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Por Raul Silva para O estopim | 22 de março de 2026


Os sinais de que a guerra em torno do Irã caminha para uma fase mais longa e mais perigosa se acumularam neste fim de semana. O conflito, que já entrou na quarta semana, deixou de se concentrar apenas em bases, centros militares e instalações estratégicas tradicionais e passou a pressionar três nervos centrais da ordem regional e global: o Estreito de Ormuz, a infraestrutura de energia e o entorno de áreas sensíveis para a segurança nuclear. Nesse novo cenário, Donald Trump endureceu a retórica, misturou pressão militar com ultimato econômico e ampliou a percepção de que Washington não trabalha, ao menos por ora, com uma saída rápida.


Área urbana destruída com prédios desmoronados. Pessoas andam entre escombros em busca de sobreviventes. Tom desolador e cinzas predominantes.
Drone captura a extensão da destruição em Dimona, Israel, após ataque iraniano, mostrando edifícios danificados e escombros espalhados pela área | Foto: Roei Kastro/REUTERS

O que está em jogo não é apenas a continuidade dos bombardeios. O que se desenha é a transformação de uma guerra já grave em uma crise de duração incerta, com efeitos sobre petróleo, gás, cadeias logísticas, inflação, rotas marítimas, serviços essenciais e estabilidade política em vários países do Oriente Médio. Quanto mais o conflito se aproxima de usinas, refinarias, redes elétricas, terminais de exportação, plantas de dessalinização e instalações nucleares, mais caro fica recuar e mais difícil se torna reconstruir uma via diplomática.


O salto de qualidade na escalada está na natureza dos alvos e das ameaças. Nas últimas horas, o governo dos Estados Unidos, sob Trump, passou a vincular diretamente a reabertura do Estreito de Ormuz à possibilidade de ataques contra usinas de energia iranianas. Do lado iraniano, a resposta veio no mesmo tom, com ameaças de fechamento total da rota marítima e de ampliação de ataques contra infraestrutura crítica em países da região caso Teerã seja atingida nesse ponto.


Isso altera a gramática da guerra. Em vez de uma disputa concentrada na degradação de capacidades militares e nucleares do adversário, o confronto se desloca para estruturas que sustentam a vida econômica e civil. Em conflitos assim, a extensão do tempo costuma ser alimentada por dois fatores. O primeiro é o efeito dominó, porque um ataque a energia ou água tende a gerar retaliação em escala ampliada. O segundo é o interesse político dos beligerantes em mostrar força mesmo quando o custo humanitário se multiplica.


Ormuz deixou de ser pano de fundo e virou centro da guerra


O Estreito de Ormuz sempre foi um ponto sensível da geopolítica do Golfo, mas agora se tornou o eixo concreto da escalada. A passagem é vital para o escoamento de petróleo e gás natural liquefeito. Quando ela opera sob ameaça ou bloqueio de fato, a guerra deixa de ser apenas regional e passa a impor custos imediatos ao mercado global, aos governos importadores e aos consumidores.


É por isso que a disputa por Ormuz funciona como um dos principais sinais de prolongamento. Fechar, restringir ou militarizar o corredor significa abrir uma frente paralela, porque proteger navios, garantir seguros, reposicionar frotas e reorganizar rotas exige tempo, coordenação e mais presença militar. Ainda que parte do fluxo seja desviada por oleodutos alternativos, a capacidade de compensação é limitada. Na prática, quanto mais Ormuz vira objeto de pressão, mais o conflito ganha fôlego próprio.


Trump passou a falar de forma mais agressiva e menos previsível. Depois de sugerir, na semana passada, a possibilidade de uma redução da operação, o presidente dos Estados Unidos subiu o tom e estabeleceu um prazo de 48 horas para a reabertura plena e sem ameaça do Estreito de Ormuz. Disse que, se isso não ocorrer, os Estados Unidos podem atingir usinas de energia do Irã, começando pelas maiores.


A retórica importa porque não ficou isolada no improviso de uma fala. Ela foi acompanhada de sinais operacionais e políticos. Integrantes da administração passaram a defender publicamente recursos adicionais para a guerra e a sustentar que o país precisa estar abastecido para o que já fez e para o que ainda poderá fazer. Em linguagem política, isso significa que a Casa Branca trabalha com margem para continuidade, não com prazo curto para encerramento.


