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Opinião

Por Michael Andrade, O Estopim | 11 de janeiro de 2026


Com o Leblon como moldura e personagens que pareciam vizinhos e parentes, Manoel Carlos escreveu cenas e temas que atravessaram gerações — das “Helenas” aos dilemas de Por Amor, passando por violência, amor, inclusão e recomeços que o público jamais esqueceu.



O cenário era solar, mas o que Maneco colocava em foco era o humano — com suas dores e contradições. Manoel Carlos tinha esse dom: colocar céu azul, praia, Leblon e cotidiano bonito como moldura e, dentro dela, fazer caber os afetos, os conflitos e os silêncios que todo mundo reconhece.


As Helenas, o Leblon, os diálogos… Maneco deixou uma marca. Mesmo o mais leigo dos espectadores identificava sua obra nos detalhes: a conversa aparentemente simples que virava terremoto, a frase que parecia pequena mas mudava tudo, o drama que acontecia enquanto o dia insistia em continuar lindo.


No início dos anos 90 eu era criança, mas tenho muitas recordações de cenas das novelas dele. E é curioso como a memória funciona: às vezes eu não lembro o dia, nem a sala, nem quem estava no sofá — mas lembro da cena. Lembro do choque. Lembro do sentimento. Porque Maneco escrevia assim: ele não passava por você, ele ficava.


Uma dessas lembranças é de História de Amor. A cena da personagem de Carla Marins, grávida, sendo empurrada para fora do carro pelo namorado, vivido por Ângelo Paes Leme. E, no meio daquela violência absurda, surge o médico interpretado por José Mayer, a caminho do próprio casamento, e é ele quem a salva. Foi ali que eu entendi, mesmo pequeno, que novela podia ser um soco — e, ao mesmo tempo, um espelho.


Depois vieram outras cenas que pararam o Brasil. A troca de bebês em Por Amor: uma mãe que, em nome do impossível, troca o filho vivo pelo bebê morto da própria filha. Uma decisão moralmente explosiva, costurada não com sensacionalismo, mas com dor e dilema — e é por isso que até hoje a gente debate aquela cena como se fosse um caso de família. E teve também a bala perdida no Leblon, aquela lembrança amarga de que a violência não pede licença, não escolhe classe social, não respeita “bairro nobre”. O sol estava lá, a praia estava lá — e a tragédia também.


E o Maneco não escrevia só cenas, ele escrevia temas. O alcoolismo aparecia em tantas de suas obras como uma ferida cotidiana, às vezes romantizada por quem olha de fora, mas devastadora pra quem vive por dentro. Ele mostrava o vício como o que ele é: doença, dependência, ruína lenta — e, ainda assim, humana. Em Mulheres Apaixonadas, a violência doméstica que chocou o país — a personagem da Helena Ranaldo apanhando de raquetadas — ele colocou também as lésbicas da trama, vividas pela Aline Moraes e a Paula Picareli, com coragem e naturalidade, num tempo em que isso ainda era tratado como tabu em muita sala de estar brasileira.


Em Páginas da Vida, com a personagem da Joana Mocarzel, a Síndrome de Down ganhou rosto, história, cotidiano, dignidade. Não era “lição de moral” encaixada: era vida, convivência, afeto, desafio real. E em Viver a Vida, a novela mostrou a vida de quem precisa continuar depois da paraplegia — o mundo que muda, a rotina que vira batalha, a reconstrução de uma autonomia que muita gente só entende quando a vida exige.


E, claro, não dá pra falar de Maneco sem lembrar das personagens que viraram monumentos. Como esquecer a Branca Letícia de Barros Mota, da Suzana Vieira? Aquilo era um show de ironia, controle, crueldade elegante e humor venenoso — uma personagem tão grande que parecia ocupar mais espaço do que o próprio cenário. E como não lembrar também das filhas das Helenas — Joyce, Eduarda, Camila — que davam raiva porque eram reais demais, porque lembravam alguém que a gente conhece, ou uma fase da gente mesmo.



