Preços dos alimentos têm deflação no IPCA, mas 66% dizem que preços subiram
- Vitória Régis

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Queda de 0,24% em junho não devolve preços ao patamar anterior; cesta, cidade, renda e memória do orçamento ajudam a explicar a diferença.
Por Vitória Régis para O estopim Economia | Cobertura Especial das Eleições 2026
16 de julho de 2026

O grupo Alimentação e bebidas do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo, o IPCA, recuou 0,24% em junho. A queda registrada pelo IBGE, no entanto, contrasta com a experiência relatada nas compras: 66% dos entrevistados pela Genial/Quaest disseram ter percebido alta nos preços dos alimentos no último mês. Outros 23% afirmaram que os preços ficaram iguais, 9% notaram queda e 2% não souberam responder.
A pesquisa ouviu presencialmente 2.004 brasileiros com 16 anos ou mais, entre 10 e 13 de julho. A amostragem passou por 120 municípios, e a margem de erro estimada é de dois pontos percentuais, com nível de confiança de 95%. Os percentuais sobre alimentos aparecem no gráfico da página 50 do relatório.
A expressão “deflação dos alimentos” descreve apenas a comparação entre junho e maio. Ela não significa que o supermercado voltou a cobrar os valores de meses ou anos anteriores.
Em maio, o grupo Alimentação e bebidas havia subido 1,33%. No mês seguinte, recuou 0,24%. Considerados os dois movimentos sucessivos, o nível médio do grupo terminou junho cerca de 1,09% acima do observado no fim de abril.
Em um exemplo apenas didático, uma cesta média que custasse R$ 100 no fim de abril passaria a aproximadamente R$ 101,33 depois da alta de maio. Com a queda de junho, custaria perto de R$ 101,09. Houve redução no último mês, mas o preço continuou acima do ponto de partida.
Também não houve deflação geral na economia. O IPCA completo avançou 0,16% em junho, puxado por outros grupos, enquanto Alimentação e bebidas exerceu impacto negativo de 0,05 ponto percentual sobre o índice.
O IPCA mede a variação média de uma cesta de produtos e serviços. Cada item recebe um peso relacionado à participação que ocupa no orçamento das famílias, com base na Pesquisa de Orçamentos Familiares do IBGE.
Essa cesta média não é igual às compras de todas as pessoas. Uma família que consome mais carnes, café ou frutas enfrenta uma combinação de preços. Outra, que compra mais feijão, batata, produtos industrializados ou refeições prontas, enfrenta outra.
O próprio IBGE explica que o índice pessoal de inflação pode ficar acima ou abaixo do IPCA, conforme os produtos consumidos, a renda e a composição da família.
É nessa diferença que a percepção registrada pela Genial/Quaest ganha sentido. Os entrevistados não foram convidados a calcular uma média estatística. Eles responderam a partir das compras, das embalagens, dos estabelecimentos e do dinheiro disponível em seu cotidiano.
A redução de 0,24% também não foi uniforme. A alimentação dentro do domicílio caiu 0,39%, influenciada pelos recuos do café moído, de 3,72%, das frutas, de 1,58%, e das carnes, de 0,64%.
Ao mesmo tempo, o feijão-carioca subiu 8,31% e a batata-inglesa avançou 3,57%. A alimentação fora de casa continuou aumentando, embora em ritmo menor, com alta de 0,15% em junho.
Uma família que concentrou as compras nos produtos que subiram pode ter enfrentado aumento, mesmo com a média do grupo em queda. Promoções, mudança de marcas, redução de embalagens e substituição de produtos também alteram a experiência dentro do mercado.
O consumidor costuma comparar o valor total da compra com o que pagava meses atrás, e não apenas com a compra imediatamente anterior.
Além disso, alimentos básicos ocupam uma parcela maior da renda das famílias mais pobres. Pequenos aumentos em itens comprados com frequência podem ser percebidos com mais intensidade do que quedas em produtos consumidos ocasionalmente.
Por isso, desaceleração significa que os preços estão subindo mais devagar. Deflação mensal significa que houve uma pequena queda em relação ao mês anterior. Nenhuma das duas expressões significa, por si só, que os preços voltaram a ser baixos.
O IBGE e os consumidores não estão, necessariamente, em contradição.
O IPCA informa quanto variou uma cesta média entre dois períodos. A pesquisa de percepção informa como as pessoas avaliaram os preços encontrados nos locais onde compraram.
O risco é transformar uma queda mensal pequena em afirmação de que “os alimentos ficaram baratos”, ou tratar a percepção dos entrevistados como prova de que o índice oficial está errado. Nenhuma das duas conclusões é sustentada pelos dados disponíveis.
O que acontece agora?
O próximo IPCA, referente a julho, está previsto para 11 de agosto. O resultado mostrará se a queda de junho continuou ou foi apenas uma oscilação mensal.
O relatório fornecido não informa quando haverá uma nova rodada da pergunta sobre percepção dos preços dos alimentos.
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Vitória Régis é editora de O estopim Economia e cobre economia, mercados e educação financeira com atenção ao impacto social das decisões econômicas. Seu trabalho prioriza linguagem acessível, rigor na leitura de dados e efeitos sobre a renda das famílias.
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