Trump também tenta combinar duas mensagens que convivem em tensão. A primeira é a de que a campanha já teria imposto danos severos ao Irã. A segunda é a de que ainda pode ser necessário ampliar ataques para forçar resultados. Quando um governo afirma ao mesmo tempo que está perto da vitória e que precisa abrir novas frentes de pressão, o sinal transmitido ao mercado, aos aliados e ao adversário é o de guerra aberta a novos capítulos.



A infraestrutura energética entrou na linha de tiro


Outro indício forte de prolongamento é o deslocamento da guerra para o setor energético. Os ataques e ameaças sobre campos de gás, redes elétricas, refinarias e terminais de exportação aumentam a capacidade de dano econômico de cada rodada de combate. Não se trata apenas de destruir capacidade militar. Trata-se de comprometer abastecimento doméstico, exportações, geração elétrica e confiança dos mercados.


No caso iraniano, isso é ainda mais sensível porque o país depende fortemente do gás para consumo interno e para geração de eletricidade. Quando instalações dessa cadeia entram na mira, o efeito não fica restrito ao campo de batalha. Ele alcança indústrias, residências, hospitais, telecomunicações, bombeamento de água, logística e comando estatal. Em outras palavras, a guerra passa a atacar o metabolismo do país.


Esse movimento torna a saída diplomática mais difícil por uma razão simples. Quanto maior a destruição da infraestrutura, maior o incentivo político para retaliar antes de sentar à mesa. Em vez de produzir fadiga suficiente para um cessar-fogo, a guerra pode produzir uma lógica de compensação violenta.


A frente regional está mais aberta


A guerra também mostra sinais claros de espalhamento geográfico. O conflito já não se resume ao intercâmbio de ataques entre Irã e Israel, com participação direta dos Estados Unidos. Houve ampliação do risco para o Líbano, para países do Golfo e para a navegação internacional. Ao mesmo tempo, o vínculo entre o front iraniano e a frente envolvendo o Hezbollah reforça a possibilidade de uma guerra de múltiplas camadas.


Esse é um ponto central. Quando diferentes teatros de operação começam a se contaminar, os cálculos militares deixam de depender apenas da relação entre dois governos. Entram em cena aliados, milícias, comandos regionais, rotas de abastecimento, sistemas de defesa aérea e pressões internas de cada capital. A experiência histórica mostra que guerras assim raramente se resolvem rápido.


Um dos elementos mais graves da atual fase é a aproximação do conflito de instalações nucleares e de áreas tratadas como sensíveis por organismos internacionais. Mesmo quando não há confirmação de vazamento radiológico, a simples pressão militar sobre esse tipo de estrutura eleva o risco sistêmico.


A Agência Internacional de Energia Atômica já advertiu que ataques armados a instalações nucleares não deveriam ocorrer e podem ter consequências graves dentro e fora das fronteiras do país atingido. Além disso, a agência continua sem acesso pleno a instalações iranianas afetadas por ataques anteriores, o que reduz a capacidade de verificação independente sobre estoques, atividades e eventuais danos. Quando a fiscalização internacional perde alcance no meio de uma guerra, o conflito ganha mais uma camada de incerteza.


Isso importa também do ponto de vista político. A ausência de verificação robusta alimenta suspeitas, amplia o espaço para narrativas maximalistas e dificulta qualquer costura diplomática sobre limites, garantias e desescalada. Guerra com opacidade nuclear é, quase sempre, guerra com maior chance de durar.


A conta humanitária e ambiental já subiu


Os sinais de prolongamento não aparecem apenas nas falas oficiais ou nos movimentos militares. Eles também estão na deterioração humanitária e ambiental. Organismos internacionais já relatam milhares de mortos e feridos, deslocamento em massa, ataques a serviços de saúde e efeitos sanitários ligados à fumaça tóxica e à contaminação causada por danos em instalações de energia.