No fim, Manoel Carlos escreveu um catálogo de lembranças do Brasil. Ele fazia novela, sim, mas entregava memória afetiva, debate público, conversa de família, assunto de rua. Mostrava que o cotidiano é, muitas vezes, o lugar onde mora o drama mais profundo. E talvez por isso a despedida dele pese tanto: porque não é só o fim de um autor — é o fim de um jeito de contar o Brasil por dentro, com humanidade, com coragem e com detalhes que ninguém esquecia. Um autor como o Brasil talvez nunca mais veja outro igual.




 
 
 

Por Raul Silva para O estopim | 03 de janeiro de 2026


Esqueçam a retórica inflamada sobre "libertação", "narcoterrorismo" ou "direitos humanos". O que testemunhamos na madrugada de 3 de janeiro de 2026, com a captura de Nicolás Maduro e a declaração de que os Estados Unidos irão "governar" a Venezuela interinamente, não foi uma operação de resgate humanitário. Foi a maior operação de aquisição corporativa hostil da história moderna, executada não por advogados em uma sala de reuniões, mas por forças especiais sob a cobertura da escuridão.


Trump fala sobre ataque à Venezuela — Foto: Reuters/Jonathan Ernst
Trump fala sobre ataque à Venezuela — Foto: Reuters/Jonathan Ernst

Para entender a verdadeira motivação de Donald Trump, basta ignorar as manchetes sobre ditadura e prestar atenção nas letras miúdas da infraestrutura energética americana e nas próprias palavras do presidente. A verdade é crua, técnica e puramente mercantilista.


A narrativa oficial omite o fato mais crítico da segurança energética dos EUA: o paradoxo do petróleo de xisto. Embora os EUA sejam os maiores produtores de petróleo do mundo, eles produzem o tipo "errado" para suas próprias refinarias. O complexo industrial da Costa do Golfo — a joia da coroa da Chevron, Valero e Exxon — foi construído décadas atrás para processar petróleo pesado e azedo. O petróleo leve de xisto americano é como colocar gasolina de aviação em um motor a diesel; ele não maximiza os lucros dessas usinas.


Com as sanções que cortaram o acesso ao petróleo pesado da Rússia e do Irã, e com a produção do México em declínio, as refinarias americanas estavam famintas. A Venezuela possui as maiores reservas de petróleo pesado do mundo. Ao tomar o controle físico desses campos, Trump não está "salvando venezuelanos"; ele está garantindo a margem de lucro das refinarias do Texas e da Louisiana, assegurando o único insumo que pode manter o preço do diesel e da gasolina artificialmente baixos para o eleitor americano.


Talvez a declaração mais honesta e assustadora de Trump tenha sido a introdução do conceito de "reembolso". Em suas próprias palavras: "Vamos tirar uma tremenda quantidade de riqueza do solo... e isso vai também para os Estados Unidos da América na forma de reembolso pelos danos causados a nós por aquele país".


Isso destrói qualquer pretensão de ajuda humanitária. Trump transformou uma nação soberana em um devedor inadimplente em processo de liquidação. A ideia de que o petróleo venezuelano deve ser extraído para pagar os custos da operação militar americana é uma atualização do saque colonial para o século XXI. Não se trata de reconstruir a Venezuela para os venezuelanos, mas de usar seus recursos para abater a dívida nacional dos EUA e pagar os contratos das empresas americanas que, segundo Trump, "vão entrar, gastar bilhões e começar a ganhar dinheiro".


Há um terceiro interesse silencioso: anular os credores rivais. A China e a Rússia emprestaram dezenas de bilhões de dólares à Venezuela, dívidas garantidas justamente por barris de petróleo futuros. Ao assumir o controle físico da PDVSA e declarar que os EUA vão "gerir" o país, Washington efetivamente confisca a garantia desses empréstimos.


Pequim e Moscou agora assistem, impotentes, enquanto o ativo que garantia seus investimentos é transferido para o controle de empresas americanas. É um xeque-mate financeiro: os EUA não apenas garantem o petróleo para si, mas impõem uma perda total aos seus maiores rivais geopolíticos sem disparar um tiro contra eles.


