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Celular caiu na água: o que fazer nos primeiros minutos e por que o arroz não salva mais ninguém

Por Atlas Siqueira para O estopim Tech | 17 de Fevereiro de 2026


O celular cai no vaso, escorrega na pia, mergulha na piscina ou recebe um banho de café na mesa do trabalho. Em segundos, o que era só um aparelho vira carteira, banco, identidade digital e memória afetiva em risco. A cena é comum — e o pânico costuma ser o pior conselheiro.


Celular caiu na água, o que fazer? | Foto: Sergey Meshkov/Pexels
Celular caiu na água, o que fazer? | Foto: Sergey Meshkov/Pexels

A verdade é que um smartphone “molhado” não morre apenas pela água em si, mas pela combinação de eletricidade + contaminação + tempo. Quando o usuário liga, tenta carregar ou fica apertando botões para “testar”, aumenta a chance de curto, acelera a corrosão e transforma um incidente reversível em prejuízo permanente.



Quando o choque vira curto: o que acontece dentro do aparelho


Mesmo nos modelos com alguma vedação, a água encontra caminhos: portas (USB-C/Lightning), grelhas de alto-falante, microfones, gaveta do chip, microfissuras no vidro e folgas do chassi. O problema não é só “molhar”. É deixar sais e minerais assentarem na placa e nos conectores, criando pontes condutivas onde não deveriam existir.


  • Curto imediato: pode acontecer quando a placa ainda está energizada e a água faz contato entre trilhas.

  • Corrosão lenta: começa horas depois, quando a umidade e os resíduos (cloro, sal, açúcar, álcool) oxidam contatos, conectores e microcomponentes.

  • Danos invisíveis: o telefone pode até “voltar a funcionar” e falhar dias depois — câmera embaçada, microfone falhando, som distorcido, carregamento intermitente.


A água do mar e de piscina é especialmente agressiva: sal e cloro aceleram corrosão. Bebidas açucaradas (refrigerante, café adoçado) deixam resíduos pegajosos que prendem umidade e atacam conectores.


O que não fazer com um celular molhado


Alguns “hacks” famosos sobrevivem porque, às vezes, o telefone volta a ligar — mas isso não significa que ficou saudável.

  • Não coloque no arroz. Além de ser lento, pode soltar partículas que entram em portas e grelhas.

  • Não use secador, forno, sol direto ou calor intenso. Bateria de íon-lítio e adesivos internos não foram feitos para esse estresse.

  • Não chacoalhe. Você pode empurrar água para zonas que ainda estavam secas.

  • Não carregue e não conecte cabos. A porta molhada é convite para corrosão e curto.

  • Não enfie cotonete, palito ou papel no conector. O risco é piorar o contato, deixar fiapos e empurrar umidade para dentro.


Manual de sobrevivência em 10 passos


A seguir, um roteiro prático — do tipo “faça agora” — com base em orientações de fabricantes e boas práticas de manutenção.


1) Tire da água e desligue na hora


Se o aparelho ainda estiver ligado, desligue imediatamente. Se a tela não responde, evite insistir: o importante é interromper energia o quanto antes.


2) Nada de “testar”: não aperte botões e não abra apps


Cada toque é uma oportunidade de espalhar líquido e manter circuitos ativos. Resistir à curiosidade aqui é salvar dinheiro.


3) Remova capa, chip e cartão


Tire a capa (ela segura umidade), remova o chip físico e o cartão microSD (se houver). Deixe a gaveta aberta para ventilar.


4) Se foi mar, piscina ou bebida: priorize reduzir a contaminação


Se a queda foi em água salgada/clorada ou em líquido com resíduos (refrigerante, cerveja, café), o risco maior é o que fica depois que seca. Alguns guias recomendam um enxágue rápido com água limpa para remover sal e cloro — mas isso só faz sentido se o aparelho não tiver rachaduras e se a exposição for controlada. Em caso de dúvida, a rota mais segura é assistência técnica.


5) Seque por fora com toque leve


Use pano macio ou papel toalha para tirar o excesso sem esfregar com força. Encoste, absorva e repita. Dê atenção às bordas, portas e grelhas.