Esse ponto é decisivo porque amplia a dificuldade de reconstrução política do pós-conflito. Quanto maior o número de deslocados, feridos, hospitais afetados e cidades expostas a fumaça e falta de água, maior a profundidade social da guerra. E quanto mais a guerra aprofunda danos civis, mais fácil se torna para cada lado justificar internamente a continuidade do confronto em nome de segurança, vingança ou sobrevivência nacional.


A fala de Trump não é só retórica eleitoral ou exibicionismo verbal. Ela pesa porque vem do chefe de Estado do país que participa diretamente da campanha e dispõe da maior capacidade militar para ampliar ou reduzir o conflito em curto prazo. Quando ele troca a linguagem de contenção pela linguagem de ultimato, o mercado escuta, os aliados recalculam posições e o Irã reage como se uma nova rodada estivesse à porta.


Também pesa porque Trump embaralha o horizonte. Ao sugerir, num momento, que a operação poderia ser reduzida, e em seguida ameaçar atingir usinas de energia, ele dificulta a leitura sobre qual é a real linha vermelha americana. Em guerra, ambiguidades desse tipo podem ser úteis como instrumento de pressão. Mas também aumentam o risco de erro de cálculo.


O que observar daqui em diante


Os próximos sinais mais importantes são cinco.


O primeiro é o grau de fechamento efetivo de Ormuz. Se o bloqueio parcial virar fechamento total ou se o corredor passar a depender de escolta internacional permanente, a chance de prolongamento sobe muito.


O segundo é a passagem das ameaças sobre energia para ataques de grande escala contra usinas, refinarias, terminais e redes de água. Uma guerra que entra nesse estágio se torna mais difícil de conter.


O terceiro é a consolidação de uma frente regional mais ampla, com maior envolvimento de aliados e grupos armados fora do território iraniano.


O quarto é o nível de acesso da Agência Internacional de Energia Atômica às instalações afetadas e a capacidade de monitoramento independente sobre riscos nucleares.


O quinto é a disposição real de Washington. Se o governo Trump avançar com reforços, orçamento extra e linguagem de longo prazo, a sinalização predominante será a de continuidade, mesmo que a Casa Branca mantenha aberta a porta de uma eventual negociação.


O quadro desta noite (horário do Irã) é o de uma guerra que passou a ameaçar não apenas Estados e exércitos, mas sistemas. Sistemas de energia, de transporte, de abastecimento, de saúde e de fiscalização internacional. É isso que faz a escalada atual ser mais preocupante do que a rodada anterior.


A pergunta já não é apenas se o Irã resistirá militarmente ou se Israel e Estados Unidos manterão superioridade aérea e tecnológica. A pergunta central passou a ser outra: quantas frentes ainda podem ser abertas antes que o custo econômico, humanitário e ambiental torne a guerra mais fácil de começar do que de terminar.


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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo do O estopim, com foco em política, direitos, economia e análise de conjuntura. Escreve a partir de apuração factual, cruzamento de dados e compromisso com o interesse público.


Por Raul Silva para O estopim | 20 de março de 2026


Homem em terno azul e gravata amarela aponta para o lado em sala decorada com ornamentos dourados. Fundo elegante; expressão séria.
Líder dos Estados Unidos discute estratégias de segurança no Oriente Médio, destacando a necessidade de colaboração dos aliados na proteção do Estreito de Ormuz | Foto: REUTERS/Evelyn Hockstein

Em Washington, nesta sexta-feira, 20, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que o país está muito perto de cumprir seus objetivos na guerra contra o Irã e indicou que pretende reduzir o esforço militar americano no Oriente Médio. Em postagem na Truth Social, ele defendeu que a vigilância do Estreito de Ormuz passe a ser assumida por outras nações mais dependentes da rota para comércio e energia. A declaração ocorre em meio à escalada regional, à pressão sobre a navegação no Golfo e à alta dos preços internacionais do petróleo.


