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Por Raul Silva para O estopim | 20 de março de 2026


Homem em terno azul e gravata amarela aponta para o lado em sala decorada com ornamentos dourados. Fundo elegante; expressão séria.
Líder dos Estados Unidos discute estratégias de segurança no Oriente Médio, destacando a necessidade de colaboração dos aliados na proteção do Estreito de Ormuz | Foto: REUTERS/Evelyn Hockstein

Em Washington, nesta sexta-feira, 20, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que o país está muito perto de cumprir seus objetivos na guerra contra o Irã e indicou que pretende reduzir o esforço militar americano no Oriente Médio. Em postagem na Truth Social, ele defendeu que a vigilância do Estreito de Ormuz passe a ser assumida por outras nações mais dependentes da rota para comércio e energia. A declaração ocorre em meio à escalada regional, à pressão sobre a navegação no Golfo e à alta dos preços internacionais do petróleo.


Segundo a Reuters, Trump escreveu que o Estreito de Ormuz terá de ser guardado e policiado por outros países que usam a rota, acrescentando que os Estados Unidos ajudariam, se solicitados, mas que isso nem deveria ser necessário quando a ameaça iraniana fosse eliminada. A fala funciona, ao mesmo tempo, como mensagem militar, econômica e diplomática. Militar, porque sugere uma saída americana condicionada ao enfraquecimento de Teerã. Econômica, porque transfere o custo político da segurança marítima para países importadores de energia. Diplomática, porque pressiona aliados e parceiros asiáticos a dividir o ônus de uma crise que afeta muito mais seus abastecimentos do que o consumo interno dos EUA.


O que Trump disse e por que a frase pesa


A formulação de Trump não foi casual. Ao dizer que os EUA não usam o Estreito de Ormuz, o presidente tenta sustentar uma velha linha do seu discurso estratégico: a de que Washington não deve continuar bancando sozinho a segurança de regiões que considera essenciais para o resto do mundo, mas menos vitais para a economia americana do que foram no passado.


O problema é que a frase simplifica uma realidade mais complexa. Os Estados Unidos reduziram de fato sua dependência direta do petróleo do Golfo. Dados da Energy Information Administration mostram que, em 2024, o país importou cerca de 0,5 milhão de barris por dia de petróleo e condensado de países do Golfo Pérsico que passam por Ormuz. Isso equivaleu a 7% das importações americanas de petróleo e condensado e a apenas 2% do consumo doméstico de líquidos de petróleo. Em termos políticos, Trump tem base para argumentar que a vulnerabilidade americana caiu. Em termos estratégicos, porém, a história não termina aí.


Os EUA podem consumir menos petróleo vindo da rota, mas seguem fortemente expostos ao efeito global de um choque no Golfo. O petróleo é uma commodity de preço internacional. Quando Ormuz entra em risco, sobem os custos do barril, do frete marítimo, do seguro, do diesel, da aviação e, em cadeia, da inflação global. Em outras palavras, Washington não depende de Ormuz como antes para abastecer seus refinadores, mas continua dependente da estabilidade do estreito para evitar um abalo econômico mais amplo.


O estreito que não é apenas do Oriente Médio


O centro do debate é um corredor marítimo estreito, mas decisivo. Segundo a EIA, cerca de 20 milhões de barris por dia passaram por Ormuz em 2024, o equivalente a cerca de 20% do consumo global de líquidos de petróleo. A mesma agência estima que mais de um quarto do comércio marítimo global de petróleo e cerca de um quinto do comércio global de gás natural liquefeito também transitaram pelo estreito no período recente.


Os números ajudam a explicar por que a fala de Trump repercute muito além de Teerã, Tel Aviv e Washington. O principal peso da rota recai sobre a Ásia. Ainda segundo a EIA, 84% do petróleo e do condensado e 83% do gás natural liquefeito que passaram por Ormuz em 2024 tiveram como destino mercados asiáticos. China, Índia, Japão e Coreia do Sul estão entre os países mais expostos a uma interrupção prolongada. Quando Trump cobra outras nações, ele está mirando esse mapa de dependência.


Números que ajudam a entender a disputa


  • 20 milhões de barris por dia atravessaram o Estreito de Ormuz em 2024.

  • Cerca de 20% do consumo global de petróleo e derivados dependeu da rota.

  • Cerca de 20% do comércio global de GNL também transitou por ali.

  • 84% do petróleo e condensado que passaram por Ormuz seguiram para a Ásia.