6) Posicione com as aberturas voltadas para baixo


A gravidade ajuda. Deixe o aparelho de pé ou inclinado, com USB/microfones/alto-falantes para baixo, sobre um pano seco.


7) Ar ambiente e ventilador, sim; calor, não


Coloque em local ventilado. Um ventilador (ar frio) acelera a evaporação sem agredir os componentes.


8) Use sílica gel em pote hermético


Se você tem aqueles saquinhos de sílica gel que vêm em caixas de eletrônicos, é a melhor alternativa doméstica. Coloque o celular (desligado) em um recipiente fechado com vários sachês.


9) Espere o tempo certo


A ansiedade derruba a taxa de sobrevivência. O intervalo típico é 24 a 72 horas (quanto mais “sujo” o líquido, mais prudência). Só ligue quando tiver certeza de que não há umidade.


10) Voltou? Faça um “check-up” e pense no longo prazo


Mesmo funcionando, verifique:


  • carregamento estável (sem aquecer demais);

  • câmera sem embaçamento;

  • áudio limpo no viva-voz;

  • microfone ok em chamada e gravação;

  • Wi‑Fi/Bluetooth sem quedas;

  • alertas de umidade no conector.


Se qualquer coisa parecer intermitente, a corrosão pode estar começando. Assistência técnica pode fazer limpeza profissional antes que vire troca de placa.


E o truque do “som que expulsa água”? Funciona?


Sons em certas frequências podem ajudar a expelir água do alto-falante, como ocorre em relógios e alguns modos de “ejeção” em wearables. Mas isso não resolve água dentro do aparelho. Serve, no máximo, como complemento depois de o telefone já estar bem seco e estável.


IP68 não é “à prova d’água”: o marketing e a letra miúda


A classificação IP (Ingress Protection) ajuda a comparar proteção contra poeira e água — mas ela não é um passe livre para mergulho.


  • IP67/IP68 são testes em condições controladas, normalmente com água doce e por tempo limitado.

  • Vedação envelhece: cola perde elasticidade, impacto cria microfissuras, troca de tela altera encaixes.

  • Na prática, “resistente” não é “indestrutível”. E, em muitos casos, dano por líquido não entra na garantia, o que coloca o risco financeiro todo no bolso do consumidor.


O mercado por trás do acidente


A promessa de resistência à água virou argumento de venda — e, ao mesmo tempo, uma zona cinzenta. Quanto mais selado o aparelho, mais difícil (e caro) é abrir, secar e reparar. Isso fortalece três mercados:


  1. Seguros e planos de proteção, que vendem “paz de espírito” para um problema previsível.

  2. Assistências e peças, pressionadas por custo de placas, conectores e telas coladas.

  3. Troca programada, quando o reparo sai tão caro que o consumidor é empurrado para um aparelho novo.


No Brasil, esse ciclo pesa mais: preço de eletrônicos, custo de manutenção e acesso desigual a assistência de qualidade fazem a “queda na água” virar, muitas vezes, porta de entrada para endividamento ou perda de dados.


Impacto social: quando o celular molha, o cidadão fica offline


O dano por líquido é um problema de consumo — mas também é um problema de cidadania digital. Hoje, muita gente depende do aparelho para:


  • banco e Pix;

  • autenticação em dois fatores (2FA);

  • trabalho em aplicativos;

  • contato com serviços públicos;

  • prontuários, exames e documentos.


Por isso, um conselho que vai além do conserto: prepare um plano de emergência.


  • mantenha backups automáticos (fotos e documentos);

  • guarde códigos de recuperação do 2FA em local seguro;

  • tenha um e‑mail “reserva” e contatos essenciais fora do aparelho;

  • se puder, use um segundo método de acesso ao banco (token físico, aplicativo em outro dispositivo, ou procedimentos de recuperação já testados).


Reduzir o pânico é também reduzir o dano.


Resumo prático: desligue, seque por fora, ventile, sílica gel, tempo e, se houver sinais estranhos, assistência. E, por favor: arroz é meme, não é manutenção.


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Atlas Siqueira é Editor de Tecnologia e Inovação e Analista Chefe de Tendências Digitais de O estopim. Escreve sobre o impacto social da tecnologia, a geopolítica dos chips e as zonas cinzentas entre consumo, privacidade e poder.


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