- Dante Motenegro

- 26 de jan.
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Por Dante Montenegro | Editoria de Geopolítica
Esqueçam as notas oficiais assépticas sobre "cordialidade", "respeito mútuo" e "parceria histórica". A conversa de cinquenta minutos travada na manhã deste 26 de janeiro entre o Palácio do Planalto e a Casa Branca não foi um diálogo diplomático nos moldes tradicionais; foi uma notificação de despejo para a velha ordem hemisférica e uma intimação para o novo contrato social global.

O que testemunhamos hoje é a culminação brutal de um movimento de pinça geopolítica desenhado com frieza: de um lado, a asfixia financeira e a irrelevância forçada das instituições tradicionais, simbolizada pelo esvaziamento da ONU; do outro, a aplicação cirúrgica e cinética do hard power na nossa fronteira norte. O Brasil, neste cenário, não está mais negociando termos de parcerias igualitárias. O Itamaraty está, na verdade, negociando a sobrevivência econômica e a relevância estratégica do país em um tabuleiro onde as regras acabaram de ser reescritas, não com tinta e papel, mas com ouro e pólvora.
O epicentro deste terremoto institucional não foi Washington ou Brasília, mas os salões exclusivos de Davos. A criação e o lançamento oficial do "Conselho da Paz" (Board of Peace) não devem ser lidos como uma mera excentricidade da doutrina Trump 2.0; trata-se da privatização literal da segurança global. Ao instituir uma estrutura onde a cadeira permanente exige uma "contribuição voluntária" de US$ 1 bilhão e a presidência é vitalícia, a Casa Branca envia uma mensagem clara e aterrorizante: a influência diplomática deixou de ser fruto de consenso ou poderio militar para se tornar uma commodity transacionável.
Este modelo "Pay-to-Play" (pagar para jogar) destrói o conceito vestfaliano de igualdade jurídica entre nações soberanas. Ele transforma a alta diplomacia em um clube de acionistas preferenciais, onde petromonarquias como a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos possuem, literalmente, mais capital político imediato do que potências demográficas e territoriais do Sul Global que carecem de liquidez, como Índia ou Brasil.
A inércia burocrática da ONU e seus vetos cruzados foram substituídos pela agilidade autocrática de um conselho executivo que responde apenas ao seu Chairman. Estamos vendo a "uberização" da resolução de conflitos: rápida, sem regulação estatal tradicional e acessível apenas a quem pode pagar a tarifa dinâmica. A ausência de limites para o mandato do presidente do Conselho sugere uma monarquia corporativa global, blindada contra a alternância democrática e o escrutínio público.
O que não está nas manchetes, e que constitui a verdadeira Realpolitik deste episódio, é a moeda de troca invisível desta negociação. A "Operação Resolução Absoluta", que removeu cineticamente Nicolás Maduro e o alto comando chavista de Caracas em 3 de janeiro, criou um vácuo de poder que Washington não tem interesse, nem capital político interno, para preencher com uma ocupação militar prolongada (boots on the ground).
A arquitetura deste cenário revela dois movimentos cruciais. O primeiro é o silêncio estratégico russo: Moscou não moveu um dedo diplomático ou militar em defesa de Maduro. A passividade do Kremlin não é acidental; indica um acordo tácito de esferas de influência, um novo Yalta não escrito. A Rússia consolida seu domínio no leste ucraniano e no Mar Negro, e, em troca, concede aos EUA carta branca para "limpar" seu quintal caribenho.
O eixo bolivariano descobriu, da pior forma, que perdeu seu fiador nuclear para prioridades eurasiáticas. O segundo movimento é a "pílula de veneno" brasileira: Lula, encurralado entre a ideologia de sua base histórica e o pragmatismo econômico necessário, ofereceu a Trump uma contenção estratégica brilhante, embora arriscada. Ao sugerir que o Brasil poderia considerar a adesão ao "Conselho da Paz" apenas se este limitasse seu mandato inicial estritamente à reconstrução de Gaza e incluísse obrigatoriamente a Autoridade Palestina, o Itamaraty tenta aplicar um "abraço de afogado". O objetivo é esvaziar a pretensão do órgão de substituir o Conselho de Segurança da ONU globalmente, confinando-o a uma crise específica. É uma manobra de soft power defensivo: aceita-se o diálogo para limitar o dano estrutural ao multilateralismo.
A curto prazo, a economia brasileira respira aliviada. O levantamento das tarifas punitivas sobre o aço e o agronegócio é vital para o saldo da balança comercial. No entanto, o custo político desta concessão é altíssimo: estamos nos tornando, na prática, os fiadores da estabilidade na Venezuela pós-Maduro. Washington terceirizou para o Brasil a gestão da crise humanitária, a contenção de refugiados e a estabilização física da fronteira norte. Somos os porteiros do caos, pagos com a isenção de taxas alfandegárias.
Mais interessante, porém, é a convergência inesperada na pauta de segurança pública. A proposta de cooperação bilateral contra o crime organizado transnacional — focada agressivamente no rastreamento de lavagem de dinheiro e interdição de tráfico de armas — cria uma ponte sólida entre um governo progressista no sul e uma administração populista de direita no norte.
É o reconhecimento mútuo de uma realidade aterrorizante: facções como o PCC e o Comando Vermelho deixaram de ser problemas de polícia para se tornarem ameaças de segurança nacional com tentáculos globais, operando como quase-estados. O alinhamento com a inteligência financeira do Tesouro americano (para asfixiar o dinheiro do crime) e com a DEA (para interceptar armas) ignora colorações partidárias em favor da sobrevivência do Estado de Direito.
Contudo, a armadilha está armada e o relógio corre. A visita de Lula a Washington em fevereiro será o teste definitivo de fidelidade. Se o Brasil aderir formalmente ao "Conselho da Paz", mesmo com todas as ressalvas e notas de rodapé, estará assinando o atestado de óbito do G20, do BRICS político e do sistema ONU que defendeu por décadas. Se recusar, as tarifas voltarão com a força de uma sanção, e o Brasil poderá se ver isolado no hemisfério, imprensado entre a indiferença chinesa e a hostilidade americana.
O Brasil está caminhando sobre o fio da navalha mais afiado de sua história diplomática. Precisamos aceitar o ingrato papel de policial regional e estabilizador na Venezuela para proteger nossas próprias fronteiras e garantir o fluxo de nossas exportações. No entanto, devemos resistir com todas as forças à tentação de legitimar o "Conselho da Paz". Ceder a essa estrutura seria trocar nossa tradição diplomática universalista e nossa liderança moral no Sul Global por um assento caríssimo na mesa de um cassino geopolítico onde a banca, Washington, não apenas sempre ganha, mas agora também é dona dos dados, das armas e das fichas.
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