  • 0,5 milhão de barris por dia chegaram aos EUA por essa via em 2024, o menor nível em quase 40 anos.

  • US$ 243 bilhões foi o gasto militar estimado do Oriente Médio em 2024, segundo o SIPRI, alta de 15% sobre 2023.


O paradoxo da Casa Branca: menos esforço no discurso, mais músculo no terreno


A principal contradição da declaração de Trump está no tempo político em que ela foi feita. Enquanto o presidente fala em aproximação dos objetivos e em possível redução do esforço militar, a movimentação operacional americana segue intensa. A Associated Press informou nesta sexta-feira o envio de mais de 2.500 fuzileiros navais e de meios adicionais para a região, ao mesmo tempo em que a guerra com o Irã entra em sua terceira semana e o governo busca recursos extras para sustentar a campanha.


Esse descompasso entre discurso de saída e presença reforçada sugere três hipóteses que não se excluem. A primeira é que Trump esteja preparando a narrativa doméstica de que não pretende repetir ocupações longas e caras como Iraque e Afeganistão. A segunda é que a Casa Branca use o recuo verbal como mecanismo de pressão sobre aliados, especialmente europeus e asiáticos, para obter apoio naval, logístico e político na segurança da navegação. A terceira é que o governo tente ganhar espaço de negociação sem parecer fraco perante sua base.


A posição exposta por Trump nesta sexta-feira não surgiu do nada. Ela dialoga com a Estratégia de Segurança Nacional de 2025 da própria Casa Branca. O documento afirma que os EUA devem redistribuir encargos, deslocar presença militar para fora do Oriente Médio e incentivar parceiros a assumir parcela maior da segurança regional. Ao mesmo tempo, a mesma estratégia diz que os interesses centrais dos EUA continuam sendo manter abertas as rotas do Golfo, preservar a navegabilidade do Mar Vermelho e garantir que a região não se converta em plataforma de ameaça direta aos interesses americanos.



Em resumo, a doutrina oficial tenta combinar duas ideias que frequentemente entram em tensão: reduzir a pegada militar americana e preservar a ordem estratégica construída pelos próprios EUA. A declaração de Trump em relação a Ormuz traduz exatamente essa contradição. Washington quer gastar menos, mas sem perder a capacidade de ditar as regras do tabuleiro.


Mesmo com a retórica de reequilíbrio, os EUA continuam profundamente enraizados no Oriente Médio. Levantamento do Council on Foreign Relations mostrou que, em junho de 2025, havia cerca de 40 mil militares americanos na região, muitos em navios no mar e outros espalhados por bases e instalações estratégicas. A presença não se limita a tropas em solo. Ela envolve esquadras, inteligência, defesa antimísseis, logística, abastecimento e alianças operacionais que nenhum outro ator consegue substituir de forma imediata.


Por isso, a ideia de transferir rapidamente a segurança de Ormuz para outros países enfrenta limites concretos. Potências europeias demonstraram hesitação em se envolver diretamente. Segundo a Reuters, França, Alemanha, Reino Unido, Itália, Holanda, Japão e Canadá condicionaram apoio mais claro à segurança da rota a uma desescalada. Em outras palavras, muitos governos aceitam discutir passagem segura, mas não querem ser arrastados para uma guerra aberta contra o Irã.


Energia, inflação e comida: por que o mundo olha para Ormuz


O impacto da crise não se esgota no petróleo. A Agência Internacional de Energia informou, em relatório de março, que os ataques e a paralisação do tráfego em Ormuz empurraram o Brent para perto de US$ 120 por barril antes de uma acomodação posterior. O Fundo Monetário Internacional afirmou, em briefing nesta semana, que a interrupção em Ormuz já atingiu cerca de 20% da oferta mundial de petróleo e de gás natural liquefeito transportado por via marítima.


Há ainda um efeito menos visível, mas relevante para a economia real. Análise do Banco Mundial alerta que uma disrupção prolongada em Ormuz pressiona também fertilizantes e alimentos, porque cerca de 40% do comércio global de ureia passa pela região e porque o gás natural é insumo-chave para a produção de fertilizantes. Em linguagem direta, uma crise prolongada no Golfo não encarece apenas combustíveis. Ela tende a contaminar cadeias agrícolas, fretes, passagens, contas de energia e inflação de alimentos em vários continentes.


