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A inteligência artificial depende de fábricas, máquinas de litografia, memória e energia. Controlar essa infraestrutura virou questão de poder econômico e militar.


Por Atlas Siqueira para O estopim Tech | 10 de julho de 2026



Técnicos trabalham ao lado de uma máquina de litografia EUV usada na fabricação de chips avançados para inteligência artificial.
Técnicos trabalham ao lado de uma máquina de litografia EUV usada na fabricação de chips avançados para inteligência artificial. | Foto: Reprodução/MIT Tecnology Rview

A inteligência artificial parece apenas software. O usuário escreve uma pergunta e recebe uma resposta em segundos. Por trás dessa interface, porém, existe uma cadeia industrial concentrada em poucas empresas e países.


Modelos de IA dependem de chips avançados, memória de alta velocidade, redes, data centers, energia e máquinas capazes de fabricar circuitos microscópicos. Por isso, a disputa tecnológica entre Estados Unidos e China também é uma disputa pelo controle da infraestrutura física da IA.


Taiwan ocupa o ponto mais sensível dessa cadeia. O país concentra mais de 90% da fabricação dos chips mais avançados, usados em celulares, computadores, servidores e sistemas militares.


A principal empresa desse mercado é a TSMC. Ela fabrica processadores desenhados por companhias como NVIDIA, AMD e Apple.


Essa concentração transforma Taiwan em um risco para toda a economia digital. Um conflito ou bloqueio no Estreito de Taiwan poderia afetar desde data centers até automóveis, equipamentos médicos e redes de telecomunicações.


A TSMC não produz chips sozinha. Para fabricar componentes de última geração, depende de máquinas de litografia da holandesa ASML.


A litografia funciona como uma impressão extremamente precisa sobre o silício. Nos chips mais avançados, a tecnologia decisiva é a EUV, sigla para ultravioleta extremo.


A ASML é a única empresa capaz de fornecer esse tipo de equipamento em escala comercial. Por isso, a venda dessas máquinas para a China é controlada pelos governos dos Países Baixos e dos Estados Unidos.


Uma máquina industrial virou instrumento de política externa.


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A NVIDIA tornou-se a principal fornecedora de chips para inteligência artificial. Suas GPUs realizam em paralelo os cálculos usados no treinamento e na execução dos modelos.


A empresa, porém, não fabrica seus processadores mais avançados. Ela projeta os chips e depende da TSMC para produzi-los.


Também precisa de memória HBM, fornecida principalmente por empresas asiáticas, e de sistemas avançados de empacotamento para conectar processadores e memória.


Isso mostra que nenhuma companhia controla toda a cadeia. A NVIDIA domina o projeto e o software. A TSMC domina a fabricação. A ASML controla a litografia. Samsung e SK Hynix têm papel central na memória.


Os Estados Unidos combinam subsídios industriais e controles de exportação.


O governo americano financia novas fábricas em seu território para reduzir a dependência de Taiwan. Ao mesmo tempo, restringe a venda de chips avançados e equipamentos de fabricação para a China.


A estratégia busca atrasar o desenvolvimento militar e tecnológico chinês. Mas também estimula Pequim a investir em alternativas próprias.


Empresas como Huawei e fabricantes chinesas de semicondutores tentam substituir tecnologias americanas. Modelos de IA também começam a ser adaptados para funcionar em chips nacionais, mesmo quando esses componentes são menos avançados.


A IA não depende apenas do processador. Data centers precisam de grandes quantidades de eletricidade, sistemas de refrigeração, redes rápidas e minerais usados em componentes eletrônicos.


A China controla parte importante da produção e do processamento de materiais críticos. Esse domínio pode ser usado como resposta às restrições impostas pelos Estados Unidos.


O resultado é uma cadeia marcada por dependências cruzadas. Os EUA lideram em design e software. Taiwan domina a fabricação avançada. A Europa controla equipamentos essenciais. A Coreia do Sul lidera em memória. A China possui mercado, capacidade industrial e acesso a minerais estratégicos.