A recusa de Trump em reconhecer imediatamente um governo de transição civil, preferindo declarar que "nós vamos governar o país" e "fazer a transição de forma adequada" , revela o desprezo pela soberania venezuelana. Se o objetivo fosse a democracia, o poder seria entregue a Edmundo González ou María Corina Machado instantaneamente. Ao manter o controle administrativo, os EUA admitem que a Venezuela é agora, na prática, um protetorado de energia — um território onde a constituição local é subordinada aos interesses de segurança energética de Washington.


Não se iludam. A operação de 3 de janeiro não foi feita porque Maduro era um ditador — o mundo está cheio deles e muitos são aliados dos EUA. Ela foi feita porque a Venezuela é um posto de gasolina estratégico que os Estados Unidos decidiram que não podiam mais deixar sob gestão "hostil". O que estamos vendo é a privatização da política externa, onde a mudança de regime é apenas uma etapa necessária para a reestruturação da cadeia de suprimentos de petróleo pesado. A liberdade da Venezuela pode ser o slogan, mas o fluxo de cru para o Golfo do México é a única missão.

 
 
 

Opinião – A aprovação do requerimento de urgência do PL da Anistia na Câmara dos Deputados marca um momento vergonhoso na política brasileira, revelando o tamanho da chantagem orquestrada por figuras como Paulinho da Força, Eduardo Bolsonaro e os partidos do centrão contra as instituições democráticas.


Por Raul Silva, para O estopim | 26 de setembro de 2025


Arthur Lira (PP-SE) e políticos aliados do chamado Centrão - Foto: Dida Sampaio/Estadão Conteúdo
Arthur Lira (PP-SE) e políticos aliados do chamado Centrão - Foto: Dida Sampaio/Estadão Conteúdo

Com 70% de desaprovação ao trabalho da Câmara e clara rejeição popular à PEC da Blindagem, os parlamentares não apenas ignoram a vontade do povo, mas ainda ousam disfarçar seus crimes de anistia como "dosimetria" – um eufemismo covarde para perdoar golpistas. A manobra de Paulinho da Força deixa explícita a natureza chantagista da operação: se não aprovarem a "dosimetria", ele transformará tudo numa anistia ampla. O relator admite abertamente que "Bolsonaro vai ser beneficiado" e que o projeto "tem que beneficiar a todos", incluindo o ex-presidente condenado a 27 anos de prisão. Esta não é negociação – é extorsão pura contra a democracia brasileira.


Eduardo Bolsonaro, mesmo com o próprio partido rejeitando a PEC da Blindagem no Senado, continua atacando senadores que barraram a proposta, demonstrando o desespero da extrema-direita em blindar seus crimes. O deputado chama de "serviçais complacentes dos tiranos" justamente aqueles que defenderam as instituições democráticas contra suas investidas autoritárias.


A hipocrisia do centrão atinge níveis grotescos quando analisamos os votos na PEC da Blindagem e no PL da Anistia. O PP (Progressistas) teve 38 deputados votando a favor da PEC da Blindagem e 43 apoiando a urgência da anistia, com seu deputado Claudio Cajado sendo o próprio relator da blindagem. É um partido que se vende ao melhor ofertante, demonstrando absoluta falta de princípios democráticos. O União Brasil confirmou sua natureza oportunista com 54 votos pela blindagem e 49 pela anistia, mostrando coesão apenas na defesa dos interesses escusos. Mudaram de posição apenas quando sentiram a pressão das ruas, revelando oportunismo puro e total desrespeito pela coerência política.


O Republicanos manteve 42 votos pela blindagem e 40 pela anistia, sustentando fidelidade aos interesses anti-democráticos. Hugo Motta, do partido, escolheu Paulinho da Força como relator, demonstrando cumplicidade total com o projeto golpista. O PSD, partido da Governadora de Pernambuco Raquel Lyra, apareceu dividido na blindagem com 25 votos a favor e 18 contra, mas se unificou com 28 votos pela anistia, mostrando que a divisão interna não impediu o apoio majoritário aos golpistas quando realmente importava. O MDB, sempre fiel à tradição de apoiar qualquer medida que beneficie o poder estabelecido, contribuiu com 21 votos pela anistia.