No plano doméstico, Trump tenta se equilibrar entre duas pressões. De um lado, precisa sustentar a imagem de líder duro diante do Irã e de aliado incontornável de Israel. De outro, quer evitar que a guerra seja percebida pelos eleitores como mais um atoleiro americano no Oriente Médio, com custo fiscal alto, mortes, inflação e desgaste político.


A saída retórica encontrada passa por uma fórmula conhecida no trumpismo: afirmar vitória antes da consolidação do cenário, declarar que o objetivo principal já está próximo, e redistribuir responsabilidades para aliados e parceiros comerciais. O problema é que guerras regionais raramente obedecem ao cronograma político de Washington. Mesmo que a capacidade militar iraniana sofra danos severos, a ameaça à navegação, à infraestrutura energética e às cadeias de suprimento pode sobreviver por muito mais tempo do que uma mensagem presidencial sugere.


O que muda a partir de agora


A fala de Trump não encerra a presença americana no Oriente Médio, mas aponta para uma tentativa de redefinir a forma dessa presença. Menos promessa de tutela permanente, mais cobrança por divisão de custos. Menos discurso de polícia do mundo, mais ênfase em coalizões úteis e temporárias. Menos justificativa energética clássica, mais argumento de custo-benefício para o contribuinte americano.


Ainda assim, a realidade impõe cautela. O próprio governo Trump admite, em sua estratégia nacional, que manter Ormuz aberto continua sendo interesse central dos EUA. E a capacidade de projetar força nessa região segue concentrada em Washington. Por isso, o recado desta sexta-feira deve ser lido menos como anúncio de retirada e mais como sinal de reposicionamento político: Trump quer sair do centro da conta sem abrir mão do comando da crise.


Para o Oriente Médio, isso significa incerteza adicional. Para aliados europeus e asiáticos, significa pressão renovada. Para o mercado de energia, significa que a geopolítica voltou a mandar no preço do barril. E para o restante do mundo, inclusive economias importadoras e cadeias alimentares sensíveis ao custo de energia e fertilizantes, significa que uma frase publicada em Washington pode continuar sendo sentida no bolso, no porto e no prato.


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Homem de barba com camiseta clara e relógio cruza os braços, sorrindo levemente. Fundo preto liso, transmitindo confiança.

Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo de O estopim. Escreve sobre política, poder, economia e os efeitos concretos das decisões de governo sobre a vida pública.

O Estreito de Ormuz, gargalo por onde passam petroleiros e a credibilidade das potências, voltou a ser a linha mais curta entre crise regional e choque global. Ao dizer que os Estados Unidos vão escoltar navios na rota “se necessário”, Donald Trump não está apenas falando de segurança marítima. Está rebatizando a crise como um teste de força e, de quebra, tentando domesticar o preço da energia em casa.


Por Heitor Lemos para O estopim | 3 de Março de 2026


Estreito de Ormuz | Foto: Reprodução/Marine Traffic
Estreito de Ormuz | Foto: Reprodução/Marine Traffic

O presidente Donald Trump afirmou que a Marinha dos EUA pode começar a escoltar petroleiros e navios mercantes no Estreito de Ormuz “se necessário”, em resposta à escalada militar com o Irã e ao travamento da navegação no corredor que liga o Golfo Pérsico ao Mar Arábico. No mesmo pacote, a Casa Branca sinalizou um movimento raro: usar o braço financeiro do governo para oferecer seguro e garantias a embarcações que operem na área, tentando conter a disparada dos custos de frete e de apólices de guerra.


O gesto vem após dias de ataques e incidentes envolvendo navios, com seguradoras cancelando coberturas e dezenas, depois centenas, de embarcações paradas ou ancoradas por risco elevado. Em uma rota por onde circula cerca de um quinto do petróleo do planeta, qualquer ameaça vira combustão imediata nos mercados e transforma diplomacia em estatística de inflação.



Análise de contexto


Por que Ormuz é mais que um estreito


Ormuz não é apenas um mapa. É um chokepoint, um gargalo estratégico onde a geografia faz política. No trecho mais estreito, a passagem é curta e previsível, o que amplia o poder de quem consegue ameaçar o tráfego com meios relativamente baratos.


Do ponto de vista da Realpolitik, o Irã sempre soube que sua vantagem assimétrica não é competir em porta-aviões, mas em:


  • mísseis antinavio e drones

  • minagem em rotas de navegação

  • lanchas rápidas e táticas de saturação

  • ataques indiretos e plausível negação, a zona cinzenta típica de guerra híbrida


Quando Washington fala em escolta, está dizendo que pretende tirar Teerã do conforto da guerra de nervos e levar a disputa para a arena da responsabilidade direta. O problema é que escoltar navios em Ormuz não é operação de vitrine. É missão de desgaste.


