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Pesquisa ouviu 2.000 pessoas entre 13 e 17 de junho; decisão do governo Trump sobre PCC e CV divide opiniões no Brasil.
Por Raul Silva para O estopim | 26 de junho de 2026

Pesquisa Ipsos-Ipec divulgada nesta semana mostra que 54% dos brasileiros concordam, totalmente ou em parte, que a decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump de classificar as facções PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas representa uma intromissão em assuntos que dizem respeito apenas ao Brasil. Outros 35% discordam da afirmação, 4% não concordam nem discordam e 8% não sabem ou não responderam. O levantamento ouviu 2.000 pessoas entre 13 e 17 de junho, em 130 municípios, com margem de erro de 2 pontos percentuais e nível de confiança de 95%.
O levantamento avaliou a percepção da população sobre os impactos da decisão norte-americana de enquadrar o Primeiro Comando da Capital, o PCC, e o Comando Vermelho, o CV, como organizações terroristas. A pesquisa indica que a preocupação com soberania nacional aparece ao lado de receios concretos sobre segurança pública, comunidades dominadas por facções e possíveis efeitos econômicos.
O maior percentual de preocupação aparece quando os entrevistados são questionados sobre moradores de áreas dominadas pelo PCC e pelo CV. Segundo a Ipsos-Ipec, 56% concordam que a medida coloca em risco a população dessas comunidades, enquanto 33% discordam, 2% não concordam nem discordam e 8% não sabem ou não responderam.
A pesquisa mostra um país dividido sobre a eficácia da medida. Para 48% dos entrevistados, a classificação das facções como organizações terroristas pode melhorar a segurança pública no Brasil. Outros 41% discordam, 3% não concordam nem discordam e 8% não opinaram.
Esse dado revela uma tensão no debate público. Parte da população vê a medida como pressão internacional contra o crime organizado. Outra parte teme que o enquadramento abra espaço para interferência externa, sanções, deslocamento de investigações e aumento do risco para comunidades onde o Estado já atua com dificuldade.
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O Departamento de Estado dos Estados Unidos anunciou em 28 de maio a designação do PCC e do Comando Vermelho como Terroristas Globais Especialmente Designados e informou a intenção de classificá-los como Organizações Terroristas Estrangeiras a partir de 5 de junho. O aviso formal entrou no Federal Register em 5 de junho.
A decisão integra a estratégia do governo Trump para ampliar o enquadramento de organizações criminosas latino-americanas como ameaças terroristas. Para Washington, a medida permite sanções financeiras e maior pressão sobre redes associadas às facções. Para Brasília, o ponto sensível é outro: quem define como o crime organizado brasileiro deve ser combatido dentro do território nacional.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reagiu à decisão dos Estados Unidos e cobrou respeito à soberania brasileira. Segundo a Agência Brasil, Lula afirmou que o Brasil combate o PCC e o CV internamente, mas rejeita interferência estrangeira sobre temas nacionais.
A percepção registrada pela Ipsos-Ipec indica que a posição de defesa da soberania encontrou eco em parte majoritária da população. O dado de 54% não significa apoio automático ao governo Lula, mas mostra que a maioria dos entrevistados vê problema quando uma potência estrangeira classifica grupos criminosos brasileiros de modo unilateral.
A Ipsos-Ipec também perguntou sobre impactos econômicos. Segundo o instituto, 48% concordam que a medida representa ameaça aos recursos nacionais, enquanto 39% discordam. Sobre prejuízos à economia brasileira, 47% concordam e 41% discordam.
O Pix, porém, aparece com percepção menos alarmada. A CNN Brasil informou que 52% discordam que a decisão norte-americana possa ameaçar o sistema brasileiro de pagamentos instantâneos, enquanto 33% concordam com algum grau de risco.
Outro ponto delicado é a cooperação entre forças de segurança. A Ipsos-Ipec registrou divisão exata: 43% concordam que a medida pode atrapalhar o trabalho conjunto das polícias do Brasil e dos Estados Unidos, e 43% discordam.
O que acontece agora
A preocupação não é apenas teórica. A Reuters informou, no início de junho, que fontes brasileiras viam risco de a classificação como terrorismo dificultar a cooperação policial tradicional, deslocando parte das informações para estruturas de inteligência mais fechadas dos Estados Unidos.
A pesquisa reforça que o tema deve continuar no centro da disputa política e diplomática. O governo Lula tende a sustentar a defesa da soberania nacional e a cooperação internacional contra o crime, sem aceitar medidas unilaterais de Washington sobre a política interna brasileira.
No Congresso, o tema deve alimentar debates sobre segurança pública, relações exteriores, sanções financeiras, atuação de facções e limites da cooperação com os Estados Unidos.
Para a população, a pergunta central é menos ideológica e mais prática: a medida ajuda a combater o crime organizado ou aumenta riscos para o Brasil sem resolver o problema da segurança?
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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo de O estopim. Atua na cobertura de política, poder público, segurança, cultura e direitos, com foco em contexto, checagem e interesse público.
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