A extrema-direita organizou-se de forma ainda mais disciplinada, com o PL sendo unânime em suas posições: 83 deputados votaram pela blindagem e 85 pela anistia. Zero votos contrários em ambas as ocasiões, demonstrando disciplina férrea na defesa dos interesses bolsonaristas. Mesmo quando seus próprios senadores recuaram no Senado por pressão popular, a bancada da Câmara manteve fidelidade absoluta ao projeto golpista. Outros partidos da extrema-direita como o PRD, com 5 votos pela anistia sem qualquer oposição interna, também se alinharam completamente aos interesses antidemocráticos.


Os números da pesquisa são cristalinos e reveladores da indignação popular: 70% de desaprovação ao trabalho da Câmara e clara rejeição à blindagem parlamentar. Mesmo assim, 311 deputados ignoraram solenemente a vontade popular para aprovar a urgência da anistia aos golpistas. A pesquisa Ipespe revela que a população brasileira não é ingênua: 58% dos eleitores rejeitam Bolsonaro entre eleitores de centro, 77% entre eleitores de Lula, e a avaliação é majoritariamente negativa entre pobres (52%) e classe média (51%). O povo sabe identificar quem são os verdadeiros inimigos da democracia, mas ainda precisa demonstrar essa consciência nas urnas.


Aqui reside a maior contradição brasileira: o mesmo eleitorado que desaprova essas medidas antidemocráticas continua votando nos mesmos partidos e políticos que as promovem. Não adianta se indignar hoje se amanhã voltaremos a eleger deputados do PP, União Brasil, Republicanos, PSD, MDB e PL. A população reclama da blindagem parlamentar mas elege os parlamentares que a aprovam. Protesta contra a anistia aos golpistas mas vota nos partidos que a defendem. Esta incoerência eleitoral é exatamente o que permite que a chantagem continue funcionando de forma eficaz.


A eleição de 2026 representa a oportunidade histórica de promover uma verdadeira limpeza no Congresso Nacional, mas isso exige consciência e coerência eleitoral do povo brasileiro. Cada voto dado aos partidos que apoiaram a blindagem e a anistia é, na prática, um voto contra a democracia brasileira. É preciso consciência eleitoral para não repetir os mesmos erros que nos trouxeram até este momento de chantagem institucional. Não se pode votar em candidatos do PL, partido que foi unânime na defesa da blindagem e da anistia, mantendo fidelidade absoluta aos interesses bolsonaristas mesmo com Bolsonaro condenado pela Justiça.


É necessário rejeitar completamente o Centrão: PP, União Brasil, Republicanos, PSD e MDB provaram ser absolutamente relativistas na defesa da democracia, mudando de posição apenas quando é conveniente politicamente. Deve-se identificar e rejeitar os políticos oportunistas que ora apoiam o governo, ora se alinham com golpistas, dependendo exclusivamente da conveniência do momento e dos interesses pessoais.


O Brasil não será verdadeiramente democratizado enquanto o eleitorado mantiver a esquizofrenia política de reprovar medidas antidemocráticas mas eleger sistematicamente seus promotores. A chantagem de Paulinho da Força, as investidas golpistas de Eduardo Bolsonaro e o oportunismo desenfreado do centrão só funcionam porque sabem que o povo brasileiro tem memória curta na hora do voto e não consegue estabelecer a necessária conexão entre indignação e ação eleitoral.


A verdadeira blindagem que o Brasil precisa não é a parlamentar – é a blindagem eleitoral contra políticos que atentam sistematicamente contra a democracia. Enquanto não tivermos a coragem coletiva de aplicar essa medicina amarga nas urnas, continuaremos eternamente prisioneiros do círculo vicioso que mantém no poder justamente aqueles que nos traem diariamente no Congresso Nacional. A responsabilidade é integralmente nossa: de cada eleitor que, indignado hoje com a chantagem parlamentar, precisa ser absolutamente coerente amanhã na urna eletrônica. Só assim quebraremos definitivamente a chantagem institucionalizada e começaremos a verdadeira limpeza democrática que o Brasil tanto necessita e merece para se tornar uma nação verdadeiramente livre e democrática.

 
 
 
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