big techs, ainda mais quando elas são linha de frente do poder político de Trump." Mas estão.​


O custo material da dependência


Entre 2014 e 2025, o governo brasileiro despendeu pelo menos R$ 23 bilhões em licenças de software, nuvem e segurança. Para 2025-2026, estão previstos R$ 6 bilhões adicionais em licenças, R$ 9 bilhões em nuvem e R$ 1,9 bilhão em segurança digital.​


Esses não são gastos em inovação ou capacidade brasileira. São aluguel perpétuo de infraestrutura que não pertence ao Brasil. É dinheiro público abastecendo o caixa das corporações que moldam as relações de poder no século 21.


Comparativamente, o Chile oferece terreno gratuito e isenção fiscal por dez anos para data centers. O Brasil oferece mercado de 180 milhões de consumidores para ser extraído.​


A janela de oportunidade que se fecha


O Brasil ainda possui janela para reverter parte dessa trajetória. Mas há urgência.​


A consultoria Eurasia alertou que "o Brasil está exposto a mudanças repentinas no apetite global por risco, com espaço limitado para amortecer choques."

Especialmente em contexto onde o governo americano se sente empoderado para exercer extraterritorialidade de forma cada vez mais agressiva. Trump 2.0 não responde a apelos diplomáticos; responde a poder.


A soberania não é decorativa


A Nuvem de Governo Soberana é passo real e necessário. Mas é insuficiente enquanto a infraestrutura global continuar controlada por atores estrangeiros.​


Enquanto legislações como o Cloud Act operarem sem contrapartida brasileira. Enquanto o Brasil legislar apenas sobre dados eleitorais porque perdeu autonomia sobre os demais.


Nações que confundem inclusão digital com dependência digital invariavelmente acordam tarde demais em futuro onde suas decisões podem ser constrangidas por poderes que já não controlam.


Para o Brasil, a questão é simples: será que conseguirá construir autonomia genuína antes que as cadeias invisíveis se tornem correntes explícitas? Ou continuará celebrando a inovação enquanto entrega sua soberania?


Investigação em Tecnologia e Geopolítica Digital

 
 
 

O banimento permanente do perfil de Jeferson Tenório no Instagram representa mais que uma simples "moderação de conteúdo". É o ápice de uma perseguição sistemática de quatro anos contra um dos mais importantes escritores brasileiros contemporâneos, cujo único "crime" foi escrever sobre racismo estrutural e violência policial no Brasil.


Capa do livro 'O Avesso da Pele', de Jefferson Tenório, retratando um homem negro se preparando para mergulhar, simbolizando temas explorados no romance
Capa do livro 'O Avesso da Pele', de Jefferson Tenório, retratando um homem negro se preparando para mergulhar, simbolizando temas explorados no romance

A perseguição a Jeferson Tenório começou em 2021, quando "O Avesso da Pele" ganhou o prestigioso Prêmio Jabuti na categoria romance literário. O reconhecimento, longe de protegê-lo, o transformou em alvo prioritário da extrema direita brasileira. As primeiras ameaças chegaram após ele escrever sobre Paulo Freire em sua coluna no jornal Zero Hora. Mas foi em 2022 que a violência digital escalou dramaticamente. Após anunciar uma palestra em uma escola de Salvador, Tenório recebeu ameaças de morte explícitas através do Instagram. O usuário anônimo @estudante_anonimo123 enviou mensagens dizendo que ele teria seu "CPF cancelado" caso comparecesse ao evento. "Eh mlhr vc meter o pé e sair do país. Se nn vc tá fudido irmão", dizia a mensagem. As ameaças foram tão específicas e credíveis que a escola optou por realizar o encontro virtualmente, reconhecendo sua incapacidade de garantir a segurança física do escritor. Tenório registrou boletins de ocorrência, mas as ameaças continuaram após a palestra.


O ano de 2024 marcou uma escalada qualitativa na perseguição quando múltiplas secretarias estaduais de educação - Paraná, Goiás, Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul - coordenaram ações para remover "O Avesso da Pele" das bibliotecas escolares. A justificativa oficial era sempre a mesma: "expressões impróprias para menores de 18 anos". Mas a hipocrisia era gritante. Como observou sarcasticamente o próprio Tenório: "O mais curioso é que as palavras de 'baixo calão' e os atos sexuais do livro causam mais incômodo do que o racismo, a violência policial e a morte de pessoas negras". A diretora Janaina Venzon, da Escola Estadual de Ensino Médio Ernesto Alves de Oliveira (RS), foi particularmente explícita em seu racismo estrutural. Em vídeo que depois apagou, ela declarou: "Lamentável o Governo Federal através do MEC adquirir esta obra literária e enviar para as escolas com vocabulários de tão baixo nível".


O banimento definitivo do perfil de Tenório no Instagram, ocorrido no início de junho de 2025, seguiu um padrão familiar: censura silenciosa, sem justificativa específica, sem direito de defesa. O escritor, que havia construído um diálogo direto com 80 mil seguidores, descobriu-se digitalmente aniquilado da noite para o dia. "No primeiro momento, achei que a minha conta havia sido hackeado, mas depois veio a confirmação de que o meu perfil foi banido pela empresa Meta sob a alegação de que não se enquadrava nas diretrizes da plataforma", relatou Tenório. Nenhuma explicação adicional foi fornecida.