A memória curta do Ocidente e a memória longa do Golfo


A ideia de escolta naval tem precedente. Nos anos 1980, durante a fase conhecida como “guerra dos petroleiros”, os EUA rebatizaram navios, montaram comboios e patrulharam o Golfo para manter o fluxo de óleo. A lógica era a mesma de hoje: segurar o mercado e impedir que o conflito regional se convertesse em crise sistêmica.


A diferença é que o tabuleiro mudou.


Naquela década, a disputa era um reflexo do conflito Irã-Iraque e da arquitetura da Guerra Fria. Agora, Ormuz é também um palco do mundo pós-unipolar, onde China, Rússia, BRICS+ e o Sul Global observam cada movimento como um recado sobre quem dita as regras do mar.


O direito do mar como discurso e como arma


Em tese, a passagem por estreitos usados para navegação internacional é protegida pelo princípio de trânsito no direito do mar. Na prática, Ormuz virou uma arena onde o direito internacional é invocado como argumento, mas dobrado pela correlação de forças.


Há uma ironia útil para entender o momento: Estados Unidos e Irã assinam, citam e contestam o direito do mar conforme a conveniência. Teerã assinou, mas não concluiu a ratificação do principal tratado contemporâneo do tema. Washington, por sua vez, opera como se o tratado fosse “costume” quando precisa defender liberdade de navegação, embora também não o tenha ratificado. O resultado é um pântano jurídico perfeito para escaladas.


Os jogadores


Interesses ocultos


Por trás do discurso sobre “livre fluxo de energia”, há interesses muito concretos:


  • Indústria de seguros e resseguros: prêmio de risco é lucro. Crise prolongada aumenta o preço do medo.

  • Trading de commodities: volatilidade é oportunidade para quem opera derivativos e tem informação antes do resto.

  • Complexo industrial-militar: escolta naval exige presença, e presença exige contratos, manutenção, munição, logística.

  • Política doméstica nos EUA: energia cara é veneno eleitoral permanente. “Proteger Ormuz” também é proteger a bomba de gasolina.


A decisão de oferecer seguro estatal e garantias financeiras para a navegação tem cheiro de intervenção que Washington costuma criticar quando vem do Sul Global: socializa o risco para manter o fluxo e evitar que o mercado imponha limites políticos.


O xadrez geopolítico


EUA


O movimento de Trump tenta combinar força e alívio econômico. Ao mesmo tempo, ele admite um dilema: escoltar navios exige escoltar também a narrativa, porque qualquer ataque a um comboio americano cria pressão por retaliação e amplia a guerra.


Irã


Teerã quer provar que consegue impor custo a adversários sem precisar “fechar” Ormuz por decreto. A simples percepção de ameaça já paralisa o tráfego. Para o Irã, isso vale como dissuasão e como moeda de troca.


Israel


No contexto atual, Israel se beneficia quando o foco do debate vira “segurança de rotas” e não o custo humanitário e jurídico da escalada. Ao mesmo tempo, é um risco: a economia global punida por energia cara tende a cobrar saída, não bravata.


Monarquias do Golfo


Os produtores querem exportar, mas temem virar alvo. A promessa de escolta pode ajudar a reabrir rotas, mas também pode transformar infraestrutura e portos em peças ainda mais expostas.


China e o resto da Ásia


Para Pequim, Ormuz é vulnerabilidade estratégica. A China precisa de energia e quer estabilidade, mas também observa se os EUA usam o mar como instrumento de coerção. É o tipo de episódio que alimenta, silenciosamente, a busca por rotas alternativas e por contratos fora do dólar.


Europa


A União Europeia, fragilizada por crises energéticas recentes, tende a repetir o roteiro: defender “liberdade de navegação” e, ao mesmo tempo, correr atrás de suprimentos e estoques.


Impacto no Brasil


O Brasil não está no Golfo, mas Ormuz está no nosso bolso.


  • Combustíveis e inflação: choque no Brent costuma contaminar preços internos, mesmo quando o país exporta petróleo. Pressão de custo chega no diesel, frete e alimentos.

  • Petrobras e arrecadação: alta de preços pode elevar receita e dividendos, mas também aumenta o conflito político sobre repasse ao consumidor e política de preços.