Segundo a Reuters, Trump escreveu que o Estreito de Ormuz terá de ser guardado e policiado por outros países que usam a rota, acrescentando que os Estados Unidos ajudariam, se solicitados, mas que isso nem deveria ser necessário quando a ameaça iraniana fosse eliminada. A fala funciona, ao mesmo tempo, como mensagem militar, econômica e diplomática. Militar, porque sugere uma saída americana condicionada ao enfraquecimento de Teerã. Econômica, porque transfere o custo político da segurança marítima para países importadores de energia. Diplomática, porque pressiona aliados e parceiros asiáticos a dividir o ônus de uma crise que afeta muito mais seus abastecimentos do que o consumo interno dos EUA.


O que Trump disse e por que a frase pesa


A formulação de Trump não foi casual. Ao dizer que os EUA não usam o Estreito de Ormuz, o presidente tenta sustentar uma velha linha do seu discurso estratégico: a de que Washington não deve continuar bancando sozinho a segurança de regiões que considera essenciais para o resto do mundo, mas menos vitais para a economia americana do que foram no passado.


O problema é que a frase simplifica uma realidade mais complexa. Os Estados Unidos reduziram de fato sua dependência direta do petróleo do Golfo. Dados da Energy Information Administration mostram que, em 2024, o país importou cerca de 0,5 milhão de barris por dia de petróleo e condensado de países do Golfo Pérsico que passam por Ormuz. Isso equivaleu a 7% das importações americanas de petróleo e condensado e a apenas 2% do consumo doméstico de líquidos de petróleo. Em termos políticos, Trump tem base para argumentar que a vulnerabilidade americana caiu. Em termos estratégicos, porém, a história não termina aí.


Os EUA podem consumir menos petróleo vindo da rota, mas seguem fortemente expostos ao efeito global de um choque no Golfo. O petróleo é uma commodity de preço internacional. Quando Ormuz entra em risco, sobem os custos do barril, do frete marítimo, do seguro, do diesel, da aviação e, em cadeia, da inflação global. Em outras palavras, Washington não depende de Ormuz como antes para abastecer seus refinadores, mas continua dependente da estabilidade do estreito para evitar um abalo econômico mais amplo.


O estreito que não é apenas do Oriente Médio


O centro do debate é um corredor marítimo estreito, mas decisivo. Segundo a EIA, cerca de 20 milhões de barris por dia passaram por Ormuz em 2024, o equivalente a cerca de 20% do consumo global de líquidos de petróleo. A mesma agência estima que mais de um quarto do comércio marítimo global de petróleo e cerca de um quinto do comércio global de gás natural liquefeito também transitaram pelo estreito no período recente.


Os números ajudam a explicar por que a fala de Trump repercute muito além de Teerã, Tel Aviv e Washington. O principal peso da rota recai sobre a Ásia. Ainda segundo a EIA, 84% do petróleo e do condensado e 83% do gás natural liquefeito que passaram por Ormuz em 2024 tiveram como destino mercados asiáticos. China, Índia, Japão e Coreia do Sul estão entre os países mais expostos a uma interrupção prolongada. Quando Trump cobra outras nações, ele está mirando esse mapa de dependência.


Números que ajudam a entender a disputa


  • 20 milhões de barris por dia atravessaram o Estreito de Ormuz em 2024.

  • Cerca de 20% do consumo global de petróleo e derivados dependeu da rota.

  • Cerca de 20% do comércio global de GNL também transitou por ali.

  • 84% do petróleo e condensado que passaram por Ormuz seguiram para a Ásia.

  • 0,5 milhão de barris por dia chegaram aos EUA por essa via em 2024, o menor nível em quase 40 anos.

  • US$ 243 bilhões foi o gasto militar estimado do Oriente Médio em 2024, segundo o SIPRI, alta de 15% sobre 2023.


O paradoxo da Casa Branca: menos esforço no discurso, mais músculo no terreno


A principal contradição da declaração de Trump está no tempo político em que ela foi feita. Enquanto o presidente fala em aproximação dos objetivos e em possível redução do esforço militar, a movimentação operacional americana segue intensa. A Associated Press informou nesta sexta-feira o envio de mais de 2.500 fuzileiros navais e de meios adicionais para a região, ao mesmo tempo em que a guerra com o Irã entra em sua terceira semana e o governo busca recursos extras para sustentar a campanha.