O que acontece agora


O Brasil está distante da produção dos chips mais avançados, mas a disputa afeta preços, acesso à computação e soberania digital.


O país pode avançar em áreas como design de chips, sensores, semicondutores de potência, empacotamento, aplicações para agro, saúde, energia e defesa.


Também precisa investir em formação técnica, pesquisa, data centers e compras públicas. Importar servidores e contratar nuvens estrangeiras não cria autonomia tecnológica.


A guerra dos chips mostra que a inteligência artificial não é imaterial.


Ela depende de fábricas, energia, água, silício, memória, redes e conhecimento especializado. Quem não controla nenhuma parte dessa cadeia fica sujeito às decisões de quem controla.


A IA aparece como software. Seu poder nasce na fábrica.


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Atlas Siqueira escreve sobre tecnologia, política, infraestrutura digital e economia da inovação. Em O estopim Tech, analisa como decisões técnicas afetam poder, trabalho e soberania.

O país tem pesquisa, energia e mercado, mas ainda depende de chips, nuvens e modelos estrangeiros para desenvolver e operar inteligência artificial.


Por Atlas Siqueira para O estopim Tech | 10 de julho de 2026



Data center representa a infraestrutura usada por sistemas de inteligência artificial no Brasil
Data center representa a infraestrutura usada por sistemas de inteligência artificial no Brasil | Foto: Scala DC

A inteligência artificial já aparece em bancos, hospitais, escolas, indústrias e órgãos públicos brasileiros. Boa parte dessa tecnologia, porém, funciona sobre chips importados, serviços de nuvem estrangeiros e modelos desenvolvidos fora do país.


Essa dependência afeta preços, privacidade e continuidade dos serviços. Uma mudança comercial, uma restrição internacional ou o aumento do custo da computação pode limitar projetos brasileiros.


Treinar e operar modelos exige chips avançados, data centers, redes, energia e profissionais especializados.


O Brasil tem uma matriz elétrica favorável à computação de menor emissão, mas enfrenta dependência de equipamentos importados, gargalos de conectividade de longa distância e falta de mão de obra qualificada, segundo estudo do BNDES.


Hospedar servidores no país ajuda a reduzir latência e pode manter dados mais próximos dos usuários. Isso, sozinho, não garante soberania. A tecnologia pode continuar controlada por fornecedores externos.


Leia também:


Soberania tecnológica não exige que o Brasil fabrique cada chip ou desenvolva todos os modelos.


Ela significa conseguir escolher fornecedores, proteger dados estratégicos, auditar sistemas e evitar uma dependência unilateral.


Um estudo do Ipea identifica quatro bases para uma política soberana de IA: infraestrutura computacional, dados, profissionais qualificados e pesquisa e desenvolvimento. O trabalho também alerta que o acesso a chips avançados não deve ser tratado como algo sempre disponível no mercado.


O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial prevê investimentos de até R$ 23 bilhões em infraestrutura, capacitação, serviços públicos, inovação empresarial e governança.


Em junho de 2026, o MCTI anunciou R$ 129 milhões para formar quase seis mil profissionais em inteligência artificial. A iniciativa enfrenta um problema real, mas formação precisa vir acompanhada de laboratórios, carreiras e condições para reter talentos.


O que acontece agora


O Brasil pode usar IA para saúde, agricultura, educação, clima e serviços públicos. Mas existe diferença entre aplicar uma ferramenta estrangeira e controlar a tecnologia necessária para mantê-la.


Uma estratégia nacional precisa combinar computação para universidades, dados protegidos, software aberto, compras públicas e apoio a empresas brasileiras.


Sem isso, o país poderá ampliar o uso da IA enquanto continua pagando pelo acesso e submetido às regras de plataformas externas.


O desafio será transformar anúncios em capacidade permanente.


Mais importante que o valor prometido será medir quantos pesquisadores conseguiram acesso à computação, quantas tecnologias foram desenvolvidas no país e quanto do investimento gerou conhecimento nacional.


A soberania possível não é isolamento. É ter poder para escolher, negociar e não depender de um único fornecedor.


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