top of page
Banner Lira Cultural horizontal.gif

O alívio mora no acaso: Yuri Alberto e o grito sufocado em Rio Claro

Por Mário Toledo Analista de Esportes | 25 de janeiro de 2026


O relógio no Estádio Benito Agnelo Castellano não marcava apenas o tempo; ele cronometrava a paciência de uma nação. Até os 47 minutos do segundo tempo, o que se viu em Rio Claro não foi um embate de forças, mas o retrato da agonia alvinegra.


O gol de Yuri Alberto, nascido de um rebote suado após o chute de Vitinho, não deve ser celebrado como uma obra de arte, mas como um habeas corpus. O Corinthians não venceu porque foi soberano; venceu porque, no futebol, a hierarquia da camisa às vezes entorta o destino a favor do gigante, mesmo quando este insiste em jogar como pequeno. O placar de 1 a 0 é uma mentira piedosa que esconde 90 minutos de um futebol pobre e desprovido de ideias.


Yuri Alberto gritando após o segundo gol no duelo diante da UCV pela Libertadores | Foto: Jhony Inácio / Meu Timão
Yuri Alberto gritando após o segundo gol no duelo diante da UCV pela Libertadores | Foto: Jhony Inácio / Meu Timão

Dorival Júnior apostou no risco calculado do "mistão", mas a matemática quase falhou. Com 64% de posse de bola, o Corinthians caiu na velha armadilha da posse estéril: girou a bola em um "U" inofensivo ao redor da área do Velo Clube, sem penetração. O mapa de calor do primeiro tempo mostrou um time desconexo, onde Matheus Pereira e Rodrigo Garro (preso na marcação física do interior) não dialogaram.


O Velo Clube, ciente de suas limitações orçamentárias, montou um ferrolho tático (blocos baixos) e explorou as bolas paradas, foram seis finalizações, algumas perigosas, expondo a fragilidade aérea da defesa sem Gustavo Henrique. O herói improvável do jogo, antes de Yuri, foi o goleiro adversário Marcelo Carné, que operou milagres. A entrada de Yuri Alberto não foi apenas uma substituição; foi a confissão de que o plano A (o time misto) havia fracassado. O gol saiu na bacia das almas não por uma construção tática envolvente, mas pela insistência física e pelo peso individual que, finalmente, rompeu a barreira.


Essa vitória magra precisa ser lida sob a ótica do abismo financeiro. De um lado, um Velo Clube que luta pela sobrevivência com um orçamento que não pagaria a folha salarial de dois titulares do Timão; do outro, um Corinthians que, mesmo endividado, tem a obrigação moral de atropelar.


A entrada no G8 do Paulistão é vendida como alívio, mas a realidade é que o Corinthians flertou com a crise em um campeonato que deveria servir de laboratório, não de cadafalso. A ausência de Memphis Depay (poupado) escancarou a dependência do elenco em lampejos individuais. O desempenho olímpico dos rivais e o investimento pesado do topo da tabela brasileira tornam esse "sufoco" em Rio Claro um sinal de alerta vermelho para o Brasileirão e a Libertadores que se avizinham.


O torcedor corinthiano dorme aliviado, mas não deve acordar iludido. A vitória contra o Velo Clube serve para a tabela, mas não para a alma. O time de Dorival Júnior mostrou que, sem seus principais pilares focados e sem intensidade, é uma equipe comum, vulnerável a qualquer adversário organizado taticamente. Entrar no G8 é o mínimo existencial para o Corinthians. Se o "projeto 2026" depender de gols salvadores nos acréscimos contra times do interior, o ano promete ser longo e tortuoso. O resultado de hoje compra paz, mas não compra confiança.


Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
Banner Lira Cultural vertical.gif
bottom of page