Esse descompasso entre discurso de saída e presença reforçada sugere três hipóteses que não se excluem. A primeira é que Trump esteja preparando a narrativa doméstica de que não pretende repetir ocupações longas e caras como Iraque e Afeganistão. A segunda é que a Casa Branca use o recuo verbal como mecanismo de pressão sobre aliados, especialmente europeus e asiáticos, para obter apoio naval, logístico e político na segurança da navegação. A terceira é que o governo tente ganhar espaço de negociação sem parecer fraco perante sua base.


A posição exposta por Trump nesta sexta-feira não surgiu do nada. Ela dialoga com a Estratégia de Segurança Nacional de 2025 da própria Casa Branca. O documento afirma que os EUA devem redistribuir encargos, deslocar presença militar para fora do Oriente Médio e incentivar parceiros a assumir parcela maior da segurança regional. Ao mesmo tempo, a mesma estratégia diz que os interesses centrais dos EUA continuam sendo manter abertas as rotas do Golfo, preservar a navegabilidade do Mar Vermelho e garantir que a região não se converta em plataforma de ameaça direta aos interesses americanos.



Em resumo, a doutrina oficial tenta combinar duas ideias que frequentemente entram em tensão: reduzir a pegada militar americana e preservar a ordem estratégica construída pelos próprios EUA. A declaração de Trump em relação a Ormuz traduz exatamente essa contradição. Washington quer gastar menos, mas sem perder a capacidade de ditar as regras do tabuleiro.


Mesmo com a retórica de reequilíbrio, os EUA continuam profundamente enraizados no Oriente Médio. Levantamento do Council on Foreign Relations mostrou que, em junho de 2025, havia cerca de 40 mil militares americanos na região, muitos em navios no mar e outros espalhados por bases e instalações estratégicas. A presença não se limita a tropas em solo. Ela envolve esquadras, inteligência, defesa antimísseis, logística, abastecimento e alianças operacionais que nenhum outro ator consegue substituir de forma imediata.


Por isso, a ideia de transferir rapidamente a segurança de Ormuz para outros países enfrenta limites concretos. Potências europeias demonstraram hesitação em se envolver diretamente. Segundo a Reuters, França, Alemanha, Reino Unido, Itália, Holanda, Japão e Canadá condicionaram apoio mais claro à segurança da rota a uma desescalada. Em outras palavras, muitos governos aceitam discutir passagem segura, mas não querem ser arrastados para uma guerra aberta contra o Irã.


Energia, inflação e comida: por que o mundo olha para Ormuz


O impacto da crise não se esgota no petróleo. A Agência Internacional de Energia informou, em relatório de março, que os ataques e a paralisação do tráfego em Ormuz empurraram o Brent para perto de US$ 120 por barril antes de uma acomodação posterior. O Fundo Monetário Internacional afirmou, em briefing nesta semana, que a interrupção em Ormuz já atingiu cerca de 20% da oferta mundial de petróleo e de gás natural liquefeito transportado por via marítima.


Há ainda um efeito menos visível, mas relevante para a economia real. Análise do Banco Mundial alerta que uma disrupção prolongada em Ormuz pressiona também fertilizantes e alimentos, porque cerca de 40% do comércio global de ureia passa pela região e porque o gás natural é insumo-chave para a produção de fertilizantes. Em linguagem direta, uma crise prolongada no Golfo não encarece apenas combustíveis. Ela tende a contaminar cadeias agrícolas, fretes, passagens, contas de energia e inflação de alimentos em vários continentes.


No plano doméstico, Trump tenta se equilibrar entre duas pressões. De um lado, precisa sustentar a imagem de líder duro diante do Irã e de aliado incontornável de Israel. De outro, quer evitar que a guerra seja percebida pelos eleitores como mais um atoleiro americano no Oriente Médio, com custo fiscal alto, mortes, inflação e desgaste político.


A saída retórica encontrada passa por uma fórmula conhecida no trumpismo: afirmar vitória antes da consolidação do cenário, declarar que o objetivo principal já está próximo, e redistribuir responsabilidades para aliados e parceiros comerciais. O problema é que guerras regionais raramente obedecem ao cronograma político de Washington. Mesmo que a capacidade militar iraniana sofra danos severos, a ameaça à navegação, à infraestrutura energética e às cadeias de suprimento pode sobreviver por muito mais tempo do que uma mensagem presidencial sugere.