A recusa sistemática da Meta em responder questionamentos sobre o banimento revela uma estratégia deliberada de censura por desgaste. Múltiplos veículos de imprensa - UOL, Estadão, G1, CNN Brasil - contataram a empresa. Nenhum recebeu resposta. Este silêncio não é passividade; é política ativa. Ao recusar-se a justificar suas decisões, a Meta transforma cada banimento em um ato de soberania corporativa absoluta, onde não há instância de recurso, transparência ou prestação de contas. A coincidência temporal entre o banimento de Tenório e casos similares - Jones Manoel, Manuela d'Ávila, diversos perfis progressistas - expõe o caráter sistêmico e coordenado desta operação de limpeza ideológica. Particularmente revelador é o timing: faltando pouco mais de um ano para as eleições de 2026, quando o debate sobre racismo, educação e violência policial - temas centrais da obra de Tenório - tende a se intensificar. Como ele próprio observou: "faltando um ano para as eleições no Brasil, uma eleição que promete ser bastante difícil, acho que tem um envolvimento político também".


Tenório revelou um detalhe crucial: dias antes do banimento, ele havia publicado uma crítica comparando Bolsonaro a Trump. Pouco depois, sua conta sofreu o que ele suspeita ter sido um "ataque em massa" - técnica onde grupos organizados reportam simultaneamente um perfil para forçar sua suspensão automática. Esta weaponização dos próprios mecanismos de moderação da Meta representa uma sofisticação táctica da extrema direita digital. Eles não apenas produzem ameaças diretas, mas manipulam os algoritmos para que a própria plataforma execute a censura, criando uma aparência de neutralidade técnica. "Se for isso que aconteceu comigo mostra que há uma grande falha na Meta de não conseguir fazer esse tipo de avaliação", observou Tenório. Mas esta "falha" pode ser, na verdade, uma feature funcionando perfeitamente conforme o design corporativo.


A obra de Tenório não é atacada por acaso. "O Avesso da Pele" narra a história de Pedro, jovem negro cujo pai professor foi assassinado por policiais que o confundiram com um bandido. É uma denúncia literária do genocídio da população negra brasileira através da violência estatal. O romance expõe três pilares do projeto político da extrema direita brasileira: o racismo estrutural, a brutalidade policial e a precariedade educacional como instrumentos de controle social. Por isso, atacar Tenório é atacar uma cosmovisão antirracista que ameaça as bases ideológicas do conservadorismo brasileiro. A capitulação das secretarias estaduais em 2024 revelou como instituições públicas podem ser instrumentalizadas para executar a agenda censória da extrema direita. O fato de que "O Avesso da Pele" faz parte do PNLD - programa federal que aprovou a obra após rigorosa avaliação técnica - não impediu governadores de desautorizar unilateralmente decisões pedagógicas. Esta hierarquização política sobre critérios técnicos representa um golpe na autonomia educacional e um precedente autoritário perigoso.


A campanha de solidariedade a Tenório conseguiu mobilizar personalidades como Chico Buarque e Drauzio Varela, além de mais de 6.400 assinaturas em um abaixo-assinado contra a censura. A Companhia das Letras, sua editora, emitiu notas de repúdio e acionou a Justiça contra as tentativas de censura. Contudo, esta resistência liberal tem limitações estruturais. Enquanto se concentra na defesa da liberdade de expressão em abstrato, evita confrontar diretamente o caráter racial e classista da censura. A branquitude intelectual progressista solidariza-se com Tenório, mas evita radicalizar o debate sobre como racismo e censura são fenômenos indissociáveis.


O banimento de Tenório no Instagram representa prejuízo econômico direto e mensurável. Como escritor contemporâneo, ele dependia da plataforma para divulgar agenda de palestras, lançamentos de livros e interação com leitores. A redução drástica de alcance - de 80 mil para 3,2 mil seguidores - equivale a uma amputação digital de sua capacidade de subsistência profissional. Seus advogados do escritório FFM são explícitos: "a exclusão arbitrária reduz drasticamente o alcance do trabalho de Tenório, prejudicando sua atuação como escritor, educador e figura pública". Esta é a violência econômica da censura digital: destruir meios de subsistência de intelectuais dissidentes.


O silêncio sistemático da Meta diante das ameaças de morte que Tenório recebeu através de sua própria plataforma revela uma cumplicidade ativa com a violência racista. A empresa que censurou imediatamente uma conta que denuncia racismo foi a mesma que protegeu contas que promovem racismo. Esta seletividade não é acidental, mas estrutural. A Meta opera como um mecanismo de apartheid digital, onde vozes negras críticas são sistematicamente silenciadas enquanto discursos supremacistas circulam livremente. A recente guinada explícita da Meta - encerrando a checagem de fatos, afrouxando regras contra discursos de ódio, nomeando republicanos para cargos-chave - institucionaliza o que já era prática clandestina. O caso Tenório demonstra que essa virada à direita não começou em 2025, mas vinha sendo testada e refinada há anos através de experimentos de censura seletiva.


O caso Jeferson Tenório expõe a brutal realidade do apartheid digital brasileiro: escritores negros que denunciam o racismo são sistematicamente perseguidos, censurados e economicamente estrangulados por uma aliança entre extrema direita política, instituições públicas cooptadas e corporações tecnológicas globais. Não se trata de um caso isolado, mas de uma operação coordenada de silenciamento que combina ameaças físicas, censura institucional e aniquilação digital. O sucesso desta perseguição - Tenório permanece banido enquanto seus perseguidores operam livremente - demonstra a eficácia desta nova forma de controle social. A luta pela reativação do perfil de Tenório é, portanto, muito mais que uma questão de liberdade de expressão. É uma batalha antirracista contra um sistema de dominação que usa a tecnologia para perpetuar estruturas de opressão racial sob uma fachada de neutralidade corporativa. A democracia brasileira será testada por sua capacidade de proteger intelectuais negros que ousam narrar as violências que estruturam nossa sociedade. Por enquanto, este teste está sendo reprovado com nota zero.

 
 
 
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