  • Balança comercial e dólar: turbulência eleva aversão a risco, fortalece moeda americana e encarece importações. É o tipo de cenário que castiga o consumo e pressiona juros.

  • Fertilizantes e logística: com fretes mais caros e rotas desviadas, cadeias globais ficam mais lentas e mais caras. Para um país dependente de insumos agrícolas importados, isso é um alarme.

  • Diplomacia: como membro do BRICS+ e ator relevante no Sul Global, o Brasil tende a ser cobrado por posicionamento: defender o direito internacional, condenar ataques a civis e, ao mesmo tempo, evitar o isolamento de parceiros comerciais.


Em termos estratégicos, a crise expõe uma pergunta incômoda: até que ponto o Brasil quer seguir dependente de um sistema energético e logístico onde decisões tomadas em Washington, Tel Aviv ou Teerã viram inflação em Recife, Porto Alegre e Manaus?


A promessa de escolta no Estreito de Ormuz é, ao mesmo tempo, tentativa de estabilizar mercados e aposta de alto risco. Comboios podem reabrir rotas, mas também podem criar o incidente perfeito para transformar um conflito regional em guerra aberta.


Se o petróleo é o sangue da economia global, Ormuz é a artéria mais exposta. A pergunta é simples e brutal: quem está disposto a apertar o torniquete e por quanto tempo o mundo aguenta sangrar?


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Heitor Lemos

Heitor Lemos é correspondente internacional sênior e analista-chefe de geopolítica em O estopim. Escreve sobre guerras, energia, sanções e disputas de poder sob a ótica do Sul Global, com foco nos impactos para o Brasil e a América Latina.

Em conversa desta segunda-feira (26) Lula também abordou combate à lavagem de dinheiro; no interior de Pernambuco, produtores rurais aguardam recuo sobre tarifas de exportação


Por Clara Mendes da Redação de O estopim | 26 de janeiro de 2026


Na manhã dessa segunda-feira, presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente dos Estados Unidos Donald Trump, conversaram por telefone. Durante o contato, os mandatários confirmaram um encontro oficial para março, na Casa Branca, e discutiram temas sensíveis como a situação política na Venezuela e a proposta brasileira de cooperação contra o crime organizado internacional.


Lula e Trump | Foto: Reprodução
Lula e Trump | Foto: Reprodução

Segundo nota divulgada pelo Palácio do Planalto, Lula propôs estreitar a parceria com os Estados Unidos na repressão à lavagem de dinheiro e ao tráfico de armas. O presidente brasileiro sugeriu o intercâmbio de dados bancários para asfixiar financeiramente grupos criminosos que atuam na América do Sul. A proposta, de acordo com o governo brasileiro, foi "bem recebida" por Trump.


Sobre a Venezuela, tema que historicamente divide as opiniões dos dois governos, Lula reiterou a posição do Brasil de buscar a estabilidade regional por meio do diálogo, focando no "bem-estar do povo venezuelano". O comunicado não detalhou se houve consenso sobre medidas específicas em relação a Caracas.


Embora a pauta oficial tenha focado em segurança e diplomacia, o setor produtivo de Pernambuco monitora o diálogo com outra preocupação: o comércio exterior. Desde o ano passado, a imposição de tarifas de até 50% sobre produtos brasileiros pelo governo Trump tem gerado instabilidade no Vale do São Francisco.


A região de Petrolina, vizinha ao Sertão do Moxotó, é responsável por grande parte da manga e da uva exportadas para os Estados Unidos. A taxação elevada encarece a fruta brasileira no mercado americano, o que pode gerar excedente de produção e queda de preços no mercado interno, afetando a economia de cidades conectadas pela BR-232, como Arcoverde.


"O produtor não pode simplesmente deixar a fruta apodrecer no pé, mas redirecionar tudo para o mercado nacional quebra o preço e inviabiliza o custo de produção", avalia Jailson Lira, representante de cooperativas da região, em declaração recente sobre a crise tarifária. A expectativa do agronegócio pernambucano é que a reunião presencial em março traga algum alívio para as barreiras alfandegárias.


Esta não é a primeira interação direta entre os dois líderes desde o retorno de Trump ao poder. Em outubro de 2025, logo após a escalada das tarifas comerciais, Lula e Trump conversaram em tom descrito como "pragmático". A relação bilateral atravessa um momento de reajuste, após o alinhamento automático do ex-presidente Jair Bolsonaro com Trump no passado e a proximidade de Lula com o governo Biden nos anos anteriores.

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