O que muda a partir de agora


A fala de Trump não encerra a presença americana no Oriente Médio, mas aponta para uma tentativa de redefinir a forma dessa presença. Menos promessa de tutela permanente, mais cobrança por divisão de custos. Menos discurso de polícia do mundo, mais ênfase em coalizões úteis e temporárias. Menos justificativa energética clássica, mais argumento de custo-benefício para o contribuinte americano.


Ainda assim, a realidade impõe cautela. O próprio governo Trump admite, em sua estratégia nacional, que manter Ormuz aberto continua sendo interesse central dos EUA. E a capacidade de projetar força nessa região segue concentrada em Washington. Por isso, o recado desta sexta-feira deve ser lido menos como anúncio de retirada e mais como sinal de reposicionamento político: Trump quer sair do centro da conta sem abrir mão do comando da crise.


Para o Oriente Médio, isso significa incerteza adicional. Para aliados europeus e asiáticos, significa pressão renovada. Para o mercado de energia, significa que a geopolítica voltou a mandar no preço do barril. E para o restante do mundo, inclusive economias importadoras e cadeias alimentares sensíveis ao custo de energia e fertilizantes, significa que uma frase publicada em Washington pode continuar sendo sentida no bolso, no porto e no prato.


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Conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã avança para infraestrutura de energia no Golfo; Trump ameaça destruir o maior campo de gás do mundo e líderes citam risco de interrupção no Estreito de Ormuz.


Por Clara Mendes para O estopim | 20 de Março de 2026


Imagem de satélite do Estreito de Ormuz. Águas azuis profundas contrastam com a aridez das terras circundantes em tons marrons e cinzas.
O Estreito de Ormuz é uma passagem marítima crucial que conecta o Golfo de Omã ao Golfo Pérsico. Esta via estratégica é de extrema importância geopolítica e econômica, especialmente para o Irã e os países que dependem do transporte de petróleo e gás natural através dessa região | Foto: Los Angeles Times

A escalada da guerra no Oriente Médio atingiu o setor de energia após um ataque israelense às instalações do campo de gás South Pars, no Golfo Pérsico, e a retaliação iraniana com mísseis contra um campo de gás no Catar e outros alvos ligados a petróleo e gás na região. Nesta quinta-feira (19), Irã e Estados Unidos trocaram ameaças publicamente, enquanto Israel confirmou que uma refinaria na cidade de Haifa, no norte do país, foi atingida por ataque iraniano.


South Pars, chamado de North Field no lado catari, é a maior jazida de gás natural do mundo e concentra uma das maiores reservas conhecidas do planeta. O campo é compartilhado por Irã e Catar e sustenta parte central da geração de eletricidade e da indústria petroquímica iraniana, além de ser a base da cadeia de gás natural liquefeito do Catar. A ofensiva abriu um novo foco de risco no Golfo, com efeitos imediatos no preço do petróleo e do gás e ameaça direta ao tráfego de navios no Estreito de Ormuz.


O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, afirmou que o país vai atacar com zero moderação caso haja novos bombardeios à infraestrutura energética iraniana. Antes, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse que, se o Irã atacar o Catar novamente, Washington vai destruir massivamente o campo de South Pars. Trump também declarou que os Estados Unidos não sabiam que Israel atacaria o local, mas fontes israelenses disseram à agência Reuters que o ataque foi planejado em colaboração com os americanos.


Ainda nesta quinta, o Irã bombardeou uma refinaria de petróleo em Haifa, segundo autoridades israelenses. O governo de Israel afirmou que os danos foram mínimos e não houve confirmação oficial de vítimas no local.


A escalada sobre instalações de gás e refinarias ocorre em meio à disparada dos combustíveis. Na quarta-feira (18), após o ataque ao South Pars, o barril do petróleo chegou a US$ 108, segundo a Radioagência Nacional, com informações da Reuters. Na quinta, o foco do mercado voltou para a possibilidade de interrupção do Estreito de Ormuz, canal por onde passa parte relevante do petróleo e do gás exportado pelos países do Golfo.


A Agência de Informação de Energia dos Estados Unidos (EIA) estima que, em 2024, passaram pelo Estreito de Ormuz cerca de 20 milhões de barris de petróleo por dia, o equivalente a aproximadamente 20% do consumo global de líquidos de petróleo. A Agência Internacional de Energia (IEA) também aponta que cerca de 20 milhões de barris diários transitam pelo corredor e que 93% do gás natural liquefeito do Catar e 96% do LNG dos Emirados Árabes Unidos passam pelo estreito, representando 19% do comércio global de LNG.



Com o mercado sob pressão, a IEA anunciou a maior liberação coordenada de estoques de emergência da sua história: 400 milhões de barris, segundo comunicado oficial publicado em 11 de março. A medida busca reduzir o impacto de uma interrupção prolongada de oferta sobre preços e inflação em países importadores.


A Índia classificou os ataques a estruturas energéticas como inaceitáveis. Países europeus e o Japão discutiram cooperação para manter aberto o Estreito de Ormuz e divulgaram um comunicado conjunto com medidas para estabilizar o mercado de energia, segundo informações publicadas pela Radioagência Nacional.


O ataque em South Pars também elevou o nível de alerta em países do Golfo. Reportagens da Reuters apontam que instalações em Qatar, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Kuwait e Bahrein entraram no radar após ameaças de novos ataques e avisos de evacuação em áreas industriais.


A escalada sobre infraestrutura civil e energética ocorre em paralelo a bombardeios em áreas urbanas. Na quarta-feira (18), a Organização Mundial da Saúde afirmou estar preocupada com ataques a equipamentos de saúde e relatou ocorrências envolvendo hospitais e clínicas no Irã, no Líbano e em Israel, de acordo com relato divulgado pela Radioagência Nacional.


Ainda segundo a Radioagência, mais de 1,3 mil pessoas morreram no Irã desde o início dos ataques, a maioria civis, além de mais de 900 mortos no Líbano. Os números foram atribuídos a levantamentos citados pela Reuters.


Plataforma de petróleo no mar, estruturas metálicas vermelhas e amarelas conectadas. Helicóptero sobrevoa. Céu claro e mar azul. Atmosfera industrial.
Plataforma de extração de gás na Fase 16 do Campo de South Pars, onde o Irã retomou suas operações | Foto: Reprodução

Ataques a campos de gás e refinarias podem gerar incêndios, queima emergencial de gás e vazamentos de metano, além de contaminação do ar por material particulado e gases tóxicos. A IEA estima que o setor de combustíveis fósseis emitiu cerca de 200 bilhões de metros cúbicos de metano em 2024 e que a energia respondeu por aproximadamente 145 milhões de toneladas de metano no mesmo ano. Especialistas usam esses dados para dimensionar o peso climático de episódios de vazamento e queima em larga escala, como os que podem ocorrer após bombardeios em instalações de produção e processamento.


A alta do petróleo no Golfo chega ao Brasil pela cadeia de combustíveis e pelo custo do transporte. Em março, economistas ouvidos pela Rádio Nacional apontaram que o aumento do petróleo pode pressionar a inflação e influenciar decisões sobre juros. No Boletim Focus de 9 de março, o mercado elevou pela primeira vez a projeção da taxa básica de juros de 2026 para 12,13% ao ano, mantendo a expectativa de inflação em 3,91%.


O Brasil é produtor e exportador de petróleo, mas ainda depende de importações para parte do diesel. Em dezembro de 2025, a parcela importada de diesel A representou 33,2% das vendas nacionais, segundo a Síntese Mensal de Comercialização de Combustíveis da ANP.


A guerra no Irã entrou na terceira semana e transformou o Golfo em alvo direto de ataques a ativos de energia. South Pars e o Estreito de Ormuz, que já concentravam disputa geopolítica há décadas, voltaram ao centro de um risco imediato: interrupção de gás e petróleo com impacto global em preços, inflação e abastecimento.


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Clara Mendes é repórter plantonista do O estopim, com foco em hard news, geopolítica e energia.


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